Sobre o verbo «sacar»

How to Draw a Pistol


      Passam de duzentas as vezes que Cervantes usou o verbo sacar no D. Quixote. Não sei, nem isso agora importa, como os traduziu José Bento. Importa isto: em espanhol, sacar não significa exactamente o mesmo que em português. Num texto que estou agora a ler, que é tradução do inglês, vejo e horrorizo-me com o abuso e impropriedade do verbo sacar. Há sempre alguém a sacar uma máquina fotográfica da mochila, a sacar de um cofre que estava num armário, a sacar de um livro do interior daquele cofre, a sacar um casaco de uma caixa, a sacar um aviso de um quadro, a sacar do telemóvel guardado no porta-luvas... Para não ficar completamente desmoralizado, alguém saca, e eu faria o mesmo, e logo se veria contra quem, de uma pistola.

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3 comentários:

Anónimo disse...

Ainda a propósito do que se tem vindo a comentar, e lançando mais uma acha para a fogueira da vaidade literária, há obra de 2 ou 3 dias, no último número da revista «Saber de Caça», li «caça maior» referida à de javalis e veados, quando em bom português esta modalidade do exercício cinegético se designa por «caça grossa». «Caça maior» é a versão literal do castelhano «caza mayor», obedecendo às causa apontadas na nota anterior.
Já agora seria curioso verificar como restituiu José Bento, tantas vezes trazido à colecção neste blogue, o subtítulo do ensaio de Ortega y Gasset sobre a caça. Li-o em castelhano, comprei-o depois nessa tradução, que ofereci a um tio caçador e que muito o apreciou, de modo que não disponho do volume à mão.
- Montexto

Paulo Araujo disse...

"Si todos los ríos son dulces, / de dónde saca sal el mar?"
Pablo Neruda, em "Libro de las preguntas".
Irrespondível...

Paulo Araujo disse...

Como se diz no voleibol, meu saque foi rebatido.
E rebatendo Neruda, então os rios de Portugal são também salgados.
Curioso é que tanto Portugal quanto o Chile são ricos em sal.
E viva a poesia, em qualquer idioma.

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