Legendas

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      Fui à antestreia (e não «ante-estreia», como se vê escrito muitas vezes) do filme Volver, de Pedro Almodóvar. Gostei muito, sim senhor. Já as legendas, da responsabilidade de Fátima Chinita, as poucas vezes que as li, não me pareceram incontestáveis, pelo contrário. Dois exemplos: traduzir rosquilla por «donut» não faz qualquer sentido. E quanto a «língua de sogra» para verter barquillo, nem pensar. Terá querido escrever «língua-de-sogra», o que é diferente. E mais: se tivesse deixado «barquilho» não teria sido má opção. No meu caso pessoal, conheci primeiro a palavra «barquilho». Vendo bem, conheci primeiro a palavra barquillo.

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Patronímicos

Dos nomes

      Suscita sempre algum interesse tudo o que se relaciona com os nossos nomes. É sabido que na Idade Média havia o costume de juntar ao nome de baptismo o nome próprio do pai (curiosamente, nos países árabes é, ainda hoje, o oposto: os homens árabes começam a vida com uma denominação como «filho de X» — bin ou ibn X — e, depois de terem tido um filho, podem adoptar a denominação «pai de Y» — Abu Y) para distinguir pessoas diferentes, mas que tinham o mesmo nome. Surgiram então os chamados patronímicos. Distinguem-se pela terminação -es, e antiga -ez, correspondente, já adivinharam, ao genitivo latino -ci. Temos, assim, José Fernandes, que significa José, filho de Fernando, etc. Mais tarde, deixaram de ser usados com esta função de filiação, passando a ser meros nomes. Eis alguns patronímicos e os nomes de que derivaram:

Álvares — Álvaro
Antunes — António
Fernandes — Fernando
Gonçalves — Gonçalo
Lopes — Lopo
Mendes — Mendo
Nunes — Nuno
Pais — Paio
Ramires — Ramiro
Rodrigues — Rodrigo
Sanches — Sancho
Soares — Soeiro
Vasques — Vasco
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Género de «modelo»

O uso e o abuso

      O uso faz lei, diz-se, e, sob certas condições, isso é verdadeiro. Contudo, não podemos invocar esse argumento por dá cá aquela palha, pois isso desgasta-o e tende a erigir em norma o que é excepção. Vem esta reflexão a propósito do género do vocábulo «modelo»: pese embora quase todos os dicionários o darem como masculino, o uso vai impondo o género feminino. Vejamos um exemplo. «A ex-modelo de 38 anos queria refazer a sua vida na América após o conturbado divórcio mas, de acordo com um amigo, está sem emprego» (Hether [sic] Mills está sem trabalho na América», Público, 22.08.2006, p. 42).


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Tradução

Dez milhões de tradutores

      Nunca quero dar uma ideia muito risonha da minha actividade, não vá alguém lançar-me mau-olhado ou querer, como castigo, pagar-me menos. Mas, francamente, que hei-de fazer quando me chegam às mãos traduções como esta que se segue? O original dizia: «Subsistió la fábrica hasta que, durante la Guerra de la Independencia, su edificio —que el pueblo de Madrid designaba La China— fue destruido por los cañones ingleses.» O tradutor reinterpretou a História: «A fábrica subsistiu até que, durante a Guerra da Independência, o seu edifício — que o povo de Madrid chamava La China — foi destruído pelos cânones ingleses.» Não fisicamente, claro, mas a fábrica poderia, de facto, ter sido destruída pelos novos cânones ingleses no fabrico de porcelana, em especial os difundidos pelas fábricas de Chelsea, Bow, Derby e Worcester.


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Léxico: bruíço

As brumas da Academia

      Há já muitos anos que conheço um regionalismo muito interessante: bruíço. Conhecem? É usado em Vila Nova de Foz Côa e designa a pedra granítica sobre a qual se costumam quebrar as nozes e as amêndoas. Muito poucos dicionários o registam. O Dicionário da Academia, por exemplo, passa directamente de bruços para bruma, deixando nesta o vocábulo procurado. Entretanto, abriu em Foz Côa um restaurante chamado O Bruíço, conhecido por servir a antiga sopa seca de Trás-os-Montes, a que deram — apelando aos apetites turísticos — o nome de sopa do Paleolítico.


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Palavras concanis

Da Índia

      Nunca encontrei em nenhuma gramática histórica uma lista das palavras concanis em português, como encontro, por exemplo, de palavras do sânscrito, do marata, do hindustani, etc. Do sânscrito, por exemplo, temos avatar, açúcar, brâmane, cânfora, casimira, carmesim, castur, chacra, cornaca, garbanada, gengibre, guna, hindu, jambo, marajá, marani, sândi, rajá, sândalo, rupia, trimúrti, suarabácti, nirvana, xara… Do marata, chale, chaudarim, crós, guinde, launim, lavanissi, marata, zuarte… Do hindustani, cer, gavial, nababo, pijama, xampu… O que se segue é uma primeira tentativa de um glossário de termos com etimologia concani.

