Ortografia: «higiossanitário»

Ginjinha do Rossio

      Do Diário da República ao Diário Digital, passando pelo Público, pelo Jornal de Notícias e muitos outros jornais, lemos que a ASAE fiscaliza e fecha estabelecimentos por falta de condições «higio-sanitárias». O Diário de Notícias, pelo contrário, fala em «condições higiossanitárias». O Ministério da Agricultura fez mesmo publicar, certa vez, uma declaração de rectificação (a n.º 16-I/2000) só para dizer que em determinada portaria, onde se lia «higiossanitárias», devia ler-se «hígio-sanitárias». Não uma mas duas alterações. Para pior. Da autoria, parece, de algum adepto da grafia sónica, de má memória. Outro grupo de publicações segue uma quarta mas aproximada via: grafa «higio-sanitárias». Pois bem, desta vez o Diário de Notícias tem razão. Não vamos regatear-lha. Ah, sim: é assim, higiossanitário, porque higio é um antepositivo.

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Tradução: «Aldis lamp»

Imagem: http://www.faradic.net/

Pestaneja


Caro A. M. L.: a «Aldis lamp» não é a lâmpada de Aladino. É um aparelho de sinalização visual, usado a bordo de navios e em aeroportos, para enviar mensagens em código Morse. É, basicamente, uma lâmpada portátil, como a imagem mostra, que certamente já viu em filmes. Tradução? Pois lâmpada Aldis. Ou lâmpada de sinalização diurna. O nome provém do inventor, o inglês A. C. W. Aldis (1878-1953). Em inglês tem também o nome de blinker, «que pestaneja», e o seu operador, signalman. E blinker porque o aparelho tem shutters, «persianas» (que na imagem se vêem abertas), assemelhando-se o todo a um olho gigante que pisca, pestaneja.

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Qualquer-coisa-chave (i)

Oh donkey’s years. Long ago…

Quando tiver idade para fazer um Je me souviens à Georges Perec apenas relativo à língua (vejam como desbarato ideias!), uma das primeiras recordações será esta: lembro-me de, ainda há pouco tempo, só termos um ou dois vocábulos compostos com «chave». Nesses tempos, lembro-me bem, mesmo só «palavra-chave» destoava um pouco, aos meus olhos de adolescente. Mas agora? É um fartote. Tudo é qualquer-coisa-chave. Culpados: os jornalistas e os tradutores. «Olha», exulta um tradutor, «está aqui uma chave: “One of the key discoveries…” It’s easy as pie: Uma das descobertas-chave…» «Eh lá», exaspera-se um revisor, «outra porra de chave: “Uma das descobertas-chave…” É canja: Uma das principais descobertas…»

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Verbo «obstruir»

É lá consigo

Bem podem algumas gramáticas consignar taxativamente que o verbo «obstruir» se conjuga como «construir» — ninguém me apanhará a dizer «obstrói». Eu é que acabei de apanhar o psicólogo Eduardo Sá, nos Dias do Avesso, em conversa com Isabel Stiwell, com a sua voz sumidíssimaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, a pronunciar «obstrói».

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Tradução: «principiel»

Pois é

A língua portuguesa tem algum adjectivo relativo ao substantivo «princípio(s)»? Desconheço — mas fazia falta. Assim, como devemos traduzir a frase «Mais les liens entre nombres, choses et affects semblent ici principiels»? Estão aqui a propor-me que traduza principiels por «axiológicos». Mas «axiológico», objecto, diz respeito aos valores e não aos princípios. E princípios não são valores, nem a ema é um pássaro. Três vias se nos apresentam: deixar o estrangeirismo; adaptar para o português; encontrar uma expressão. Temos assim, por ordem:

1. «Mas as ligações entre nomes, coisas e afectos parecem aqui principiels
2. «Mas as ligações entre nomes, coisas e afectos parecem aqui principiais
3. «Mas as ligações entre nomes, coisas e afectos parecem aqui dizer respeito aos princípios

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O uso do vocábulo «luso»

Isto não é normal

      Antigamente, os únicos Lusos conhecidos eram os garrafões da água mineral com esse nome. Hoje, em especial com os jornais gratuitos, os jornalistas começaram a desbastar no uso do substantivo «português» (e no plural, «Portugueses»). É o estilo e a falta dele. «Cerca de 1800 lusos presos no estrangeiro» (Meia Hora, 28.1.2008, p. 5). Com variações no Destak: «Quase 1800 lusos detidos no estrangeiro» (28.1.2008, p. 6). E ainda neste jornal: «Lusos divorciam-se mais após idade adulta de filhos» (Destak, 28.1.2008, p. 6). «O Campeonato da Europa de Maio é o momento decisivo da época, porque é a derradeira oportunidade para os lusos estarem em Pequim, o que seria a sexta participação consecutiva nos Jogos («Portugal em estágio com os melhores», Meia Hora, 25.1.2008, p. 19). «Doenças inflamatórias afectam 12500 lusos» (Meia Hora, 24.1.2008, p. 5). «Lusos discretos no mundial de Finn» (Meia Hora, 24.1.2008, p. 16). «O piloto luso vai disputar seis das oito provas pontuáveis possíveis: Suécia, Grécia, Turquia, Nova Zelândia, Japão e Grã-Bretanha» («A caminho do penta sem rival», Meia Hora, 24.1.2008, p. 16). «Pintasilgo recordada como “figura política do catolicismo” luso» (Meia Hora, 24.1.2008, p. 23). «Maria Carrilho, do Instituto de Estudos Estratégicos, diz que a comunidade islâmica lusa ambiciona a paz e o desenvolvimento» (Meia Hora, 21.1.2008, p. 1). E por aí fora.

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Léxico contrastivo: «lousa electrónica»

Zulus e Brasileiros

«O bom e velho quadro negro já ficou verde, virou branco e agora é multicor. Uma das últimas novidades em relação a lousas utilizadas em salas de aula é a tela eletrônica interativa (Smart Board) que permite, ao mesmo tempo, a exibição de imagens de computador, incluindo filmes e animações, e a escrita manual. Além disso, tudo o que acontece na lousa, durante as aulas, pode ser gravado em CD ROM, além da própria voz do professor. ­A lousa torna as aulas mais atrativas e a possibilidade da gravação em CD ROM permite a avaliação da qualidade das aulas pela direção da escola e também pelos próprios pais dos alunos, que podem levar a aula inteira para casa» («Lousa eletrônica torna aula interativa», Paulo Marcio Vaz, Jornal do Brasil, 28.1.2008, p. A24). É um processo muito comum: a partir do que se conhece, atribui-se, por analogia, nome a novos objectos: os Zulus chamam ao telemóvel ’uMakhalekhukhwini, «grito no bolso».

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Tradução: «bière blanche»

C’est top!

Cara Luísa Pinto: bière blanche não é, como qualquer pessoa com umas tinturas de francês alvitraria ser, «cerveja branca». Esta é a bière blonde. A preta, já que de cervejas falamos, é a bière brune. A bière blanche há-de ter cor ― mas é conhecida, pelo menos largamente no Brasil e um pouco em Portugal, como «cerveja de trigo». Como tradução, está óptima, até porque a alternativa é usarmos estrangeirismos: Weissbier (ou Weizenbier) e wheat beer. E ainda não estamos com os copos, não é? Hic!

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Léxico: «cachimbada»

Só fumaça

      Sérgio H. Coimbra, director do Meia Hora, entre dois rabiscos, teve tempo para se insurgir contra Fernando Rosas: «Parece que o Dr. Fernando Rosas teve tempo, entre duas cachimbadelas, para questionar o ministro da Defesa sobre a participação da Fanfarra e Lanceiros do Exército, e de representantes do Colégio Militar na homenagem ao rei D. Carlos no centésimo aniversário do seu assassinato e do filho D. Luís Filipe, em Lisboa, esta sexta-feira» («Ceci n’est pas une historien», Meia Hora, 28.1.2008, p. 23). Ora, a fumaça aspirada de cada vez num cachimbo é uma cachimbada e não uma cachimbadela. E que os cachimbistas do Cachimbo Clube de Portugal não o leiam, ou vão voar fornilhos, calcadores, boquilhas e escovilhões. É facto: cachimbadela também anda por aí.

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Nome de povos


Há alguma dúvida?

Xan Rice, correspondente do jornal The Guardian na África Oriental, começa por escrever que «ethnic clashes were spreading across Kenya’s Rift valley last night with at least 19 people burned in their homes or hacked to death in the popular tourist town of Naivasha, 65 miles from Nairobi». Também o Meia Hora se refere, numa breve, ao facto: «Pelo menos 69 pessoas morreram este fim-de-semana em Naivasha, no Vale do Rift, a 60 km da capital, Nairobi, após ataques com catanas e fogo posto em habitações. Seis das vítimas morreram carbonizadas e as restantes com golpes.» Mas continua Xan Rice: «The month-long violence, in which nearly 800 people have died, was sparked by the disputed re-election of President Mwai Kibaki, has now changed into a raw ethnic conflict pitting mainly Kalenjins and Luos, who supported the opposition, against Kibaki’s Kikuyu community.» Lá está: Kalenjins e Luos. O Meia Hora — e todos os jornais portugueses, tanto quanto sei — prescindem da gramática quando se referem a povos: «Os conflitos, que num mês já fizeram 750 mortos, travaram-se entre os kikuyu, a etnia do Presidente acusado de fraude eleitoral Mwai Kibaki e a tribo Luo, do opositor Raila Odinga.» Mas qual é a dúvida? Claro que devemos escrever Kikuyus, Luos, Kalenjins, e o mesmo para o nome de cada uma das setenta diferentes comunidades étnicas quenianas ou quaisquer outras no mundo.

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Léxico contrastivo: «logomarca»

Publicidade

«Carnaval é mesmo o momento chave para as empresas “desfilarem suas marcas” aos consumidores. Em um curto espaço de tempo, circulam pelo país quase 1 milhão de turistas, entre os quais 20 % de estrangeiros» («Festa regada a propaganda e desfile de logomarcas», Cláudia Dantas, Jornal do Brasil, 27.1.2008, p. E7). Segundo o dicionário Aulete Digital, «logomarca» é a designação que na publicidade se dá ao «conjunto do nome e de algum símbolo gráfico que constitui a representação visual de uma marca (de produto, empresa, etc.)».

