Onomatopeias

Escutem


      Perguntaram-me, ontem, como se escreve a onomatopeia do som das ambulâncias e dos carros da polícia. Primeiro, deve dizer-se que as principais onomatopeias deviam estar registadas nos dicionários. Depois, bem, depois vê-se com duas grafias precisamente por não estar dicionarizada. No caderno de exercícios de um manual da Língua Portuguesa, Na Ponta da Língua, da Porto Editora, leio «tinóni», mas não vejo necessidade do acento agudo. «O Helder, que partilhava o quarto com o Luís, estava numa sala ao lado do átrio, a ver sites sobre a cidade e a região, e veio ter comigo quando ouviu os carros da polícia, que não paravam com o seu tinoni, tinoni, tinoni... Não era bem assim, mas estou a traduzir o som das ambulâncias galegas para português» (A Caminho de Santiago, Ana Saldanha. Lisboa: Editorial Caminho, 2010, 2.ª ed., pp. 71-72). Em espanhol, mas há-de ser apenas na meseta ibérica, diz-se nino-nino-nino. Talvez Fernando Venâncio saiba como dizem as criancinhas galegas.

[Post 4385]

Como se escreve nos jornais

Está pronunciado


      Já aqui tínhamos visto os bombeiros a confirmarem o óbito de duas vítimas de um acidente. Hoje, temos algo semelhante: «Segundo a acusação, o pessoal de emergência médica pronunciou Carlos Castro como morto às 19.18 e, de acordo com o director do serviço de saúde da cidade, as causas da morte do jornalista foram lesões no pescoço e na cabeça, que resultaram em homicídio, apresentando ainda lesões graves na cara e na parte genital feitas por um saca-rolhas» («Renato Seabra entrou algemado e clamou inocência», Ricardo Durães, Diário de Notícias, 2.02.2011, p. 50). Já temos sorte não ter sido uma empregada de limpeza mexicana a «pronunciar» o óbito. E reparem como as lesões no pescoço e na cabeça resultaram não apenas na morte do «malogrado cronista», como também se lê no Diário de Notícias, mas no homicídio. Não é feito para qualquer homicida.

[Post 4384]

Como se escreve nos jornais

Tão pobres


      «Foi debaixo de enorme expectativa e perante a presença de muitos meios de comunicação social portugueses e norte-americanos — jornalistas tiveram acesso em número ilimitado, mas só sete fotógrafos puderam entrar e o vídeo não foi permitido — que o acusado entrou no quarto 1313 do terceiro piso do Tribunal Criminal de Nova Iorque, localizado no número 60 da Centre Street, regressando de seguida ao Hospital Bellevue, onde se encontra desde 8 de Janeiro, primeiro sob custódia policial e depois detido, e ali deverá ficar até à próxima audiência no tribunal» («Renato Seabra entrou algemado e clamou inocência», Ricardo Durães, Diário de Notícias, 2.02.2011, p. 50).
      Em alguns tribunais portugueses, os processos, ainda artesanalmente cosidos, acumulam-se nas casas de banho. Nos Estados Unidos da América, as audiências decorrem em quartos... O jornalista pensava que só havia rooms nos hotéis, mas não...

[Post 4383]

Tradução

Buracos e tradução


      «Near the fiftteenth green», dizia, conciso, sem floreados, o original. O tradutor, porém, fez questão de «aprimorar»: «Em dada altura, devido ao facto de o Sr. Hart ter perdido uma bola num tracto de erva perto do décimo quinto buraco, ocorreu uma coisa bem curiosa.» «Tracto de erva», de qualquer modo, causa-me alguns engulhos. Tracto é pedaço de terreno; extensão; região; jeira. E, depois, e numa acepção mais usada, o tracto urinário, o tracto digestivo..., isto é, conjunto de canais, cordões, vias, feixes ou órgãos que pertencem a um mesmo sistema. Tracto ou tufo, é para arrasar cerce.