Adalí m. (do concani adalí). Planta verbenácea de sabor amargo, empregada como antídoto contra a mordedura da naja (Lippia nodiflora, Rich.).
Advipatel m. (do concani advipati). Imposto que se pagava, em Goa (Novas Conquistas), Índia Portuguesa, pelo pasto consumido pelo gado forasteiro.
Ageru m. (do concani ajeru). Heliotrópio índico.
Alenga f. (do concani alem). Escavação ou cadeira em volta de árvore.
Bataló m. (do concani batló). Hindu poluído ou desacreditado por comer com pessoas de outra casta ou comer coisas proibidas.
Batcar m. (do concani bhatkar). Proprietário rural, na antiga Índia Portuguesa.
Batcarina f. Mulher do batcar.
Bavá f. (do concani bava). Indiano, geralmente da casta dos suaras, que vive insulado da família e se entrega a penitências.
Begarim m. (do concani begari). Trabalhador rural, na antiga Índia Portuguesa.
Betal m. (do concani betal). Divindade indiana que se representa nua e servida por ministros da classe dos sudras.
Bói m. (do concani boy). Na Índia, moço para recados e transporte; serviçal.
Boiá adj. e s. 2 gén. Antiga designação dos portugueses de Goa.
Bondi m. Em Goa, certa carroça comprida.
Borodo m. Terreno alto e pedregoso, no Concão.
Brindão m. (do concani bhirand). Fruto do brindoeiro.
Brindoeiro m. Árvore da antiga Índia Portuguesa (Garcinia indica), de fruto comestível e de cujo caroço se extrai azeite medicinal.
Cajuló m. Aguardente de palmeira, em Goa.
Camotim m. (do concani kamoti). Agrimensor; inspector de campo, na antiga Índia Portuguesa.
Caranda f. (do concani karand). Fruto da carandeira.
Carandeira f. Árvore indiana da família das apocináceas e cujo fruto comestível é a caranda.
Casana ou cazana f. (do concani khazan). Na antiga Índia Portuguesa, várzea à beira de um rio, com valado para impedir a inundação.
Cato m. (do concani khat). Uma goma medicinal, parda, das Índias, aliás terra-japónica.
Cazeró m. (do concani kãzró). Nome de uma árvore da antiga Índia Portuguesa, de cuja semente se extrai a estricnina, empregada como tónico do sistema nervoso.
Cazol m. (do concani kazol do sânscrito kajjala). Colírio de fuligem que as mulheres indianas usam nas pálpebras para apurar a vista e embelezar os olhos.
Chabuco m. (do concani chabuk). Açoute de bestas; chicote.
Chandala m. (do concani chandal). Indivíduo das ínfimas castas da Índia.
Chardina f. Mulher pertencente à casta dos chardós.
Chardó m. (do concani tçardó). Guerreiro, homem da segunda casta indiana, segundo a organização bramânica; xátria.
Chatim m. Negociante pouco escrupuloso, traficante.
Chela f. (do concani chel). Tecido de algodão, usado na Índia e na África Oriental, mais encorpado, menos liso e de cores menos vivas que a chita.
Chirbuliós m. pl. (do concani chirmulyô). Arroz descascado e torrado, na antiga Índia Portuguesa.
Chitela f. (do concani chital). Antílope mosqueado, de pontas muito curtas.
Chito m. (do concani chitt). Na antiga Índia Portuguesa, bilhete; aviso, escrito.
Chole m. (do concani tçoli). Corpete de mulher, na Índia. O m. q. chóli.
Chouri m. (do concani chauri). Rabo de boi usado em solenidades indianas, como enxota-moscas e como insígnia da realeza.
Churta f. (do concani tsudet). Folhas de palmeira, na antiga Índia Portuguesa.
Ciçó ou sissó m. (do concani xisó). Bot. Árvore de madeira preta, muito apreciada na Índia e na Europa.
Cidão m. (do concani xidav). Espécie de foro, em Goa.
Colita m. (do concani). Planta indiana.
Combalenga f. (do concani kumvaló). Espécie de abóbora-chila.
Concanó m. Gentio do Concão.
Cormaró m. (do concani karmaló). Planta labiada, odorífera, da Índia.
Cotubana f. (do concani kotuban). Na antiga Índia Portuguesa, aforamento perpétuo.
Coulo m. (do concani kaul). Carta de seguro, passada pela autoridade superior a alguém sob condição de determinada contribuição.
Coxivarado m. (do concani koxvarado). Tributo que as antigas comunidades indianas pagavam ao rei do Canará e depois aos dominadores mouros e maratas, para os ajudar contra os salteadores; foro.
Cuculim m. (do concani kudali). Espécie de sachola ou sacho grande.
Cucume f. (do concani kunkum). Cosmético que as mulheres indianas aplicam na testa.
Cudo m. (do concani kud). Habitação em comum, em terra estranha, dos indivíduos de uma mesma freguesia, casta ou profissão.
Cudolim m. (do concani kudali). Espécie de sachola ou sacho grande, na antiga Índia Portuguesa.
Culna f. (do concani kuln). Terreno alto, susceptível de cultura.
Cumbo m. (do concani kumbh). Medida de capacidade indiana, equivalente a trinta e dois hectolitros.
Cumbolém m. (do concani kumblém). Arroz que os tendeiros pagam aos senhorios, na antiga Índia Portuguesa.
Cumerim m. (do concani kumeri). Queima, desbaste, corte de mato, para se cultivar a terra onde ele cresceu.
Cunto m. (do concani kunt). Certo direito que o tabaco e as embarcações pagavam em Goa.
Cupa m. (do concani kupa, sebe, cercado). Espécie de sal de Goa, leve e finíssimo, destinado exclusivamente ao mercado de Bombaim. Obtém-se fraccionando os tabuleiros em pequenas subdivisões.
Curtarém m. (do concani kudtarem). Espécie de toucado das bailadeiras indianas.
Curumim m. (do concani kumbi). Servo, criado.
Curvadi m. (do concani kulvadi). Agricultor, lavrador.
Cutudém m. (do concani kuntdem). Imposto sobre o corte de lenha nas matas públicas das Novas conquistas de Goa.
Dali m. (do concani dali). Espécie de açafate de cordas de bambu, na antiga Índia Portuguesa.
Damã m. (do concani dhaman). Árvore indiana.
Damni m. (do concani dhomon). Árvore da antiga Índia Portuguesa, de madeira muito empregada em eixos de carros, etc.
Dangui m. (do concani dangi). Antigo funcionário aduaneiro que declarava os direitos a que estavam sujeitas as mercadorias nas Novas Conquistas (antiga Índia Portuguesa).
Desporobo m. (do concani dexperabh). Autoridade local, na antiga Índia Portuguesa.
Dessai m. (do concani desay). Antigo chefe ou administrador de concelho ou de aldeia, no Concã; hoje, mero título honorífico em algumas famílias principais.
Dessaiado m. Território, ofício ou jurisdição do dessai.
Dessaína f. Mulher do dessai.
Dodó m. (do concani dhadó). Peso equivalente a sete arráteis, na antiga Índia Portuguesa.
Donez m. (do concani). Toro, cepo, na antiga Índia Portuguesa.
Dorobo m. (do concani darabh). Espécie de essa, em que os Indianos colocam o cadáver, durante os serviços religiosos que precedem o enterramento.
Dovorne, dovórni m. (do concani davarnem). Pedra que serve de marco miliário, de quilómetro em quilómetro, e em que os viandantes carregados podem colocar as suas cargas sem auxílio estranho.
Duduquém m. (do concani dudhkem). Espécie de cabaça grande ou de vaso de abóbora-carneira, em que na Índia se guarda a sura.
Dutró, duturó m. (do concani dhutro). O m. q. datura.
Duvol m. (do concani davló). Antiga moeda indiana.
Gorbaga f. Casa sem quintal, em Goa.
Gramacorcho m. (do concani gramakhartç). Contribuição para as despesas extraordinárias de uma aldeia.
Guirmarique m. (do concani girmarik). Árbitro, nomeado anualmente pela comunidade, em Goa, para julgamento de cargas e transportes.
Gulala f. (do concani gulal). Pó vermelho, com que se pintam os indianos, cristãos e gentios, no Entrudo.
Gulgul m. (do concani gugul). Na antiga Índia Portuguesa, nome que se dá à goma-arábica.
Gumata f. (do concani ghumat). Instrumento, que também se conhece por batuque, na ex-Índia Portuguesa.
Lotingó m. No Concão, toro de madeira, roliço, não serrado longitudinalmente.
Mandaré m. Em Goa, canudinho de farinha e azeite de coco; espécie de coscorão.
Massur m. (do concani masur). Bot. Lentilha da Índia.
Mundcaria f. (do concani mundcar, colono, serventuário rural). Instituição social de Goa, ou condição especial, de indivíduos que vivem na propriedade do senhor das terras ou batcar, a quem prestam serviços, lavaram e vigiam os terrenos, e de quem recebem habitação, protecção e por vezes salário.
Nadém m. (do concani nadem). Certo tecido, em Goa. O m. q. goni.
Naru m. (do concani naru). Espécie de filaria, que também se chama verme-da-guiné, que habita no tecido celular subcutâneo do homem, especialmente nas pernas.
Ordetanga f. Moeda de Goa que valia metade de uma tanga.
Ordevintém m. Moeda de Goa que tinha o valor de quatro réis e meio provinciais.
Orida f. (do concani udid). Bot. Certa planta leguminosa de Diu.
Otomba f. (do concani vont). O fruto da otombeira.
Otombeira f. Bot. Árvore da ex-Índia Portuguesa.
Patém m. (do concani patê). Na ex-Índia Portuguesa, o m. q. piteira.
Patinga f. (do concani pat). Na ex-Índia Portuguesa, toro ou trave não serrada.
Pinaca f. (do concani pinak). Na ex-Índia Portuguesa, resíduo ou bagaço de coco e de gergelim, depois de extraído o óleo.
Pongueró m. (do concani pongeró). Planta leguminosa da ex-Índia Portuguesa. O m. q. ponguiró.
Potó m. (do concani pattó). Espada de dois gumes, usada na Índia em certas festividades.
Pudvém m. Pano que os homens da ex-Índia Portuguesa enrolam à volta dos quadris, como saiote. O m. q. pudivão.
Queire m. (do concani khair). Na ex-Índia Portuguesa, o m. q. pau-ferro.
Quésri m. (do concani Kesri). Nome que se dá em Goa à planta que no Brasil é conhecida por urucu.
Sabaio m. Designação do governador de Goa, antes do domínio português.
Rontó m. (do concani ronto). Lavra indiana que ataca as palmeiras, coqueiros e mangueiras, perfurando-lhes longitudinalmente o caule.
Saguate m. (do concani saguvat). Presente, oferta, donativo.
Sandana m. (do concani sandnam). Bolo de farinha de arroz, levedada com sura e cozida no vapor de água a ferver.
Sangotim m. (do concani xigonti). Ant. Imposto que se pagava em Goa por gado vacum e búfalos.
Sanvori m. (do concani sanvari). Bot. Planta da Índia, também chamada panheira.
Saudó m. (do concani saudó). Espécie de embarcação indiana.
Selim m. (do concani selem). Cacho de cocos.
Sendur m. (do concani xendur). Designação do deutóxido de chumbo.
Sigmó m. (do concani xigmó). Festividade gentílica do Concão, semelhante ao nosso Carnaval.
Surá m. (do concani sura). Tecido de seda cruzada, macio e leve, fabricado na Índia.
Surana f. (do concani suran). Nome de uma planta arácea da Índia de raízes bulbosas e de flores que exalam o cheiro de animal em decomposição.
Suranga f. (do concani surang). Nome dado à flor da surangueira.
Surangueira f. Nome de uma árvore indiana de flores miúdas, branco-amarelas, muito aromáticas.
Talapate m. Ant. Imposto que pagavam, na Índia, os boticários, ourives, etc.
Tambió m. (do concani tambyó). Cântaro ou bilha em Goa.
Tamom m. (do concani taman). Bot. Árvore da ex-Índia Portuguesa, também chamada catapinaca-das-serras.
Tanga f. (do concani tang). Moeda divisionária de pequeno valor, usada em vários países da Ásia, incluindo a ex-Índia Portuguesa, nesta desde final do século XVI, no valor de 60 réis, tendo sido primitivamente de prata e depois de cobre.
Terlo m. Vigia das várzeas e dos palmares, em Goa.
Vangana f. (do concani vamygan). Em Goa, a sementeira do arroz em tempo de seca, impropriamente chamado Verão, que vai de Novembro a Março seguinte.
Vângor m. (do concani vandaga). Subdivisão territorial das comunidades indianas.│Denominação reservada a uma só família ou grupo de famílias, na nomenclatura aldeã da Índia, que representam uma unidade activa nos interesses agrícolas da comunidade da aldeia; agrupamento de famílias; parentela.
Xendi m. (do concani xendi). Trança solta de cabelo usada pelos iogues da Índia.
Xivanti m. (do concani xivanti). Formosa plana indiana, muito cultivada em jardins.
Xivor m. Em Goa, cacho de cocos desembaraçado do envoltório.
Zagor m. Em Goa, teatro onde se representam peças licenciosas e grosseiras.


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Léxico: patilhão

O melhor dicionário

      Por vezes, encontramos na imprensa definições que superam em precisão as que encontramos nos dicionários. Ora atente-se no seguinte caso. «Um patilhão é uma quilha artificial que as embarcações à vela têm para evitar a deriva, explica o comandante Reis Ágoas, da Zona Marítima do Sul. O vento nem sempre sopra na direcção desejada. O patilhão oferece resistência ao vento, faz com que a embarcação siga em frente, em vez de andar para os lados. “E ajuda o barco a não se virar, porque baixa o centro de gravidade”» («“Manhas” do trimarã terão dificultado fuga dos franceses», Ana Cristina Pereira, Público, 25.08.2006, p. 24). Se o Dicionário da Academia — que nem sequer regista este vocábulo — tivesse abonações como esta, seria muito mais útil e preciso.


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Munta brutos

      Pinchado, mas lá está, imponente e erróneo, na 2.ª Circular: «Os nossos gatos são muita graaa…aandes!» «Muita», hein? Até apetece percorrer mais quilómetros e ir ao Badoca Safari Park. Dado que este anúncio do Jardim Zoológico tem como público-alvo as crianças, serão também elas, mais impreparadas, tabulae rasae, que irão absorver estes erros. (A quem invocar o argumento de que se trata de criatividade, o que decerto acontecerá, direi que é possível ser-se criativo atendo-nos às regras da gramática; de qualquer modo, convenho, a subversão dessas regras por quem conhece bem a língua, e isso não é para todos, cria como que uma nova norma.) Quando souber de alguma criança que insista que se diz «muita grandes» e não «muito grandes» — invocando o exemplo do Zoo —, farei qualquer coisa. Greve de fome, uma manifestação junto do Parlamento ou um abaixo-assinado. Vou soltar as minhas feras… Como afirmou certa vez Agustina Bessa-Luís, indigna-me a incapacidade de as pessoas se indignarem.


