Caracteres especiais

Mais um bom exemplo


      «Mais de 160 garrafas de champagne com cerca de 200 anos, recentemente descobertas no mar Báltico, foram recuperadas com o apoio técnico da Corticeira Amorim, que assegurou a substituição da rolha original por uma nova rolha de cortiça natural. O champagne, proveniente de um barco naufragado por volta de 1800, foi descoberto por mergulhadores em Julho a uma profundidade de 50 metros junto à costa do arquipélago Åland, uma região autónoma da Finlândia» («Rolha Amorim ajuda a preservar ‘champagne’ com 200 anos», Diário de Notícias, 24.11.2010, p. 38).
      Lembro-me sempre, nestes casos, de Fårö e especialmente de Nemanja Vidić, pois foi a propósito deste que um ignorante atrevido (sempre anónimos!) me ofendeu. Cada vez é mais vulgar — cada vez é mais fácil fazê-lo! — ver na imprensa estes caracteres especiais, como defendo. Arquipélago de Åland, pois claro.

[Post 4116]

«Judeu», uma acepção

Já não há judeus


      «O Comendador, reloucado, ajoelhou no judeu e pôs as mãos, erguendo meia roupa e declarando a companheira, de costas e encotinhada, com a trança meio desfeita a separar-lhe as mamas de repolho espapado» (Tiros de Espingarda, Tomaz de Figueiredo. Lisboa: Editorial Verbo, 1966, p. 33).
      Esther Mucznik e todos os judeus portugueses (ou seja, uma boa parte de nós) ficarão contentes que esta acepção de «judeu» já não macule os dicionários, mas os amantes da língua terão opinião diversa. Judeu era o nome que o povo dava ao enxergão.

[Post 4115]

Como se escreve nos jornais

Mais valia estarem quietos


      No jornal impresso, era assim que se podia ler: «Duas crianças de 13 anos foram interceptadas, pelo Destacamento de Trânsito da GNR de Leiria, a circularem de bicicleta na autoestrada do Norte (A1), próximo da área de serviço de Leiria» («Duas crianças fogem de bicicleta e entram na autoestrada», João Pedro Campos, Jornal de Notícias, 23.11.2010, p. 22). Já aqui tinha falado nesta questão. No jornal em linha, nenhuma correcção até esta hora. Por outro lado, no dia 13 do corrente, no jornal impresso lia-se isto: «Exmo. Snr. Pai Natal» (Paulo Baldaia, Jornal de Notícias, 13.11.2010, p. 23). Na edição em linha, alteraram e ficou assim: «Exmo. Sr. Pai Natal». Com tanta ignorância nos jornais, que podemos esperar?

[Post 4114]

«Revistas do coração»

¡Hola!

      «Nada foi deixado ao acaso em Felipe e Letizia, da Telecinco. A promoção da série espanhola de dois capítulos foi intensa, desde a divulgação de fotografias da caracterização dos protagonistas ― Amaia Salamanca (ver caixa) e Fernando Gil ― e pôs Espanha inteira a falar do assunto, desde as revistas do coração aos jornais de referência. Nos dias da sua exibição lutou pelas audiências ao lado da série histórica Hispania, da Antena 3, e ambas conquistaram cerca de 5 milhões de espectadores» («As mentiras da série que encantou Espanha», Ana Carreteiro, Diário de Notícias, 16.11.2010, p. 54).
      Dantes, nunca se ouvia nem lia a locução «revistas do coração», era imprensa cor-de-rosa. Ahora, los portugueses disfrutan con los cotilleos y las noticias de las revistas del corazón. No caso, como o artigo é sobre um assunto espanhol, a jornalista não resistiu.
[Post 4113]