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Glossário escatológico


Língua viajante


      Em que outro país civilizado, ao fazer uma obra, se se verificava a meio, no fim ou passados seis meses que estava mal feita esta não era corrigida? A imagem mostra um desnecessário aviso sobre o que é cada coisa numa casa de banho numa área de serviço concessionada à Galp. Mas quem escreveu só tinha como referência o vocábulo «alcoolismo», daí — autocolismo. Vá lá, podia ter sido pior: o homem podia ter escrito «autocoolismo».


Aquela parte loc. Eufemismo de «merda».
Arriar a carga loc. Defecar.
Arriar o calhau loc. Defecar.
Arriar o pastel loc. Defecar.
Badalhocas f. pl. Prov. beir. e trasm. Bolas de excremento e terra, pendentes, como badalos, entre as pernas das ovelhas e carneiros.
Bestoiro m. Prov. trasm. Porção sólida de excremento humano.
Bloida f. Ant. Excremento.
Bolico m. Excremento de burro. O m. q. belisco, bolisco, bonico; bolico.Bolisco m. Prov. Excremento de burro.
Borrado adj. Sujo de fezes.
Boseira f. Bosta│Excremento mole das aves de capoeira.
Bosta f. O excremento de animais, como boi, cavalo, mais propriamente do boi.
Bosteira f. Bosta.│Acervo de bosta.
Bozerra f. Bras. Monte de excremento.
Burrisco m. Nome vulgar dado ao frago dos burros.
Buzeira f. Prov. trasm. Excremento mole de galinhas ou de outras aves grandes.
Buzeirada f. Prov. trasm. Grande porção de buzeira.
Buzeiro m. Pleb. Acervo de excrementos.
Caca f. Inf. Excrementos. Imundície.
Cagaçal m. Pleb. Sítio onde se deitam excrementos.
Cagalhão m. Pleb. Porção consistente de excremento.
Caga-merdeira f. Ant. Excremento.
Caganeira f. Evacuação descontrolada de fezes, geralmente muito pastosas ou líquidas; diarreia.
Caganita f. Pleb. Excremento de certos animais, em forma de pequeninas bolas.
Cascarria f. Excremento seco que se agarra à lã das ovelhas e ao pêlo de outros animais.
Castanha f. Chul. Excremento de burro.
Cerilhoto m. Prov. minh. Diminuta porção de excrementos sólidos humanos, recentemente expelidos.
Cíbalo m. Excremento duro e arredondado; escíbalo.
Cocó m. Inf. Excremento.
Coprófago adj. Diz-se dos animais que vivem de excrementos.
Coprólito m. Excremento fóssil.
Coprosclerose f. Endurecimento dos excrementos, nos intestinos.
Coprostasia f. Retenção dos excrementos; obstipação.
Corrença f. Ant. Diarreia.
Defecar v. int. Expelir naturalmente os excrementos.
Dejecção f. Evacuação de matérias fecais; as próprias matérias evacuadas.
Dejecto m. Matérias fecais evacuadas de uma vez.
Desarranjo m. Pop. Diarreia.
Diarreia f. Evacuação de fezes líquidas e abundantes, com aumento da frequência normal.
Escarnhida f. Gír. Excremento.
Escíbalo m. Excremento duro e arredondado.
Esfoura f. Trás-os-Montes. Diarreia, caganeira.
Estrabo m. Excremento de animais.
Fazer efeito loc. Defecar.
Fezes f. pl. Restos de produtos ingeridos que não foram aproveitados e resíduos que são eliminados pelo intestino.
Fluxo m. Soltura, corrença, diarreia.
Foeira f. Prov. beir. Diarreia, corrença.
Forrica f. Prov. minh. Dejecções quase líquidas.
Frago m. Estrabo, excremento de animais silvestres.
Giota f. Prov. dur. Excremento humano.
Grelos m. pl. Ter. de Algodres. O m. q. excrementos.
Larada f. Pop. Porção de excremento, um tanto líquido, soltura.
Merda f. Pleb. Matérias fecais; fezes que o intestino expele normalmente pelo ânus; excremento.
Merdança f. Pleb. Muitas matérias fecais; caganeira.
Merdimbuca f. Ofensa, ultraje, vulgar na Idade Média, que consistia em meter excrementos na boca de alguém.
Poia f. Pop. Acervo de dejectos.│Dejecção.
Pona-âmbar m. Excremento de certa ave marítima oriental.
Respo m. Gír. Excremento humano.
Rilhoto m. Prov. Pequena e dura porção de excremento.
Soltura f. Diarreia.
Sorete m. Bras. de gaúchos. Matéria fecal, quando dejectada em pedaços secos e duros.
Torcida f. Chul. Excremento em forma de torcida, duro e consistente.
Torcilhão m. Prov. Porção de excremento mais ou menos estriado ao sair do ânus.
Trampa f. Pleb. Excremento.
Zicheira f. Trás-os-Montes. Fezes líquidas; diarreia.

[Glossário em construção: 65 entradas]

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Léxico contrastivo: «câmbio automatizado»

Ao rubro

Se for ao Brasil e lhe falarem de «câmbio automatizado», não pense logo que lhe estão a falar de máquinas ATM de câmbio. É de outra coisa que se trata. «É preciso estar muito atento às mudanças feitas pela Fiat no Stilo. Até porque o face lift é dos mais discretos. A plástica atingiu a grade frontal, as lanternas traseiras, um pouco mais de dobras na porta de trás e frisos cromados nas laterais. A grande modificação veio mesmo com a introdução do câmbio automatizado Dualogic, desenvolvido pela Magnetti Marelli» («Stilo ganha câmbio automatizado», Antonio Puga, Jornal do Brasil, 26.1.2008, p. V3). É mesmo a nossa caixa de mudanças automática. O jornalista explica: «Ou seja, um dispositivo eletrônico capaz de acionar a embreagem e mudar as marchas sem interferência do motorista.» Claro que do francês embrayage fizemos embraiagem e entre os que conduzem distinguimos, pelo menos, condutores e motoristas. E já tivemos chaufeurs, os finos, e choferes, os outros. Modas. Em França, originariamente, o chaufer era aquele que puxava o cambão (branloire, em francês) dos foles das forjas, para insuflar mais ar e assim pôr o metal ao rubro.

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O apelido «Marinho»


Isto é com ele

Alguns nomes têm má sina. Quem ouve rádio e vê televisão, pouco que seja, já se deve ter dado conta de que o primeiro apelido do actual bastonário da Ordem dos Advogados, Dr. António Marinho e Pinto, se pronuncia /Màrinho/, como se se tratasse do diminutivo do nome próprio Mário. Ora, acabei de ouvir nas notícias das 9, na Antena 1, dois jornalistas, José Guerreiro e Nuno Rodrigues, pronunciarem /Marinho/, como quem fala do fundo marinho. E mais: disseram «Marinho Pinto». Contudo, o «e» liga indissoluvelmente os dois apelidos. Nos anos 80, deu-se o invés: durante meses a fio, o primeiro-ministro era «Cavaco e Silva». Sempre ao contrário.

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Acordo Ortográfico: nomes próprios

Isto é comigo

      Numa escola muito bem cotada, dessas que estão no «ranking», disseram-me ontem, uma professora já avisou os alunos de que estamos a entrar numa fase transitória, como aconteceu com a adopção do euro, quis precisar, em que as pessoas cujo nome começa com h devem abolir este. Uma aluna mais atenta até reteve uma informação suplementar: o verbo haver também vai perder o h. Aver. Que lá se avenham. Só acharia que era uma anedota se não confiasse na pessoa que me contou e se — principalmente, confesso — não tivesse lido já este ano uma consulta ao Ciberdúvidas em que um médico, Hugo Pacheco, perguntava se o seu nome continuaria a escrever-se da mesma forma. Uma professora, um médico (e também professor, se se trata da mesma pessoa que é assistente convidado no Departamento de Ciências Médicas da Universidade da Beira Interior)… Se se tratasse, sei lá, de uma cabeleireira aqui de Benfica, eu ainda perdoava. Assim, só me apetece emigrar. No meu caso, a mudança teria efeitos retroactivos e, digamos, genésicos: eu, que sou o filho mais novo, passava a ser o mais velho: Elder. Pior seria para o poeta Erberto Elder, coitado. Seria quase um heterónimo. O País está maluco, doente. E não se vai curar com estes médicos.

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Erro em título de filme


Espera lá…

A leitora Patrícia Fernandes acabou de me comunicar que é hoje a estreia do filme Daqui p’rá Frente, de Catarina Ruivo. Não quero ser desmancha-prazeres, ou, tendo em conta que talvez vá haver beberete, aguafiestas, como dizem os Espanhóis — mas o título tem um erro. Devia ser «prà» ou, se quiserem insistir na excrescência, «p’rà». Fica a publicidade, o aviso e um desejo: o de que o guião não tenha muitos erros de português.

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Legendas e variações diatópicas


Então?

Na semana passada, vi, no Jornal das 12, na RTPN, parte de uma reportagem sobre a agricultura em Moçambique. Entrevistaram pelo menos dois moçambicanos e um holandês, e todos falavam português. E bem, devo dizer. O som era perfeitamente audível, não havia ruído ambiente. Nem sequer o barrido de um elefante no horizonte auditivo. Nada. Pois ainda assim, e não é a primeira vez que assisto a tal, na RTPN acharam que as falas dos entrevistados precisavam do amparo salvífico das legendas, porque o telespectador, essa criatura ignorante e surda, não compreenderia. Não sei porquê. Nunca vi legendas quando quem fala é açoriano e tem um sotaque (as variações diatópicas de que falam Celso Cunha e Lindley Cintra, e, no caso, o dialecto micaelense) tão umbrosamente cerrado que eu — nada de melindres nem ressentimentos, meus irmãos — não percebo, com toda a boa vontade e ouvidos atentíssimos. Ia acabar com «se calhar, sou eu que não percebo nada», mas não o faço, não vá alguém concordar. Não é?