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Ortografia: semi-submerso

Mais estudo, menos invenção

      Há aspectos da língua, e não são poucos, que não estão previstos nas gramáticas e sobre os quais, legitimamente, os falantes poderão ter opiniões diversas. Não é isso que acontece, porém, com o uso do elemento de composição semi-, como se sabe. «Uma jovem americana grávida, que deu à luz o seu bebé dentro de uma viatura acidentada semissubmersa num canal em Pahokee, na Florida, deu o nome de “Myracle” à sua filha» («Jovem deu à luz num carro acidentado», Diário de Notícias, 15.08.2006, p. 44). Se se escreve, e qualquer dicionário o regista, semi-sábio, semi-sagitado, semi-savânico, semi-secular, semi-sedentário, semi-segredo, semi-selvagem, semi-selvático, semi-senhorial, semi-septenário, semi-sério, semi-serpente, semi-serrano, semi-silvestre, semi-soberania, semi-soberano, semi-som, etc., por que motivo se puseram a inventar? A regra diz que o elemento semi- é seguido de hífen quando o segundo elemento começa por h, i, r ou s.


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Glossário: palavras em -tude

Embrulha

      A quem me disse certa vez que apenas temos, em português, meia dúzia de palavras terminadas em -tude, deixo aqui o capital e os juros. E lembro-lhe: pelo menos nove destas 49 palavras uso ou leio todos os dias.

acritude
altitude
amaritude
ambitude
amplitude
angelitude
aptitude
arctitude
atitude
beatitude
celsitude
co-latitude
completitude
completude
crassitude
decrepitude
dessuetude
desvirtude
dissimilitude
excelsitude
finitude
fortitude
hebetude
ilicitude
incompletude
inquietude
irrequietude
juventude
lassitude
latitude
licitude
lipitude
longitude
magnitude
mansuetude
negritude
placitude
platitude
plenitude
pulcritude
quietude
rectitude
senectude
serenitude
similitude
sobrevirtude
solicitude
torpetude
verosimilitude
vicissitude
virtude




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Depreciativos e burlescos

Aqui d’el-rei!

      Não deixa de espantar o número de palavras depreciativas que temos para os termos «rei» e «príncipe». Mas não para «rainha», que a Lei da Paridade ainda não tinha sido… parida. Concebida, congeminada, engendrada, gerada, urdida… A República, mais tarde, amansou-nos, e o vocábulo «presidente» não tem, que eu conheça, nenhum derivado burlesco. Rei, pois: reizete, regulete, régulo… Príncipe: principelho, principete, principículo, principote… Foram muitos séculos.


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Fenómeno fonético: imela

I... quê?

      «Há um fenômeno», explica Ismael de Lima Coutinho na obra Pontos de Gramática Histórica, «peculiar à fonética árabe, denominado imela*, segundo o qual o a tônico passa a e ou i. É o que explica a transformação de Tagu> Tejo, Pace, ou melhor Paca> Beja, *Hispalia por Hispalis> Isbilia, hoje Sevilha» (p. 192).

* Do árabe clássico الاِستِعلَاءُ, imālah (inflexão). Este fenómeno fonético foi frequente na Espanha muçulmana. A propósito, calcula-se que o espanhol tenha cerca de 4 mil palavras de origem árabe.


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Blog ou blogue?

Opções

      O leitor JRC pergunta se se deve escrever «blog» ou «blogue». Bem, começo por dizer que adoptei desde a primeira hora a forma «blogue», que vejo que tem um uso muito difundido. Vamos às razões. Seria difícil encontrar um termo novo ou já existente na língua portuguesa que passasse a designar esta realidade nova. A força avassaladora do inglês provém, naturalmente, do facto de ser no seio desta cultura que se inventam as realidades a que se impõe dar nome. Assim, dado que há uma relação aproximada grafema/som entre o inglês «blog» e o aportuguesamento «blogue» — como poucas vezes acontece, pense-se em tentativas de aportuguesamento como «icebergue» e «surfe», para não referir outras —, é preferível usarmos o estrangeirismo «blogue» ao empréstimo «blog». E já se sabe: quem empresta nunca melhora.


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Televisão e cultura

Dispenso

      Embora haja quem deplore isso — e sobretudo que o escreva aqui —, poucas vezes vejo televisão e quase sempre que o faço me arrependo. Anteontem mesmo, depois de jantar, pus-me a ver esse monumento à ignorância que é o concurso A Herança. No desafio final, pergunta a apresentadora, Tânia Ribas de Oliveira, ao concorrente: «Estava a pensar em quê? Na nau Santa Maria?» (Porque estava lá o nome Henrique, que podia apontar para Henrique Galvão.) A nau Santa Maria, meu Deus! Acho que vou pedir asilo cultural à República da Abcásia.


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Corso e corço

Napoleão não é para aqui chamado

      Se não tivesse desembolsado 1,40 euros pelo jornal, talvez achasse alguma piada ao «corso» em vem de «corço». «O incêndio, que afectou uma área equivalente à cidade do Porto, atingiu uma das duas zonas de protecção total do parque, a Mata do Ramiscal, refúgio do lobo-ibérico e do corso» (Público, 20.08.2006, primeira página). Esta chamada da primeira página remete para a notícia, nas páginas 24 e 25, onde se voltou a escrever sempre «corso»: «Situado numa zona muito pouco acessível da serra do Soajo, e dada a humanização do resto do parque, o vale húmido e encaixado do rio Ramiscal tornou-se num santuário de espécies animais como o lobo-ibérico (canis lupus), o corso (capreolus capreolus), o gato-bravo (felis silvestris), nele se alimentando o único exemplar de águia-real (aquila chrysaetos) da Peneda-Gerês» («Peneda-Gerês. Balanço de uma área protegida oito dias à mercê do fogo», Abel Coentrão).
      Três notinhas: escreve-se corço (do latim cortius, em alusão à cauda curta deste animal, que, através de certos fenómenos fonéticos, alguns dos quais já aqui expliquei, deu corço); o verbo tornar-se não carece de preposição nem da contracção com o artigo (um dos erros mais difundidos hoje em dia, a que poucos escapam) e a nomenclatura científica exige que no nome composto dos seres vivos se grafe com maiúscula a primeira palavra (já aqui falei disso duas vezes, mas os jornalistas deviam estar de folga).


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Ortografia: «digladiar»

Espera aí

      Que nunca se escreveu tão mal no Público, é asserção que carece de honesta fundamentação, que não tenho. Mais seguramente se pode afirmar que, hoje em dia, no Público, os erros e as gralhas impedem uma leitura fluente e com prazer. Claro, admito que uma parte desta sensação provém de uma possível deformação profissional: habituado a corrigir, a emendar, ver tantas máculas faz alguma mossa na minha boa vontade. Hoje, quero somente falar de um erro na edição de domingo passado. «Não apenas porque passarão a estar realmente frente a frente dois semanários que lutarão para conseguir a liderança de mercado, mas porque, acima de tudo, irão degladiar-se dois “quase-irmãos”» («Sol quer vencer Expresso desde o primeiro round», Maria Lopes, 20.08.2006, p. 46). É, estranhamente, muito raro ver este vocábulo correctamente escrito. Escreve-se com i, como em latim, língua donde provém: digladiar(-se). Cinquenta vezes: digladiar, digladiar, digladiar, digladiar, digladiar, digladiar, digladiar, digladiar...

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Formas de tratamento

Ó tu que fumas!

      À saída do Tribunal de Lagos, os dois franceses suspeitos de homicídio a bordo do trimarã Intermezzo, naufragado ao largo do cabo de São Vicente, falaram à comunicação «em tom espanholado», como sugestivamente descrevia o Diário de Notícias. Um polícia, ao que presumo um agente da PJ, obrigava-os a entrar rapidamente na viatura, dizendo para a mulher: «Ahora tienes de entrar!» Via-se logo que era um leitor de Eça de Queirós, e em especial da Correspondência de Fradique Mendes: «Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro.» A maioria dos portugueses suspeita que os Espanhóis se tuteiam a torto e a direito. São só suspeitas infundadas. Se não vão a Espanha, não lêem literatura nem jornais espanhóis, se não vêem televisão espanhola, se não ouvem rádio espanhola, se não falam com espanhóis, pelo menos leiam esta entrada do Diccionario de la Real Academia Española: «Tutear. 1. tr. Hablar a alguien empleando el pronombre de segunda persona. Con su uso se borran todos los tratamientos de cortesía y de respeto. U. t. c. prnl.»


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De compostas a simples

Sempre a aprender

      Pelo grande interesse de que se reveste, transcrevo o que escreve Ismael de Lima Coutinho na obra Pontos de Gramática Histórica (6.ª edição, 1969, Livraria Acadêmica, Rio de Janeiro, que agradeço a JRC) sobre as palavras que apresentam em português forma simples, quando na língua originária eram compostas.
«1) árabes: benjoim (luban-Jawi, incenso de Java), salamaleque (salam-alaik, a paz esteja contigo), oxalá (in-sha-Allah, se Deus quiser);
2) hebraicos: aleluia (hallelu-Iah, louvai a Deus), hosana (hoshi-anna, salvai, eu vos peço), Israel (shara-Al, príncipe de Deus);
3) persas: julepo (gul-ab, água de rosas), azarcão (azar+gun, cor de fogo), caravançará (karwân-serai, casa das caravanas);
4) turco: janízaro (jenit-cheri, nova milícia);
5) germânicos: marechal (marah-scalc, servo do cavalo), lansquenete (lands-knecht, servidor do país), potassa (pot-ashe, cinza de panela);
6) franceses: oboé (haut-bois, alta madeira), vendaval (vent-d’aval, vento de baixo), gendarmes (gens-d’armes, homens de armas), ferrabrás (Fier-à-bras, nome de um bandido sarraceno, lembrado pelas gestas francesas);
7) ingleses: redingote (riding-coat, casaco de montar a cavalo), macadame (Mac-Adam, nome próprio do engenheiro escocês que inventou esse processo de calçamento), contradança (country-dance, dança do país);
8) italianos: anspeçada (lancia-spezzata, lança quebrada), tramontana (tra-montana, além da montanha), pedestal (piede-stallo, assento do pé);
9) americanos, sobretudo da língua tupi-guarani: caroba (caar-oba, mato amargo), capivara (caapi-uara, comedor de capim), carioca (cari-oca, casa do branco), igara (ig-iara, dona d’água), socó (çoó-có, bicho que se arrima), Paquequer (pac-ker, dormida das pacas), Paraguai (paraguá-i, rio dos papagaios), Paraná (pará-nã, semelhante ao mar), Paraíba (pará-aib, rio impraticável), Pirai (pirá-i, rio do peixe), icarai (i-caraí, rio santo ou água santa).»


