Altura e altitude

Imagem: http://www1.folha.uol.com.br
Como disse?

      Podia ler-se no jornal 24 Horas, edição do dia 22 do corrente: «O Mayon [vulcão nas Filipinas, na imagem], com 2460 metros de altura, teve dezenas de erupções em 400 anos.» É uma confusão muito comum: «altura» está por «altitude». Os vulcões, as montanhas, as serras estão a determinada altitude em relação ao nível médio do mar. Um edifício, uma ponte, etc., têm determinada altura. De resto, altura e altitude acabam por se referir à mesma realidade, excepto no facto de terem referências diferentes. Para se saber qual a altitude de uma montanha, não estamos a ver um homúnculo intrépido, munido de uma fita métrica de costureira, a medi-la do sopé até ao topo, pois não? Isto só em relação aos vulcões do Parque das Nações é que podemos fazer.


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Derivação imprópria

Um porto no Porto

      A minha sogra lê sempre a revista ¡Hola!, o que a torna cada dia não apenas mais proficiente em espanhol, o que dá jeito na época das «rebaixas», como especialista (caseira, claro) em genealogia das casas reais europeias (a desculpa dela, é claro, é outra: está farta, suspira, das mentiras portuguesas!). Há dias surpreendi-a a ler um «Especial San Valentín» e sobretudo uma receita de «frambuesas al oporto con cubitos de trufa». É este «oporto» que me interessa.
      Em português, à mudança gramatical em que um substantivo próprio passa a substantivo comum, ou vice-versa, dá-se o nome de derivação imprópria (1). A questão é que esta alteração também afecta — ao contrário do que muita gente defende, vá-se lá saber porquê — graficamente a palavra. Assim, direi: «Quando vou ao Porto, apenas bebo porto.» «O meu amigo Rato não gosta, helás, de ratos.» «O inspector fuma tabaco virgínia?» «Aquele missionário era, todos o reconheciam, um anchieta.» «Dantes sim, bebia-se um bom bucelas. Mas agora? Nem em Bucelas!» «O meu bisavô, que fez a Primeira Guerra Mundial, usava um comprido úlster, o que lhe dava uma aura de cavalheiro distinto e rico a que muitas mulheres sucumbiram.» Há muitos mais substantivos comuns (estes são os que mais interessam para o caso) que derivam de nomes próprios, topónimos ou antropónimos. Lembremos apenas alguns:


— balaclava
— bordéus
— borgonha
— borsalino
— bóston
— breda
— bristol
— caim
— carcavelos
— carrasco
— catão
— colares
— cremona
— estradivário
— florença
— gargântua
— garibáldi
— garnisé
— gobelino
— holanda
— iscariotes
— madeira
— málaga
— mecenas

— mélton
— messalina

— nanquim
— reno
— riga
— ruão
— salazar
— sauterne
— sósia
— vichi
— xangai
— xerez

— zoilo


(1) A derivação imprópria abrange não apenas a mudança dos substantivos próprios em comuns, e vice-versa, como disse acima, mas também a transformação de adjectivos em substantivos e o contrário; a transformação de substantivos, adjectivos e verbos em interjeições; verbos em conjunções; adjectivos em advérbios; particípios presentes em preposições e em substantivos; particípios passados em substantivos e adjectivos. É, a par de outras, uma fonte de enriquecimento da língua.


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Iliteracias

Previsão do passado

      Numa fila para adquirir o livro de reclamações, é entrevistada uma senhora. Pergunta a repórter: «Há quanto tempo está à espera?» Resposta: «Não posso prever, mas para aí há uma hora.» Não entendeu a pergunta ou tem uma pessoalíssima teoria do tempo? Nunca o saberemos, já que a repórter não aprofundou a questão.


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Promoção vs. «teaser»

Estamos salvos

      Aquilo a que o Diário de Notícias chama teaser, como tive oportunidade de escrever aqui no dia 4 de Janeiro («Estrangeirismo: “teaser”»), o 24horas prefere chamar, com muito mais acerto, «promoção». Vejamos, na edição de 22 do corrente, na página 41: «As promoções à estreia do “Gato Fedorento” na RTP1 já arrancaram.» «Santana Lopes já viu a promoção do Gato Fedorento em que aparece.» «Mas José Sócrates não quis comentar esta sua presença na promoção.» No mesmo artigo, mais vezes se usa o vocábulo «promoção», mas já se percebeu como é consistente o uso.
      No mesmo artigo, surge também a redução vocabular «promo»: «O antigo primeiro-ministro conta que, na terça-feira à noite, viu a promo por acaso.» Todavia, e pese embora tratar-se de termo de jargão da área do marketing, este uso não me parece censurável, pois a língua já incorporou, sem mesmo termos plena consciência disso, outras reduções ou abreviações substantivadas, como será mais correcto designá-las: metro por metropolitano; zoo por zoológico; cinema por cinematógrafo, foto por fotografia, pneu por pneumático, quilo por quilograma, moto por motocicleta, etc. A língua francesa é rica nestas abreviações e nós, é claro, importámo-las, não já pelo paquete do Havre, mas imitando-as sem pejo nem remorso lendo revistas e jornais, vendo cinema e televisão e, a forma mais avassaladora, convivendo com os Franceses. Será este uso empobrecedor da nossa língua? Não creio: todas as formas continuam a usar-se e a estar registadas nos dicionários.


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Verbo reunir-se

Devolva o dicionário

      «De manhã bem cedo, perto das 8h30, [Jaime Silva, ministro da Agricultura] reuniu com o director-geral de Veterinária, Agrela Pinheiro», escrevia ontem no 24horas a jornalista Patrícia Correia Branco (pág. 47). Nossa Senhora da Agrela nos valha? Não: São Francisco de Sales valha à jornalista! Tanto quanto sei e me lembro, o verbo reunir-se, na acepção da frase, é conjugado reflexamente. Conjugar-se-ia transitivamente, por exemplo, na frase «De manhã bem cedo, perto das 8h30, o ministro da Agricultura, Jaime Silva, reuniu todas as aves contaminadas e incinerou-as». Bem sei que já há dicionários a registar o contrário — mas eu não vou deixar de dormir descansado por causa disso (como diria Manuel Alegre).


