Falsos cognatos

Então não


      A propósito do vocábulo catalão desesma, Vítor Lindegaard lembrou aqui (eu já tinha pesquisado, pois não conhecia o nome) que Manuel de Seabra é um tradutor especializado no catalão. E rematava: «Está explicado o catalanismo (isto existe?).» Bem, nesta acepção não está dicionarizado, mas não pode estar incorrecto. Ora vejam outro catalanismo naquela tradução: «Solómin estava sob suspeita — mas mandaram-no em paz por falta de provas. (Por outro lado, ele não evadiu julgamento e compareceu quando requerido.)» (Solo Virgem, Turguiénev. Tradução de Manuel de Seabra. Lisboa: Editorial Futura, 1974, p. 376). Evadir, em português, salvo melhor opinião, é sempre pronominal. Ao contrário de desesma, totalmente inexplicável, aqui estamos perante um falso amigo. Em catalão, cercar d’allunyar-se d’una situació desagradable, un problema, etc. Procurar fugir de...

[Post 4139]

Centímetro cúbico

Consulta II


      «O piloto português Miguel Oliveira foi este domingo segundo classificado no Europeu de motociclismo em 125 cc, atrás do espanhol Maverick Viñales, que se sagrou campeão no circuito de Albacete, Espanha» («Miguel Oliveira vice-campeão europeu em 125 cc», Diário de Notícias, 26.10.2010).
      E este não é um erro tão grave como «grau centígrado»? O símbolo de centímetro cúbico não é, afinal, cm³? Que diz o meu leitor Fernando Ferreira?

[Post 4138]

«Anarco-libertário»?

Consulta I


      «Apesar da lei em vigor não proibir que um manifestante oculte a sua identidade cobrindo a cara ou a cabeça, a PSP vai deter qualquer pessoa que o faça nos desfiles e manifestações anti-NATO previstas para os próximos dias. Os principais suspeitos têm um nome: anarco-libertários» («PSP vai deter quem se manifestar de cara tapada», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 16.11.2010, p. 8).
      Creio que a grafia anarcolibertário seria mais correcta (assim como, naturalmente, anarcossindicalista). É esta grafia, aliás, a do Acordo Ortográfico de 1990. Que diz o meu leitor Franco e Silva?

[Post 4137]

«Big Bang/big bang»

Imagem tirada daqui
Poing!


      «No acelerador de partículas do CERN já começaram a ser produzidos mini-Big Bangs, fazendo colidir núcleos atómicos maciços de chumbo, acelerados até velocidades próximas da da luz» («Experiências no CERN indicam que Universo começou líquido», Clara Barata, Público, 25.11.2010, p. 22). Prefiro a grafia do Diário de Notícias: «No CERN não se criam só minibig bangs, como há dias aconteceu» («Antimatéria ‘caçada’ pela primeira vez no CERN», Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 32). E até há quem escreva bigue-bangue.

[Post 4136]

«Alguém/ninguém»

Até ele


      «Era o fidalgo a única pessoa que exercia influência em Bento de Araújo, e tamanha que pudera arrancar-lhe alguns mil cruzados a juros, sob juramento de não dizer a alguém que lhos devia» (Novelas do Minho, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação do texto e nota preliminar pela Dr.ª Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 213).
      Cá está o grande Camilo a dormitar. Sempre a elogiar a forma como o bom povo falava, e a trocar ninguém por alguém. Acontece aos melhores...

[Post 4135]

Anedota

Se calhar foste tu

— Diz-me lá quem escreveu Os Lusíadas.
— Não sei, Sra. Professora, mas eu não fui — responde o aluno a gaguejar. E começa a chorar.
— Pois então, de tarde — diz-lhe a professora — quero falar com o teu pai.
Em conversa com o pai, a professora faz-lhe queixa:
— Não percebo o seu filho. Perguntei-lhe quem escreveu Os Lusíadas e ele respondeu-me que não sabia, que não foi ele...
— Bem — diz o pai —, ele não costuma ser mentiroso, se diz que não foi ele, é porque não foi. Já se fosse o irmão...
Irritada com tanta ignorância, a professora resolve ir para casa e, ao passar em frente do posto da GNR, diz-lhe o comandante:
— Parece que o dia não lhe correu muito bem...
— Pois não. Imagine que perguntei a um aluno quem escreveu Os Lusíadas e respondeu-me que não sabia, que não foi ele, e começou a chorar.
O comandante do posto:
— Não se preocupe. Chamamos cá o miúdo, damos-lhe um aperto, vai ver que ele confessa tudo!
Com os cabelos em pé, a professora chega a casa e encontra o marido sentado no sofá, a ler o jornal.
— Então, querida, o dia correu bem?
— Ora, deixa-me cá ver. Hoje perguntei a um aluno quem escreveu Os Lusíadas. Começou a gaguejar, que não sabia, que não tinha sido ele, e pôs-se a chorar. O pai diz-me que ele não costuma ser mentiroso. O comandante da GNR quer chamá-lo e obrigá-lo a confessar. Que hei-de fazer a isto?
O marido, confortando-a:
— Olha, esquece. Janta, dorme e amanhã tudo se resolve. Vais ver que se calhar foste tu e já não te lembras...!

[Post 4134]

«Racional»?

Digam, sff


      «Descubro agora que no ano lectivo 2007/2008 o Estado subsidiou nesses termos 416 escolas com 21 milhões de euros, correspondentes a 25 995 alunos. Há quem garanta que se poupa assim dinheiro; partamos então do princípio de que agora que decidiu finalmente fazer as contas, o Estado saberá decidir em conformidade. Mas deixemo-nos de tretas: o racional que subjaz à defesa dos contratos com as escolas privadas está muito longe de ser o da poupança» («Aspas em privado, sff», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 26.11.2010, p. 9).
      Nunca antes vira o substantivo racional usado desta maneira, e tenho dúvidas sobre se é português. Já o viram por aí? Pergunto-o desmaliciosamente, atenção. Até pode ser que, depois de algum leitor caridoso me lembrar, atire uma sapatada à testa.

[Post 4133]

«Por sua alta recreação», de novo

Pois, pois


      Na emissão de ontem do Lado B, José Diogo Quintela explicou a sua saída do jornal A Bola: «Escrevi um texto, o director d’A Bola, por sua auto-recreação, decidiu cortá-lo, sem me consultar, publicá-lo truncado dessa maneira, e eu pronto, disse: “Então, se você faz as minhas crónicas melhor que eu, assim editando, faça”.»
      É um erro que já passou por aqui e por aqui. Na verdade, é por sua alta recreação que se diz. Assim, se o que escreve não precisa de ser editado, pelo menos não dispensa o anónimo esforço da revisão.
      Não houve ali uma chispazinha que fosse de graça ou génio, e vê-lo fez as vezes de cozimento de papoilas, mas calo-me, porque é uma mera opinião e ninguém quer saber disso. Claro que já foi mais perigoso, olá se foi!, ousar beliscar a unanimidade em volta destes quatro felinos.

[Post 4132]

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