Léxico: tumulação; erro: há/à

Só a cassetete

      A palavra do fim-de-semana passado foi, sem dúvida, «tumulação». Na RTP e na RDP, os jornalistas proferiam-na com um deleite quase obsceno, como quem diz: «Vejam, caros telespectadores, caros ouvintes, como eu conheço palavras magníficas! Não sou mesmo bom?» Não é não muito boa ideia fazerem-me tal pergunta. Aposto que a fonte foi algum comunicado da Igreja Católica a propósito da trasladação dos restos mortais da irmã Lúcia.
      A outra imagem que, neste fim-de-semana, retive (espero que por pouco tempo) foi a do comandante da Divisão de Inspecção Criminal do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, comissário Dário Prates, que foi entrevistado no seu gabinete, onde à direita aparecia um ecrã de um computador em que se podia ler: «Diga não há violência.» Estou a perceber: o leitor é que pontua, como na frase «Morra Salazar. Não faz falta à Nação». «Ah, desculpe, senhor agente, esqueci-me da pontuação. Ora veja lá: “Morra Salazar? Não!! Faz falta à Nação”.» Agora é o agente da polícia que sugere, com um argumento metálico nas mãos: «Diga: não há violência.» E o cidadão diz, claro.

Estátuas

Estátua pessoana

      Do Brasil, uma leitora habitual deste blogue pergunta-me que nome se dá às estátuas em que as personagens são representadas sentadas. Boa pergunta. Conhecemos bem as estátuas equestres, como a de D. José I no Terreiro do Paço, estátuas jacentes ou jazentes, como a do túmulo de D. Dinis no Mosteiro de Odivelas, as estátuas pedestres (habitualmente ditas «com a figura representada de pé»), como a do duque de Saldanha… e as estátuas sedestres, como a de Fernando Pessoa, em ameno convívio com os turistas que enxameiam a esplanada d'A Brasileira do Chiado. Não me pergunte é como se designam as estátuas que mostram os representados de cócoras...

Ortografia: «bem-vindo»

Grafia independente

      Apesar da velocidade a que descia a Av. Marechal Gomes da Costa, pude ver que a Universidade Independente tem à entrada e numa passagem aérea para peões uma faixa publicitária em que se pode ler: «Bem vindos à Universidade Independente.» A divisa desta universidade não é Rerum cognoscere causas? Bem pode começar por aprofundar a ortografia da língua portuguesa. Claro que é um erro habitual, e justamente por isso me irrito: numa universidade é imperdoável.

Léxico: hipocorístico

Santos e pecadores

      Numa obra de Luigi Pirandello, que estou a ler, deparei com uma personagem secundária que se chama Scolastica (não muito simpática, por sinal). Para a maioria das pessoas, o nome Escolástica apenas evocará o movimento filosófico e teológico da Idade Média, ou a santa do mesmo nome, irmã gémea de S. Bento, ao passo que para mim é sobretudo o nome da minha avó materna. Como em muitas famílias, porém, havia um diminutivo a substituir esse nome de sabor monacal por algo afectivo, doce, carinhoso: Lala. Ora, é a esse diminutivo que se dá o nome de hipocorístico. Em termos rigorosos, esta designação abrange qualquer variante afectiva de um nome próprio e procede do vocábulo grego hypokoristikós, «acariciador». Assim, a Mariana transmuta-se em Nana, a Maria em Bia, a Helena em Lena, o José em Zé, o Joaquim em Quim, o António em Tói, a Francisca em Dinha, a Carlota em Loló, a Filomena em Filó, a Alexandra em Xana, o Guilherme em Gui, a Teresa em Teté, a Josefa em Zefa, o Francisco em Chico, a Maria de Lurdes em Milu, a Maria do Carmo em Micá, a Maria José em Mizé, o José Carlos em Zeca, a Gabriela em Gabi, a Elisabete em Bete, o Manuel em Nelinho, o Alberto em Beto, o Joaquim António em Quitó… Estas formas reduzidas de antropónimos podem resultar de uma linguagem infantil, como se pode ver na sílaba de redobro de palavras como «caca», «chichi», «cocó», «mamã», «papa», «papá», «pipi», «popó», «tautau», «titi» e outras.
      Os hipocorísticos também se usam noutras línguas, como o espanhol, em que qualquer Soledad é Sole, uma Remedios é Reme, um Francisco é Paco, um Rafael é Rafa, um Ignacio é Nacho, Consuelo é Chelo, etc. Em catalão, o mesmo, com a curiosidade de o método ser a aférese: uma Montserrat vê-se aliviada em Rat, uma Concepció responde por Ció...