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Brincar com as palavras

Eh, rapaz!

Não resisto a transcrever aqui o post de hoje dos revisores do Le Monde:

      «Antony Blair, Prime minister de son état, s’est vanté au tabloïd Sun, avec une rare délicatesse, faire l’amour jusqu’à cinq fois par nuit à son épouse chérie. Ladite Cherie n’a cependant pas confirmé cette remarquable performance. Casanova, dans ses mémoires, évoque un jeune homme (de 26 ans) surnommé par ses galantes Tirsis (du nom du berger mythique, mais tout le monde comprenait Tire-six). Tire-cinq, si l’on nous permet ce sobriquet, a pour lui son plus grand âge. Mais l’avantage final revient à Tire-six, car ce sont les femmes qui l’ont ainsi surnommé, alors qu’Antony a peut-être affabulé. Il l’avait déjà fait avec les « armes de destruction massive » inexistantes. D’ailleurs, ses administrés ne l’appelleront bientôt plus que : Tire-toi


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Ortografia: acupunctura

Mais uma picada

      A tendência para as pessoas menos instruídas dizerem «acunpuctura» (na verdade, «acupunctura», do latim acu, «agulha» + punctura, «picada») o que se deverá, em parte, ao facto de ser uma palavra um pouco estranha aos nossos hábitos, não passará despercebida a ninguém. Que o erro também tenha passado para a escrita, e sobretudo nas traduções, é que é mais lamentável. A única variante admissível, mas dentro da norma brasileira, é «acupuntura». O resto é iliteracia.


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«Governar sob ditadura»

Não é o mesmo

      Em Direito, pergunta-se: «Quis custodies custodes ipsos?» (Quem guarda os próprios guardas?). Este artigo do Diário de Notícias trouxe-me à memória a pergunta. «O general Alfred Stroessner, que governou sob ditadura o Paraguai durante 35 anos, morreu ontem num hospital de Brasília, aos 93 anos» («Ex-ditador Stroessner morre no exílio», 17.08.2006, p. 13). Claro, ele era um ditador, mas terá ele próprio governado debaixo de ditadura? Talvez a mulher, por sua vez, o tiranizasse… Parece-me que a frase precisava de uma reformulaçãozinha.


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Soalheiro e abisseiro

Sombra e sol

      Já por diversas vezes alguns leitores me mandaram mensagens ou deixaram comentários em que pediam que eu dissesse alguma coisa sobre este disparate tremendo que é dizer que «o dia vai estar solarengo». Vejam, senhores jornalistas e demais comunicadores, o que significa esta palavra: «Solarengo, adj. Relativo ou pertencente a solar (casa ou herdade nobre).│Que é moradia solar ou tem o aspecto de solar.│Que vive em solar; que é dono de solar.│ S. m. Senhor de solar.│Aquele que, como serviçal ou lavrador, viva no solar ou herdade de outrem» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado). Contudo, a verdade é essa, este texto serve apenas para lembrar ou revelar o vocábulo abisseiro ou abixeiro, justamente por ser um antónimo de soalheiro. «Abixeiro, s. m. (do lat. aversariu-). Lado da encosta onde o sol não dá nunca, ou não dá mais que uns momentos durante o dia.│Lugar sombrio, voltado ao norte.│Como adj., em que não dá ou quase não dá o sol; sombrio.│O contrário de abixeiro, como substantivo, é soalheira, s. f., e, como adj., soalheiro» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado).


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A filosofia das maiúsculas

Com autorização do autor, transcrevo na íntegra uma crónica exemplar de Ruben de Carvalho, publicada no dia 17 do corrente no Diário de Notícias.

A minúscula hermenêutica

      Na semana passada, a direcção do Público tomou uma iniciativa que corre sério risco de vir a figurar entre os mais bizarros episódios da imprensa portuguesa.
      No final de um artigo de Isabel do Carmo (IC) criticando a política israelita em geral e o ataque ao Líbano em particular (de resto, em resposta a afirmações anteriores, visando a autora, da habitual colaboradora do jornal Ester Mucznik), estampou a gazeta a seguinte nota: “NR — O Público não alterou a grafia deste texto, designadamente o facto de a autora escrever Holocausto com caixa baixa.”
Comecemos por um pormenor secundário (sendo que nada é irrelevante neste disparate): o facto de se usar a expressão “caixa baixa”. Trata-se de uma formulação de perfil técnico, vinda do tempo da tipografia manual (da composição de chumbo, em que os tipos se distribuíam por compartimentos duma “caixa” de madeira), mas que persiste na área das artes gráficas, substituindo o comum “maiúscula” e “minúscula”: “caixa baixa” é inteiramente sinónimo desta última, “caixa alta” da primeira.
      É evidente que o que subjaz à nota do Público é IC ter escrito holocausto e não Holocausto, ou seja, ter iniciado com letra “minúscula”: o jornal parece ter a concepção da imensa relevância da primeira letra como critério formal de valorização! Escrever “holocausto” é estar com o Hezbollah, grafar “Holocausto” é estar com Israel e a Administração Bush!... Mas porque é que se usa o elusivo “caixa baixa”?...
      Daria pano para mangas reflectir sobre esta concepção litúrgica e sacralizante do uso da maiúscula, mas a nota coloca ainda outra questão: é evidente que a direcção do Público pretende tornar claro que não subscreve aquilo que no seu exclusivo entender significa o facto de IC ter utilizado minúscula. Ora, por esta ordem de razões, o jornal teria de estar constantemente a fazer notas semelhantes esclarecendo “não ter alterado a grafia” aos azedos e reaccionários insultos de Vasco Pulido Valente, às reflexões que levam Ester Mucznik a considerar terrorista toda a gente que não pensa como ela e por aí fora!
      A vantagem, entretanto, é que fica a saber-se que para incomodar aquele jornal basta uma pequena entorse na ortografia e escrever a grandíssima ofensa de que se trata da Folhinha dirigida por josé manuel fernandes…


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Léxico; flor de sal

Imagem: http://www.av.it.pt
O sal da vida

      Este também foi, recentemente, assunto de um post no blogue dos revisores do Le Monde: flor de sal. Também chamada nata ou coalho de sal, é recolhida à superfície — daí o nome — das salinas. Flos, em latim, significa a parte mais fina. Há quem fique muito admirado quando ouve esta expressão. Sempre tive um grande fascínio por salinas, vá-se lá saber porquê, uma vez que nunca vi nenhuma de perto. Sei algumas coisas, puramente livrescas. Ainda era pequeno quando descobri o verbo rer ou raer, que significa raspar o sal da salina e juntá-lo com o rodo. Tem dado jeito quando me perguntam: «Varrer com três letras?» A frequência diuturna do dicionário trouxe as que se seguem.