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Léxico contrastivo: «córrego»

Poesia


      Contrastivo no uso, é claro, pois a palavra é bem portuguesa. Aqui, deverá ter sido inspiração de jornalista mais proclive a arroubos poéticos. Deixá-lo, as palavras fazem-nos falta. «Cerca de 300 famílias da região da Fercal, próximo a Sobradinho II, deverão ser retiradas das áreas de risco. As áreas foram identificadas pela Defesa Civil do Distrito Federal como de risco para a segurança da população que vive no local e estão localizadas próximas a encostas e ao leito do rio» («Chuva ameaça a segurança de famílias à beira de córrego», Lais Lis, Jornal do Brasil, 24.1.2008, p. R6). O único córrego que os Portugueses conhecem actualmente — e maiusculizado — é Manuel Córrego, autor de obras com títulos tão mansos como Nem Putas nem Ladrões. No contexto, córrego é o curso de água.

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Tradução: «bolt action rifle»

Tiro na água

Com um bisavô, tios-avôs e tios caçadores, ainda assim pouco contacto tenho tido com armas na minha vida. Ah, sim, uma vez, um guarda prisional que gostava de exibir a arma de serviço em família (eu ia ser da família, mas depois a História fez um desvio) mostrou-ma. Tendo em conta o risco de manuseamento de uma arma de fogo, e apesar do fascínio que não nego sentir por armas, não tenho pena que tenha sido assim. Sim, é verdade, não era isto que queria dizer, mas sim que não me parece que a locução «.375 bolt action rifle» se possa traduzir por «espingarda de cavilha .375». Traduzir-se-á antes por «espingarda de repetição de calibre .375». As espingardas, algumas espingardas, têm cavilha, é verdade, mas desconheço que haja a expressão «espingarda de cavilha» como designação. Tem interesse terminológico o glossário de tipos de armas e partes das armas e componentes das munições apresentado pela Lei n.º 5/2006, de 23 de Fevereiro, que aprovou o novo regime jurídico das armas e suas munições. É do artigo 2.º (definições legais) que respigo o que segue.


