Ortografia: «Jedá»

Em português

      «Chegado à Arábia Saudita quando ainda não havia país com esse nome, Mohammed Bin Laden fez todo o tipo de trabalhos menores na cidade de Jedá, até lhe caber uma empreitada no porto da cidade que, parece, chamou a atenção da Casa de Saud» («Na morte de Osama», Rui Tavares, Público, 4.05.2011, p. 40).
      Até no Diário de Notícias se usa habitualmente a grafia Jeddah. Ora, devemos sempre preferir uma grafia portuguesa.
[Post 4745]

Ortografia: «Álbion»

O acento da pérfida

      Cara Maria Luísa: há-de ser porque o termo já vem dos Romanos, e por isso sem acento, e um espanhol, Augustin Louis Marie de Ximénèz, que lhe acrescentou o qualificativo «pérfida», escreveu com outro acento. Em português, porém, só pode ser Álbion, esdrúxulo como outros vocábulos terminados em –ion: astérion, córion, obélion... (Sim, porque terminados em –on temos também vocábulos graves.) Por isso a vacilação Albion, Albión, Álbion.


[Post 4590]

Topónimos

Do Japão

      «A explosão do edifício onde se encontra o reactor n.º 1 da central de Fucoxima-Daiichi veio adicionar o factor de um possível desastre nuclear de grandes proporções no Japão, 24 horas após o sismo de 8,9 de magnitude que atingiu sexta-feira a principal ilha do arquipélago, Honxu» («Japão vive pior acidente desde Chernobil», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 13.03.2011, p. 44).
      Podem ser questões menores, estas da ortografia, mas apenas se relativas a lapsos temporais longos. No Público, lê-se Fukushima e Honshu.  Mas também pergunto: porquê Fucoxima e não Fucuxima? Por outro lado, Diário de Notícias e Público grafaram Chernobil.

[Post 4557]

Topónimos aportuguesados

Sem receio

      O Diário de Notícias prossegue o seu bom princípio de aportuguesar os topónimos estrangeiros.
      «Fundador de um dos principais partidos do seu país, o Congresso do Nepal (CP), Krishna Prasad Bhattarai morreu sexta-feira aos 87 anos num hospital de Catmandu, vítima de infecções múltiplas» («O ‘Gandhi do Nepal’ que era um monárquico intransigente», A. C. M., Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 55).
      «Há cem anos, de regresso de uma visita à Irlanda, o rei Jorge V recordava a “recepção calorosa e entusiástica” que recebera no castelo de Dublim. E prometia regressar. Mas nunca o fez» («Isabel II visita Dublim em Maio para sarar feridas com a Irlanda», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 32).
      «Os vencedores vão agora a Dusseldórfia (Alemanha), no dia 14 de Maio. Para chegar ao apuramento do vencedor foi decidida uma forma de eleição através de um método conjunto em que 50% estavam consignados ao televoto e os outros 50% à escolha das 20 delegações distritais» («‘A luta é uma alegria’ ganha Festival da Canção», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 65).

[Post 4535]

Artigo com topónimos

Das Donas

      João Almeida entrevistou hoje Marçal Grilo no programa Quinta Essência, na Antena 2. Marçal Grilo, licenciado em Engenharia Mecânica (ainda o curso era de seis anos e havia apenas cinco engenharias), diz «embraiage» e não «embraiagem». Talvez até escreva, quem sabe, embrayage. Ouvi falar de uma senhora idosa que diz «cláxon» e não «buzina», e talvez até escreva klaxon. João Almeida: «Ora então, mas, além disso, por exemplo, essa zona é também de António Guterres, é, salvo erro, de Donas, não é?» Marçal Grilo: «É das Donas, é.»

 [Post 4521]

Ortografia: «Cádis»

Temos de gramar?

      «A pardela-balear é uma espécie muito recente: até há dez anos era considerada uma subespécie do patagarro ou da pardela-do-mediterrâneo. É frequente desde a baía de Cádiz (Espanha) até ao Atlântico Norte, excepto no período de reprodução, que ocorre nas ilhas espanholas Baleares, em especial em Formentera, e daí a sua designação de balear» («A pardela das Baleares», Roberto Dores, Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 44).
      Da pardela nada há que dizer. Já quanto ao topónimo, nem pensar: é Cádis que se deve escrever. E assim continuará, claro, segundo as novas regras ortográficas (Base II, 5.º do AO90). Quando descreveu a pardela, o jornalista cincou novamente: «Os adultos pesam cerca de 500 gr, numa envergadura de 76 a 89 cm.» O símbolo de grama é g, e não gr.