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Verbo precaver

Casa de ferreiro

      O erro de que trato neste texto surgiu ontem no jornal 24horas, que agora tem, e ainda bem, uma coluna sobre a língua («Ai esta Língua traiçoeira…»). «Ainda por cima, o homem não se precaviu […].» (p. 18) Não, meus amigos, não está correcto: o jornalista deveria ter escrito «precaveu». Aqui fica o pretérito imperfeito do indicativo do verbo precaver, para lembrete de todos.

Pretérito Perfeito do Indicativo

precavi
precaveste
precaveu
precavemos
precavestes
precaveram


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Verbo «intervir»

Elle há cada uma

      Caiu-me nas mãos a edição de Dezembro da revista Elle, um magnífico catálogo de produtos de moda. Começa logo por escrever com minúscula o nome dos meses («dezembro 2005», p. 248). No artigo «John Lennon, o quinto elemento», da autoria de João Tordo, podemos ler: «As ondas de protesto levantaram-se [na sequência da afirmação de John Lennon, em 1966, de que os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo], com os grupos conservadores a queimarem discos dos Beatles; e até o Vaticano interviu, denunciando os comentários de Lennon.» (pág. 84) Na oralidade, e proferido por um analfabeto, admito; um jornalista não tem qualquer desculpa para conjugar desta forma o verbo intervir.
      Claro que o texto tem outras fragilidades. Na página 82 pode ler-se: «O dia 8 de Dezembro de 1980 marca o 25.º aniversário da morte de Lennon.» Explique lá isso melhor, senhor jornalista. Os tempos verbais também não são usados com inteira propriedade («Foi no mesmo ano em que toda a gente se plantou em frente aos ecrãs para saber quem matou J. R. Ewing […].»), os erros ortográficos estão presentes («catalizador»), a translineação tem incorrecções (o revisor devia estar de folga), etc.
      Só para lembrar, deixo aqui a conjugação do pretérito imperfeito do indicativo, o tempo verbal mais trucidado.

Pretérito Perfeito do Indicativo

intervim
intervieste
interveio
interviemos
interviestes
intervieram


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Igualdade

Lições da História

      Na semana passada, publiquei aqui um texto sobre a «igualdade de género», levada ao ridículo por Ana Sara Brito. Queria hoje acrescentar que, curiosamente, a primeira mulher a votar em Portugal, a 28 de Maio de 1911, a médica ginecologista Carolina Beatriz Ângelo, sufragista e fundadora da Associação de Propaganda Feminina, perante o que a lei eleitoral da época consagrava sobre os eleitores (tinham direito de sufrágio «os cidadãos portugueses com mais de 21 anos que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família»), argumentou que o plural masculino da expressão «cidadãos portugueses» inclui homens e mulheres e invocou a sua situação de viúva e mãe, e por isso chefe de família, conseguindo assim que um tribunal a autorizasse a votar. Ora, o que Ana Sara Brito agora faz é precisamente o contrário: ao arrepio da gramática e da tradição, diz enfaticamente «as ouvintes e os ouvintes», «aquelas e aqueles», «as jornalistas e os jornalistas», «as cidadãs e os cidadãos», «as portuguesas e os portugueses», e por aí fora. Haja paciência.


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Publicidade

Imagem: http://www.auto-sueco.pt
Pois claro

      Sempre a publicidade e os seus erros. Desta vez, o anúncio é da Volvo, e diz: «Escolher a prancha é difícil. Escolher o carro não.» O «carro não»? Estão então a dizer mal dos automóveis que eles próprios fabricam, é isso? Para eles, qual é o «carro sim»? Talvez um BMW, não? Caros amigos da agência criativa FL Europe: antes do advérbio não teriam de pôr uma vírgula, que serviria justamente para marcar a elisão do verbo, como quem diz: «Escolher a prancha é difícil. Escolher o carro não é difícil.» Logo, correctamente seria: «Escolher o carro, não.»


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Léxico: tumulação; erro: há/à

Só a cassetete

      A palavra do fim-de-semana passado foi, sem dúvida, «tumulação». Na RTP e na RDP, os jornalistas proferiam-na com um deleite quase obsceno, como quem diz: «Vejam, caros telespectadores, caros ouvintes, como eu conheço palavras magníficas! Não sou mesmo bom?» Não é não muito boa ideia fazerem-me tal pergunta. Aposto que a fonte foi algum comunicado da Igreja Católica a propósito da trasladação dos restos mortais da irmã Lúcia.
      A outra imagem que, neste fim-de-semana, retive (espero que por pouco tempo) foi a do comandante da Divisão de Inspecção Criminal do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, comissário Dário Prates, que foi entrevistado no seu gabinete, onde à direita aparecia um ecrã de um computador em que se podia ler: «Diga não há violência.» Estou a perceber: o leitor é que pontua, como na frase «Morra Salazar. Não faz falta à Nação». «Ah, desculpe, senhor agente, esqueci-me da pontuação. Ora veja lá: “Morra Salazar? Não!! Faz falta à Nação”.» Agora é o agente da polícia que sugere, com um argumento metálico nas mãos: «Diga: não há violência.» E o cidadão diz, claro.


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Estátuas

Estátua pessoana

      Do Brasil, uma leitora habitual deste blogue pergunta-me que nome se dá às estátuas em que as personagens são representadas sentadas. Boa pergunta. Conhecemos bem as estátuas equestres, como a de D. José I no Terreiro do Paço, estátuas jacentes ou jazentes, como a do túmulo de D. Dinis no Mosteiro de Odivelas, as estátuas pedestres (habitualmente ditas «com a figura representada de pé»), como a do duque de Saldanha… e as estátuas sedestres, como a de Fernando Pessoa, em ameno convívio com os turistas que enxameiam a esplanada d'A Brasileira do Chiado. Não me pergunte é como se designam as estátuas que mostram os representados de cócoras...