Pronúncia: «Estremoz»

Os algozes da língua

      É sempre irritante ouvir profissionais dos meios de comunicação propinarem às audiências silabadas e outros erros de igual jaez. (Viu bem: o «jaez» é por causa da natureza asinina…) Hoje de manhã, num noticiário da Antena 1, lá saiu o malfadado «Estremóz». Eu bem lhes gostaria de dizer que «Estremoz» se pronuncia com o o fechado, à semelhança de «algoz». Sabendo-os bons entendedores, até diria apenas que se pronuncia como «algoz». Está bem: estou a brincar. A verdade é que o «algoz» é aqui sempre a vítima. Querem tudo a rimar com Figueira da Foz, está visto.



Léxico: «oblívio»

Para lembrar

      A propósito do post de ontem («Para esquecer»), lembrei-me entretanto do facto de o direito ser uma área onde se acoitam, por vezes como última guarida, certas palavras. Então não é que há dias li num texto esta maravilha poética num acórdão do Tribunal da Relação de Évora: «E sempre sem oblívio de que, na sua actuação, o princípio da imediação [...].» O tão poético «oblívio» só nos homens de leis encontra ajuda contra o oblívio, perdão, contra o esquecimento. Assim, em Portugal talvez apenas alguns ociosos frequentadores de salas de audiências e cruzadistas (além de dois ou três poetas enfermiços) guardem na memória a palavra «oblívio». E agora você, meu caro internauta.

Nomenclatura dos seres/dengue

Dois erros na Visão     

      Num texto muito interessante numa das últimas edições da Visão (2.2.2006), podiam ler-se as seguintes frases (p. 67): «A organização Mundial de Saúde já deixou o aviso: O Aedes Aegypti poderá invadir o Sul da Europa entre 2010 e 2015. O temido imigrante de nome estranho é tão-só o mosquito que transporta o vírus do dengue.» Mais à frente: «Na Europa, outro insecto que também transporta o dengue (o Aedes Albopictus) vive em Itália há alguns anos.» Não há dúvida: a repetição dos erros faz-me entrar na convicção de que os autores do texto não o fizeram involuntariamente: temos contraprova. Comecemos pelos mosquitos. Na nomenclatura e classificação dos seres, a designação binominal científica é, de facto, em latim, e nisso não erraram, e os leitores só não agradecem porque pagaram 2,75 euros. Só a primeira palavra, porém, se grafa em caixa alta, grafando-se a segunda em caixa baixa. Estas regras foram estabelecidas no I Congresso Internacional de Nomenclatura Científica, em 1898, e revistas em 1927, em Budapeste, Hungria.
      Quanto a «dengue», tanto quanto sei e vejo nos dicionários que voltei a consultar de propósito para redigir este texto, é inequivocamente do género feminino: a dengue.


Etimologia: amnistia

Para esquecer

      Uma vez, ao balcão do bar da Casa do Alentejo, um desses desconhecidos que fazem sessões de psicanálise com o primeiro que topam num bar, auto-intitulado ex-inspector de uma das várias polícias que temos (seria do SEF?), tentou demonstrar-me que tinha sólidos conhecimentos jurídicos rabiscando num guardanapo de papel a hierarquia das leis. Não me recordo já se a pirâmide normativa lhe saiu totalmente mal. (A memória da situação vem-me, e juro que não é por causa dos vapores etílicos, em fragmentos: baixo, com o cabelo suspeitosamente negro e, incongruente, lembro-me que o isqueiro com que brincava tinha gravada uma águia.) Recordo, isso sim, que escreveu «amenistia». A essa personagem, a esse homem sem rosto, dedico este post.
      A palavra latina amnestia, da qual deriva a nossa amnistia, é formada com o prefixo de negação a- e o substantivo mens, mentis. A etimologia é a da palavra «amnésia», com a diferença semântica de que esta última denota um esquecimento generalizado, ao passo que a amnistia é o esquecimento dos delitos ou crimes cometidos.
      Na mitologia, temos a deusa Mnemósine a presidir à memória, que era considerada como uma das fontes da inspiração de escritores, artistas e mesmo de homens de ciência. Daí também os vocábulos «mnemónico» (relativo à memória), «mnemotécnica» (técnica para facilitar a memorização) e «amnésia» (esquecimento de tudo), entre outras. Creio que foi Vitorino Nemésio que uma vez brincou com o seu próprio apelido, dizendo-se «Mnésico». Ah, a memória...

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