Alassar v. int. Destacar-se facilmente (o sal) do casco da marinha.
Alcatruzada f. Cano de manilhas, que leva a água do caldeirão para a marinha, nas salinas do Sado.│O conteúdo de um alcatruz ou a porção de líquido que um alcatruz comporta.
Alfinete m. Cristais de sal, compridos e finos, que, com o vento quente e seco, aparecem entre os cristais de sal comum nas marinhas.
Algibé m. Segunda bacia rectangular, nas salinas, separada do viveiro por um dique, construído de torrão e de lama.
Almanjarra f. Espécie de grande rodo, com que se tira a lama das marinhas.
Almanjarrar v. t. Tirar com a almanjarra.
Andoa f. Espécie de argila das margens dos rios, aplicada (em Ílhavo, Aveiro, etc.) no fundo dos cristalizadores das marinhas de sal para os tornar impermeáveis.
Andoar v. tr. Cobrir com andoa, que é um barro extraído da margem esquerda da ria de Aveiro.
Arriar v. tr. Inutilizar compartimentos destinados à evaporação do sal.
Baracha f. A cova ou caldeira nas marinhas de sal.│Travessão de lama que divide os compartimentos nas marinhas de sal. O m. q. maracha.
Bexiga f. Fragmentos, que se despegam do casco, nas marinhas do Sado.
Bimbadura f. Fragmento de lodo, aderente aos travessões das salinas.
Botadela f. Última preparação da marinha, para a cristalização do cloreto de sódio.
Bruaca f. Pequeno saco para acondicionamento de sal.
Bunho m. T. de Aveiro. Espécie de junco, com que se tapam as medas do sal nas marinhas, para as resguardar contra a chuva.
Cabeceira f. Um dos compartimentos das marinhas.
Caldeira f. Cada um dos dois compartimentos, inferiores ao caldeiro, nas marinhas do Sado.
Cambeia f. Ruína produzida pelos vendavais nos muros das salinas.
Camisa f. Ligeira cobertura de sal, no fundo dos meios das marinhas.
Canajeira f. Espécie de pá empregada nas salinas.
Caneja f. Rego que nas salinas de Aveiro se faz na andaina de cima de dois em dois compartimentos, para ligar a água de baixo.
Carregonceira f. Rolha de junco e lama, para tapar a alcatruzada, nas salinas.
Casula f. Espécie de caldeirinha que os marnotos das salinas de Aveiro fazem nos meios de baixo, na operação de andoar.
Círcio m. Cilindro de madeira com que os marnotos curam o solo das marinhas de sal.
Codejo m. Sulfato de cal que se forma nas salinas.
Contra f. Baracha ou travessão, nos talhos das marinhas do Guadiana.
Contratejo m. Um dos compartimentos das marinhas de Faro.
Coque m. Cozinheiro de marnotos, nas margens do Sado.
Corredor m. Viela que separa tabuleiros nas salinas.
Corredor-mestre, corredor-real m. Vala que rodeia a salina e distribui a água pelas poças ou a lança na escoadeira.
Creve m. Marinheiro incumbido de contar os moios de sal postos a bordo.
Cristalizador m. Compartimento em que, nas marinhas, se cristaliza o sal.
Despinça f. Designação das salinas ao norte do Tejo onde se não faz o cozimento ou casco.
Encanas f. pl. Água que se junta na drainagem das marinhas-podres.
Ensampação f. Nome que, nas margens do Sado, se dá ao enjoo das marinhas.
Entijolar v. t. Adquirir a consistência do tijolo (falando-se do solo das marinhas).
Entraval m. Vala, paralela ao tabuleiro do sal da marinha velha.
Entrebanho m. Caldeirão das salinas.
Escoadeira f. Cano de manilhas, que da salina conduz a água para o mar.
Esgoteiro m. Reservatório de água junto de cada compartimento cristalizador, nas salinas.
Gafa f. Vaso com que se transporta o sal nas marinhas.
Greiro m. Corte nos muros das marinhas, nas salinas de Aveiro.
Guarda-mato m. Vala exterior às salinas, para receber as águas de terrenos adjacentes e impedir que elas invadam a marinha.
Lã-de-borrego f. Uma das espécies de limo que aparecem mais frequentemente nas salinas.
Lavadoura f. Espécie de degrau, formado pela tirada dos torrões, com que se forma a vedação da salinas, em Aveiro.
Limo-letria m. Nome vulgar de uma das espécies de limo que aparecem nas salinas.
Louvor m. Crosta de sal que se forma à superfície da água dos talhos.
Louvoura f. Côdea de cloreto de sódio, que se forma sobre os cristalizadores, na primeira colheita do sal, nas marinhas de Setúbal.
Madris f. Caminho sobre a maracha das salinas.
Maracha f. Muro pequeno, que separa as peças da salina. O m. q. baracha.
Marinha f. Lugar em que se recolhe a água do mar, para o fabrico do sal; salina.
Marnota f. Parte da salina em que se acumula a água para fabricar o sal.
Marnotagem f. Conjunto dos trabalhadores para se obter o sal, nas marinas de Aveiro.
Marnoteiro ou marnoto m. Indivíduo que trabalha nas salinas.
Marroteiro m. Indivíduo que dirige o trabalho dos marnotos; marnoteiro.
Moeira f. Um dos dois cabos que seguram as extremidades do eixo do círcio, nas salinas de Aveiro.
Moeiro m. Instrumento de marnoteiro com o feitio de espada.
Mouradouro m. Um dos compartimentos das salinas.
Mourar v. tr. Depositar o sal na borda dos caldeirões (falando-se da água salgada das marinhas).
Mula f. Monte de sal, em forma de prisma de secção triangular, que termina em dois meios cones.
Muradouro m. Estaca arqueada, com que se abrem os lagrimais nas barachas das marinhas do sal de Aveiro.
Múria f. Nas salinas, a água-mãe que fica depois da cristalização do sal e a água saturada de sal depois que a submeteram à evaporação.
Pá-de-cavalo m. Nas salinas de Faro, o m. q. cambaio.
Passadouro m. Pequeno muro por onde os marnotos conduzem o sal do tabuleiro para as eiras.
Pejo m. O maior reservatório das marinhas de sal.
Redor m. Operário salineiro, que toma água para os viveiros e quebra a crosta salina.
Redura f. Acto de rer; rodura.
Ronha f. Doença das salinas, produzida pelo vento do sul ou de leste, que torna a água gordurenta e incapaz de produzir sal.
Salgado m. Conjunto das salinas de uma região: o salgado do Tejo.
Salicultura f. Exploração do sal numa salina ou marinha de sal.
Salicórnia f. Vegetal rico em betacaroteno que cresce junto às marinhas, também conhecida por espargo marinho. É usada em saladas e em pratos de peixe. As sementes da planta são uma fonte excepcional de proteínas. Os caules fibrosos são usados para rações de animais e para fabricar tijolos.
Salinar v. tr. Provocar a salinação, na safra do sal.
Salineira f. Mulher que trabalha nas salinas.
Salineiro m. Aquele que fabrica sal ou o empilha.│Vendedor de sal.
Sangradeira f. Portal que, nas salinas, põe em comunicação os cristalizadores com o entraval.
Silha f. Um dos muros que separam os compartimentos das marinhas.
Singela f. Fila longitudinal de pequenos compartimentos, de cada lado do corredor, nas marinhas do Sado.
Sobrecabeceira f. Um dos compartimentos das salinas.
Tabuleiro m. Divisão ou talho das salinas.
Taburno m. Peça de madeira, em forma de telha, em que se transportam torrões para os muros das marinhas.
Talho m. Compartimento nas salinas; reservatório onde se cristaliza o sal.
Torroeiro m. Parte da praia, donde se tira o torrão para construir a vedação das marinhas.
Travadoura f. Peça de madeira ou de pedra com que se impede a passagem da água do corredor para as peças da salina.
Trave f. Talude ou dique de terra argilosa que separa o viveiro dos algibés, e estes do mandamento, nas marinhas de Aveiro.
Trintada f. Prov. Porção de trinta moios de sal que os compradores de fora tinham de comprar à Misericórdia de Setúbal.
Ugalho m. Espécie de ancinho ou varredouro, nas salinas.
Valagem f. Acto de valar ou murar as salinas na Figueira da Foz.
Viveiro m. Cada um dos reservatórios das marinhas para onde entra directamente a água.


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Pleonasmo: «desfecho final»

Tristes desenlaces

      Cada vez é mais vulgar ouvir-se, na rádio e na televisão — na imprensa escrita ainda não vi —, «desfecho final». Como se houvesse um «desfecho inicial», um «desfecho médio» e um «desfecho final». Um conselho: de vez em quando, experimentem consultar um dicionário.

«Desfecho, s. m. (de desfechar). Acção ou efeito de desfechar; desenlace.│Termo, conclusão, resultado final.» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado)


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Género de «matiz»

Furta-cores

      «Estão ali pessoas de todas as matizes», afirmou com convicção, referindo-se à Festa do Pontal, o poeta-político Mendes Bota, em declarações ao Jornal 2, no sábado. Ignoro se cromaticamente havia ali verdade, mas gramaticalmente está errado: o substantivo «matiz» é do género masculino. Mesmo em espanhol. Curiosamente, nas traduções ocorre frequentemente este erro.

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Moinhos de maré: léxico

Moinho da Asneira, rio Mira (Imagem: http://abae.pt/)
Mira!

      Chegou-me às mãos, oferecida pela Câmara Municipal de Odemira, a obra Rio Mira, Moinhos de Maré, da autoria de António Martins Quaresma (1.ª edição, Suledita, Aljezur, 2000). Trata-se de um estudo de história local, de onde extraio a seguinte passagem: «Os moinhos de maré constituem uma categoria particular dos moinhos hidráulicos. Eles utilizam o efeito das marés, mais concretamente a diferença de nível entre o preia-mar e o baixa-mar, para colocar em funcionamento o aparelho de moagem. Localizam-se, por isso, próximo da costa, onde as marés se fazem sentir, geralmente em estuários com margens alagadiças e esteiros. A água, na enchente, é retida numa grande represa — a caldeira —, podendo ser utilizada para moer no refluxo da maré logo que, no exterior, a roda motriz fica desbloqueada. Esta está colocada horizontalmente no interior de uma câmara, onde se move por acção de um jacto de água lançado sobre o penado (conjunto de pás ou penas da roda), a modo de uma turbina primitiva. O movimento obtido é transmitido directamente à mó andadeira, que gira à mesma velocidade.
      A roda horizontal — rodízio — é a roda motriz aplicada na generalidade dos moinhos portugueses. Uma variante — o rodete —, em que a roda gira no interior de um poço, teve difusão recente e restrita. Uma excepção à utilização da roda horizontal surge exactamente no rio Mira. Ao contrário, nas costas do Norte da Europa (França, Grã-Bretanha) difundiu-se a roda vertical, cujo movimento é transmitido à mó através de uma engrenagem, constituída por uma grande roda dentada — a entrosga — e um carreto, o que permite a multiplicação da potência» (pp. 9-10).


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Falsos cognatos

Amigos da onça

      Já aqui tenho falado de problemas de tradução que implicam falsos cognatos, usando exemplos do espanhol. Hoje o exemplo é do inglês e ainda é mais confrangedor por se tratar de um tradutor experiente e o erro elementaríssimo mas muito comum. Vejamos a frase do original: «We passed a number of closed rooms as the corridor wound through two right turns, and eventually came ou upon na inner courtyard.» Previsível, claro: aquele «eventually» passou a «eventualmente» na tradução. «Passámos por várias divisões fechadas, à medida que avançávamos por duas voltas apertadas, e, eventualmente, viemos dar a um pátio interior.» Como se compreende, quanto mais próxima da nossa a língua de partida, maior é o número de problemas relacionados com falsos cognatos. E o inglês, com cerca de metade do léxico, segundo alguns estudiosos, com etimologia latina, oferece muitas oportunidades para ocorrerem estes erros. Tenho um registo, do espanhol para português, de larguíssimas centenas de casos. Mas também há casos noutras línguas, como o italiano. «Ero preparata a tutta una serie di possibilità, ma quando sentii quella proposta rimasi senza parole.» Que o tradutor verteu assim: «Estava preparada para toda uma série de possibilidades, mas quando senti aquela proposta fiquei sem palavras.» O verbo italiano sentire tanto significa «sentir» como «ouvir».