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Ortografia: «bem-vindo»

Grafia independente

      Apesar da velocidade a que descia a Av. Marechal Gomes da Costa, pude ver que a Universidade Independente tem à entrada e numa passagem aérea para peões uma faixa publicitária em que se pode ler: «Bem vindos à Universidade Independente.» A divisa desta universidade não é Rerum cognoscere causas? Bem pode começar por aprofundar a ortografia da língua portuguesa. Claro que é um erro habitual, e justamente por isso me irrito: numa universidade é imperdoável.

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Léxico: hipocorístico

Santos e pecadores

      Numa obra de Luigi Pirandello, que estou a ler, deparei com uma personagem secundária que se chama Scolastica (não muito simpática, por sinal). Para a maioria das pessoas, o nome Escolástica apenas evocará o movimento filosófico e teológico da Idade Média, ou a santa do mesmo nome, irmã gémea de S. Bento, ao passo que para mim é sobretudo o nome da minha avó materna. Como em muitas famílias, porém, havia um diminutivo a substituir esse nome de sabor monacal por algo afectivo, doce, carinhoso: Lala. Ora, é a esse diminutivo que se dá o nome de hipocorístico. Em termos rigorosos, esta designação abrange qualquer variante afectiva de um nome próprio e procede do vocábulo grego hypokoristikós, «acariciador». Assim, a Mariana transmuta-se em Nana, a Maria em Bia, a Helena em Lena, o José em Zé, o Joaquim em Quim, o António em Tói, a Francisca em Dinha, a Carlota em Loló, a Filomena em Filó, a Alexandra em Xana, o Guilherme em Gui, a Teresa em Teté, a Josefa em Zefa, o Francisco em Chico, a Maria de Lurdes em Milu, a Maria do Carmo em Micá, a Maria José em Mizé, o José Carlos em Zeca, a Gabriela em Gabi, a Elisabete em Bete, o Manuel em Nelinho, o Alberto em Beto, o Joaquim António em Quitó… Estas formas reduzidas de antropónimos podem resultar de uma linguagem infantil, como se pode ver na sílaba de redobro de palavras como «caca», «chichi», «cocó», «mamã», «papa», «papá», «pipi», «popó», «tautau», «titi» e outras.
      Os hipocorísticos também se usam noutras línguas, como o espanhol, em que qualquer Soledad é Sole, uma Remedios é Reme, um Francisco é Paco, um Rafael é Rafa, um Ignacio é Nacho, Consuelo é Chelo, etc. Em catalão, o mesmo, com a curiosidade de o método ser a aférese: uma Montserrat vê-se aliviada em Rat, uma Concepció responde por Ció...


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Pronúncia: «Estremoz»

Os algozes da língua

      É sempre irritante ouvir profissionais dos meios de comunicação propinarem às audiências silabadas e outros erros de igual jaez. (Viu bem: o «jaez» é por causa da natureza asinina…) Hoje de manhã, num noticiário da Antena 1, lá saiu o malfadado «Estremóz». Eu bem lhes gostaria de dizer que «Estremoz» se pronuncia com o o fechado, à semelhança de «algoz». Sabendo-os bons entendedores, até diria apenas que se pronuncia como «algoz». Está bem: estou a brincar. A verdade é que o «algoz» é aqui sempre a vítima. Querem tudo a rimar com Figueira da Foz, está visto.



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Léxico: «oblívio»

Para lembrar

      A propósito do post de ontem («Para esquecer»), lembrei-me entretanto do facto de o direito ser uma área onde se acoitam, por vezes como última guarida, certas palavras. Então não é que há dias li num texto esta maravilha poética num acórdão do Tribunal da Relação de Évora: «E sempre sem oblívio de que, na sua actuação, o princípio da imediação [...].» O tão poético «oblívio» só nos homens de leis encontra ajuda contra o oblívio, perdão, contra o esquecimento. Assim, em Portugal talvez apenas alguns ociosos frequentadores de salas de audiências e cruzadistas (além de dois ou três poetas enfermiços) guardem na memória a palavra «oblívio». E agora você, meu caro internauta.

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Nomenclatura dos seres/dengue

Dois erros na Visão     

      Num texto muito interessante numa das últimas edições da Visão (2.2.2006), podiam ler-se as seguintes frases (p. 67): «A organização Mundial de Saúde já deixou o aviso: O Aedes Aegypti poderá invadir o Sul da Europa entre 2010 e 2015. O temido imigrante de nome estranho é tão-só o mosquito que transporta o vírus do dengue.» Mais à frente: «Na Europa, outro insecto que também transporta o dengue (o Aedes Albopictus) vive em Itália há alguns anos.» Não há dúvida: a repetição dos erros faz-me entrar na convicção de que os autores do texto não o fizeram involuntariamente: temos contraprova. Comecemos pelos mosquitos. Na nomenclatura e classificação dos seres, a designação binominal científica é, de facto, em latim, e nisso não erraram, e os leitores só não agradecem porque pagaram 2,75 euros. Só a primeira palavra, porém, se grafa em caixa alta, grafando-se a segunda em caixa baixa. Estas regras foram estabelecidas no I Congresso Internacional de Nomenclatura Científica, em 1898, e revistas em 1927, em Budapeste, Hungria.
      Quanto a «dengue», tanto quanto sei e vejo nos dicionários que voltei a consultar de propósito para redigir este texto, é inequivocamente do género feminino: a dengue.