«1 - Tipos de armas:
a) «Aerossol de defesa» todo o contentor portátil de gases comprimidos cujo destino seja unicamente o de produzir descargas de gases momentaneamente neutralizantes da capacidade agressora;
b) «Arco» a arma branca destinada a lançar flechas mediante o uso da força muscular;
c) «Arma de acção dupla» a arma de fogo que é disparada efectuando apenas a operação de accionar o gatilho;
d) «Arma de acção simples» a arma de fogo que é disparada mediante duas operações constituídas pelo armar manual do mecanismo de disparo e pelo accionar do gatilho;
e) «Arma de alarme» o dispositivo com a configuração de uma arma de fogo destinado unicamente a produzir um efeito sonoro semelhante ao produzido por aquela no momento do disparo;
f) «Arma de ar comprimido» a arma accionada por ar ou outro gás comprimido, com cano de alma lisa ou estriada, destinada a lançar projéctil metálico;
g) «Arma de ar comprimido desportiva» a arma de ar comprimido reconhecida por uma federação desportiva como adequada para a prática de tiro desportivo;
h) «Arma de ar comprimido de recreio» a arma de ar comprimido, de calibre até 5,5 mm, cuja velocidade do projéctil à saída da boca do cano seja inferior a 360 m/s e cujo cano seja superior a 30 cm;
i) «Arma automática» a arma de fogo que, mediante uma única acção sobre o gatilho, faz uma série contínua de vários disparos;
j) «Arma biológica» o engenho susceptível de libertar ou de provocar contaminação por agentes microbiológicos ou outros agentes biológicos, bem como toxinas, seja qual for a sua origem ou modo de produção, de tipos e em quantidades que não sejam destinados a fins profilácticos de protecção ou outro de carácter pacífico e que se mostrem nocivos ou letais para a vida;
l) «Arma branca» todo o objecto ou instrumento portátil dotado de uma lâmina ou outra superfície cortante ou perfurante de comprimento igual ou superior a 10 cm ou com parte corto-contundente, bem como destinado a lançar lâminas, flechas ou virotões, independentemente das suas dimensões;
m) «Arma de carregamento pela boca» a arma de fogo em que a culatra não pode ser aberta manualmente e o carregamento da carga propulsora e do projéctil só podem ser efectuados pela boca do cano, no caso das armas de um ou mais canos, e pela boca das câmaras, nas armas equipadas com tambor, considerando-se equiparadas às de carregamento pela boca as armas que, tendo uma culatra móvel, não podem disparar senão cartucho combustível, sendo o sistema de ignição colocado separadamente no exterior da câmara;
n) «Arma eléctrica» todo o sistema portátil alimentado por fonte energética e destinado unicamente a produzir descarga eléctrica momentaneamente neutralizante da capacidade motora humana;
o) «Arma de fogo» todo o engenho ou mecanismo portátil destinado a provocar a deflagração de uma carga propulsora geradora de uma massa de gases cuja expansão impele um ou mais projécteis;
p) «Arma de fogo curta» a arma de fogo cujo cano não exceda 30 cm ou cujo comprimento total não exceda 60 cm;
q) «Arma de fogo inutilizada» a arma de fogo a que foi retirada ou inutilizada peça ou parte essencial para obter o disparo do projéctil e que seja acompanhada de certificado de inutilização emitido ou reconhecido pela Direcção Nacional da Polícia de Segurança Pública (PSP);
r) «Arma de fogo longa» qualquer arma de fogo com exclusão das armas de fogo curtas;
s) «Arma de fogo modificada» a arma de fogo que, mediante uma intervenção não autorizada de qualquer tipo, obteve características diferentes das do seu fabrico original relativamente ao sistema ou mecanismo de disparo, comprimento do cano, calibre, alteração relevante da coronha e marcas e numerações de origem;
t) «Arma de fogo transformada» o dispositivo que, mediante uma intervenção mecânica modificadora, obteve características que lhe permitem funcionar como arma de fogo;
u) «Arma lançadora de gases» o dispositivo portátil destinado a emitir gases por um cano;
v) «Arma lança-cabos» o mecanismo portátil com a configuração de uma arma de fogo, destinado unicamente a lançar linha ou cabo;
x) «Arma química» o engenho ou qualquer equipamento, munição ou dispositivo especificamente concebido para libertar produtos tóxicos e seus precursores que pela sua acção química sobre os processos vitais possa causar a morte ou lesões em seres vivos;
z) «Arma radioactiva ou susceptível de explosão nuclear» o engenho ou produto susceptível de provocar uma explosão por fissão ou fusão nuclear ou libertação de partículas radioactivas ou ainda susceptível de, por outra forma, difundir tal tipo de partículas;
aa) «Arma de repetição» a arma de fogo com depósito fixo ou com carregador amovível que, após cada disparo, é recarregada pela acção do atirador sobre um mecanismo que transporta e introduz na câmara nova munição, retirada do depósito ou do carregador;
ab) «Arma semiautomática» a arma de fogo com depósito fixo ou com carregador amovível que, após cada disparo, se carrega automaticamente e que não pode, mediante uma única acção sobre o gatilho, fazer mais de um disparo;
ac) «Arma de sinalização» o mecanismo portátil com a configuração de arma de fogo destinado a lançar um dispositivo pirotécnico de sinalização, cujas características excluem a conversão para o tiro de qualquer outro tipo de projéctil;
ad) «Arma de softair» o mecanismo portátil com a configuração de arma de fogo das classes A, B, B1, C e D, integral ou parcialmente pintado com cor fluorescente, amarela ou encarnada, por forma a não ser susceptível de confusão com as armas das mesmas classes, apto unicamente a disparar esfera plástica cuja energia à saída da boca do cano não seja superior a 1,3 J;
ae) «Arma submarina» a arma branca destinada unicamente a disparar arpão quando submersa em água;
af) «Arma de tiro a tiro ou de tiro simples» a arma de fogo sem depósito ou carregador, de um ou mais canos, que é carregada mediante a introdução manual de uma munição em cada câmara ou câmaras ou em compartimento situado à entrada destas;
ag) «Arma veterinária» o mecanismo portátil com a configuração de uma arma de fogo destinado unicamente a disparar projéctil de injecção de anestésicos ou outros produtos veterinários sobre animais;
ah) «Bastão eléctrico» a arma eléctrica com a forma de um bastão;
ai) «Besta» a arma branca dotada de mecanismo de disparo que se destina exclusivamente a lançar virotão;
aj) «Boxer» o instrumento metálico ou de outro material duro destinado a ser empunhado por uma mão quando é desferido soco, de forma a ampliar o efeito deste;
al) «Carabina» a arma de fogo longa com cano da alma estriada;
am) «Espingarda» a arma de fogo longa com cano de alma lisa;
an) «Estilete» a arma branca composta por uma haste perfurante sem gumes e por um punho;
ao) «Estrela de lançar» a arma branca em forma de estrela com pontas cortantes que se destina a ser arremessada manualmente;
ap) «Faca de arremesso» a arma branca composta por uma lâmina integrando uma zona de corte e perfuração e outra destinada a ser empunhada ou a servir de contrapeso com vista a ser lançada manualmente;
aq) «Faca de borboleta» a arma branca composta por uma lâmina articulada num cabo ou empunhadura dividido longitudinalmente em duas partes também articuladas entre si, de tal forma que a abertura da lâmina pode ser obtida instantaneamente por um movimento rápido de uma só mão;
ar) «Faca de abertura automática ou faca de ponta e mola» a arma branca composta por um cabo ou empunhadura que encerra uma lâmina, cuja disponibilidade pode ser obtida instantaneamente por acção de uma mola sob tensão ou outro sistema equivalente;
as) «Pistola» a arma de fogo curta, de tiro a tiro, de repetição ou semiautomática;
at) «Pistola-metralhadora» a arma de fogo automática, compacta, destinada a ser utilizada a curta distância;
au) «Réplica de arma de fogo» a arma de fogo de carregamento pela boca, de fabrico contemporâneo, apta a disparar projéctil utilizando carga de pólvora preta ou similar;
av) «Reprodução de arma de fogo» o mecanismo portátil com a configuração de uma arma de fogo que, pela sua apresentação e características, possa ser confundida com as armas previstas nas classes A, B, B1, C e D, com exclusão das armas de softair;
ax
) «Revólver» a arma de fogo curta, equipada com tambor contendo várias câmaras.
2 - Partes das armas de fogo:
a) «Alma do cano» a superfície interior do cano entre a câmara e a boca;
b) «Alma estriada» a superfície interior do cano com sulcos helicoidais ou outra configuração em espiral, que permite conferir rotação ao projéctil, dotando-o de estabilidade giroscópica;
c) «Alma lisa» a superfície interior do cano não dotada de qualquer dispositivo destinado a imprimir movimento de rotação ao projéctil;
d) «Boca do cano» a extremidade da alma do cano por onde sai o projéctil;
e) «Caixa da culatra» a parte da arma onde está contida e se movimenta a culatra;
f) «Câmara» a parte do cano ou, nos revólveres, a cavidade do tambor onde se introduz a munição;
g) «Cano» a parte da arma constituída por um tubo destinado a guiar o projéctil no momento do disparo;
h) «Cão» a peça de um mecanismo de percussão que contém ou bate no percutor com vista ao disparo da munição;
i) «Carcaça» a parte da arma curta de que faz parte ou onde se fixa o punho e que encerra o mecanismo de disparo;
j) «Carregador» o contentor amovível onde estão alojadas as munições numa arma de fogo;
l) «Coronha» a parte de uma arma de fogo que se destina a permitir o seu apoio no ombro do atirador;
m) «Corrediça» a parte da arma automática ou semiautomática que integra a culatra e que se movimenta em calhas sobre a carcaça;
n) «Culatra ou bloco da culatra» a parte da arma de fogo que obtura a extremidade do cano onde se localiza a câmara;
o) «Depósito» o compartimento inamovível de uma arma de fogo onde estão alojadas as munições;
p) «Gatilho ou cauda do gatilho» a peça do mecanismo de disparo que, quando accionada pelo atirador, provoca o disparo;
q) «Guarda-mato» a peça que protege o gatilho de accionamento acidental;
r) «Mecanismo de disparo» o sistema mecânico ou outro que, quando accionado através do gatilho, provoca o disparo;
s) «Mecanismo de travamento» o conjunto de peças destinado a bloquear a culatra móvel na posição de obturação da câmara;
t) «Partes essenciais da arma de fogo» nos revólveres, o cano, o tambor e a carcaça, nas restantes armas de fogo, o cano, a culatra, a caixa da culatra ou corrediça, a báscula e a carcaça;
u) «Percutor» a peça de um mecanismo de disparo que acciona a munição, por impacte na escorva ou fulminante;
v) «Punho» a parte da arma de fogo que é agarrada pela mão que dispara;
x) «Silenciador» o acessório que se aplica sobre a boca do cano de uma arma destinado a eliminar ou reduzir o ruído resultante do disparo;
z) «Tambor» a parte de um revólver constituída por um conjunto de câmaras que formam um depósito rotativo de munições.
3 - Munições das armas de fogo e seus componentes:
a) «Bala ou projéctil» a parte componente de uma munição ou carregamento que se destina a ser lançada através do cano pelos gases resultantes da deflagração de uma carga propulsora ou outro sistema de propulsão;
b) «Calibre da arma» a denominação da munição para que a arma é fabricada;
c) «Calibre do cano» o diâmetro interior do cano, expresso em milímetros ou polegadas, correspondendo, nos canos de alma estriada, ao diâmetro de brocagem antes de abertas as estrias, ou equivalente a este diâmetro no caso de outros processos de fabrico;
d) «Carga propulsora ou carga de pólvora» a carga de composto químico usada para carregar as munições ou a carga de pólvora preta ou substância similar usada para carregar as armas de carregamento pela boca;
e) «Cartucho» a caixa metálica, plástica ou de outro material que se destina a conter o fulminante, a carga propulsora e o projéctil ou carga de projécteis para utilização em armas com cano de alma lisa;
f) «Cartucho de caça» a munição para arma de fogo longa de cano de alma lisa, própria para a actividade venatória ou desportiva;
g) «Chumbos de caça» os projécteis, com diâmetro até 4,5 mm, com que se carregam os cartuchos de caça;
h) «Componentes para recarga» os cartuchos, invólucros, fulminantes ou escorvas, carga propulsora e projécteis para munições de armas de fogo;
i) «Fulminante ou escorva» o componente da munição composto por uma cápsula que contém mistura explosiva, a qual quando deflagrada provoca uma chama intensa destinada a inflamar a carga propulsora da munição, podendo também não ser aplicado no cartucho ou invólucro em armas antigas ou réplicas;
j) «Invólucro» a caixa metálica, plástica ou de outro material que se destina a conter o fulminante, a carga propulsora e o projéctil para utilização em armas com cano de alma estriada;
l) «Munição de arma de fogo» o cartucho ou invólucro ou outro dispositivo contendo todos os componentes em condições de ser imediatamente disparado numa arma de fogo;
m) «Munição com bala de caça» o cartucho de caça com projéctil único;
n) «Munição com bala desintegrável» a munição cujo projéctil é fabricado com o objectivo de se desintegrar no impacte com qualquer superfície ou objecto duro;
o) «Munição com bala expansiva» a munição cujo projéctil é fabricado com o objectivo de expandir no impacte com um corpo sólido;
p) «Munição com bala explosiva» a munição com projéctil contendo uma carga que explode no momento do impacte;
q) «Munição com bala incendiária» a munição com projéctil contendo um composto químico que se inflama em contacto com o ar ou no momento do impacte;
r) «Munição com bala encamisada» a munição com projéctil designado internacionalmente como full metal jacket (FMJ), com camisa metálica que cobre o núcleo em toda a sua extensão, com excepção, ou não, da base;
s) «Munição com bala perfurante» a munição com projéctil de núcleo de aço temperado ou outro metal duro ou endurecido, destinado a perfurar alvos duros e resistentes;
t) «Munição com bala tracejante» a munição com projéctil que contém uma substância pirotécnica destinada a produzir chama e ou fumo de forma a tornar visível a sua trajectória;
u) «Munição com bala cilíndrica» a munição designada internacionalmente como wadcutter de projéctil cilíndrico ou de ponta achatada, destinada a ser usada em tiro desportivo, provocando no alvo um orifício de contorno bem definido;
v) «Munição obsoleta» a munição que deixou de ser produzida industrialmente e que não é comercializada há pelo menos 40 anos;
x) «Percussão anelar ou lateral» o sistema de ignição de uma munição em que o percutor actua sobre um ponto periférico relativamente ao centro da base da mesma;
z) «Percussão central» o sistema de ignição de uma munição em que o percutor actua sobre a escorva ou fulminante aplicado no centro da base do invólucro;
aa) «Zagalotes» os projécteis, com diâmetro superior a 4,5 mm, que fazem parte de um conjunto de múltiplos projécteis para serem disparados em armas de fogo com cano de alma lisa.
4 - Funcionamento das armas de fogo:
a) «Arma de fogo carregada» a arma de fogo que tenha uma munição introduzida na câmara e a arma de carregar pela boca em que seja introduzida carga propulsora, fulminante e projéctil na câmara ou câmaras;
b) «Arma de fogo municiada» a arma de fogo com pelo menos uma munição introduzida no seu depósito ou carregador;
c) «Ciclo de fogo» o conjunto de operações realizadas sequencialmente que ocorrem durante o funcionamento das armas de fogo de carregar pela culatra;
d) «Culatra aberta» a posição em que a culatra ou a corrediça de uma arma se encontra retida na sua posição mais recuada, ou de forma que a câmara não esteja obturada;
e) «Culatra fechada» a posição em que a culatra ou corrediça de uma arma se encontra na sua posição mais avançada, ou de forma a obturar a câmara;
f) «Disparar» o acto de pressionar o gatilho, accionando o mecanismo de disparo da arma, de forma a provocar o lançamento do projéctil.
5 - Outras definições:
a) «Armeiro» qualquer pessoa singular ou colectiva cuja actividade profissional consista, total ou parcialmente, no fabrico, compra e venda ou reparação de armas de fogo e suas munições;
b) «Campo de tiro» a instalação exterior funcional e exclusivamente destinada à pratica de tiro com arma de fogo carregada com munição de projecteis múltiplos;
c) «Carreira de tiro» a instalação interior ou exterior, funcional e exclusivamente destinada à prática de tiro com arma de fogo carregada com munição de projéctil único;
d) «Casa forte ou fortificada» a construção ou compartimento de uso exclusivo do portador ou detentor, integralmente edificada em betão, ou alvenaria, ou com paredes, soalho e tecto reforçados com malha ou estrutura metálica, sendo em todos os casos dotado de porta de segurança com fechadura de trancas e, caso existam, janelas com grades metálicas;
e) «Data de fabrico de arma» o ano em que a arma foi produzida;
f) «Detenção de arma» o facto de ter em seu poder ou na sua esfera de disponibilidade uma arma;
g) «Disparo de advertência» o acto voluntário de disparar uma arma apontada para zona livre de pessoas e bens;
h) «Equipamentos, meios militares e material de guerra» os equipamentos, armas, engenhos, instrumentos, produtos ou substâncias fabricados para fins militares e utilizados pelas Forças Armadas e forças e serviços de segurança;
i) «Estabelecimento de diversão nocturna», entre as 0 e as 9 horas, todos os locais públicos ou privados, construídos ou adaptados para o efeito, na sequência ou não de um processo de licenciamento municipal, que se encontrem a funcionar essencialmente como bares, discotecas e similares, salas de jogos eléctricos ou manuais e feiras de diversão;
j) «Engenho explosivo civil» os artefactos que utilizem produtos explosivos cuja importação, fabrico e comercialização está sujeito a autorização concedida pela autoridade competente;
l) «Engenho explosivo ou incendiário improvisado» os artefactos que utilizem produtos ou substâncias explosivas ou incendiários de fabrico artesanal não autorizado;
m) «Guarda de arma» o acto de depositar a arma em cofre ou armário de segurança não portáteis, casa-forte ou fortificada, bem como a aplicação de cadeado ou mecanismo que impossibilite disparar a mesma, no interior do domicílio ou outro local autorizado;
n) «Porte de arma» o acto de trazer consigo uma arma municiada ou carregada ou em condições de o ser para uso imediato;
o) «Recinto desportivo» o espaço criado exclusivamente para a prática de desporto, com carácter fixo e com estruturas de construção que lhe garantam essa afectação e funcionalidade, dotado de lugares permanentes e reservados a assistentes, após o último controlo de entrada;
p) «Transporte de arma» o acto de transferência de uma arma descarregada e desmuniciada de um local para outro, de forma a não ser susceptível de uso imediato;
q) «Uso de arma» o acto de empunhar ou disparar uma arma;
r) «Zona de exclusão» a zona de controlo da circulação pedestre ou viária, definida pela autoridade pública, com vigência temporal determinada, nela se podendo incluir os trajectos, estradas, estações ferroviárias, fluviais ou de camionagem com ligação ou a servirem o acesso a recintos desportivos, áreas e outros espaços públicos, dele envolventes ou não, onde se concentrem assistentes ou apoiantes desse evento;
s) «Cadeado de gatilho» o dispositivo aplicado à arma que se destina a impedir a sua utilização e disparo não autorizados.»