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Confusões jornalísticas

Imagem: http://ilhadamadeira.weblog.com.pt/
Ler pode fazer mal
      
      «Na última quarta-feira, o jovem foi com três primos, todos com idades entre os 15 e os 19 anos, colher uma planta de jardim conhecida como trombeteira, no lugarejo do Papagaio Verde, no Funchal […] Trombeteira. Nome popular: trombeta, trombeta-de-anjo, trombeteira, cartucheira, zabumba. Nome científico: Datura suaveolens L» («Chá de trombeteira mata miúdo», Rute Coelho, 24 Horas, 18.08.2006, p. 9).
      «Um jovem de 15 anos morreu quarta-feira na Madeira depois de ter ingerido, com mais três amigos, um chá de “erva-de-diabo”, uma planta com efeitos alucinogénios que existe em vários jardins da região. A planta, que tem o nome de beladona, já foi enviada para um laboratório em Lisboa para ser analisada, disse à Lusa fonte da Polícia Judiciária, que garantiu estar afastada a hipótese de crime» («Erva-do-diabo mata jovem de 15 anos», Diário de Notícias, 18.08.2006, p. 20). A imagem mostra uma fotografia da beladona e tem seguinte legenda: «Erva-do-diabo pode ser fatal, mas existe em muitos jardins».
     «Um rapaz de 15 anos morreu quarta-feira no Funchal, Madeira, depois de beber, com outros três jovens, um chá de ‘erva do diabo’, uma planta tóxica com efeitos alucinogénicos espalhada pelos jardins da Região» […] A legenda mostra uma imagem da datura e diz: «A ‘erva do diabo’, também conhecida por Beladona (foto ao lado), foi colhida pelos quatro rapazes na zona da praia Formosa (foto de cima), onde se terão deslocado quarta-feira de manhã para jogar futebol. Depois foram para casa onde prepararam a infusão mortal» («Chá fatal de ‘erva do diabo’», Antunes de Oliveira, Correio da Manhã, 18.08.2006, p. 9).
      «A planta que terá causado a morte do adolescente madeirense é a beladona (nome científica: atropa belladona L) que, explicou à Lusa Carlos Cavaleiro, professor da Faculdade de Farmácia de Coimbra, é frequente no Centro e Sul da Europa e em África» («Adolescente morre na Madeira depois de ingerir erva-do-diabo», Kathleen Gomes, Público, 18.08.2006, p. 22).
      Que o adolescente morreu não parece haver dúvidas. Os restantes adolescentes tanto podiam ser amigos como primos, podendo mesmo ser as duas coisas em simultâneo. A erva era a trombeteira ou a erva-do-diabo — os jornalistas não chegaram a acordo. O Correio da Manhã afirma que se trata, como vimos, da erva-do-diabo, mas a ilustrar o artigo está uma fotografia da datura (Datura suaveolens L). A edição online do Jornal da Madeira noticia que se trata da «“Brugmansia suaveolens”, “saia-branca”, “erva-do-diabo”, “trombeteira” e “figueira-do-inferno”, estes os nomes que são usados para identificar a planta que foi mortal para um dos quatro jovens que ingeriram chá desta flor» («Ingestão de trombeteira provoca alucinações», Carla Ribeiro, 18.08.2006). A ilustrar a notícia, uma fotografia da Datura suaveolens L, espécie que ilustra este texto.


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Conceito de fileira

Vão falando

      Até há pouco tempo, o termo «fileira» só era utilizado nas publicações e suplementos económicos e em manuais de certas disciplinas. Creio até que é bem sintomático do carácter técnico do conceito o facto de a acepção ainda não ter chegado aos dicionários da língua, mesmo aos melhores, como o Dicionário Houaiss. Ainda assim, lá se vai insinuando em algumas notícias dos jornais generalistas: «Hoje produtores florestais e empresários da fileira florestal — cortiça, celulose e madeiras — reúnem-se em Leiria para debater o estado da floresta nacional e reclamar do Governo “um investimento eficaz” numa “gestão sustentável” deste recurso natural» (Diário de Notícias, 19.09.2005). Sempre que há uma comunidade de interesses em redor de um mercado específico, fala-se de «fileira». Assim, «fileira industrial», «fileira florestal», «fileira têxtil» são locuções relativamente comuns desde os anos 80. Para outros autores, a definição é um pouco diferente: «Fileira Florestal — Centrada no desenvolvimento e preservação da floresta, esta categoria compreende todas as actividades da cadeia de valor ligada à floresta, desde a biologia das espécies aos produtos acabados de alto valor acrescentado.»
      Sabendo isto, mais estranhei que no noticiário da Antena 1 das 19 horas de ontem se tivesse falado em «fileira industrial», sem mais nem menos. Apesar de tantos estudos, parece que não conhecem o público ouvinte. A rádio sempre foi e será o mais popular dos meios de comunicação. Passo pela Estefânia e lá está o sem-abrigo cujos únicos pertences são uns papelões-cobertores e um rádio. Aqui perto de casa, o guarda-nocturno de um lar passa a noite nas suas rondas a ouvir rádio. Na serra da Estrela, alguns pastores, isolados de tudo e de todos, entretêm-se a ouvir rádio. Eu sei que a rádio não é ouvida apenas por estas pessoas, mas elas serão a maioria, decerto. Falar-lhes de fileira, um conceito que nem os próprios jornalistas alcançam plenamente, parece-me pouco inteligente.


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Plural de «tórax»

Assim ninguém se engana

      Prudentemente, os dicionários ignoram a questão do plural do vocábulo «tórax», como se ninguém tivesse necessidade de o usar. Mas não é bem assim. Tratava-se de uma tradução e, embora o tradutor tivesse confundido o abdómen com o tórax, a questão permanecia: «tóraxes», como ele escreveu, ou «tórax»? Como dizia a personagem principal, the idea might seem outlandish, mas importava dar-lhe solução. Há quase sempre forma de não dizermos aquilo que não é muito claro ao nosso espírito. Todavia, não devemos evitar, eludir, contornar todas as dificuldades. Alguns gramáticos preconizam que os vocábulos que terminam em -x se mantêm inalterados na passagem para o plural. Contudo, veja-se como toda a gente diz «os faxes» e não «os fax», ainda mais tolerável por se tratar de um neologismo. O mesmo se passa, aliás, com «tórax», que já ouvi alguém pluralizar em «tóraxes». Ora, a Base IX, n.º 2, a), do Acordo Ortográfico de 1990 preconiza:
      «As palavras paroxítonas que apresentam na sílaba tónica/tônica as vogais abertas grafadas a, e, o e ainda i ou u e que terminam em -l, -n, -r, -x e -ps, assim como, salvo raras exceções, as respetivas formas do plural, algumas das quais passam a proparoxítonas: amável (pl. amáveis), Aníbal, dócil (pl. dóceis) dúctil (pl. dúcteis), fóssil (pl. fósseis), réptil (pl. répteis; var. reptil, pl. reptis); cármen (pl. cármenes ou carmens; var. carme, pl. carmes); dólmen (pl. dólmenes ou dolmens), éden (pl. édenes ou edens), líquen (pl. líquenes), lúmen (pl. lúmenes ou lumens); açúcar (pl. açúcares), almíscar (pl. almíscares), cadáver (pl. cadáveres), caráter ou carácter (mas pl. carateres ou caracteres), ímpar (pl. ímpares); Ajax, córtex (pl. córtex; var. córtice, pl. córtices), índex (pl. index; var. índice, pl. índices), tórax (pl. tórax ou tóraxes; var. torace, pl. toraces); bíceps (pl. bíceps; var. bicípite, pl. bicípites), fórceps (pl. fórceps; var. fórcipe, pl. fórcipes)» (sublinhado meu).

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Abuso do elemento mega-, outra vez

Megalomania

      O uso exagerado do elemento mega-, que já aqui referi, está a tomar proporções preocupantes. Claro que percebo que os jornalistas o prefiram, pela simplicidade, a outros boleios da frase. Não há muitos jornais que escapem a esta forma de escrever, que creio ser a mania do momento.
      «Agora, a empresa prepara uma mega-campanha na TV e na rádio, que reverterá ainda mais a seu favor a diabrura dos rebeldes geniozinhos», «Adolescentes britânicos criam toque de telemóvel para enganar os adultos», Sofia Jesus, Diário de Notícias, 2.07.2006, p. 17.
      «Mega-aliança GM-Renault-Nissan pode abrir perspectivas à fábrica da Azambuja», Público, 10.07.2006, p. 41.
      «A praia de Mira vai acolher hoje a primeira megafesta da comunidade gay na região centro», «Praia de Mira megafesta da comunidade ‘gay’», Diário de Notícias, 21.07.2006, p. 21.
      «Cabeçada de Zidane na final do Mundial inspira megaêxito músical [sic] do Verão em França», Ana Navarro Pedro, Público, 3.08.2006, p. 44.
      «Mega-rusga “varre” Centro», 24 Horas, 4.08.2006, p. 12.