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Etimologia: amnistia

Para esquecer

      Uma vez, ao balcão do bar da Casa do Alentejo, um desses desconhecidos que fazem sessões de psicanálise com o primeiro que topam num bar, auto-intitulado ex-inspector de uma das várias polícias que temos (seria do SEF?), tentou demonstrar-me que tinha sólidos conhecimentos jurídicos rabiscando num guardanapo de papel a hierarquia das leis. Não me recordo já se a pirâmide normativa lhe saiu totalmente mal. (A memória da situação vem-me, e juro que não é por causa dos vapores etílicos, em fragmentos: baixo, com o cabelo suspeitosamente negro e, incongruente, lembro-me que o isqueiro com que brincava tinha gravada uma águia.) Recordo, isso sim, que escreveu «amenistia». A essa personagem, a esse homem sem rosto, dedico este post.
      A palavra latina amnestia, da qual deriva a nossa amnistia, é formada com o prefixo de negação a- e o substantivo mens, mentis. A etimologia é a da palavra «amnésia», com a diferença semântica de que esta última denota um esquecimento generalizado, ao passo que a amnistia é o esquecimento dos delitos ou crimes cometidos.
      Na mitologia, temos a deusa Mnemósine a presidir à memória, que era considerada como uma das fontes da inspiração de escritores, artistas e mesmo de homens de ciência. Daí também os vocábulos «mnemónico» (relativo à memória), «mnemotécnica» (técnica para facilitar a memorização) e «amnésia» (esquecimento de tudo), entre outras. Creio que foi Vitorino Nemésio que uma vez brincou com o seu próprio apelido, dizendo-se «Mnésico». Ah, a memória...

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Indicativo ou conjuntivo?

Opiniões

      Francisca Simões, leitora habitual, segundo diz, deste blogue, enviou-me a seguinte mensagem: «Ouvi do jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho a seguinte frase: “Cristiano Ronaldo acha que Portugal pode chegar à final.” Eu diria: “Cristiano Ronaldo acha que Portugal possa chegar à final.” Ou: “Cristiano Ronaldo acha que Portugal poderá chegar à final.” Não se deveria usar o conjuntivo?»
      Na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, podemos ler que «o Indicativo é usado geralmente nas orações que completam o sentido de verbos como afirmar, compreender, comprovar, crer (no sentido afirmativo), dizer, pensar, ver, verificar». Assim, uma vez que o verbo achar se pode enquadrar, semanticamente, na lista e a frase está na forma afirmativa, a frase do jornalista está correcta. É equivalente da última, e mais correcta, que propõe: «Cristiano Ronaldo acha que Portugal poderá chegar à final.» Quanto ao uso do conjuntivo, recorramos novamente à Nova Gramática do Português Contemporâneo, que diz: «O Conjuntivo é o modo exigido nas orações que dependem de verbos cujo sentido está ligado à ideia de ordem, de proibição, de desejo, de vontade, de súplica, de condição e outras correlatas. É o caso, por exemplo, dos verbos desejar, duvidar, implorar, lamentar, negar, ordenar, pedir, proibir, querer, rogar e suplicar.» (cf. pág. 464, 3.ª edição, 1986).
      Se a frase fosse negativa, pessoalmente preferiria usar o conjuntivo: «Cristiano Ronaldo não acha que Portugal possa chegar à final.» Contudo, também a frase «Cristiano Ronaldo não acha que Portugal poderá chegar à final» estaria correcta.
      No corpus CETEMPúblico, fui encontrar as seguintes frases, com o mesmo sentido da indicada por Francisca Simões, usando-se nelas o modo indicativo (sublinhados meus):
«De qualquer modo, Donner acha que «se Portugal jogar o seu normal vencerá os tunisinos e depois poderá ganhar mais um jogo.»
«Um dos maiores formadores de opinião da Imprensa brasileira, o comentador político Carlos Castello Branco, do Jornal do Brasil, acha que Collor de Mello poderá resistir às pressões para deixar o poder simplesmente «pela força do seu ministério.»
«O presidente do acha que tudo isto poderá estar pronto já no fim do ano e que se trata de um investimento com condições para redinamizar a secção náutica do clube, hoje algo adormecida.»
«Brian Hamilton acha que a Irlanda do Norte poderá atingir a fase final do Europeu-96.»
«Conhecendo bem o meio dos ralis, acha que dessa rivalidade o TT poderá sair vencedor?»


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Léxico: «escaque»; figura: catacrese

Já que pergunta

      Numa mensagem de correio electrónico perguntam-me, «pois que parece defender que tudo tem nome», se cada casa do tabuleiro de xadrez tem outro nome que não este, casa. Embora eu não defenda tal, devo dizer-lhe que, neste caso específico, assim é. «Casa do xadrez» é apenas uma catacrese (do gr. katakhresis, «mau uso», pelo lat. catachresis), que é uma espécie de metáfora lexicalizada a que temos, (quase) forçosamente, de recorrer para exprimir as nossas ideias e descrever a realidade. Exemplos do dia-a-dia de outras catacreses: a «perna da cadeira», «céu da boca», «maçã do rosto», «barriga da perna», «braço da cadeira», «cabeça do prego» e centenas de outras, que certamente conhece e usa, tal como eu e toda a gente. Neste caso, repito, há mesmo uma palavra específica para designar cada uma das 64 quadrículas em que se divide o tabuleiro do xadrez, e esse nome é «escaque» (do it. scacco, pl. scacchi), bem conhecido dos praticantes deste jogo.



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Acento circunflexo

O doce veneno dos erros

      Nem a beber tranquilamente um café escapamos aos erros ortográficos. Enquanto conversamos com um amigo, olhamos, distraídos, para o pacote de açúcar e lá está: «Salmão é peixe, não é uma côr!» A frase é dos Cafés Nicola, e a empresa, a Nutricafés, confiou que o ilustrador soubesse português. Depois de tantos anos a ouvirmos falar de qualidade, não será chegada a hora de esta se aplicar à publicidade aos próprios produtos? A língua não merece um controlo da qualidade? Talvez não seja arriscado afirmar que ainda o pai do ilustrador não tinha nascido quando o acento circunflexo foi eliminado em palavras como «cor». De cor se devia saber que «cor» prescinde de acento circunflexo desde o acordo ortográfico de 1945 e que antes só existia para estabelecer graficamente a distinção entre palavras com vogal tónica fechada de homógrafas com vogal tónica aberta. Por sorte, o café não se chamava «Flôr das Avenidas»...


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Igualdade

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Uni-vos!

