«Ir na peugada de»

Esforço vão


      «Além da Califórnia, onde no início do século XX chegaram a concentrar-se cerca de trinta mil portugueses, houve também quem se aventurasse pelo Nevada, Oregon, Idaho, Wyoming ou Novo México. “E a ética de trabalho, que não fez muito pelos que ficaram em Nova Inglaterra, na costa leste dos EUA, a trabalhar em fábricas de algodão, deu aos portugueses do Oeste uma vantagem sobre o americano típico”, explica Donald Warrin, o historiador que durante mais de uma década correu o “Ocidente longínquo” na pegada dos que lá se instalaram» («O velho Oeste com sotaque português», Bárbara Cruz, «DN Gente»/Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 2).
      Há, em todas as línguas, expressões fixas, e em relação a estas não vale a pena tentar ser original — e ir na peugada de, isto é, seguir os passos de, ir atrás de, é uma delas. Guardem a criatividade para outras empresas.

[Post 4084]

Como se escreve nos jornais

Sabe Deus


      «Homem solidário [Jerry Springer], o apresentador judeu é voluntário em campanhas sobre crianças deficientes, toxicodependentes ou pessoas com mobilização limitada» («Vinte anos a gerar polémica», Nuno Cardoso, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 65).
      «Pessoas com mobilização limitada», ou seja, em vez de serem enviadas para o Afeganistão, vão para o Havai, por exemplo. Lapsos todos temos, eu sei, mas o que me pergunto sempre é: será que está convencido de que é assim? Nunca saberemos, pois Nuno Cardoso, que de certeza vai ler este texto, não nos dirá. Mas isso não tem importância: o que interessa é que não volte a escrever tal disparate.

[Post 4083]

«Que/quem»

Está na hora


      «“É uma segunda família.” A afirmação é de Alexandra Lencastre referindo-se à Central Models, a agência com quem trabalha e que comemorou anteontem 20 anos com um jantar no restaurante BBC, em Lisboa» («Central Models assinala 20 anos com megafesta», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 69).
      A Ana Lúcia Sousa alguma vez leu que o pronome relativo e interrogativo quem se usa sempre em relação a uma pessoa? Claro que não. E nota-se muito.

[Post 4082]

Tradução: «clutch»

Não há melhor


      «O interior da mala é decorado com a bandeira portuguesa e tem um número que corresponde a cada uma das oito presenteadas. Além desta mala, Hillary receberá também da parte do primeiro-ministro português uma clutch em cortiça com efeitos conseguidos através da queima do material» («Sócrates oferece a Obama coleira de cortiça para cão-d’água ‘Bo’», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 11).
      A jornalista não encontrou melhor termo: clutch! No Merriam-Webster vejo que é «a woman’s small usually strapless handbag». Não vou agora fugir de uma anglicismo para cair nos braços de um galicismo, «pochete», mas carteira não chega? De qualquer maneira, eu preferia que fosse de cortiça.

[Post 4081]

Sobre «cativeiro»

Imagem tirada daqui

Agora entra em desuso


      Com a libertação da opositora birmanesa Aung San Suu Kyi, e já antes, em 2008, com a libertação da ex-deputada e ex-senadora franco-colombiana Ingrid Betancourt, os jornalistas portugueses só já têm os tigres, pandas e outros animais para poderem usar a palavra «cativeiro». Até agora, foi mesmo assim: só em relação a Ingrid Betancourt e a Aung San Suu Kyi usavam este vocábulo. E aos animais. Podemos encontrar um paralelo no caso das prisões: se a Polícia Judiciária deixar de existir, entrará inevitavelmente em desuso o vocábulo «calabouço».

[Post 4081]

Como se fala na rádio

Convergir e divergir — no ar


      Hoje, na Antena 1, foi dia de festa: os jornalistas apanharam uma nova forma, esquisita, distorcida, de dizer as coisas. Luís Soares, Antena 1: «A falta de visibilidade condicionou ao longo da manhã o tráfego aéreo na Madeira. Vários aviões tiveram que divergir para outros aeroportos por causa da falta de visibilidade provocada por nuvens baixas. Vários voos atrasaram ou foram mesmo cancelados.» Lúcia Cavaleiro, da TAP, explicou como é: «Neste momento, está, está efectivamente tudo normalizado. As condições meteorológicas também assim o permitiram e portanto tivemos alguns, portanto, algumas, alguns aviões tiveram que ser divergidos, designadamente para Porto Santo, mas que neste momento já se encontram no Funchal, todos, portanto, todos os passageiros.» Divergir também é desviar-se, mas francamente! E reparem que uns aviões divergiram e outros foram divergidos. E os voos que atrasaram também são uma pérola.

[Post 4080]

«Heraldo» e «arauto»

Diga o resto


      «“Leste no Heraldo Europeu um artigo sobre os últimos impostores de Orenburg? Foi em 1834, irmão! Não gosto dessa revista, e o autor do artigo é conservador, mas a coisa é interessante e pode provocar ideias…”» (Solo Virgem, Turguiénev. Tradução de Manuel de Seabra. Lisboa: Editorial Futura, 1974, p. 84).
      «Em Bagaúste, linha férrea do Douro, um pouco acima de Régua, no ponto fluvial onde se constrói agora uma barragem, acaba de nascer um jornalzinho para distracção de quem trabalha no empreendimento. Sabem como se chama? Herald de Bagaúste. É, pelo visto, um arauto. Mas, como arauto é nome português, atirou com ele ao rio, isto é, ao river. E ninguém se lhe atravessou. O cadáver do arauto deverá aparecer, qualquer dia, com a barriga inchada, a jusante de Bagaúste, perhaps at Régua» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 66).
      João de Araújo Correia só se esquece de dizer que heraldo — não herald, valha-me Deus! — é mais antigo na língua do que arauto, não é assim, Montexto?

[Post 4079]

«Tratar-se de»

Imitação


      «De acordo com o documento do Governo Civil de Lisboa, que define as especificações técnicas dos veículos, estes não se tratam de simples “viaturas de transporte pessoal com protecção balística”, conforme garantiu o ministro da Administração Interna (ver texto ao lado) e o comando da PSP. Tratam-se, isso sim, de verdadeiros blindados de guerra, idênticos aos usados pelos americanos e ingleses no Iraque» («PSP comprou blindados para a ‘guerra’ nos bairros», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 11.11.2010, p. 4).
      Aí está: para não ser apenas a ministra da Educação a cincar em regra tão elementar, os jornalistas imitam-na. Cá estamos nós a pagar e a ler os disparates.

[Post 4078]

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