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Léxico: «unidose»

Dose letal

Os que negam, valha-me Deus, a legitimidade do uso de vocábulos não dicionarizados têm por estes dias um motivo para se arreliarem: o termo «unidose» está a alastrar pelo País. «Os medicamentos vendidos em unidose não vão avançar para já. A maioria socialista chumbou ontem no Parlamento o diploma do CDS-PP que fazia essa recomendação ao Governo» («PS chumba unidose com uma abstenção na bancada», Ana Kotowicz, Meia Hora, 24.1.2008, p. 4). Esses mesmos, valha-me Deus, se consultarem o Dicionário Houaiss, talvez o maior dicionário de língua portuguesa, ficarão a patinar confrangedoramente entre «unido» e «unifamiliar».

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Tradução: «sunroom»

Ah, pois…

      Numa obra em língua inglesa em que sejam usados, lado a lado, os vocábulos sunroom e solarium, como traduzir o primeiro? Sim, lado a lado, porque, se aparecem isolados, os tradutores têm a tendência para traduzir ambos por… solário. Fácil. Lado a lado, insisto, não têm escapatória. Para mim, sunroom é jardim-de-inverno e solarium é solário. Quem tiver uma solução melhor, mais adequada, que o diga agora ou se cale para sempre.

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«À última hora»

Maus exemplos


      Posso estar enganado, mas hoje em dia qualquer reformado leitor de jornais sabe que se não deve dizer «à última da hora», mas sim «à última hora». Ainda assim, podemos ver professores, como Luciano Amaral (licenciado e mestre em História pela Universidade Nova de Lisboa, doutorado em História e Civilização pela European University Institute (Florença) e professor na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa) a fazê-lo: «A novidade estava no facto de o fazer apenas à última da hora, quando está prestes a sair. Eis o mais claro sinal do realinhamento “realista” da política externa dos EUA» («O filho pródigo», Meia Hora, 24.1.2008, p. 2).
      Um bom exemplo: «Eu deduzira já que naquele quadro, composto com um cuidado que se adivinhava não haver nascido à última hora, me cabia com a mana Carolina a função mais importante» (Camilo Broca, Mário Cláudio, D. Quixote, Lisboa, 2.ª ed., 2007, p. 16).



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Tradução: «cap and kepi»


Não é bem assim

Num livro inglês, o «cap and kepi» como o da Legião Estrangeira traduz-se por «quépi com cobre-nuca» e não por «chapéu com lenço». Claro que o cobre-nuca também é, nas antigas armaduras, a parte do capacete que cobria a nuca, mas decerto que suporta a polissemia, ou não? Também, para ficarmos ainda nas armaduras antigas, a cimeira era o elmo ou, outra acepção, o ornato que enfeitava o cimo de um capacete. E depois? Chapéus com lenços há muitos. Algumas camponesas, cá como no Brasil, usavam chapéu com lenço. O símbolo do Movimento das Mulheres Camponesas do Brasil (MMCB) é precisamente um chapéu com lenço roxo.

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Mais pleonasmos

Ilegal ilegal

A ANTRAL queixa-se de que «o serviço de táxi tem decaído face ao negócio paralelo ilegal de carrinhas particulares». Que eu saiba, um negócio paralelo já é um negócio ilegal. Está nos dicionários: «paralelo adj. Que existe à margem da lei ou daquilo que é considerado a norma, o normal» (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa). Claro que os jornalistas se limitam a reproduzir o pleonasmo, como, mais uma vez, Tiago Alves, no noticiário das três da tarde na Antena 1.

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Pleonasmo

Não abuse

No noticiário do meio-dia, na Antena 1, Tiago Alves quis que o actor Heath Ledger tenha morrido — pese embora outros meios de comunicação equacionarem, a par desta, a hipótese de suicídio — de «abuso excessivo» de droga. Ora, que eu saiba, uma das acepções do vocábulo «abuso» é precisamente «uso excessivo», pelo que um «abuso excessivo» é pleonástico. Um abuso de linguagem. Um mau uso. Enfim.

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Caubóis e «cowboys»

Os rapazes das vacas

Muito mais do que nós, veja-se como os Brasileiros oscilam entre usar estrangeirismos sem sequer o indicarem e aportuguesarem palavras que nos habituámos a ver como inapelavelmente inadaptáveis. «Segundo o New York Times, o ator [Heath Ledger] morava num apartamento cuja dona é a também atriz Mary-Kate Olsen que, acredita-se, está na Califórnia. Não está claro por quanto tempo ou por que o ator estava morando no apartamento dela. Em 2005, Ledger interpretou o papel de Ennis Del Mar em Brokeback Mountain, sobre dois caubóis que tinham um relacionamento amoroso secreto» («Ator é encontrado morto», Jornal do Brasil, 23.1.2008, p. A21).

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Tradução: «rebranding»

Outra imagem

Está duplamente motivado, este texto. Por um lado, devo regozijar-me por ver que alguns jornais começaram a fazer acompanhar, ainda que não, como preconizei, sistematicamente, alguns estrangeirismos que querem ou têm de usar do respectivo significado. Eis um exemplo do Diário de Notícias: «Porém, a Optimus reivindica para si o maior rebranding (alteração de imagem) alguma vez feito em Portugal» («“Nova” Optimus veste jornais de laranja por 32,4 milhões», P. B., 10.1.2008, p. 61». Por outro lado, a mesmíssima palavra — rebranding — apareceu numa tradução. «Was independence nothing more, he asked, than a rebranding of essentially the same product?» O tradutor quis que fosse: «A sua pergunta era se a independência não seria essencialmente uma mera contrafacção do mesmo produto.» O conceito no âmbito do marketing é este: «Também chamado de reposicionamento, o rebranding é o processo pelo qual um bem ou serviço de uma empresa, com uma determinada marca, é apresentado ao mercado com uma nova identidade» («O que é o rebranding?», António Melo, ver aqui). Assim, dado que não se depreende da definição qualquer carga valorativa, isto é, embora a mudança seja, naturalmente, para melhor, esse é um aspecto que não está na definição, o significado dado pelo jornalista do Diário de Notícias poderá servir de tradução. Ora experimentemos: «A sua pergunta era se a independência não seria essencialmente uma mera alteração de imagem do mesmo produto.» Perfeito.

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Onomatopeias

Whoosh!

A par das interjeições, assunto já aqui tratado, a tradução das onomatopeias oferece igualmente algumas dificuldades. Desta vez, tratava-se da tradução — se se deve traduzir — de whoosh, que é a onomatopeia para ar a ser rasgado por objecto em velocidade. Dizia mais, o original: whoosh of flame. O tradutor optou, decerto depois de muito pensar, por «foguete de chama», que não me parece mal. Contudo, mesmo aqueles, como eu, que leram pouca banda desenhada, já alguma vez usaram um som semelhante para descrever um fluxo de fogo, uma seta a cortar o ar... Se tivéssemos de escrevê-lo, como o faríamos? «Uuuche!»? Parece mais para afugentar galinhas.
Algumas destas vozes imitativas já estão dicionarizadas, como ferrum-fum-fum, para os harpejos da viola, catrapus, para a queda de objectos ou pessoas, chape, ruído do que cai na água, pafe para o ruído de algo a cair, pumba, para uma pancada, rantamplã, para o som de um tambor, rufe-rufe, para o som produzido pelas polpas dos dedos ao raspar por uma superfície (pele de bombo, vidraça, etc.), ruge-ruge, para o rumor de saias que roçam pelo chão, rupe!, para o ruído do varrer, ramerrão, para um ruído sucessivo e monótono, tau, para um ruído seco como um tiro ou pancada, zás, para o ruído de uma queda ou pancada, etc. Deixo algumas — ou simples conjuntos de fonemas ou, como as que citei, palavras — usadas em obras de autores portugueses.

Catrapus.
«Um turista suíço enrola-se num tapete persa e fica deitado ao comprido a fazer-se de morto, as meninas do colégio vinham correndo de narizitos no ar, catrapuz!, encalham no suíço atapetado de persa, estatela-se a primeira fila, depois a segunda, a terceira, assim sucessivamente», Mário Zambujal, Crónica dos Bons Malandros.


Dlom.
«Desdobrou o lenço branco, limpou o suor, reparou que tinha a viola em posição de afinar, continuou: dlom, dlom…», José Marmelo e Silva, Adolescente Agrilhoado.


Pssst.
«Pssst…», Mário Zambujal, Crónica dos Bons Malandros.


Rrrooommm.
«E o rio, o ladrão, parece que se ouvia subir — rrrooommm! rrrooommm! — e a ameaçar as pessoas mesmo quase à porta das casas», José Marmelo e Silva, Adolescente Agrilhoado.


Splakshhh.
«Deu um berro e um salto espavorido, com tanto azar que, na aterragem, os seus noventa quilos, concentrados no calcanhar que primeiro pousou no chão, desfizeram, com um splakshhh tétrico de cartilagens esmigalhadas, a cabeça do ofídio, que se esgueirara pacatamente da sua cesta redonda que tinha ficado mal fechada e da varanda, para se vir alapardar daquele lado da cama», Vasco Graça Moura, O Enigma de Zulmira.

Terrim.
«O terrim da campainha, imperativo, ia-os acanhando», Tomaz de Figueiredo, Dicionário Falado.

Tlintlim. «Ouviu este tlintlim? É a bateria do meu telemóvel a dar o peido mestre», Mário Zambujal, Primeiro as Senhoras.


Truz.
«Disse “vou já, é só um minuto, estou-me a vestir”, mas quem esperava do outro lado insistia, truz truz truz, por que diabo é que as mulheres se lembram sempre desta desculpa, deve ter pensado, pelo menos se se tratava de um homem», Jacinto Lucas Pires, Para Averiguar do seu Grau de Pureza.