      Ana Sara Brito, denodada apoiante de Manuel Alegre, entrevistada na Antena 1 pela jornalista Maria Flor Pedroso, levou ao limite a bandeira da «igualdade de género». A torto e a direito, «as ouvintes e os ouvintes», «aquelas e aqueles», «as jornalistas e os jornalistas», «as cidadãs e os cidadãos», «as portuguesas e os portugueses», e por aí fora. Parecia determinada em pôr sempre à frente as mulheres, mas por vezes era traída, e os homens, com a gramática e o hábito a ajudar, saíam primeiro. É duro ver que trezentas mil mulheres e um homem são «eles». Para quando as quotas na gramática? A democratização do verbo? Depois dos soutiens, podemos ainda ver as gramáticas serem queimadas nas praças de Portugal. E estou mesmo a ver quem vai escrever a letra do novo hino dos insurrectos. Perdão! Das insurrectas e dos insurrectos.


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Leituras

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Neve

      Só um homem vulgar não saberia apreciar a variedade na vida. Nevar, de norte a sul do País, só foi um acontecimento exaltante porque não acontece todos os dias. Ainda assim, achei que a alegria, em algumas pessoas, roçou a histeria. E por isso não escrevi aqui nada sobre o assunto. Leio agora em Robert Walser (Der Gehülfe): «Frau Tobler ruft erstaunt aus: “Es schneit!”» («Frau Tobler exclama: “Está a nevar!”»). As crianças gritam, Leo, o cão, entra na brincadeira, todos estão felizes e se esquecem das contrariedades da vida. E o romance está ambientado na branca Suíça!


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Léxico: metro linear

Imagem: http://tulipaa.no.sapo.pt
Conjunções

      Na semana passada, dirigi-me a uma drogaria cá do bairro comprar um tapete de cairo, de determinadas medidas. À minha pergunta de qual o preço do metro quadrado o lojista respondeu, pernóstico: «Trinta e oito euros o metro linear.» Provavelmente desde a escola primária que não ouvia a locução «metro linear». «Metro quadrado» e «metro cúbico», sim, são vulgares, e a razão só pode estar no facto de se usar «metro linear» para desfazer confusões (e, no caso, para o lojista me dar a entender que as sobras do cairo corriam por minha conta, podendo fazer com elas o que muito bem entendesse). Por coincidência, no mesmo dia li na revista Actual o excelente texto sobre a «fábrica de Pacheco Pereira», em que este afirmava que lhe entrava em casa, todos os dias, um metro linear de documentos. Isto é o que se chama conjunção.


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Tâmiles/Cádis/bandoleiro

A Pública errou

      Quatro erros na revista Pública (29.1.2006):

      Na rubrica auspiciosamente intitulada «Vale tudo» (p. 16), podemos ler que em «Cadiz» nos podemos deixar raptar por «lendários bandoleros». Tudo a brincar, claro, até porque ainda por cima temos de pagar aos salteadores. Ora, tanto quanto sei, escreve-se «Cádis», topónimo, como a jornalista deve imaginar, há centenas de anos registado na língua portuguesa. Ou também escreve «Oporto»? A propósito, os naturais ou residentes desta cidade do Sul de Espanha são designados gaditanos. Por outro lado, temos os nossos «bandoleiros», tão bons ou tão maus como os espanhóis.

      Na reportagem «Sri Lanka, a guerra está a recomeçar», o jornalista achou que escrever «40 civis tamil», «áreas tamil», «centenas de tamil», etc., era o mais correcto (claro, no Livro de Estilo não se diz nada sobre a questão…). Se se tivesse dado ao trabalho de consultar um dicionário, ia ver que o singular é «tâmil» e o plural «tâmiles» ou «tâmeis». Não deixaria também de ver que se pode grafar «tâmul», que pluraliza em «tâmules», pois claro.

      No texto sobre a mais recente obra de Agustina Bessa-Luís, Doidos e Amantes, podemos ler que a protagonista, Maria Adelaide, filha do fundador do Diário de Notícias, fugiu com «Manuel Claro, um mancebo bem parecido». Mais cuidado, a palavra tem hífen: bem-parecido. Tal como bem-amado, bem-apessoado, bem-apresentado, bem-comportado, bem-educado, bem-falante…

      Por fim, pelo menos por hoje, lê-se nas páginas 21 a 23 um texto sobre JT Leroy, um escritor norte-americano, com uma das obras agora traduzida para português, famoso e talvez sem existência física, que é «ultra-tímido». Isto é o que escreve a jornalista, porque por analogia só podíamos escrever «ultratímido», à semelhança de ultraterreno, ultraterrestre, ultratitânico, ultratropical, ultratumular… todos registados há muito nos nossos dicionários. Os dicionários não registam todos os vocábulos que existem e se usam legitimamente, como a jornalista não ignorará, mas cabe-nos a nós, falantes responsáveis, respeitar o que existe quando nos propomos inovar.

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História

Os pães de Deu-la-Deu

      Sempre gostei muito do nome Deu-la-Deu, talvez por me fazer lembrar lengalengas que me embalaram. Deu-la-Deu Martins — de quem só os concorrentes de programas televisivos nunca ouviram falar — figura no brasão de armas de Monção e era a mulher do capitão-mor desta praça, Vasco Gomes de Abreu. Estando este ausente, a fortaleza fronteiriça é sitiada pelas tropas de Henrique de Castela, comandadas pelo avançado da Galiza, D. Pedro Rodrigues Sarmento. Deu-la-Deu, que remédio, tomou o comando da defesa da praça, tentando repelir os sitiantes. A determinada altura, já o cerco durava há dias e as provisões eram escassas e a fome cercava os monçanenses, mandou recolher toda a farinha que existia na praça, com a qual fez pães que lançou aos inimigos, gritando-lhes que se precisassem de pão, de que eles, sitiados, estavam bem providos, era só dizerem. Como os sitiantes também já sofriam as agruras da fome, decidiram, pensando que pela fome não conquistariam a praça, levantar o cerco e seguir para Castela.


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O elemento compositivo não-

Questões não-essenciais?

