Sobre «consoar»

Isso era dantes


      E por falar em soar: até 1945, salvo erro, só as consoantes consoavam, e todo o tempo. Os homens apenas podiam consuar, e não somente na quadra própria, mas todas as noites (vejam acepções do substantivo respectivo). Naquela altura, ensinava-se que vinha de consum, do latim cum+sub+unum. Actualmente, está tudo amalgamado na mesma grafia, e a etimologia de «consoada» já é outra. Evoluções...

[Post 4361]

«Já são meio-dia e meia»?

No relógio da praça


      A minha filha está aqui a ver um DVD com a história do Pinóquio. O velho Gepeto está a afeiçoar uma tábua para construir qualquer objecto e começa a estranhar a demora de Pinóquio. «Hum... Já são meio-dia e meia...» Ora, mas nós dizemos «deu meio-dia». Isto é, diz-se na província, com o relógio da praça a soar. Os mais avisados, escreveu Augusto Moreno, consideram que estas são orações impessoais.

[Post 4360]

«Carrossel/carrocel»

Pequena guerra


      «O nome carrousel (em francês) significa “pequena guerra” e era usado para descrever uma série de jogos praticados por cavaleiros no tempo das cruzadas. O jogo consistia em fazer um trajecto a galope sem tocar em bolas de argila espalhadas pelo percurso e repletas de água perfumada. Foi em França que o carrossel se transformou num grande acontecimento, cujo ponto alto eram os torneios feitos num recinto onde os cavaleiros, a galope, usavam lanças para alcançar pequenos anéis presos entre dois postes» («Jogo de cavaleiros», «P2»/Público, 20.01.2011, p. 2).
      Não é raro ver-se a grafia «carrocel», mas, atendendo ao étimo, deve escrever-se carrossel, que é a forma registada por Rebelo Gonçalves no seu Vocabulário da Língua Portuguesa.

[Post 4359]

Acordo Ortográfico

Fale por si


      No correio dos leitores da edição de ontem do Metro (p. 9), foi publicada esta carta assinada por Nuno Duarte: «Parece que a reação de alguns setores à conceção e adoção do novo acordo ortográfico (como foi batizado) é de objeção. De fato, há aspetos neste acordo que tornam difícil a sua receção pelo coletivo, em especial quanto à dição de algumas palavras impressas, devido à supressão de carateres. Contudo, a direção certa e a melhor ação a tomar é deixar a afetividade em relação à antiga ortografia e começar a escrever de modo exato. É que, sejamos diretos: este modo de escrever pode não ser ótimo, mas é um ato consumado e até já o ensinam às crianças no atual ano letivo. Uma pequena nota: este texto não tem 20 erros; foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.»
       As contas não batem certo. De qualquer modo, o texto não tem vinte erros, não: tem, pelo menos, dois. Segundo as novas regras ortográficas, não passaremos a escrever, nós, Portugueses, «fato» como alternativa a «facto», tal como também não o faremos em relação a «dicção». Quanto ao resto, um erro factual: pode ser um acto consumado, mas ainda não o ensinamos às crianças neste ano lectivo, mas apenas no próximo. Claro que os jornais estão sedentos destes contributos, e nem reparam nestes erros. É que são muitas páginas para encher diariamente.

[Post 4358]

Dupla grafia

Imagem tirada daqui

Ah, não sabiam...


      «A tradição volta a cumprir-se na vila alentejana de Castro Verde, na próxima quinta-feira, com a realização da Feira de São Sebastião. O certame é também conhecido como Feira do Pau Roxo, nome associado à cenoura roxa, bastante procurada nesta altura do ano. […] Esta leguminosa foi em tempos um petisco comum nas tabernas da região, onde era comida crua às rodelas ou cozida e temperada com vinagre» («Feira de São Sebastião ou do Pau Roxo», Diário de Notícias, 16.01.2011, p. 29).
      Poucos leitores saberão que as cenouras só são cor de laranja desde o século XVI. Antes eram brancas, roxas e até talvez pretas. (Duplas grafias: cenoira e cenoura.)

[Post 4357]



Léxico: «dendrocronologia»

Pergunto


      «Os estudos de dendrocronologia (como se chama a ciência do estudo dos anéis de crescimento das árvores) têm permitido compreender melhor o clima do passado, e muitos arqueólogos começaram a relacionar as conclusões destes estudos com períodos históricos concretos, procurando nas fontes documentais provas ainda mais concretas dos efeitos do clima. Com água e nutrientes abundantes, os anéis das árvores tendem a crescer mais, o que não acontece nas fases secas ou frias» («Variações climáticas explicam fim de Roma», Diário de Notícias, 16.01.2011, p. 39).
      A dendrocronologia é a ciência, como se lê no artigo, ou a mera «determinação da idade que se baseia na contagem dos círculos dos troncos das árvores», como lemos, por exemplo, no Dicionário Houaiss?

[Post 4356]

Como se escreve nos jornais

Das osgas


      «As histórias repetem-se e não são exclusivas de Portugal. Não falta quem garanta que ficou careca a partir do dia em que uma osga esteve na sua cabeça; e quem afirme ter ficado cheio de dores no corpo por ter comido por um utensílio de cozinha onde uma osga caiu acidentalmente. Há ainda relatos mais dramáticos que dão conta da morte de indivíduos envenenados por esta espécie. O curioso é que os especialistas encontraram versões iguais em outros países, onde predomina a cultura árabe, como o Paquistão e o Egipto, levando a admitir que as crenças sejam um legado cultural. O próprio nome aponta nesse sentido. É que osga em árabe pronuncia-se wazaghah» («Herança árabe até no nome», Roberto Dores, Diário de Notícias, 16.01.2011, p. 45).
      «Osga em árabe pronuncia-se wazaghah»? Na peça principal, fala-se de uma campanha da Universidade de Évora para salvar as osgas, coordenada pelo biólogo Luís Ceríaco. Foi a uma comunicação deste académico que o jornalista foi copiar mal a informação. Cito o que interessa ao caso: «To strengthen this idea, one of the Arabic expressions for geckos is Bors or Wazaghah (Lane 1863), being the latter a word phonetically similar to the common Portuguese word of gecko “Osga”. Thus, we can assume that the folklore about the gecko, as its own common name, in Portugal, is most likely another cultural inheritance from Arabic origin.» No resumo desta comunicação, lêem-se estas pérolas: «Esta história, tal como a de que a urina de osga em alimentos matou alguém, são contadas desde o Norte de Portugal até ao Paquistão. Sendo a expressão árabe para osga extremamente semelhante à portuguesa (Wazaghah = Osga), e sabendo que em países que não tiveram sobre domínio árabe, este medos não existem, é provável que estas ideias sobre as osgas, sejam um vestígio da cultura islâmica em Portugal.»

[Post 4355]

Acordo Ortográfico

Notícias do meu país


      Lembram-se da minha recomendação de levarmos os nossos filhos para Badajoz? Reitero-a com igual razão. Ontem vi outra — repito: outra — professora de Português (não posso dizer onde, só que é uma espécie de laboratório) a escrever «hábito» sem h, pois meteu na cabeça que é o que a a), n.º 2, da Base II do Acordo Ortográfico de 1990 estipula. Este país poucos conhecem. Não queria estar na pele dos infelizes dos alunos...

[Post 4354]

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