Tuca-tuca-tuca
e zás. «Os pais sentem sempre culpa nestas coisas, culpa que geralmente mascaram com zanga, do tipo, não te disse para não fazeres isso?, não te disse para não pores ali a mão?, não te disse para não ires sem mim? […] Tuca-tuca-tuca, areal fora no meu calçanito de favos (havia uns lindos nos anos sessenta), rum ao azul da maré baixa, dois ou três passos nas ondas tépidas e zás, uma dor lancinante» («O banho do pintainho», Fernanda Câncio, Diário de Notícias/Notícias Magazine, 13.4.2008, p. 12).


Zzzzzz.
«Silvino envolve a mão num lenço de quadrados azuis, agarra a alavanca, dá uma mirada em redor, ninguém deste lado, ninguém daquele, puxa de leve, piram-se cinco abelhas a experimentar o voo, zzzzzzz, zzzzzzz, somem-se na direcção do Egipto, não tarda nada ouvem-se os primeiros gritos, gritos dilacerantes, de cortar o coração, e rebenta o cagaçal de pés em correria», Mário Zambujal, Crónica dos Bons Malandros.

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Tradução: «disclaimer»

Avisos

O leitor Miguel Gomes, a quem agradeço as palavras iniciais da sua mensagem, quer saber o que penso sobre a tradução do termo inglês, usado abundantemente na Internet, disclaimer. Depois de transcrever a inepta definição do Michaelis Moderno Dicionário Inglês, cita a que se lhe afigura melhor tradução, que encontrou num site que não identifica: «cláusula de desresponsabilização». Esta é, de facto, a expressão proposta e largamente usada para traduzir aquele vocábulo inglês. Contudo, não concordo. Há aí claramente exagero: nunca podia haver desresponsabilização, mas somente limitação de responsabilidade, que não é, nem pouco mais ou menos, o mesmo. Assim, entre não usar qualquer aviso nesse sentido (a lei geral cobre convenientemente a situação) e ter de usar algum, usaria, sem qualquer dúvida, «termo de responsabilidade», ou «aviso», ou «aviso legal». Mas que se use, usem. Afinal, também no futebol para cegos, sabia?, se usam vendas nos olhos dos jogadores.

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Léxico contrastivo: «estilingue»

Imagem: http://caixadelata.blogspot.com/

Os pardais não gostam


«A greve dos roteiristas americanos tem deixado Akiva Goldsman, ganhador do Oscar de Melhor Roteiro por Uma mente brilhante (2001), em situação embaraçosa: é como se estivesse de braços cruzados contra ele mesmo, por ser produtor e autor do roteiro de Eu sou a lenda (milionário exercício de ficção científica dirigido por Francis Lawrence e estrelado por Will Smith, que chega hoje aos cinemas brasileiros)» («O drama de ser estilingue e vidraça ao mesmo tempo», Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil, 18.1.2008, p. B3). É a nossa funda ou fisga, a que os Brasileiros também chamam atiradeira, badoque, bodoque e baladeira.

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Como se escreve na televisão

Quinta coluna da iliteracia

      Como articulista que é, o escritor e historiador Rui Tavares tem de falar de quase tudo. É multímodo, prolífico, mirífico. Ontem, na Edição da Noite, na Sic Notícias, lá estava ele com José Adelino Maltez e Rui Oliveira e Costa, o director da Eurosondagem, a discutir — porque é mesmo muito discutível — o projecto de lei do PS e do PSD que altera a lei eleitoral autárquica. Por duas vezes, em rodapé, apareceu «Rui Tavares — colonista». Ora, colonista é o que se dedica a questões coloniais, e tal é ofensivo para Rui Tavares, colunista de tudo. Mas os operadores de insersor de caracteres não têm de saber ler?

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Tradução: «best-seller»

Eis a resposta

   Há já muito tempo, alguém escrevia noutro blogue a propósito da tradução ou aportuguesamento de termos como bestseller, copydesk, e layout: «Mas perguntemos ao blogueiro Helder Guégués (Assim Mesmo — http://letratura.blogspot.com/) o [que] ele acha disso.» Passados dezanove meses, e sem pressas, pois que a pergunta não me foi feita directamente, eis a resposta em relação a bestselller: ainda recentemente, revi uma obra em que se podia ler no original: «In a 1,400-page best-selling textbook for medical students, lip service is paid in the first chapter to the doctor-patient relationship, before the book gets down to the real business of the human organism.» Insinua-se por aqui a palavra bestseller? A tradutora, Maria Carvalho, não achou necessidade de recorrer à palavra inglesa: «Num manual de grande venda, com cerca de 1400 páginas, destinado a estudantes de Medicina, fala-se no primeiro capítulo da relação médico-doente, mas apenas em termos formais, antes de se entrar na verdadeira questão, o organismo humano.» (Porque Adoecemos?, Darian Leader e David Corfield, Editorial Bizâncio, Janeiro de 2008.) Quem perguntava fazia-o, afirmava, «pela necessidade do termo». Qual necessidade?

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«Evocar» e «invocar»

Todos os santinhos

      Como já é a segunda vez numa semana, decido-me: os verbos evocar e invocar não são inteiramente sinónimos. Ontem, no frente-a-frente do Jornal das 9 da Sic Notícias, Helena Roseta disse «evocar argumentos». Há poucos dias, foi um tradutor, que pretendeu que uma personagem «dificilmente podia evocar desconhecimento da decisão» («could hardly protest to be innocent of the decision», no original). Vamos lá ver: posso, se me apetecer, evocar alguém que invocou algo. Invocar tem como étimo o latim invocare e significa implorar a protecção ou o auxílio, fazer súplicas, chamar em seu socorro, pedir, rogar, suplicar. Como também significa alegar em seu favor, recorrer a. Assim, invocamos a protecção de Santa Bárbara, especialmente se estiver a trovejar, e depois esquecemo-la ingratamente, e invocamos desconhecimento da lei — e não ganhamos nada com isso, pois que a lei, sábia, já prevê que «a ignorância ou má interpretação da lei não justifica a falta do seu cumprimento nem isenta as pessoas das sanções nela estabelecidas». Evocar também vem do latim e significa chamar de algum lugar, fazer aparecer, chamando por meio de esconjuros, invocações ou exorcismos; trazer à lembrança. Assim, podemos evocar o Diabo, e, embora no respeito da gramática, arrepender-nos-emos. E podemos evocar a nossa bucólica infância à beira do Sado (e se julgam que estou a falar de mim, enganam-se).
      O Livro de Estilo do Público alerta sucintamente: «Evocar/invocar — São quase sinónimos, mas em certas expressões fixou-se um deles: evocar o passado (recordar, reproduzir na mente); cerimónia evocativa; evocar os espíritos (chamar para que apareçam); invocar a Virgem (chamar em auxílio); invocar o perdão (suplicar); invocar um testemunho (recorrer a ele).»

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Regência do verbo «responder»

Respondo

O leitor Jeová Barros, brasileiro, pediu-me que explicasse a regência do verbo responder. Como não especifica a dúvida que tem, parto do princípio de que se trata da questão da regência deste verbo como transitivo directo e indirecto e como transitivo indirecto. Assim, pode-se responder alguma coisa a alguém, e será o primeiro tipo de regência que usamos, e pode-se responder a alguém ou a alguma coisa, e estaremos a usar o segundo tipo de regência. Contudo, não quero deixar de transcrever uma nota final do verbete relativo a este verbo no Dicionário de Verbos e Regimes, de Francisco Fernandes (Editora Globo, São Paulo, 36.ª edição, 1989, p. 522): «Carlos Góis (Sint. reg., 86) diz que se pode construir indiferentemente responder a carta ou à carta. Mas a leitura dos bons exemplos da língua demonstra que a melhor sintaxe é aquela em que responder “rege acusativo daquilo que se responde, e dativo daquilo ou daquele a que se responde”. (E. C. Per., Gram. hist., 326.) Vem a pêlo, ainda, transcrever aqui a lição de Cândido Lago sobre a regência deste verbo: “Convém dizer corretamente — ‘Respondendo ao vosso ofício…’ ‘respondendo à sua carta de’, etc., etc. Aquilo que a pessoa responde é que é o objeto directo; mas o ofício ou a carta a que a pessoa responde é objeto indireto; por exemplo: — ‘Que respondeste tu ao ofício do diretor?’ — ‘Ao ofício do diretor respondi que o pretendente não estava…’ Vê-se claramente que o objeto direto de ‘respondi’ é a cláusula substantiva seguinte: ‘que o pretendente não estava…’” (C. Lago, O que é correto, 53).»

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Pronúncia: «Reading»

He is a man of wide reading

Acabei de ouvir o noticiário das 8.30 na Antena 1. Nas notícias do desporto, ao falar dos resultados da Primeira Liga inglesa, o jornalista referiu-se ao jogo Reading-Tottenham, pronunciando o primeiro destes nomes como se se tratasse de uma forma do verbo inglês to read. Nada mais errado: Reading, o topónimo (e o mesmo se aplica ao antropónimo), lê-se /Réding/. Claro, são coisas básicas, mas no momento da verdade o escorreganço é confrangedor. E fica mal a um jornalista. Em tempos de televisão por cabo, com a Internet, esqueçam Fradique Mendes: «Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: — todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro.» Se as temos de falar, façamo-lo com o mínimo de proficiência.

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Léxico contrastivo: «quilombola»

Outros guetos

Já aqui falei, a propósito do bairro lisboeta da Madragoa e do Convento das Trinas, erigido numa zona chamada Mocambo, dos quilombos. Hoje é a vez dos quilombolas, que são os escravos refugiados num quilombo. «Concebidos como forma de luta e resistência, os quilombos devem ser considerados uma criação original do negro escravizado no Brasil e contrapõem-se à versão de que o cativeiro foi aceito com resignação. A Lei da Terra, de 1850, proibia que descendentes de quilombolas assumissem a posse das áreas onde viviam. Só em 1988 a Constituição revogou a proibição, tornando responsabilidade da União a garantia da posse aos remanescentes» («A questão quilombola», Ivaldo Ananias da Paixão, O Povo, 20.11.2007, p. 5).