[Post 4470]

Acordo Ortográfico

Magna questão

      No laboratório. Apareceram umas almas aflitas, porque não sabem se Timor-Leste continuará, no âmbito das novas regras ortográficas, a escrever-se com hífen. A regra manda hifenizar os topónimos compostos iniciados pelos adjectivos «grã», «grão» ou por forma verbal ou cujos elementos estejam ligados por artigo. Exemplos: Grã-Bretanha, Grão-Pará; Abre-Campo; Passa-Quatro, Quebra-Costas, Quebra-Dentes, Traga-Mouros, Trinca-Fortes; Albergaria-a-Velha, Baía de Todos-os-Santos, Entre-os-Rios, Montemor-o-Novo, Trás-os-Montes. Os outros topónimos compostos, lê-se numa observação, escrevem-se com os elementos separados, sem hífen. «O topónimo/topônimo Guiné-Bissau é, contudo, uma exceção consagrada pelo uso», acrescenta-se. Foi a isto que as sobreditas almas aflitas se agarraram.
      Ora bem, tanto quanto me lembro, a única referência a Timor-Leste, em relação a esta matéria, encontra-se no Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (e na própria resolução que o aprovou), e a grafia do topónimo surge com hífen. Contudo, isso é manifestamente insuficiente para tirarmos uma conclusão cabal, como seria fácil de demonstrar. Decisivo, a meu ver, é estar no Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), não como entrada lexical mas fazendo parte da definição de «timorense». Não precisamos de mais. Ou não precisa de mais quem é professor, porque este VOP foi adoptado para o sistema de ensino pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011.
      Voltando à observação do n.º 2 da Base XV: com a redacção que tem, não me parece que exclua outras excepções (que as há).

[Post 4439]

Como se escreve nos jornais

Então, distraímo-nos?

      «Wlad Godzich, professor de Literatura na Universidade de Genève, falou, num livro intitulado “The Culture of Literacy”, daquilo a que chama “novo vocacionalismo”, isto é, uma conceção utilitária da universidade, que é transformada num sítio de produção visando preferencialmente o contexto económico, o que requer fornecer aos alunos uma “literacia operativa”, com a qual eles devem ficar dotados das ferramentas para se moverem com eficácia no seu estrito campo» («O presente e o futuro das humanidades», António Guerreiro, «Atual»/Expresso, 5.02.2011, p. 32).
      Caro António Guerreiro: creio que é Université de Genève que se diz. Ou será Universidade de Genebra?


[Post 4410]

Veimar/Weimar

D. Raphael sabia


      Numa folha com anotações, um grande tradutor espanta-se (!) que outro tradutor tenha optado por escrever Veimar em vez de Weimar. E eu ia jurar que já uma vez aqui tinha falado de Veimar. Mas não: foi de Weimar. Numa edição de 1813 da Gazeta de Lisboa, é Veimar que se lê. No Vocabulario Portuguez & Latino, de Bluteau, é também esta forma que se lê. Neste ínterim de 200 anos, foi usada noutras obras, como, por exemplo, Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

[Post 4401]

Topónimos

Aqui não


      Na boa senda, mas não neste caso: «A maior parte dos refugiados reinstalados em 2010 são mulheres sós ou acompanhadas de filhos menores e agregados familiares, alguns deles com necessidades médicas especiais. São pessoas que fugiram dos países de origem, por razões políticas ou devido a conflitos armados, para a Ucrânia, Síria, Líbia, Bielorússia e Moçambique. As autoridades destas nações não estavam em condições de garantir “aos refugiados uma protecção adequada e duradoura”, diz um comunicado do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF)» («33 refugiados é recorde no programa de reinstalação», Céu Neves, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 16).
      A grafia correcta é Bielorrússia. Segue, pois claro, as regras comuns da ortografia portuguesa. É erro muito encontradiço, vá-se lá saber porquê.

[Post 4277]

Topónimos

Na boa senda

      É por onde segue o Diário de Notícias no que respeita a topónimos: «Tinham passado apenas cinco meses desde que chegara ao poder ao vencer umas eleições provocadas pela cassação do mandato de Gray Davis. Este democrata, que governava o estado da Califórnia desde Janeiro de 1999, foi alvo daquilo a que nos EUA se chama uma recall election — procedimento através do qual os eleitores chamam de volta para reavaliação um político que elegeram e podem removê-lo do poder pela via do voto directo. Isto depois de terem sido conseguidas as assinaturas suficientes para desencadear este processo. Davis foi o primeiro governador a ser alvo deste procedimento na Califórnia e o segundo na história dos EUA (o primeiro foi Lynn Frazier no estado do Dacota do Norte em 1921)» («À política ou ao cinema, Schwarzenegger voltará», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 25).