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Infinitivo pessoal

Mais contributos

      A pedido de vários leitores, continuo a abordar a questão do infinitivo pessoal ou flexionado. Neste texto trago o contributo da Prof.ª Helena Mateus Montenegro, de quem já aqui citei outra obra. Esta é uma recolha de textos publicados pela autora, professora auxiliar na Universidade dos Açores, na imprensa, tem 111 páginas e comprei-o na FNAC por 9 euros. Não é uma obra com pretensões académicas, a linguagem é clara e — característica sumamente apreciável — aduz sempre exemplos para cada afirmação. Recomendável.
      «O uso do infinitivo pessoal é reconhecido, em primeiro lugar, nas frases subordinadas finais, como no exemplo, Ler A Caverna é fundamental para compreendermos a sociedade contemporânea. A mesma frase poderia surgir com o infinitivo impessoal, tomando então um valor mais universal: Ler A Caverna é fundamental para compreender a sociedade contemporânea.
      Se se tornar redundante a especificação do sujeito permitida pelo infinitivo pessoal, poder-se-á optar pelo infinitivo impessoal: Lemos os jornais para passarmos o tempo., ou Lemos os jornais para passar o tempo.
      Outras estruturas frásicas recorrem também ao infinitivo pessoal, como sejam: frases subordinadas causais iniciadas pela preposição por (Por não terem lido a obra completa, os alunos não conseguiram responder a todas as perguntas.); frases subordinadas concessivas (Apesar de termos viajado para Atenas, não vimos a abertura dos Jogos Olímpicos.); frases subordinadas condicionais introduzidas pela preposição a (Ao visitares só alguns museus, visita o Louvre.) e frases subordinadas temporais (Ao viajarem para Atenas, os nossos amigos escolheram uma companhia segura.)» (Português para Todos. A Gramática na Comunicação, Helena Mateus Montenegro, João Azevedo Editor, Mirandela, 2005, pp. 75-76).



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Infinitivo pessoal

Corrijam Camões

      Já aqui falei da doutrina de Soares Barbosa e de como ela se incrustou no cérebro de alguns gramáticos. Vejamos um exemplo d’Os Lusíadas que contraria essa regra prática. «Ó Neptuno, lhe disse, não te espantes/De Baco nos teus reinos receberes» (Os Lusíadas, VI, 15). Uma vez que Camões usou aqui um hipérbato, vamos lá pôr o verso por ordem lógica. Disse-lhe: Ó Neptuno, não te espantes de receberes Baco nos teus reinos. Camões pretendeu realçar inequivocamente o sujeito daquele «receberes», que é Neptuno e não Baco, e acautelar a interpretação, pois que o nome mais próximo da forma verbal é Baco. A própria figura de estilo obrigou ao uso do infinitivo pessoal. Soares Barbosa, como refere M. Said Ali na sua magnífica obra Dificuldades da Língua Portuguesa, considerou que Camões usou aqui indevidamente o infinitivo flexionado. Said Ali, por seu lado, demonstrou, curiosamente, que o verso de Camões estava duplamente certo segundo a teoria de Soares Barbosa: «1.º porque o infinitivo está regido de preposição e determina-se a pessoa; 2.º porque a regra primeira reza assim: Usa do pessoal 1.º quando o sujeito do verbo infinito he diifferente do do verbo finito, que determina a Linguagem infinita; ou póde haver equivocação sobre qual he o de quem se fala, ainda que seja o mesmo. Então esta Linguagem infinita para distincção dos dous sujeitos toma differentes terminações pessoaes, com as quaes se tira o equivoco. E mais adiante: E todo o caso é sempre para tirar qualquer equivocação ou incerteza que possa haver sobre se é ou não o mesmo sujeito de ambos os verbos


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Concordância

Concordem lá

      Já percebi que os meus leitores não têm em grande conta os textos em que abordo a questão da concordância, qualquer que ela seja. Pois fazem mal: é a regra, ou conjunto de regras, que sofre mais transgressões. Há, bem entendido, e um dia escreverei aqui sobre a questão, vários tipos de concordância. Vamos ao exemplo de hoje. «Para tal, a estufa, no final do jardim que tem caminhos delimitados com pedras, vai ter um laboratório acessível aos olhos do público através de um grande vidro que deixa ver a enorme diversidade de lagartas que existem, nomeadamente as que dão origem às borboletas nocturnas» («Primeira estufa de borboletas nasce no jardim Botânico», Isaltina Padrão, Diário de Notícias, 14.08.2006, p. 19). Já sei, não contraponham: a jornalista, ao escrever a forma verbal, pensou em «lagartas» e não em «diversidade», o verdadeiro sujeito. Este erro é também muito comum em frases em que se usa o substantivo «tipo». As sociedades onde acontecem este tipo de fenómenos têm problemas de identidade. Ora, num caso como no outro, o verbo — regra canónica em português — deve concordar com o sujeito expresso («diversidade de lagartas» e «tipo de fenómenos»), que está no singular.

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Adesão e aderência

Sinónimos mas não tanto

      Lembram-se do major pára-quedista na reserva José Moutinho, que participou na 1.ª Companhia da TVI? Eu também não, mas isso agora não interessa. Este ano é relações públicas da volta a Portugal. Ouçamo-lo: «O ciclismo é um desporto muito popular com uma grande aderência por parte da população, especialmente no Norte do País» («José Moutinho, relações públicas da Volta», Diário de Notícias, 9.08.2006, p. 28). O itálico — e esta é, ao que julgo, uma nova prática deste jornal — é do Diário de Notícias. Ora aí está uma questão que merece reflexão: deve o jornalista corrigir erros como este, assinalá-los ou não fazer nada? Não fazer nada, atitude a que estamos habituados, não aproveita a ninguém. Assinalá-los, como fez neste caso o jornalista do DN, serve somente para dar a entender (a quem compreender esta metalinguagem) que o erro é do autor da citação e não do jornalista. Quanto a corrigi-los, parece ser mais polémico e arriscado. Quais os limites, enveredando por esta prática, para a correcção? E como proceder se, em vez de se tratar da transcrição de uma gravação, estivermos perante um texto, eventualmente já publicado, e texto com erros, que temos de citar?
      Útil e corajoso seria o jornalista ter escrito: «O ciclismo é um desporto muito popular com uma grande aderência [adesão, na verdade] por parte da população, especialmente no Norte do País.»
      Para o título não ser totalmente enganador: adesão e aderência são vocábulos sinónimos e ambos procedem do latim. Todavia, o primeiro, que vem de adhesione-, aplica-se em especial ao acto de alguém aderir a uma ideia, a um partido, a uma iniciativa. A adesão da ex-mulher de Paul McCartney, Heather Mills, ao vegetarianismo parece ter sido um truque para casar com o ex-Beatle. O segundo, por sua vez, provém de adhaesione- e usa-se em relação a coisas. A aderência do papel à parede só à custa de muita cola se fez.

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Tradução. Quão e quanto

Eu já vi isto

      De vez em quando, gosto de trazer aqui casos reais de traduções do espanhol feitas por quem nem sequer conhece bem o português. Isto é tudo tão previsível: quando se deviam desviar do espanhol, não o fazem; quando, pelo contrário, as regras são iguais, querem afastar-se do espanhol. Vejamos este caso.
      «A pesar de esta simplicidad de estilo y de su técnica severa, sin ninguna concesión amable, ¡cuánta belleza, cuán noble dignidad!» O tradutor, pois claro, tentou dar uma voltinha à frase, para soar a lídimo português: «Apesar desta simplicidade de estilo e da sua severa técnica, sem nenhuma concessão amável, quanta beleza, quanta nobre dignidade!» Azar o dele — e o nosso, que o corrigimos ou lemos. Aqui, quem não sabe?, deveria ter seguido o espanhol, que o mesmo é dizer o português, que nisto são línguas irmãs, e escrito «quão nobre», pois que se trata de um advérbio de intensidade seguido de um adjectivo. Junto de um substantivo seria, nesse caso sim, «quanto», com função adjectival e, logo, variável.


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Citação

As espécies de professores

«O professor medíocre, que diz, o bom professor, que explica, o professor superior, que demonstra, e o grande professor, que inspira.»

[The mediocre teacher tells. The good teacher explains. The superior teacher demonstrates. The great teacher inspires.]

William Arthur Ward (1921–1994)

(Apud «Medíocres, bons, superiores e grandes professores», Rui Baptista, Público, 5.08.2005, p. 8)

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Livro de estilo da SIC

Pergunte com mais jeitinho…

      No Jornal da Noite da SIC, de ontem, dois repórteres, em duas reportagens diferentes, usaram de uma forma pouco delicada e clara — e pelos vistos em voga na estação — de fazer uma pergunta. Por três vezes, após o entrevistado fazer qualquer afirmação, o repórter inquiria: «Porque?...» O que pode revelar muito poder de síntese e acutilância entre amigos (e inimigos), mas pouco cuidado no âmbito profissional e da comunicação social.


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Pronúncia de Gotemburgo

Irmãs desavindas

      Na Antena 1, já se ouve o topónimo Gotemburgo correctamente pronunciado: /Gutemburgo/. Na RTP1, pelo contrário, ainda se pronuncia com o aberto: /Gotemburgo/. A informação ainda não circula bem por aqueles corredores. Esperemos que as coisas melhorem.


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Serra d’Ossa, outra vez

Gregos e alentejanos

      «O nome desta famosa serra — d’Ossa —, que segundo as crónicas provém dos Essénios ou Ósseos, remete para a Ursa cuja patronidade proto-histórica como eventual referência religiosa de contornos druídicos parece muito provável (e não só aqui). Do ponto de vista da geografia sagrada assinale-se, porém, a existência de duas montanhas com o mesmo nome (Ossa) na Grécia» (Lugares Mágicos de Portugal, volume VI, «Enigmas», Paulo Pereira, Círculo de Leitores, 2005, p. 177).