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Léxico contrastivo: «engavetamento»

Bem encaixados

      «O engavetamento de três ônibus e quatro veículos de passeio próximo ao vão central da Ponte Rio-Niterói, no sentido Rio, obstruiu o trânsito niteroiense em todas as vias de entrada da cidade e atingiu ainda o município vizinho, São Gonçalo, na manhã de ontem. Segundo o chefe da Polícia Rodoviária Federal (PRF) na Ponte Rio-Niterói, inspetor João Santos Gama, o acidente ocorreu por volta das 7h40min e deixou 22 pessoas feridas» («Engavetamento pára a Ponte Rio-Niterói», Jornal do Brasil, 15.1.2008, p. A12). Na definição do dicionário Aulete Digital, engavetamento é a «colisão que, pela violência do choque, deixa veículos encaixados uns nos outros».

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Léxico contrastivo: «escanteio»

Mau futebol

«Os idosos, que antes entravam de graça no PV [Estádio Presidente Vargas], passaram a ter o direito questionado. A confusão na interpretação da lei tem deixado vários deles fora dos estádios em 2008» («Idosos para escanteio», Ciro Câmara, O Povo, 13.1.2008, p. 14). Bom jogo de palavras: «escanteio» é termo futebolístico equivalente ao nosso pontapé de canto e, ao mesmo tempo, na linguagem popular, o acto de abandonar alguém.

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Léxico contrastivo: «jegue»

Um burro com outro nome

«Na sua campanha para a reeleição para a Presidência em 1998 na região, FH [Fernando Henrique] colocou um chapéu de couro e montou num jegue. Deu certo. Corre a história de que Serra viu uma galinha viva pela primeira vez durante a malsucedida campanha de 2002. Um jegue é bem maior, sabe o tucano. E Bob terá de arrumar um» («Procura-se um jegue para Serra», Leandro Mazzini, Jornal do Brasil, 12.1.2008, p. A4). O jegue (termo registado no meu glossário dos equinos e asininos, aqui) é o nosso jumento.

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Glossário: festas da Antiguidade

Festas da Antiguidade


Alétidas f. pl. Festas atenienses em honra de Erígona, filha de Ícaro.
Ambarvais f. pl. Festas celebradas em Roma e noutras cidades latinas, destinadas a chamar a protecção dos deuses, principalmente de Ceres, sobre a terra, de modo que se afastassem os furores de Marte e as colheitas fossem boas e os campos férteis.
Ateneias f. pl. Festas que se celebravam na antiga Grécia, em honra de Atena, a Minerva grega.
Canefórias f. pl. Festa pagã que na Grécia antiga se celebrava em honra de Diana, Ceres e Baco, em que mulheres levavam à cabeça açafates com objectos para os sacrifícios e oferenda aos deuses.
Caprotinas f. pl. Festas que, em Julho e entre os antigos Romanos, se celebravam em honra de Juno.
Compitais m. Festas romanas, em honra dos deuses Lares das encruzilhadas das ruas ou caminhos.
Deipnofórias f. pl. Festas das corridas instituídas por Teseu no seu regresso a Creta, onde matara o Minotauro.
Délias f. pl. Festas que na Grécia antiga se celebravam de cinco em cinco anos, em Delfos, e em honra de Apolo, que aí nascera.
Florálias f. pl. Antigas festas em honra de Flora, que se celebravam em Roma, na Primavera.
Fontanálias f. pl. Festas celebradas em Roma a 13 de Outubro de cada ano, em honra das ninfas das águas; celebravam-se no monte Celius.
Fontinais f. pl. Festas que se celebravam em honra das ninfas das fontes.
Junónias f. pl. Antigas festas em honra de Juno.
Juturnais f. pl. Festas romanas em honra de Juturna.
Lacedemónias f. pl. Festas de Esparta, feitas pelas mulheres, com exclusão dos homens.
Lamptérias f. pl. Antigas festas, com iluminações, em honra de Baco, depois das vindimas.
Latinas f. pl. Festas em honra de Júpiter, que os Romanos celebravam no Lácio.
Lupercais f. pl. Festas da Roma antiga, em honra de Pã, deus dos rebanhos e dos pastores.
Pacalias f. pl. Festas que se celebravam em Roma, em honra da paz.
Paganálias f. pl. Antigas festas em honra de Ceres, também chamadas paganais.
Palília f. Festa dos pastores em honra de Palés e que se celebrava em Roma a 21 de Abril, aniversário da fundação da cidade.
Parentais f. pl. Festas fúnebres anuais em memória dos parentes mortos.
Parílias f. pl. Festa que as damas grávidas da antiga Roma celebravam para terem partos felizes.
Portunais f. pl. Antigas festas romanas em honra de Portuno, deus dos portos.
Prometeias s. f. Festas anuais que se celebravam em Atenas em honra de Prometeu.
Quinquátrias f. pl. Festas que se celebravam em Roma, durante cinco dias, de quatro em quatro anos, em honra de Palas.
Ramálias f. pl. Festas que se celebravam em Roma, em honra de Ariadne e de Baco, e nas quais se levavam cepas de videiras carregadas de cachos de uvas.
Regifúgio m. Festa anual celebrada na antiga Roma, a 24 de Fevereiro, em comemoração da expulsão dos Tarquínios.
Robigálias f. pl. Festas em honra de Robigo, que se celebravam na antiga Roma a 25 de Abril, época em que os trigos estão em flor e começam já a formar-se as espigas.
Sabázias f. pl. Antigas festas de Gregos e Romanos em honra de Baco e de Júpiter.
Sáceas f. pl. Festas que se celebravam na Pérsia antiga e durante as quais os escravos mandavam nos amos.
Sarónias f. pl. Festas celebradas em Trezena, todos os anos, em honra de Diana.
Septimátrias f. pl. Antigas festas romanas que se celebravam em honra de Minerva, no sétimo dia depois dos idos.
Sotérias f. pl. Festas que os Antigos celebravam em acção de graças aos deuses por se verem livres de algum perigo ou, especialmente, de alguma epidemia.
Targélias f. pl. Antigas festas áticas que eram celebradas em honra de Diana.
Vacunais f. pl. Festas que se celebravam em Roma, em honra de Vacuna, principalmente entre as populações de origem sabina.
Venerais f. pl. Festas romanas que eram em honra da deusa Vénus.
Vestálias f. pl. Antigas festas pagãs em honra de Vesta.
Vicenálias f. pl. Festas que na antiga Roma se celebravam de vinte em vinte anos, em geral de carácter religioso, que, por decisão do Senado, tinham por fim implorar aos deuses a conservação da saúde do imperador.
Vinálias f. pl. Nome dado, na antiga Roma, às festas que se celebravam em Setembro, no começo da vindima, e em Maio, quando se procedia à prova do vinho novo.
Vulcanais f. pl. Festas anuais que se celebravam em Roma, a 23 de Agosto, em honra de Vulcano.


[Glossário em construção: 43 entradas.]

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Explicação de um topónimo: Maias

A razão de um nome

O historiador Joaquim Boiça (autor do projecto museográfico do farol-museu de Santa Marta) lembra, no Oeiras Actual, boletim municipal de Oeiras, a hipótese explicativa do nome do forte de S. João das Maias. «S. João das Maias, esporão rochoso e fortificação, há muito que são uma referência na paisagem ribeirinha de Oeiras. Do nome que exibem não se sabe, ao certo, a origem. O de “Maias”, enten­da-se. O do santo, esse, não suscita grandes interrogações: é o padroeiro da segunda fortificação que se ergueu neste sítio, após a Restauração de 1640, em honra do qual se levantou, em ano incerto, altar e capela própria. Sacra invocação, qual escudo es­piritual, que não defendia as muralhas e os artilheiros das balas inimigas, mas que nenhuma fortaleza ou exército dispensava de possuir. Porquê S. João, em particular, está por saber com rigor. Quanto ao nome “Maias”, houve quem alvitrasse que derivaria da existência e captura no local dos característicos crustáceos que cientificamente trazem esta designação (maias) e que a voz po­pular chama de santolas. Não sendo improvável, fica muita coisa por explicar, desde logo a presença, necessariamente significati­va, de colónias destes crustáceos, pouco dados a aparecer junto a penedias costeiras, a não ser quando, por razões que a razão des­conhece, como foi recentemente testemunhado em local próximo, têm derivas colectivas e resolvem, simplesmente, dar à costa...» («As Maias — Fortes e Crustáceos», Joaquim Boiça, Oeiras Actual, n.º 180, Dezembro de 2007, p. 26). De facto, a maia é um género de crustáceos decápodes da família dos Majidae (José Pedro Machado escreveu «Maiídeos», que não vejo usado em mais lado nenhum), que conhecemos vulgarmente como santola ou centola.

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Léxico contrastivo: «pitboy»

Como cães

«A decisão do juiz Joaquim Domingos de Almeida, do 9.º Juizado Especial Criminal do Rio de Janeiro, que proibiu seis redes de TV e quatro jornais de divulgar os nomes de dois adolescentes que agrediram um grupo de prostitutas na Barra da Tijuca, em novembro de 2007, foi criticada ontem pela Associação Nacional de Jornais (ANJ). Além de omitir os nomes, os meios de comunicação, não podem veicular imagens dos agressores, que foram condenados a trabalhar na limpeza urbana» («ANJ critica proteção a pitboys da Barra», Jornal do Brasil, 11.1.2008, p. A12). Em vão tentamos saber, pela notícia, o que são os «pitboys» do título. Serão, suspeitamos, aqueles adolescentes, e por aqui ficamos. O dicionário Aulete Digital, que tão útil é na definição de neologismos, não nos ajuda nesta ocasião.
Encontramos, contudo, um texto do Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Lingüísticos, intitulado «Recepção lingüística: o caso dos neologismos lexicais», da autoria de Shirley Lima da Silva Braz, em que se pode ler: «Ilustra-se essa produtividade lingüística com o uso recente do prefixo “pit”. Originário da palavra pitbull, que designa uma raça de cachorros em geral violenta, foi aproveitada a parte inicial “pit” para a formação de “pitboy”, vocábulo que designa rapazes agressivos de classe média, que fazem valer sua vontade pela força física. Esse prefixo é, sem dúvida, um caso interessante. Daí, já surgiram “pitmamãe”, “pitpapai”, “pitfamília” (O Globo, 04 de abril de 2004) e já se encontra um novo vocábulo — derivado semanticamente de pitboy: Cristoboys (Extra, 13 de junho de 2004), ou seja, manteve-se a parte final (boy), juntando-se o prefixo Cristo, para designar jovens musculosos, parecidos fisicamente com os pitboys, mas que são evangélicos.»