Ordem dos apelidos

Cada vez mais iguais


      «Há nomes que dentro de poucas gerações vão desaparecer em Espanha. A responsabilidade é do Governo do primeiro-ministro José Luis Zapatero e da sua lei para acabar com a cédula familiar (conhecida em Espanha como Livro de Família). […] A lei, cuja entrada em vigor se prevê para 2012, estabelece o fim da prevalência do apelido do pai sobre o da mãe. Os casais que esperam filhos devem indicar qual dos apelidos é atribuído ao bebé e, na falta de acordo entre os pais, prevalecerá a ordem alfabética dos apelidos. Naturalmente, um apelido começado por “A” prevalecerá sobre um outro começado por “P” ou “T”» («‘Zapateros’ ameaçados de extinção», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 14.11.2010, p. 33).
      Como é que uma característica tão marcante da cultura espanhola vai ser assim mandada às urtigas? E por um motivo futilíssimo: a monomania da igualdade. Por outro lado, claro que é exagero melodramático temer-se que alguns apelidos acabem. Como cá também o nome da mãe pode figurar em último lugar, cada vez estamos mais parecidos: «Como Pedro, há mais 3036 bebés, dos 97 255 registados em 2010, que têm no nome o último apelido da mãe, representando já 3% dos registos. Se somarmos os últimos cinco anos são 22 544 as crianças registadas desta forma. Em Portugal, a escolha da ordem dos apelidos cabe unicamente aos pais, ao contrário de países como a Espanha em que a lei dá preferência ao apelido do pai (ver caixa ao lado). Por cá, a maior prevalência do nome do pai deve-se unicamente à tradição. […] Ainda assim, existem entraves para uma maior dimensão deste fenómeno. “A maior parte das pessoas nem sabe que se pode pôr o nome da mãe em último lugar e por isso nem colocam essa hipótese”, defende a socióloga [Ana Reis Jorge]» («3% dos bebés registados com último nome da mãe», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 22.11.2010, p. 12).

[Post 4112]

«Deitar água na fervura»

Acalmar os ânimos


      «Um encontro semelhante sobre as ilhas Curilhas, entre o primeiro-ministro japonês e o presidente russo, Dmitri Medvedev, não teve resultados (ver pág. 35). Para colocar água na fervura, os russos dizem estar interessados em mais comércio com o Japão» («Obama apoia ambições do Japão na ONU», Luís Naves, Diário de Notícias, 14.11.2010, p. 32).
      Se até um jornalista como Luís Naves escreve desta maneira, bem podemos tirar o cavalinho da chuva — é uma causa perdida. Desta vez, nem sequer é confusão com o verbo «pôr», mas com outro. Então, caro Luís Naves, não é deitar água na fervura que se diz? Não é a brincar: vou mesmo emigrar. De longe, isto há-de ser muito divertido.

[Post 4111]

«Bagatelas penais»

Uma expressão patusca


      «Dezenas de “bagatelas penais”, ou seja, crimes com moldura inferior a cinco anos de prisão, avançam em processo comum quando podiam ser resolvidos em processos sumários, mais céleres, como defende o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (ver caixa)» («Bagatelas penais entopem a justiça», Rute Coelho e Joana de Belém, Diário de Notícias, 14.11.2010, pp. 36-37).
      Havia de pensar-se, não fora aquela peremptória indicação da moldura penal, que é expressão jornalística (que poderá, na origem, ser), mas o próprio legislador usa-a, como aqui no preâmbulo do Decreto-Lei n.º 244/95, de 14 de Setembro: «Compreensivelmente, não pode o direito de mera ordenação social continuar a ser olhado como um direito de bagatelas penais.»

[Post 4110]

Léxico: «ostreícola»

Apontem este


      «Um dos factores que condiciona [sic] a produção ostreícola no Sado é a reduzida quantidade de semente de Crassostrea angulata, levando o Instituto de Investigação das Pescas e do Mar (IPIMAR) a apontar como prioridade a colocação de colectores nos bancos naturais do estuário para a captação de juvenis, enquanto a produção de ostra portuguesa em maternidade é igualmente sinalizada como uma alternativa» («Pérola portuguesa ‘luta’ para renascer», Roberto Dores, Diário de Notícias, 14.11.2010, p. 44).
      É surpreendente que o Dicionário Houaiss não registe o vocábulo, quando não deixa de acolher «ostreicultura». Ostreícola, que diz respeito à cultura de ostras.

[Post 4109]

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