Interjeições

Ena!

      Já aqui vimos mais de uma vez como as interjeições têm sido descuradas por dicionários, gramáticas e — o que é pior — pelos tradutores. Assim, nem sequer uma vez vejo a interjeição inglesa wow, aportuguesada em uau e muito usada pelos mais jovens, vertida de outra forma que não «uau». Ora temos melhor e nosso: ena, por exemplo. Exprime surpresa e admiração, como wow. Ou, pelo menos, que variem, usando ora uma ora outra.
      E já que foquei novamente esta questão, é a oportunidade ideal para sugerir que os responsáveis do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que tão atentamente, ao que me parece, seguem este blogue, comecem a referir, no verbete de cada interjeição, o que exprime, de que tipo é. Os leitores iam agradecer.

[Post 4632]

Ortografia: «strogonoff»

Língua de molho

      Caro M. L.: é com minúscula: «strogonoff». Repare, porém, como todos os dicionários registam (o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz que vem do inglês; o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que é do francês) que o étimo é stroganoff. Ora, deviam registar que é strogonoff (ou strogonov), ou os leitores menos desatentos vão achar pouco congruente. Este último dicionário e o Dicionário Houaiss acolhem também o aportuguesamento: estrogonofe.
[Post 4631]

Anglicismos

Haja ouvidos e vento

      Ontem, Miguel Esteves Cardoso levantou-se menos inglês que nunca, e pôs-se a desancar nos anglicismos mais óbvios usados na imprensa, e em especial no jornal em que publica a sua crónica diária.
      «Ontem, a Standard & Poor’s cortou o rating português para BBB-, “a apenas um passo do nível denominado como junk”, dizia o PÚBLICO online. Podia ser pior: “a agência baixou também o rating atribuído à Grécia, para BB-, três níveis abaixo do português”. O FT.com adiantava que a S&P tinha tirado Portugal “da lista creditwatch negative”, o que se presume ser coisa boa e de pouco consolo.
      O downgrading do rating para quase junk pede que se pense mais em português. Desgraduar é só uma palavra, ao contrário da inglesa, que são duas coladas. Se existe a graduação do vinho e há anos em que o grau é menor, também existirá a desgraduação. Ou degradação. Ou desvalorização. Ou, mais estupidamente, despromoção.
      O rating ainda é mais fácil: é escalão ou cotação ou, melhor, por serem four letter words: grau, nota ou furo. Afinal, é uma avaliação quantificada, como as estrelas do PÚBLICO. Junk é americano para lixo (e ultimamente calão para qualquer genitália). Também se poderia traduzir zero, já que a agência classifica a Grécia como estando a dois graus abaixo de zero, enquanto Portugal se mantém a um grau acima de zero» («Embarquemos no junco», Miguel Esteves Cardoso, Público, 30.03.2011, p. 39).
      Nos noticiários da Antena 1, nunca ouvi a palavra junk — mas também era só o que faltava. Diziam «lixo», que é junk mas é português. O aportuguesamento devia ser sempre a última opção. O ideal seria encontrar termos em português para traduzir os estrangeirismos. Assim, os termos aventados por Miguel Esteves Cardoso são tão bons como outros. O problema é que são aventados — ou seja, e etimologicamente, atirados ao vento —, não são sugeridos ou recomendados por uma entidade que vele pela língua, porque a não temos.
[Post 4630]

Elipse de «com»

Não se fala mais nisso

      Não há semana em que não veja um original inglês em que aparece uma frase com a estrutura destoutra: «[…] Ethan said, his chin set sharp as an arrowhead.» Tradução invariavelmente encontrável: «[…] disse Ethan, o queixo esticado como a ponta de uma seta.» Cheguei a focar e a increpar aqui esta via única de verter para português esta sintaxe. Aliás, honestamente, até a reputei errada. Estava enganado, mas fiz bem em mostrar aos tradutores que podem e devem variar. Ora cá está o bom Vasco a pontificar (zurzindo, de caminho, o autor da Estilística da Língua Portuguesa): «Têm-se criticado redacções como esta assim — “ela..., os olhos na mãe postos...”. Há quem julgue só correcto — ela..., com os olhos na mãe postos.
      Mostrei, com exemplos clássicos, no referido Dicionário, que a omissão de com anda abonada pelos melhores autores, e não pode considerar-se “viciosa”» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 421).
[Post 4629]

Sobre «pontificar»

Ou seja?...