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Clientes e fregueses

Crenças


      A palavra inglesa customer, que se traduz por «freguês», fez-me lembrar a questão de esta palavra, na opinião de alguns, ser muito mais vernácula do que «cliente», que vem directamente do inglês client. Certo, mas a etimologia de «freguês» leva-nos igualmente a pensar nos caminhos ínvios da vida das palavras, na semântica. «Freguês», vem, sabia o leitor?, de fili Ecclesiae, ou seja, filho da Igreja. De modo que um freguês era, originariamente, isso mesmo: um filho da Igreja, um paroquiano. Por vezes, brinco com um vizinho homeopata que tem um consultório. Se vejo aproximar-se um cliente, digo-lhe: «Aí tem mais um crente, amigo.» «Cliente» tem boa estirpe: vem do latim, através do inglês, cliens,clientem, que era o indivíduo que estava sob a protecção de cidadãos poderosos ou patronos.
      Já depois de publicado este post, o leitor Manuel Resende lembrou-me que em inglês patron (que vem do latim, pois claro, patronus, étimo do nosso «patrão») significa «cliente habitual». Mais circular não podia ser.

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Léxico: «praticidade»

Faz falta

Enquanto cá nos interrogamos se existe algum nome derivado do adjectivo «prático», no Brasil usam-no sem remorsos: «Gatos: opção que ganha fôlego por sua praticidade», Felipe Sil, Jornal do Brasil, 10.1.2008, p. R6).

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Léxico: «premiação»

Galardão

«Desiludidos com a lista de pré-selecção à nomeação ao Óscar de Melhor Documentário anunciada pela Academia de Hollywood em Novembro, o documentarista AJ Schnack, a distribuidora independente online IndiePix e um grupo de programadores de festivais de cinema dos EUA e do Canadá decidiram lançar uma nova premiação destinada aos documentários, e alternativa às estatuetas» («Premiação documental alternativa à dos Óscares criado nos EUA», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 9.1.2008, p. 50). É muito bom renovar o léxico, mas tenho sérias dúvidas de que o vocábulo «premiação» seja usado com propriedade na frase. É que «premiação» é o acto ou efeito de premiar e a própria entrega — não um sinónimo de «prémio», como «galardão», por exemplo. Mas fico a reflectir nisso.

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Os erros do canal Panda

Natal sem gramática

No episódio de ontem do Ruca II, no canal Panda, comemorava-se, atrasado, o Natal. No infantário, ficámos a saber algumas particularidades da forma como cada miúdo — a turma é multiconfessional, como muitas escolas em Portugal o são actualmente — celebrava a quadra. Vejam quão educativo pode ser um episódio: «Em casa dos gémeos Jaime e Jorge decoram a árvore de Natal com pipocas. Às vezes não haviam pipocas suficientes.» Já aqui iniciei campanhas contra atentados semelhantes à língua portuguesa, e alguns, como os de jogos à venda nos hipermercados Feira Nova, com êxito. Peço aos meus leitores que enviem uma mensagem de protesto para o canal Panda, como eu próprio vou fazer: panda@canal-panda.com.

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Léxico contrastivo: «tensionar»

Provocar tensão

«Cartaxo disse ao O POVO, momentos antes da plenária, que o grupo deverá tensionar a nova diretoria, especialmente no que diz respeito a uma das grandes divergências dos então candidatos para o comando do PT no Ceará no final de 2007: a manutenção da aliança PMDB, PSB e PT no bloco de aliança no Estado» («Cartaxo promete tensionar debate», Marcela Belchior, O Povo, 7.1.2008, p. 15). Lê-se, por vezes, em especial em textos técnicos, o verbo tensionar («tensionar uma mola», v. g.), que, à primeira vista, só tem contra si o facto de se poder confundir com tencionar. O francês tem o verbo tensionner. No exemplo do jornal brasileiro, todavia, não se vê que «tensionar» seja mais explícito que «pressionar», por exemplo. É um neologismo quase sempre dispensável.

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Como se escreve na imprensa

Sinos e prestações

Vejam este título da edição de hoje do Meia Hora: «Primeiro sino astronauta vai passear no Espaço este ano». Inequívoco e gramaticalmente correcto: alguém, um país, vai mandar um sino para o espaço. Nada de mais. Aliás, uma cadela não é mais do que um sino. Claro que não deixamos de nos perguntar para quê, mas por vezes a ciência é insondável. Logo o primeiro parágrafo da notícia, porém, nos despersuade de que uma cadela não é mais do que um sino: «Pequim anunciou os seus planos espaciais para 2008, em que deverá lançar 15 foguetões, pôr em órbita 17 satélites e promover a sua terceira missão tripulada, que vai incluir o primeiro passeio espacial por parte de um astronauta chinês, informou ontem a agência de notícias oficial» («Primeiro sino astronauta vai passear no Espaço este ano», Meia Hora, 9.1.2008, p. 12). Sino é um antepositivo, um elemento de composição, não pode andar por aí à solta como uma gaivota.
E se tivéssemos mais cuidado com o que escrevemos, não seria melhor? Logo um dos títulos da primeira página é de arrepiar: «Pensões de reforma: aumento atrasado, curto e pago às prestações deixa oposição à beira de um ataque de nervos». «Às prestações»?

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Léxico contrastivo: «síndico»

Uma espécie de advogado

«Moradora e ex-síndica, Otilde Bandeira só lamenta que o raro indicador de andares em forma de relógio, que fica em cima da porta, tenha quebrado no ano passado. “Foi uma loucura conseguir o conserto”» («Sobe e desce», Anna Luiza Guimarães, Jornal do Brasil, 6.1.2008, p. A16). Vem do grego σύνδικος (syndikos), «advogado, representante», a que pertence também o vocábulo «sindicato». No Brasil, é a pessoa que administra um condomínio, geralmente, como em Portugal, um condómino. Os Portugueses conhecem a palavra das telenovelas. Corresponde ao nosso administrador.

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Tradução

Fitas e adesivos

Na Sic Mulher, na série inglesa Animal Hospital, tão reveladora da singularidade dos Ingleses, dois adolescentes levaram uma periquita, a Snowy, ao veterinário. Tinha, viu-se depois bem na radiografia, uma pata fracturada. Rolf Harris (australiano a viver desde 1952 no Reino Unido), o apresentador do programa, perguntou à veterinária se ia usar talas, ao que ela respondeu que usaria tape, que tanto significa «fita-cola» como «adesivo». No contexto, contudo, só poderia traduzir-se por adesivo, e foi isso que vimos, e não é preciso ser-se veterinário ou alveitar para perceber porquê. Na legenda, lemos, com espanto e incredulidade, que usaria fita-cola. Coitado do pássaro. E do tradutor, que trabalha para a Pluridioma.

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Como se fala na rádio

Capit_ _s de Abril

      No noticiário das 21 horas de ontem na Antena 1, o jornalista Daniel Belo disse, convictamente e na sua bela voz, que «Luisão é um dos capitões da equipa».
      Primeiro a gramática. É verdade que a maioria dos substantivos terminados em -ão pluraliza, por razões etimológicas, em -ões. (É neste grupo, não esqueçamos, que se incluem os infindáveis aumentativos.) Não é neste grupo, porém, que se encaixa «capitão». Há depois um grupo, reduzido, de substantivos em -ão cujo plural não está definitivamente fixado, como é o caso, por exemplo, de «aldeão», com dois plurais: aldeãos e aldeães; de «ancião», com três plurais: anciãos, anciões, anciães; de «ermitão», etc. Também não é a este grupo que pertence «capitão». «Capitão» faz parte de um grupo, igualmente reduzido, de substantivos que pluralizam em -ães:

alemão/alemães;
bastião/bastiões;
cão/cães;
capelão/capelães;
capitão/capitães;
catalão/catalães;
charlatão/charlatães;
escrivão/escrivães;
guardião/guardiões;
pão/pães;
sacristão/sacristães;
tabelião/tabeliães.

      Quanto às circunstâncias do erro. É também verdade que falar não é escrever. Quem escreve pode corrigir sem que os destinatários o saibam. Quem fala em directo numa rádio ou na televisão ou erra e não liga ou corrige. Na minha opinião deve corrigir sempre. Para João Paulo Meneses, autor do excelente Tudo o que se passa na TSF — … para um «livro de estilo» (Editorial Notícias, 2003), não é sempre assim, pelo menos no que respeita aos «pequenos erros»: «Podemos rectificar de imediato mas também deixar seguir: se tivermos em conta que qualquer rectificação funciona como um alerta (redobrado) do próprio erro, então nestas pequenas gralhas a correcção não é necessária» (p. 269). Já aqui apresentei as razões da minha discordância.


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Expressão: «papa negro»

Superior dos Jesuítas

«Desde o último dia 6 de janeiro, representantes da Companhia de Jesus no mundo inteiro estão reunidos em Roma para repensar sua identidade e missão para os anos vindouros. E sua primeira providência será eleger um novo superior geral. Pela primeira vez na história, o assim chamado “papa negro” renuncia ao cargo ainda em vida e sua renúncia é aceita pelo papa. O novo geral, que será eleito pelos 225 delegados de todas as províncias da Ordem, terá diante de si uma árdua e bela missão: governar a Companhia pelos próximos anos. Diante de si terá dois grandes e reais desafios» («Uma companhia para o século 21», Maria Clara Bingemer, Jornal do Brasil, 7.1.2008, p. A10). A designação deve-se simultaneamente à cor das vestes dos Jesuítas e à importância da ordem no seio da Igreja Católica.

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Como se fala na rádio

Todos os nomes

Queria expressar a minha solidariedade com o director-geral de Saúde, Dr. Francisco George. Não, como seria de esperar, por causa de toda a oposição à aplicação da chamada Lei do Tabaco (Lei n.º 37/2007, de 14 de Agosto), mas pelo facto de os jornalistas da rádio lhe deturparem quase sempre o nome. Na Antena 1, ora é «Jorge» ora «Géorge». Conheço o nome do director-geral de Saúde desde os tempos em que ele era delegado de saúde em Beja e escrevia para o Diário do Sul. Nunca me passou — e porque havia de passar? — pela cabeça aportuguesar-lhe o nome. Quanto a deturpações, já basta com o meu: Helder Guedes?

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