      Nunca me ocupei aqui da questão do uso do hífen depois do elemento não (não-beligerante, não-cumprimento, etc.). Contudo, como o meu interlocutor privilegiado neste blogue me chama a atenção para o facto de ter sido tratada no Ciberdúvidas, referi-la-ei hoje. Começo por concordar que o mais inteligente é a resposta — ou parte dela, para ser mais rigoroso — que é dada. Creio que o realce deve ir para o trecho em que se afirma que «o usuário é árbitro para se fixar em a não valorização ou a não-valorização, o lexicógrafo, porém, não se sentirá compelido a dar tratamento de verbete autónomo a cada ocorrência desse tipo». Carta branca, pois, para o falante? Talvez. Ainda é cedo, dirão os lexicógrafos, para dicionarizar todas estas formas. Pelo meu lado, o que sei é que algumas editoras portuguesas dão instruções precisas para que se evite o uso do hífen nestes casos, o que, tendo em conta a língua de partida da maioria das traduções, me parece no mínimo avisado. O que se segue é citado — vou pensar se devo pedir desculpa por me citar a mim próprio — de uma obra minha, inédita, Manual de Normas de Edição e Revisão:
      «Com efeito, em inglês, é habitual o uso do hífen nestes casos. Apesar de mais restrita, a regra do francês é semelhante à inglesa: «On met un trait d’union entre les préfixes non et quasi et le nom ou l’infinitif qui suit, ex.: La non-ingérence, le non-paiement d’une dette, une fin de non-recevoir, la quasi-totalité. On ne met pas de trait d’union entre les préfixes non ou quasi et l’adjectif qui suit, ex.: – Une somme non payée, une date non prévue, un travail quasi parfait (1).» Entre nós, contudo, há opiniões contrárias bem formuladas, como a de Miguel Magalhães, da Direcção-Geral de Tradução da Comissão Europeia, que num texto da publicação A folha (boletim da língua portuguesa nas instituições europeias), n.º 16, Primavera de 2004, apresenta a questão de forma muito clara, concluindo que em muitos casos se trata mais de uma questão estilística do que gramatical (como também faz o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa).»
      A língua, sabemos, é um organismo vivo, que evolui, se transforma, adopta novas soluções, se mostra permeável às línguas com as quais está em contacto e é feita pelos seus falantes. Pessoalmente, apenas não me agrada o uso abusivo que em certos textos é dada a esta solução, quando o contexto permitiria soluções muito mais de harmonia com as idiossincrasias da nossa língua.


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Etimologia: mártir

Antes a morte

      A vida humana não é — vemo-lo quase cada dia que passa com cada bombista suicida que decide matar-se e matar alguém — um bem absoluto. É controversa esta afirmação? Lembremo-nos dos mártires (e mártires se autodenominam estes bombistas suicidas), de uma Santa Maria Goretti, por exemplo, que, ameaçada de violação, preferiu entregar a sua vida. Lembremo-nos do exemplo de Jan Palach, o checo que se imolou pelo fogo como protesto contra a invasão soviética da Checoslováquia, em 1969. «Mártir», que provém do grego «martyr», através do latim, e significa etimologicamente «testemunha». O mártir é aquele que, podendo escapar, não o faz. É testemunha da sua própria entrega. É o que antepõe determinados valores — a honra, a liberdade, o patriotismo... — à vida. Contraditório?


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Uso das maiúsculas

Olhe que não

      Diz bem: ser-se coerente na maneira como se escreve é de uma importância inestimável. Além disso, todavia, convém ir reflectindo na utilidade das opções. No caso que nos divide, parece-me que fazer-se graficamente a distinção entre Estado federal e Estado autónomo não tem qualquer utilidade nem contribui para maior clareza. Antes pelo contrário, diria.
      Quando me refiro a Portugal, também escrevo «País», sem pejo nem remorso, e vejo que Daniel Ricardo (1) também o recomenda na obra Ainda bem Que me Pergunta (Editorial Notícias, 2003, p. 208). E lá está, curioso, ao lado de «Nação» e «Pátria»…
      Nunca o impedirei de exprimir neste blogue a sua opinião, sempre tão esclarecida, quer concorde com ela quer não. Aliás, só a pluralidade de opiniões me fará — nos fará — progredir no conhecimento de uma matéria tão fascinante, mas ao mesmo tempo tão complexa, como é a língua. Seria mais provável impedi-lo de aqui escrever se concordasse (pelo menos sempre…) comigo.

(1) Ou, entre outros, Edite Estrela et alii in Saber Escrever, Saber Falar, Lisboa, Dom Quixote, 2003, p. 45.


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Etimologia: «semáforo»

Por aí

      A palavra «semáforo» vem de «sem(a)», elemento grego que significa «sinal», e «phorus», também grego, que significa «que carrega», «que transporta», «que leva». Há já muitos anos que julgava saber onde surgiu o primeiro semáforo: na berlinense Potsdamer Platz, em 1924. Ainda hoje lá está, diz-se, uma réplica do original. A Internet veio (?), contudo, desmoronar esta certeza: num site afirma-se categoricamente que «o primeiro semáforo de trânsito, alimentado a gás, foi instalado em Londres, 1868». Noutro, não menos peremptoriamente, diz-se que «o primeiro semáforo do mundo foi instalado em Boston, nos Estados Unidos, em 1840». Só não fiquei completamente desmoralizado porque num terceiro site se pode ler que «em 1926 a Siemens instalava na Praça Potsdam de Berlim o primeiro semáforo totalmente automático». Vendo bem, e tirando o pormenor da data, não é desta que ficarei desconvencido que foi mesmo em Berlim, na década de 20, que surgiu o primeiro semáforo. Muito à semelhança, aliás, do que escreve Cesare Pavese na obra Ofício de Viver: «Quando lemos, não procuramos ideias novas, mas pensamentos que já nos passaram pela mente e que adquirem, na página impressa, o selo da confirmação.»


