Selecção vocabular


Uma coisa em forma de assim

      No programa 1001 Escolhas, de Madalena Balça, na Antena 1, que estou a ouvir de madrugada, a entrevistada é Margarida Pinto Correia. No perfil biográfico que inicia o programa, diz-se que Margarida Pinto Correia quando jovem era «boa aluna, inteligente e comunicadora». Comunicadora, contudo, como adjectivo significa «que comunica», e não era isso claramente que se pretendia dizer, mas sim «comunicativa», ou seja, «que comunica facilmente, expansiva», do latim tardio communicativus, a, um, com o mesmo significado.
      Para um insone atento (e não há insones desatentos, creio), estes erros irritam. Vou dormir.

«Mal-estar», não «mau estar»

Mau, mau

      Parece que pouco há a fazer: o cidadão comum, os jornalistas e os professores dizem e escrevem «mau estar». Esquecem-se de que mal é advérbio e se opõe a bem e mau é adjectivo e se opõe a bom. Se fossem coerentes, também diriam e escreveriam o antónimo assim: «bom estar». Mas na ignorância, tanto quanto tenho visto, não há coerência.


Actualização em 21.06.2010


      Mas há mais quem tenha escrito desta forma: «Isabela não tinha por hábito impressionar-se com facilidade, mas havia neste homem qualquer coisa que lhe causava mau-estar, acrescido ainda pela sensação de náusea proveniente do seu bafo avinhado, e que era quase insuportável» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, pp. 227-28).


Formas de tratamento. Publicidade

Você é (foi?) estrebaria

A propósito de marqueteiros, há agora aí um anúncio mais insistente do que todos que diz: «Se calhar tu ainda te achas nova, mas já está na altura de começares a poupar para a reforma. Não tarda nada, já estou a tratá-la por você. E nessa altura, o melhor é você já ter algum de parte. É a melhor maneira de prevenir que, quando a senhora começar a ser tratada por senhora, terá um nível de vida a que estava habituada quando era tratada por você ou por tu, minha senhora. No BES, há soluções de reforma que mudam contigo, aliás, consigo, perdão, com a senhora. Não é por acaso que somos líderes. Soluções de reforma BES. Quem sabe, sabe. E tu, você ou a senhora é que sabem.»
Deixem-me adivinhar: tratam por tu a jovenzinha que chega ao balcão (excepto se trouxer uma pistola na mão, suponho), por você uma pessoa com indícios exteriores de ser emigrante de Leste (vejam lá não se enganem) ou porteira num prédio e, por fim, por senhora… uma senhora. Uma pessoa idosa ou que indicia pertencer a certa classe social, digamos. É isso? Podem dominar as formas de tratamento no português contemporâneo (se calhar até leram Sobre “Formas de Tratamento” na Língua Portuguesa, de Lindley Cintra, à mesa de um McDonald’s), mas são uns hipócritas. E a quarta frase foi mal lida.
Se há questões complexas na língua portuguesa, a das formas de tratamento é uma delas. Há verdadeiras teses sobre o tema. Você é igualitário ou denota um pretendido distanciamento social? Senhor(a) é sempre tratamento cerimonioso, formal, sem distinções de classe, ou não? Vou voltar brevemente a este tema.

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A sério


      As pessoas já sabem pouco, como se prova a cada passo, mas com campanhas em prol da ignorância, a coisa piora. Agora um pouco por todo o lado os toldos de cafés e pastelarias com o patrocínio da Olá têm a inscrição «Diverte-te à séria». São os senhores marqueteiros a martelarem a língua. Já alguém me dirá, talvez com erros, que não faz mal, a língua evolui, etc.

Selecção vocabular

Controla-te

Uma equipa de arqueólogos belgas e turcos descobriu partes de uma estátua que se supõe representar o imperador romano Marco Aurélio. O Público de ontem trazia uma chamada na primeira página. No Diário de Notícias, no artigo sobre o mesmo achado, da autoria de Luís Filipe Rodrigues, lia-se, entre outras coisas: «Marco Aurélio controlou Roma entre 161 e 180, sucedendo a Antonino Pio. Este membro da dinastia Antonina, foi o último dos “Cinco Bons Imperadores”, que entre 96 e 180 levaram a paz e a prosperidade (política, mas também militar e económica) ao Império, estabelecendo a célebre Pax Romana» («Estátua colossal de Marco Aurélio achada na Turquia», 27.08.2008, p. 48). Marco Aurélio «controlou» Roma? E a rainha Vitória, o que fez? E Cavaco Silva, o que faz?

Tradução do inglês


Parafuso com anel

Ficámos a saber: foi Arabella Tanios, sobrinha de Emily Arundell (e nas legendas da RTP Memória apareceu sempre «Arundel»), quem estendeu um arame no topo das escadas, entre o rodapé e um balaústre, para que Mrs Arundell caísse. E onde é que Arabella prendeu o arame? Florinda Lopes, a tradutora, quis que fosse a uma aselha, mas o que vimos é exactamente o que está na imagem acima. No original é nail. «“The thread which you merely deduce from a nail in the skirting board!” I interrupted.» Sempre conheci por camarão fechado. No Brasil, é conhecido por pitão. «Aselha», ma chère amie, é uma laçada, um nó corredio ou uma presilha, tira de pano que tem, numa extremidade, uma casa onde entra um botão para prender. Aselha.

Tradução

Tradução automática

Se eu volar sobre el cordón de la vereda porque vem lá um qualquer veículo que quase me atropela, onde estou eu? (Não vale: num sítio qualquer, falo é espanhol.) Estarei num país de fala castelhana, sim. Mas no campo ou na cidade? Pista: o veículo é um autocarro. Claro: voar sobre o lancil do passeio. Para certos tradutores, contudo, é voar sobre o cordão da vereda. O leitor mais proclive a enigmas que se desenrasque. ¡A la mierda!

Passagem ≠ passamento

De passagem

Confirmadíssimo: nenhuma das inúmeras acepções do termo «passagem» significa «morte». Confusão da tradutora, Florinda Lopes. Mas (re)começo do início, por complacência com os leitores. No episódio de ontem na RTP Memória, que tem hoje continuação, Poirot foi chamado a deslindar mais um assassínio. Trata-se do episódio Testemunha Muda (Dumb Witness), em referência ao fox terrier Bob, que assistiu ao crime. A determinada altura, uma das irmãs espíritas, não me perguntem qual, Isabel Tripp ou Julia Tripp, diz a Poirot, que aceitou um convite para as visitar: «A Emily [Arundell] sabe que se culpa pela sua passagem e acha uma tolice, M. Poirot.» Passage em inglês, sim. Em português, passamento. Morte. Falta de leitura. De dicionários e de obituários.

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