      «Dez milhões de euros é a quantia reclamada à sociedade de advogados PLMJ, onde, entre outros, pontifica José Miguel Júdice, que está a ser acusada de ter deixado prescrever o prazo de envio de um recurso e, com esse acto, ter gorado algumas expectativas de indemnização» («Sociedade de advogados na iminência de pagar indemnização de dez milhões de euros», José Bento Amaro, Público, 29.03.2011, p. 10).
      Se o leitor não sabe o que significa «pontificar», não é por qualquer dicionário que chega a compreender o que é. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, «pontificar» é «celebrar missa com capa e pontifical» e, em sentido figurado, «falar, escrever com entono ou ênfase». Aposto que José Miguel Júdice faz isto na PLMJ. O Dicionário Houaiss regula mais ou menos pelo mesmo. Dos que consultei, apenas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o sentido figurado (mas através de um sentido figurado!) que o verbo tem no excerto acima: «ditar leis».
      Já que a ocasião se nos enseja tão propícia, seja-nos permitido pontificar uma lição ao jornalista: quando usar estes termos um pouco fora de circulação, faça o exame Vieira.

[Post 4628]


Como se fala na rádio

Problema mal resolvido

      «A Covilhã, no distrito de Castelo Branco, situa-se na vertente oriental da serra da Estrela, bem no sopé desta cadeia montanhosa. Desde tempos imemoriais que a localização da Covilhã, na Cova da Beira, muito rica em pastos, fez desta terra um local prazenteiro para a criação de gado ovino e transformou-a em terra de muita lã. A Covilhã chegou mesmo a ser o maior pólo da indústria têxtil no País. E é precisamente ligado à lã que se diz ter nascido o nome “Covilhã” enquanto “covil da lã”. Mas na lenda da Covilhã a história que se conta é outra. Reza a tradição oral que o governador de Ceuta, Julião de seu nome, enfurecido pelo facto de a sua bela filha se ter apaixonado por um rei godo, e com ele ter fugido, querendo vingar-se dos Godos, ter-se-á aliado aos Mouros e permitido que estes passassem pela zona e por ali permanecessem. Conta-se ainda que, quando o rei godo morreu, numa batalha contra os ditos Mouros, a filha de Julião ter-se-á refugiado no local que ficou conhecido como a Cova de Juliana. Juliana por esta ser filha de Julião. E a Cova de Juliana deu mais tarde lugar à agregação “Covaliana” e de “Covaliana” nasceu “Covilhã”» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 25.03.2011).
      O que faz mais espécie é certamente «o nome “Covilhã” enquanto “covil da lã”». Mas há mais. E aquele «enfurecido pelo facto de»? É outra maldição dos tempos modernos. O mais censurável, contudo, é a «agregação». Então agora é este nome que se lhe dá?
[Post 4627]
Nota para os leitores adventícios: o título deste texto vem daqui.

Ortografia: «conselheiro-geral»

Analogia

      «O partido de extrema-direita de Le Pen ficou abaixo dos resultados da primeira volta (15 por cento), mas confirmou a tendência de crescimento e implantação nacional. Até agora não tinha qualquer eleito nos cantões, e agora terá conseguido eleger pelo menos dois conselheiros, dizia ontem à noite o Le Figaro (os cantões são a circunscrição eleitoral dos conselheiros gerais, que vão integrar o governo de cada um dos departamentos)» («PS vence eleições cantonais em França, FN ganha terreno», Clara Barata, Público, 28.03.2011, p. 13).
      Se se escreve «governador-geral», por exemplo, não sei porque se não há-de escrever «conselheiro-geral».

[Post 4626]

Particípios em «-e»

Said Ali

      E dizemos nós. «Assim observamos junto do particípio normal entregado o concorrente terrível entregue. Já o seu aspecto externo nos surpreende. Exceptuada a palavra livre — um adjetivo que também faz de particípio — não sabemos de outro exemplo de forma participial em –e em todo o português literário desde o seu comêço até o fim da era seiscentista, e ainda mais tarde» (Dificuldades da Língua Portuguêsa, M. Said Ali. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica, 6.ª ed.,1966, p. 128).

[Post 4625]


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