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Uso das maiúsculas

O estado do Estado (2)

      Caro amigo: é bem verdade que se pode ler no Livro de Estilo do Público isso que citou no seu comentário. E na 2.ª edição, que tenho à minha frente, publicada em Março de 2005, pode ler-se o mesmo. Mas talvez não seja para levar a sério. Repare o que diz o texto a seguir à parte em que interrompeu a sua citação: «[…] quando seguidos de complementos toponímicos: condado de Barcelona, estado de Nova Iorque, província do Ribatejo, concelho da Maia.» Ora, o que a jornalista do Público escreveu foi: «E os candidatos a pais adoptivos vieram de vários estados brasileiros.» A regra que inventaram parecia impor-lhes que escrevessem aqui «Estados brasileiros», ou não? Não nego que há regras ortográficas (talvez fosse melhor dizer tipográficas) semelhantes, mas que se trata de um preciosismo é inegável. E se, por outro lado, me diz que as maiúsculas são uma «seca», recomendo-lhe vivamente que, neste particular, tenha paciência e escreva sempre com maiúscula, esquecendo o que diz o Livro de Estilo do Público.


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Controlo: grafia e etimologia

Imagem: http://www.tana.fr
De Veneza para o mundo

      Uma amiga pergunta-me como deverá escrever: «controle» ou «controlo»? Quer ainda saber a etimologia da palavra. Bem, apesar de ambas serem galicismos, eu prefiro a última forma, por me parecer mais afeiçoada ao nosso idioma. Claro que sempre podemos substituir estes termos por outros equivalentes em português, como domínio, fiscalização revisão, verificação e outras que se adeqúem mais ao contexto. De qualquer modo, e ao contrário do que já se verificou, parece estar a usar-se mais a forma «controlo». Quanto à etimologia, a palavra veio-nos, como já ficou dito, do francês contrôle. Esta forma, por sua vez, provinha, através de um fenómeno designado haplologia, do vocábulo contrerôlle, cujo étimo era o latim medieval contrarotulus (contra+lista). Qual a razão da origem na Idade Média? Quando os mercadores venezianos criaram o método da contabilidade por partida dobrada, ainda hoje usado, com os registos de deve e haver, perdas e ganhos, activo e passivo, passaram a usar dois rolos de papel: um deles, o devedor, que em latim vulgar da época tinha a designação de rotulus, e o credor, a que chamavam contrarotulus, que era o rolo de verificação. Este último, que passou ao francês como contrerôlle, mais tarde tomou a forma contrôle.


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Uso das maiúsculas

O estado do Estado

      «E os candidatos a pais adoptivos vieram de vários estados brasileiros.» A frase podia ler-se numa edição da semana passada do Público («Muitos querem ficar com bebé retirado de lagoa», p. 25). Claro que podia tê-la lido noutra qualquer publicação, pois que quase sempre está mal grafada. Ora, a palavra «Estado», no sentido de nação politicamente organizada, deve grafar-se com maiúscula. Trata-se de um dos tais «elevados conceitos religiosos, políticos ou nacionais». Respeitinho e gramática, se faz favor.


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Gentílicos trocados

Guineenses

      Agosto de 2005. Numa pensão de Caldelas, no coração do Minho. Um arauto do «antigamente-é-que-era-bom», passante dos 70 anos, pletórico de energia, pedia meças aos mais novos em matéria de conhecimentos gerais, em especial sobre as linhas e ramais de caminho-de-ferro e adjacências. Dantes é que o ensino era de qualidade, a 4.ª classe dele equivale ao 12.º actual. Ou seria a uma licenciatura? Num derivativo, enumerou com deleite obsceno os locais de Portugal por onde já passara, numa tentativa de alardear conhecimentos geográficos. Já dormira em Estremoz uma noite, já comera uma sande de torresmos em Moura, já bebera água da Fonte das Bicas em Borba, já urinara contra a muralha do castelo de Sortelha, já andara à chuva em Canal Caveira… Circunvagando o olhar arrogante pelos potenciais interlocutores, interpela uma jovem sobre a sua naturalidade. Da Guarda, diz esta. «Ah, guineense», berra, categórico. Pois, pois.


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Legendas

Imagem: http://www.goodexperience.com/
«Devisa», deveras?

      Judite de Sousa perguntou a Mr. Bill Gates qual era o seu «motto». Na legenda apareceu escrita duas vezes traduzido como «devisa». Quem o fez pensou na condenação da pronúncia afectada de palavras com o chamado e mudo em vez de i, como «ministro», «Filipe», «vizinho», etc., e vá de pôr de acordo a ortografia, que é sempre muito conservadora, com a pronúncia correcta destes vocábulos. Estou a brincar (mas não muito): quem escreveu assim desconhece a ortografia da palavra «divisa».


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Ringue e rinque

Também eu

      Enquanto Gabriel García Márquez não ultrapassa o bloqueio criativo de que se queixa (por enquanto eu, na casa dos trinta, só me queixo de reumatismo nas articulações…), vou aqui deixando uns textos. Hoje vou falar da diferença entre «ringue» e «rinque». Serão sinónimos, como o uso parece indicar? Vejamos como se usa na imprensa. No Diário de Notícias, de há dias, podia ler-se: «Quatro pessoas continuavam ontem desaparecidas entre os escombros do rinque de patinagem de Bad Reichenhall, na Alemanha, mais de 24 horas depois de o tecto do edifício ter desabado.» Por sua vez, no jornal Público, do dia 31.1.2006, podia ler-se: «[…] cobertura de um ringue de patinagem caiu […]».
      Sabendo que o Grande Dicionário da Língua Portuguesa define ringue como «tablado alto e cercado de cordas, onde se travam lutas de boxe, jiu-jitsu, luta romana, luta livre, etc.», não está correcto. A jornalista do Público deveria então ter escrito «rinque», que, segundo o mesmo dicionário, é o «lugar onde se patina». O Dicionário Actual da Língua Portuguesa, das Edições Asa, apresenta as mesmas definições, tal como o Dicionário Houaiss. A 6.ª edição do Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora não regista nenhum dos vocábulos, vá-se lá saber porquê. Já a Diciopédia 2004 dá a definição dos dois vocábulos, em tudo concorde com o que diz o Grande Dicionário de Língua Portuguesa. A pesquisa que fiz na Internet também não é muito desanimadora: de uma maneira geral, faz-se a distinção entre um e outro conceito. A consulta do corpus CETEMPúblico confirma igualmente esta distinção. Com a afirmação de Cesare Pavese a ecoar-me na mente — «Quando lemos, não procuramos ideias novas, mas pensamentos que já nos passaram pela mente e que adquirem, na página impressa, o selo da confirmação» — fui ainda mais escrupuloso do que habitualmente. Assim, creio que poucas vezes se dirá que o ringue sirva para outra prática que não o boxe ou desportos como os referidos, mas já o rinque não serve apenas para a patinagem, ao contrário da definição.


