Indicativo ou conjuntivo?

Opiniões

      Francisca Simões, leitora habitual, segundo diz, deste blogue, enviou-me a seguinte mensagem: «Ouvi do jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho a seguinte frase: “Cristiano Ronaldo acha que Portugal pode chegar à final.” Eu diria: “Cristiano Ronaldo acha que Portugal possa chegar à final.” Ou: “Cristiano Ronaldo acha que Portugal poderá chegar à final.” Não se deveria usar o conjuntivo?»
      Na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, podemos ler que «o Indicativo é usado geralmente nas orações que completam o sentido de verbos como afirmar, compreender, comprovar, crer (no sentido afirmativo), dizer, pensar, ver, verificar». Assim, uma vez que o verbo achar se pode enquadrar, semanticamente, na lista e a frase está na forma afirmativa, a frase do jornalista está correcta. É equivalente da última, e mais correcta, que propõe: «Cristiano Ronaldo acha que Portugal poderá chegar à final.» Quanto ao uso do conjuntivo, recorramos novamente à Nova Gramática do Português Contemporâneo, que diz: «O Conjuntivo é o modo exigido nas orações que dependem de verbos cujo sentido está ligado à ideia de ordem, de proibição, de desejo, de vontade, de súplica, de condição e outras correlatas. É o caso, por exemplo, dos verbos desejar, duvidar, implorar, lamentar, negar, ordenar, pedir, proibir, querer, rogar e suplicar.» (cf. pág. 464, 3.ª edição, 1986).
      Se a frase fosse negativa, pessoalmente preferiria usar o conjuntivo: «Cristiano Ronaldo não acha que Portugal possa chegar à final.» Contudo, também a frase «Cristiano Ronaldo não acha que Portugal poderá chegar à final» estaria correcta.
      No corpus CETEMPúblico, fui encontrar as seguintes frases, com o mesmo sentido da indicada por Francisca Simões, usando-se nelas o modo indicativo (sublinhados meus):
«De qualquer modo, Donner acha que «se Portugal jogar o seu normal vencerá os tunisinos e depois poderá ganhar mais um jogo.»
«Um dos maiores formadores de opinião da Imprensa brasileira, o comentador político Carlos Castello Branco, do Jornal do Brasil, acha que Collor de Mello poderá resistir às pressões para deixar o poder simplesmente «pela força do seu ministério.»
«O presidente do acha que tudo isto poderá estar pronto já no fim do ano e que se trata de um investimento com condições para redinamizar a secção náutica do clube, hoje algo adormecida.»
«Brian Hamilton acha que a Irlanda do Norte poderá atingir a fase final do Europeu-96.»
«Conhecendo bem o meio dos ralis, acha que dessa rivalidade o TT poderá sair vencedor?»

Léxico: «escaque»; figura: catacrese

Já que pergunta

      Numa mensagem de correio electrónico perguntam-me, «pois que parece defender que tudo tem nome», se cada casa do tabuleiro de xadrez tem outro nome que não este, casa. Embora eu não defenda tal, devo dizer-lhe que, neste caso específico, assim é. «Casa do xadrez» é apenas uma catacrese (do gr. katakhresis, «mau uso», pelo lat. catachresis), que é uma espécie de metáfora lexicalizada a que temos, (quase) forçosamente, de recorrer para exprimir as nossas ideias e descrever a realidade. Exemplos do dia-a-dia de outras catacreses: a «perna da cadeira», «céu da boca», «maçã do rosto», «barriga da perna», «braço da cadeira», «cabeça do prego» e centenas de outras, que certamente conhece e usa, tal como eu e toda a gente. Neste caso, repito, há mesmo uma palavra específica para designar cada uma das 64 quadrículas em que se divide o tabuleiro do xadrez, e esse nome é «escaque» (do it. scacco, pl. scacchi), bem conhecido dos praticantes deste jogo.


Acento circunflexo

O doce veneno dos erros

      Nem a beber tranquilamente um café escapamos aos erros ortográficos. Enquanto conversamos com um amigo, olhamos, distraídos, para o pacote de açúcar e lá está: «Salmão é peixe, não é uma côr!» A frase é dos Cafés Nicola, e a empresa, a Nutricafés, confiou que o ilustrador soubesse português. Depois de tantos anos a ouvirmos falar de qualidade, não será chegada a hora de esta se aplicar à publicidade aos próprios produtos? A língua não merece um controlo da qualidade? Talvez não seja arriscado afirmar que ainda o pai do ilustrador não tinha nascido quando o acento circunflexo foi eliminado em palavras como «cor». De cor se devia saber que «cor» prescinde de acento circunflexo desde o acordo ortográfico de 1945 e que antes só existia para estabelecer graficamente a distinção entre palavras com vogal tónica fechada de homógrafas com vogal tónica aberta. Por sorte, o café não se chamava «Flôr das Avenidas»...

Igualdade

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Uni-vos!

      Ana Sara Brito, denodada apoiante de Manuel Alegre, entrevistada na Antena 1 pela jornalista Maria Flor Pedroso, levou ao limite a bandeira da «igualdade de género». A torto e a direito, «as ouvintes e os ouvintes», «aquelas e aqueles», «as jornalistas e os jornalistas», «as cidadãs e os cidadãos», «as portuguesas e os portugueses», e por aí fora. Parecia determinada em pôr sempre à frente as mulheres, mas por vezes era traída, e os homens, com a gramática e o hábito a ajudar, saíam primeiro. É duro ver que trezentas mil mulheres e um homem são «eles». Para quando as quotas na gramática? A democratização do verbo? Depois dos soutiens, podemos ainda ver as gramáticas serem queimadas nas praças de Portugal. E estou mesmo a ver quem vai escrever a letra do novo hino dos insurrectos. Perdão! Das insurrectas e dos insurrectos.