[Post 4382]

Verbo «haver»

Até os Cairotas entenderiam


      «Na sequência dos confrontos que começaram a 25 de Janeiro no Egipto e que já causaram mais de 125 mortos e milhares de feridos, o Governo português decidiu enviar um avião para retirar os cidadãos lusos do país e apelou ontem ao contacto destes. O primeiro voo parte hoje às 10h30 do Cairo com destino a Lisboa e irá transportar 70 portugueses. Contudo podem haver mais viagens, disse o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas» («Primeiro voo com cidadãos lusos abandona hoje o Cairo», Patrícia Susano Ferreira, Destak, 1.02.2011, p. 5).
      É aconselhável voltar, de vez em quando, a referir aqui estes erros, que conspurcam muitos jornais, revistas e mesmo, como já tivemos oportunidade de apontar mais de uma vez, livros. Até para não dar o sinal, errado, de que tudo está melhor. Pergunto-me o que há de tão complexo para que os jornalistas não percebam o que é a impessoalidade do verbo haver no sentido de existir.
      Quanto a «lusos» em vez de «portugueses», moda lançada e mantida pelos jornais gratuitos, é simplesmente execrável.

[Post 4381]

Apelidos

Meninos de coro

      Na sua edição de 27 de Maio de 1942, o Jornal do Brasil publicava um texto intitulado «Nomes próprios... impróprios». Revelava esse texto que na última fornada de portugueses que tinham alcançado a naturalização no Brasil se contava um cidadão com o nome de José Francisco Catarro. A determinada altura, lê-se: «Devia ser proïbido no Brasil o uso de nomes risíveis, grotescos, repugnantes e obscenos.» Passados setenta anos, a proibição seria agora mais necessária. Agostinho de Campos, sem se abespinhar, referiu o caso para falar de alcunhas e apelidos. «¿Como evitar, por exemplo, que os rapazes chamem parvalhão a um professor de apelido Carvalhão? Em todo o caso previna-se o mal até onde fôr possível», considerava a propósito de uma lei que existia então na Alemanha que permitia que os indivíduos com nomes risíveis — como Fleischfresser, ou Rindfleisch, ou Tischbein — que seguissem a via do professorado mudassem de nome. Quanto a apelidos portugueses, escrevia: «Além de Freire e de Frade existem outros apelidos provenientes de títulos eclesiásticos: Monge e os seus parentes Moogo e Moog; Bispo e até Pontífice. Clerguinho e Mousinho são como quem diz “meninos do côro”» («Das alcunhas aos apelidos», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, pp. 289-90).
      Como sei que alguns dos meus leitores têm curiosidade sobre a origem dos seus apelidos, deixo estas notas de Agostinho de Campos (1870-1944), escritor, pedagogo, jornalista e político português.

[Post 4380]

Tradução: «core capital»

A quem aproveite


      De vez em quando, é bom ver o que se diz em Espanha. Recentemente, a Fundéu recomendou que a expressão inglesa core capital se traduza por «capital principal» ou «capital básico». E justificava: «Aunque haya definiciones técnicamente precisas establecidas por el Comité de Basilea, esta expresión se emplea para aludir a los recursos que los bancos tienen siempre disponibles para poder hacer frente a los imprevistos, y se considera que entra en la parte principal de su patrimonio, por lo que las traducciones más adecuadas son capital principal o capital básico.» No Diário de Notícias, já li que o core capital é o rácio de fundos próprios de que os bancos podem dispor sem risco. Cá, estas recomendações cairiam sempre em saco roto.

[Post 4379]

Acordo Ortográfico

Pré-acordo a pedido


      À rubrica «Radar Flashback», da revista Visão, Vasco Graça Moura declarou: «Vi na televisão a palavra “fatura”. A RTP passa a aplicar o Acordo Ortográfico. Vai engrossar o número de responsáveis institucionais por um crime contra a língua portuguesa» (6.01.2011, p. 12). Claro que os responsáveis da revista Visão, não institucional, tiveram de acrescentar: «A pedido do próprio, manteve-se aqui a ortografia pré-acordo». Irónico, não é? E um pouco como cuspir na sopa, digo eu.

[Post 4378]

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