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Mal-estar

Agora sim

      No noticiário das 8 da manhã, na Antena 1, o locutor revelou-nos que a «eleição directa para o líder está a causar mau estar no PSD». Deveria ter dito, já todos sabemos, mas alguns ainda continuam a errar, «mal-estar». Agora que a RTP e a RDP têm um protocolo com o Ciberdúvidas, mediante o qual os jornalistas podem expor as suas dúvidas por telefone ou email, ainda é mais imperdoável. De qualquer modo, só esporadicamente aqui darei conta dos erros que lá vejo e ouço — tantos são e tão volátil é o meio. Por estratégia, o meu campo de análise será a imprensa escrita, por duas razões: primeira, na escrita, os erros são de longe muito mais indesculpáveis; segunda, há, para quem o quiser comprovar, a possibilidade de ler o texto alvo da minha análise. Quer-me parecer, contudo, que com esta parceria entre a equipa do Ciberdúvidas e a rádio e a televisão públicas as coisas vão mudar um pouco: pela minha parte, serei menos complacente.


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Pontuação

Ai, a minha cabeça

      «A editora Campo das Letras, acaba de publicar o seu milésimo título — O Sentimento de um Ocidental, de Cesário Verde.» A notícia, repetida noutros órgãos de comunicação, é da revista Actual (28.1.2006), página 7. Parabéns à Campo das Letras! Cuidado, caro jornalista! Aquela vírgula depois do sujeito é erro grave. Nunca se separa por vírgula o sujeito do predicado, nem este dos seus complementos, terá decerto aprendido. Quer ali a vírgula à viva força? Então terá de querer mais qualquer coisa. Tentemos de novo: «A editora Campo das Letras, a trabalhar no Porto, acaba de publicar o seu milésimo título — O Sentimento dum Ocidental, de Cesário Verde.»


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Idiotismo

Ou idiotice?
  
    Porque é que a ignorância é sempre tão risonha? Quando disse, certa vez, a um conhecido meu, que é professor de Português, que a expressão «mandar às urtigas» é um idiotismo, fartou-se de rir. Ainda hoje, passados três anos, deve estar a rir. Eu bem lhe disse ainda que «idiotismo» é sinónimo de «expressão idiomática», mas os estertores do riso não o deixaram ouvir. Contorcia-se, gemia, lacrimejava, ululava. Claro que tenho pena dele, mas ainda tenho mais pena dos alunos dele.


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Regência do verbo gostar

Já soube, em Novembro, agora esqueci-me

      «Matemática e a Física eram, obviamente, as disciplinas que mais gostava.» Assim se escrevia no Diário de Notícias no dia 27.1.2006. Talvez seja já um caso perdido, mas não desisto de lembrar que a sintaxe do verbo gostar exige o uso da preposição de. Gostar de. Logo, a jornalista deveria ter escrito: «[A] Matemática e a Física eram, obviamente, as disciplinas de que mais gostava.» Claro que, se se tratasse do Sr. Comum, eu não estranharia nem exigiria mais; mas como se trata de uma jornalista, devemos ser todos mais exigentes. Admite-se apenas a omissão da preposição antes de oração integrante, porque frases como «Gostaria de que aprendesse um pouco mais de gramática» não soa lá muito bem, convenhamos, sendo preferível dizer «Gostaria que aprendesse um pouco mais de gramática». Gostaria, a sério.


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Glacial/malcheiroso/vírgula

Três erros no DN (29.1.2006)

«Temperaturas glaciares». Texto inserto na última página. «Desabamento na Polónia faz 12 mortos e 100 feridos». «As temperaturas glaciares que tem [sic] assolado desde há dez dias a Polónia poderão agravar a situação dos feridos.» «Glaciar» é substantivo. A qualificar o substantivo «temperaturas» deveria estar um adjectivo. «Glaciais» ou «polares», por exemplo, como se lê na página 23 também a propósito da vaga de frio que assola a Europa.

«Mal cheiroso». Pode ler-se no texto «Burros de Miranda levam animação à Baixa de Lisboa», na página 32. Vá-se lá saber porquê, há uma obstinada tendência de se escrever incorrectamente a palavra «malcheiroso». Sim, o Mal também é cheiroso: a enxofre, ao que parece.

Pontuação incorrecta. «Como coordenador, Vítor Encarnação, veio hoje acompanhar apenas a campanha durante umas horas.» É a frase, mal pontuada, do texto da página 22. Nunca se separa por vírgula o sujeito do predicado, nem este dos seus complementos. A não ser, é claro, que exista, entre o sujeito e o predicado, uma oração intercalada. Apesar da liberdade que a língua portuguesa nos dá, não podemos mudar tudo a nosso bel-prazer. O segmento «como coordenador» tem a função de aposto (1), pelo que deve ter aquela vírgula a separá-lo do sujeito, «Vítor Encarnação». A vírgula que se segue ao sujeito é que está incorrecta. Se pospusermos o aposto ao sujeito, como é mais habitual, vemos logo que não podia estar ali aquela vírgula:
«Vítor Encarnação, como coordenador, veio hoje acompanhar apenas a campanha durante umas horas.»
«Vítor Encarnação veio hoje acompanhar, como coordenador, apenas a campanha durante umas horas.»

(1) O Prof. Cláudio Moreno, a quem agradeço, lembrou-me que Celso Pedro Luft, na sua Moderna Gramática Brasileira, escreve: «O aposto pode vir precedido de como, a saber ou expressões parecidas (=pré-apositivas): O mestre, [como guia da juventude], deve levar vida exemplar. Convém reter duas coisas, [a saber: as causas da revolução e suas conseqüências]. O resto, [isto é, a cabeça, os olhos e o nariz], foi ela quem pintou.»


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