[Post 4276]

«Far West/Faroeste»

Não sei quantos % português


      «“Isto parece o Far West, é um assalto à mão armada. Na prática, é mais um imposto, sem que a lei o permita e com efeitos retroactivos”, afirmou Marques Mendes, no seu comentário semanal a Paulo Magalhães» («Horas extraordinárias em atraso de 2010 vão sofrer os cortes salariais previstos para 2011», Público, Leonete Botelho, 24.12.2010).
     Será que Luís Marques Mendes disse mesmo «Far West»? (Ou terá sido «Firewest»? Estou a brincar.) Hum... Se disse, não o devia ter feito, porque temos o aportuguesamento Faroeste, usado há muito tempo. «Em Os Tigres de Mompracem, o malaio amava e era amado por uma loura de olhos azuis — é bom ler estas obviedades quando se é garoto. Salgari passou a vida a mentir, dizendo que conhecia o mundo que contava — as suas aventuras passearam-se pelos mares do Bornéu, Caraíbas e Faroeste americano, quando, se ele mareou, foi só em barcos de cabotagem pelo Adriático» («Os riscos de ler Sandokan», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 4.01.2011, p. 60).

[Post 4272]

Atol de Bikini

E porque não?


      «O atol de Bikini, nas ilhas Marshal, e Papahânaumokuâkea, um conjunto de pequenas ilhas e atóis do Havai passaram a integrar a lista como património natural. Por último, o Planalto Central do Sri Lanka foi classificado como património misto» («Palestina, Jordânia e Israel unem-se por Jerusalém», Marina Marques, Diário de Notícias, 2.08.2010, p. 41).
      É raríssimo ver-se aportuguesado para atol de Biquíni, mas no Diário de Notícias não seria inesperado.

[Post 4233]

Topónimos

Dá mesmo


      Dá ver ler o Diário de Notícias e ver como grafam topónimos estrangeiros com uma feição portuguesa. Podem errar, e de facto erram, e muitos outros aspectos, mas neste são quase exemplares: «Natural de Mineápolis, antes de estudar representação na Universidade do Minesota, Peter Graves esteve no exército americano, em 1944 e 1945, durante a Segunda Guerra Mundial» («O rosto e a lama da série ‘Missão: Impossível’», L. S., Diário de Notícias, 16.03.2010, p. 49). «O automóvel está exposto no Museu dos Transportes de Lausana, na Suíça, num evento ontem inaugurado e que decorre até amanhã» («Um dos ícones de James Bond está exposto na Suíça», Diário de Notícias, 11.06.2010, p. 16). «O proprietário de um stand de automóveis de Nova Jérsia vai manter a sua palavra e oferecer ao pastor protestante Terry Jones, da Florida, um novo carro, depois deste não ter queimado o alcorão» («Pastor ganha carro por não queimar Alcorão», Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 41). «Em Marbelha, a 28 de Setembro, sete horas de cirurgia, eis o princípio do fim da fantasia e dos aspectos masculinos» («“O mundo do futebol está preparado para uma Ema?”», Paula Carmo, «DN Gente»/Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 9).

[Post 4225]

Topónimo: «Cardife»

É pena


      «A polícia britânica prendeu ontem 12 homens suspeitos de estarem a preparar um ataque terrorista, numa série de operações policiais ao amanhecer em Inglaterra e no País de Gales. A polícia de West Midlands informou que cinco dos suspeitos foram detidos na cidade galesa de Cardiff, quatro em Stoke-on-Trent e três em Londres» («Polícia prende 12 suspeitos de planear ataque terrorista», Patrícia Susano Ferreira, Destak, 21.12.2010, p. 13).
      Durante décadas e décadas, na imprensa o que se lia era Cardife. Até Eça de Queirós usava com esta grafia. É ver também as portarias do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Estado Novo. Agora consultamos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e que vemos? Isto: «cardife nome masculino designação da hulha proveniente de Cardiff, capital do País de Gales».