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Artigo em nomes de localidades

Hum…

      José Rodrigues dos Santos, no Telejornal de ontem, a propósito do incêndio na serra d’Ossa, dizia «em Redondo». Ora, a verdade é que os naturais, os redondeiros, não dizem assim, usam o artigo: o Redondo, no Redondo, vou ao Redondo. As gramáticas, é verdade, não abordam esta questão, mas a língua não está apenas nos dicionários e nas gramáticas. Regra prática, há-a: se o nome da localidade é simultaneamente um substantivo comum, então o nome da localidade tem o género desse substantivo comum: a amadora/a Amadora; a amieira/a Amieira; a azenha/as Azenhas do Mar; a fajã/a Fajã (da Ovelha/de Baixo/de Cima); a figueira/a Figueira da Foz; a foz/a Foz do Arelho; a gafanha/a Gafanha; a glória/a Glória; a guarda/a Guarda; a igrejinha/a Igrejinha; a lixa/a Lixa; a marinha/a Marinha Grande; a meda/a Mêda; a moita/a Moita; a parede/a Parede; a pontinha/a Pontinha; a portela/a Portela; a régua/a Régua; a sertã/a Sertã; o alandroal/o Alandroal; o arco/os Arcos; o barreiro/o Barreiro; o cartaxo/o Cartaxo; o entroncamento/o Entroncamento; o fogueteiro/o Fogueteiro; o fundão/o Fundão; o pinhal/o Pinhal Novo; o pinhão/o Pinhão; o porto/o Porto; o pragal/o Pragal; o sabugal/o Sabugal; o tramagal/o Tramagal; etc. Se, pelo contrário, o nome da localidade não corresponder a um nome comum, então a tendência é para não atribuir género. Mas há excepções, ainda assim: a Amareleja, a Azaruja, a Benedita, a Covilhã (mas existe covilhão, uma espécie de urze), a Golegã, a Lourinhã, a Malcata, a Nazaré, a Trofa, o Crato, o Gerês, o Montijo (embora exista o substantivo comum montijo, ponho algumas reservas, pois é somente um regionalismo alentejano) e outros, que não correspondem a nomes comuns.
      E já que referi a serra d’Ossa, devo referir o lapso de Conceição Lino, no Jornal da Noite (SIC) de anteontem: depois de ter dito que esta serra se situava no Baixo Alentejo e de, minutos depois (e alguns telefonemas de protesto, aposto), ter corrigido a informação, disse «a serra da Ossa». Apesar de envolto em algumas brumas, «Ossa» não corresponde a nenhum nome comum, e toda a gente diz e escreve «serra d’Ossa». «Fogo na serra d’Ossa fez ontem cinco feridos», titulava o Diário de Notícias (11.08.2006, p. 19).


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Crise humanitária?

Nem pensar

      Nem o Diário de Notícias escapa a este disparate: «Crise humanitária agrava-se no Líbano» (Susana Salvador, 11.08.2006, p. 15). Consultem num dicionário a entrada respectiva: «humanitário adj.s.m. (1858) 1 que ou aquele que se dedica a promover o bem-estar do homem e o avanço das reformas sociais; filantropo. ETIM fr. humanitaire (1835) ‘que diz respeito à humanidade, que vem em auxílio às necessidades dos homens’» (Dicionário Houaiss). É óbvio que o vocábulo apenas se pode utilizar em expressões que qualifiquem acções benéficas, positivas: ajuda humanitária, corredor humanitário, intervenção humanitária, missão humanitária das ONG, trabalhador humanitário, etc. De contrário, a semântica de cada um dos termos é de sinal oposto. Assim, pode soar mal (para ouvidos habituados ao erro), mas o correcto é «crise humana agrava-se no Líbano» ou tão-somente «crise agrava-se no Líbano».
 
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Publicidade I

Latim macarrónico

      Os ebrifestivos anúncios da cerveja Abadia lá andam novamente a estropiar o latim e a nossa paciência por esse país fora. Sejamos claros: está tudo errado. O pior mesmo é que reincidem com um anúncio completamente errado e para o qual alguém — não eu, porque nessa altura este blogue ainda não existia ou eu não estava atento — sugeriu entretanto correcções, pelo que não se aplica o brocardo non bis in idem. De facto, escrever «sapore autenticum est» é um enorme dislate. «Sapor authenticus est» deveriam ter escrito. «Receitae artesanalis» é um disparate ainda maior, pois nem uma palavra nem outra existem em latim, e receitae está declinada num caso que não se adequa ao que se pretende. Mas isto eles também não sabem. A recepta latina tem outro significado. Talvez ex praecepto coquinario traditionis («a partir de receita culinária da tradição», à letra) expressasse esse conceito. Noutro anúncio, lê-se: «Sapore sublimis». Mas sapor não tem e final, como já vimos.
      A UNICER não pode ignorar que se fizeram críticas fundamentadas aos anúncios, mas nem assim exigiu que a agência emendasse. Passados uns meses, volta à carga com os mesmos anúncios e outros igualmente errados. O público-alvo (no qual não me incluo: não gosto de cerveja; prefiro um tinto alentejano, por exemplo) pode não se importar, mas não deixa de ser uma falta de respeito escrever estas trapalhadas e propiná-las ao público. Contratem quem saiba latim, não sejam gananciosos.


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Publicidade II

Imagem: http://www.sogrape.pt/

Português macarrónico


      Nos mupis, lê-se no anúncio ao vinho Gazela: «Saboreia o lado da vida que mais gostas». O verbo gostar pede a preposição de: de que gostas. Quem gosta, gosta de alguma coisa, ou não? Mas afinal quem é que está a escrever nestas agências? Criancinhas de 7 anos ou licenciados em Marketing e cursos quejandos? Tenham dó. Contratem revisores, não sejam gananciosos.



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Gramática e lógica

Imagem: http://www.loderama.com.ar/
A sério?

      A gramática estrutura, como se sabe, as frases, mas não se substitui a uma lógica externa. O Independente foi ouvir Josefina Castro, directora-adjunta da Escola de Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Depois de citar a directora-adjunta — «Não vamos formar polícias» —, escreve o jornalista João Francisco: «Combater os efeitos fantasiosos de séries televisivas como “CSI” ou outras é um dos propósitos daquela escola e da própria licenciatura» («Porto forma especialistas em Criminologia», O Independente, 4.08.2006, p. 12). Imagino a devastação moral provocada pela série CSI por esse país fora, o desperdício de fantasia. Pois eu vejo as coisas ao contrário: por causa de séries televisivas como CSI, da sua fantasia, se quiserem, os candidatos ultrapassaram em muito as vagas para este curso. Desmentir que na realidade o processo de investigação seja como se vê na série não deve erigir-se em missão da escola. Disparate. Aliás, a fantasia é mesmo a única coisa boa para quem daqui a quatro anos tiver a licenciatura em Criminologia e for trabalhar com crianças e jovens meigos como aqueles que assassinaram Gisberta.


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Citação

Língua lúdica

      «Manuel Monteiro tem um partido pequenino, de peluche. Nem lá cabe quem o prefira de “pelúcia”, porque tal constituiria fraccionismo e o partido (ao qual a direita voyeuse ainda atribui 0,3%) não tem dimensão que comporte divergências» («Trufas e “Don Pérignon”», Nuno Brederode Santos, Diário de Notícias, 6.08.2006, p. 48).


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Léxico: cantautor

As palavras dos outros

      De vez em quando, vão-se insinuando por entre as linhas umas palavrinhas que não são nossas. «Cantautor», que eu conheço há muitos anos, quando comecei a ouvir música espanhola de Joaquín Sabina e outros, é uma delas. Já a tinha lido no Público, recentemente. «Em Setembro há o regresso do cantautor da depressão esquecida numa rumba parola. JP Simões vem com menos veneno, uma lucidez rara e sambas mais pessoais que patriotas» (Público/Y, 26.05.2006, João Bonifácio, p. 39). E agora no Diário de Notícias: «Espectáculo inédito nas serenas noites da Vila Malaspina, entre colinas de recorte suave, foi o de cerca duma dúzia de carabinieri, dispostos aos pares, no exterior e no interior do pátio de acesso livre, antes e durante a actuação da banda israelita do famoso cantautor Hanan Yovel, que se acompanha à guitarra acústica, sendo também acompanhado pela voz da filha, Shira Yovel, e por outros três instrumentistas, na guitarra eléctrica, nas teclas e na percussão» («A guerra a ecoar entre músicas do mundo na Toscânia [sic]», Elisabete França, 6.08.2006, p. 38).
      Talvez nos faça falta, pois expressa um conceito complexo como nenhuma palavra portuguesa equivalente.

«Cantautor, ra. m. y f. Cantante, por lo común solista, que suele ser autor de sus propias composiciones, en las que prevalece sobre la música un mensaje de intención crítica o poética» (Diccionario de la Real Academia Española).


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Uso das aspas

Ser ou não ser

      «Na época trabalha por sua conta e risco, intermediando negócios e actuando no mercado de capitais, por vezes como testa-de-ferro de terceiros» («Jorge de Brito. O empresário que Marcelo apoiou», Cristina Ferreira, Público, 3.08.2006, p. 35). Afinal, Jorge de Brito foi mesmo testa-de-ferro ou não? Se foi, as aspas estão a mais; se não foi, estão as aspas e a palavra: a jornalista deveria então escolher o termo que julgava adequado. É pecha comum entre os jornalistas, esta de usar as aspas em situações que as não requerem.


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Elemento ciber-

Língua prò galheiro

      Há já uns meses, alertei aqui para o facto de o nome de determinada coluna de um jornal ter hífen a ligar o elemento ciber e a palavra seguinte, que começava por vogal. Argumentei então que era incorrecto e aduzi o exemplo, abundantemente encontrado na imprensa e não só, do vocábulo «ciberespaço». Pouco depois — e não quero ver aqui uma relação de causa-efeito, pois sou modesto e ninguém me paga o que faço —, a coluna aparecia com o nome correcto. Ao exemplo de hoje aplica-se a mesma argumentação, pelo que vou poupar palavras.
      «A ciber-instalação que os Daft Punk levaram ao palco TMN representou o melhor e mais invulgar concerto desta edição do Festival Sudoeste», «Sudoeste dançou enquanto exclamava “Olhó robô!”», Nuno Galopim, Tiago Pereira e Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 7.08.2006, p. 28.
      Já que estou com o lápis vermelho em riste, deixem-me dizer que aquele «olhó» está errado, pois há ali uma contracção: «olha o robô». Logo, «olhò».


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