Leituras

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Neve

      Só um homem vulgar não saberia apreciar a variedade na vida. Nevar, de norte a sul do País, só foi um acontecimento exaltante porque não acontece todos os dias. Ainda assim, achei que a alegria, em algumas pessoas, roçou a histeria. E por isso não escrevi aqui nada sobre o assunto. Leio agora em Robert Walser (Der Gehülfe): «Frau Tobler ruft erstaunt aus: “Es schneit!”» («Frau Tobler exclama: “Está a nevar!”»). As crianças gritam, Leo, o cão, entra na brincadeira, todos estão felizes e se esquecem das contrariedades da vida. E o romance está ambientado na branca Suíça!

Léxico: metro linear

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Conjunções

      Na semana passada, dirigi-me a uma drogaria cá do bairro comprar um tapete de cairo, de determinadas medidas. À minha pergunta de qual o preço do metro quadrado o lojista respondeu, pernóstico: «Trinta e oito euros o metro linear.» Provavelmente desde a escola primária que não ouvia a locução «metro linear». «Metro quadrado» e «metro cúbico», sim, são vulgares, e a razão só pode estar no facto de se usar «metro linear» para desfazer confusões (e, no caso, para o lojista me dar a entender que as sobras do cairo corriam por minha conta, podendo fazer com elas o que muito bem entendesse). Por coincidência, no mesmo dia li na revista Actual o excelente texto sobre a «fábrica de Pacheco Pereira», em que este afirmava que lhe entrava em casa, todos os dias, um metro linear de documentos. Isto é o que se chama conjunção.

Tâmiles/Cádis/bandoleiro

A Pública errou

      Quatro erros na revista Pública (29.1.2006):

      Na rubrica auspiciosamente intitulada «Vale tudo» (p. 16), podemos ler que em «Cadiz» nos podemos deixar raptar por «lendários bandoleros». Tudo a brincar, claro, até porque ainda por cima temos de pagar aos salteadores. Ora, tanto quanto sei, escreve-se «Cádis», topónimo, como a jornalista deve imaginar, há centenas de anos registado na língua portuguesa. Ou também escreve «Oporto»? A propósito, os naturais ou residentes desta cidade do Sul de Espanha são designados gaditanos. Por outro lado, temos os nossos «bandoleiros», tão bons ou tão maus como os espanhóis.

      Na reportagem «Sri Lanka, a guerra está a recomeçar», o jornalista achou que escrever «40 civis tamil», «áreas tamil», «centenas de tamil», etc., era o mais correcto (claro, no Livro de Estilo não se diz nada sobre a questão…). Se se tivesse dado ao trabalho de consultar um dicionário, ia ver que o singular é «tâmil» e o plural «tâmiles» ou «tâmeis». Não deixaria também de ver que se pode grafar «tâmul», que pluraliza em «tâmules», pois claro.

      No texto sobre a mais recente obra de Agustina Bessa-Luís, Doidos e Amantes, podemos ler que a protagonista, Maria Adelaide, filha do fundador do Diário de Notícias, fugiu com «Manuel Claro, um mancebo bem parecido». Mais cuidado, a palavra tem hífen: bem-parecido. Tal como bem-amado, bem-apessoado, bem-apresentado, bem-comportado, bem-educado, bem-falante…

      Por fim, pelo menos por hoje, lê-se nas páginas 21 a 23 um texto sobre JT Leroy, um escritor norte-americano, com uma das obras agora traduzida para português, famoso e talvez sem existência física, que é «ultra-tímido». Isto é o que escreve a jornalista, porque por analogia só podíamos escrever «ultratímido», à semelhança de ultraterreno, ultraterrestre, ultratitânico, ultratropical, ultratumular… todos registados há muito nos nossos dicionários. Os dicionários não registam todos os vocábulos que existem e se usam legitimamente, como a jornalista não ignorará, mas cabe-nos a nós, falantes responsáveis, respeitar o que existe quando nos propomos inovar.

História

Os pães de Deu-la-Deu

      Sempre gostei muito do nome Deu-la-Deu, talvez por me fazer lembrar lengalengas que me embalaram. Deu-la-Deu Martins — de quem só os concorrentes de programas televisivos nunca ouviram falar — figura no brasão de armas de Monção e era a mulher do capitão-mor desta praça, Vasco Gomes de Abreu. Estando este ausente, a fortaleza fronteiriça é sitiada pelas tropas de Henrique de Castela, comandadas pelo avançado da Galiza, D. Pedro Rodrigues Sarmento. Deu-la-Deu, que remédio, tomou o comando da defesa da praça, tentando repelir os sitiantes. A determinada altura, já o cerco durava há dias e as provisões eram escassas e a fome cercava os monçanenses, mandou recolher toda a farinha que existia na praça, com a qual fez pães que lançou aos inimigos, gritando-lhes que se precisassem de pão, de que eles, sitiados, estavam bem providos, era só dizerem. Como os sitiantes também já sofriam as agruras da fome, decidiram, pensando que pela fome não conquistariam a praça, levantar o cerco e seguir para Castela.

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