[Post 4209]

Guantánamo e Guantânamo

Uma variante

      Em toda a imprensa portuguesa lemos o topónimo Guantánamo. Até há dias, era assim sem excepção. «A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos recusou na madrugada de ontem o encerramento da prisão de Guantánamo» («Guantánamo. A prisão que Obama prometeu fechar vai continuar aberta», Mariana de Araújo Barbosa, i, 10.12.2010, p. 313). Mas eis que leio na Sábado: «Por fim, é preciso saber ler o “diplomatês”, ou até mesmo o inglês, e ser fiel ao que lá está, para evitar a manipulação descuidada que tem vindo a ser feita dos telegramas já conhecidos sobre os voos de repatriação de Guantânamo, uma política pública e conhecida ao ponto de até haver presos recolocados em Portugal, confundidos com os voos para a prisão em Cuba, de que até agora não há traços nos telegramas» («Mediações», José Pacheco Pereira, Sábado, 16.12.2010, p. 13).
[Post 4205]

Ortografia: «Ilinóis»

Porque mais próximo de «urinóis»?


      Eu pensava que se podia contar para sempre que o Diário de Notícias escrevia Ilinóis e não Illinois. «Na altura, o então senador pelo Ilinóis encarregou vários membros da sua equipa de combater os rumores que se começavam a multiplicar» («Fé de Obama confunde americanos», C. R. F., Diário de Notícias, 20.08.2010, p. 28). Eis que na edição de ontem leio: «Antes da decisão de ontem, havia o plano para manter numa prisão de Illinois estes prisioneiros e os que acabassem por ser condenados. A lei de projecto de finanças de 2011, aprovada por 212 votos contra 206, afirma claramente que “nenhum fundo pode ser fornecido ao Departamento de Justiça para adquirir uma prisão com o objectivo de ali encarcerar os detidos da base naval de Guantánamo, Cuba”» («Barack Obama sem dinheiro para acabar com Guantánamo», Luís Naves, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 24).

[Post 4186]

Como se escreve nos jornais

Despeçam-no


      Até um porco (pelo menos um porco piemontês) sabe que há muitas trufas em Alba. E onde fica Alba?, perguntam. O porco fala por si. O jornalista que escreveu o artigo «Stanley Ho paga 249 mil euros por trufa» (29.11.2010, p. 35) no Diário de Notícias acha que é no Piedmont, no Noroeste da Itália, estão a ver? «E têm uma curiosidade: utilizam-se cães ou porcos para as farejar enterradas na terra. As mais famosas são oriundas de Alba, na província de Piedmont, no Norte de Itália, e apanhadas entre Setembro e Dezembro. À semelhança de outros anos, as trufas deverão ser cozinhadas pelo chef do Gran Lisboa Hotel, em Macau.»

[Post 4170]

Ortografia: «Uagadugu»

Não é para gagos


      Ferreira Fernandes também está de parabéns, pois escreve Uagadugu e não — quelle horreur !Ouagadougou: «Lembrei-me do episódio quando, com as fugas do WikiLeaks, se discutiu agora a impertinência americana de pôr os seus diplomatas a fazer espionagem. Esqueçam a palavra feia, espionagem, dêem-lhe nome de nouvelle cuisine, “dados avulsos no seu leito de coisas da vida local”, mas a função dos nossos homens em Havana ou em Uagadugu foi sempre saber quantos enfermeiros há em N’giva ou se a Cristina Kirchner é maluca. Provavelmente o papel de um governante saudita (que passa por não permitir que o Grande Satã americano ataque um país islâmico) é não dizer ao embaixador dos americanos que gostaria de vê-los a bombardear Teerão» («Servir chá ou trabalhar», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 6.12.2010, p. 52).

[Post 4163]

Ortografia: «Camboja»

Ajuizemos


      «Hoje é dia de luto no Camboja, um país em choque com a tragédia que marcou o final da Festa da Água. As causas do acidente ainda não estão explicadas, tendo sido aberta uma investigação. Aparentemente tudo terá começado com o rumor de que a ponte não era estável. A partir daí foi o caos, com as pessoas a serem pisadas ou a atirarem-se à água. O número de mortos pode aumentar. Ontem, as autoridades efectuavam buscas no rio Bassac» («Luto após tragédia no Camboja», Diário de Notícias, 24.11.2010, p. 31).
      Insensivelmente, ou talvez não, deixou de se usar na imprensa a grafia Cambodja — para estranheza até de juízes (a frase é interrogativa indirecta, não leva ponto de interrogação, Meritíssimo Senhor Juiz), que lamentam que o topónimo se afaste assim do inglês. Era caso para perguntar o que é que o cu tem que ver com as calças, mas eu não sou malcriado.

[Post 4117]

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