De «sodomita» a «homossexual»

Seu solomico


      Na obra de Cervantes, há uma personagem, um ladrãozeco ainda no início do seu exigente tirocínio, que, em conversa com outro de tal ofício e semelhante inclinação, afirma que pior é ser herege ou renegado, ou matar o pai e a mãe, ou ser «solomico». «Sodomita», corrige o outro, mais conhecedor. Até ao século XIX, sodomita («perfeito», o que tinha relações sexuais anais com homens, e «imperfeito», o que tinha relações anais com mulheres) era o único termo usado, e apenas em referência a um acto concreto, não como marca identitária ou reflexo de determinada orientação sexual, como passou a ser com o termo «homossexual», cunhado em 1868 pelo jornalista e escritor austro-húngaro Karl-Maria Kertbeny (1824―1882).

[Post 3979]

Tradução: «trenca»

Imagem tirada daqui

Também não temos esta


      Não ficam por aqui as diferenças entre as línguas espanhola e portuguesa no que toca ao nome das peças de vestuário. Como se chama a peça que vemos na imagem? Pois é: um sobretudo de ¾, talvez. Mas com capuz... Bem, os Espanhóis chamam-lhe trenca: «Abrigo corto, con capucha y con piezas alargadas a modo de botones, que se abrocha pasando cada una de ellas por sus respectivas presillas.» Há quem diga que vem do inglês trench, mas nessa língua dá-se-lhe a designação de duffel coat. (Esta designação provém do nome da cidade de Duffel, na província de Antuérpia, na Bélgica.) O que se sabe ao certo é que a peça só começou a ver-se na Península Ibérica depois da II Guerra Mundial. Daí a possível etimologia. De qualquer modo, também se lhe dá o nome de montgomery, do nome do general Montgomery, de quem não faltam fotografias vestido com tal peça de vestuário.

[Post 3978]

Ensino

Lá como cá


      Há trinta anos, em Espanha, todos os alunos com menos de 10 anos sabiam o nome das letras no plural: a/aes; e/ees;/i/íes; o/oes; u/úes. Agora, disse-me ontem um professor de Espanhol, só três em cada dez vezes é que se ouve tal. Agora, é as, es, ís, os e us. A ponto de as gramáticas terem tido de admitir a mudança. Talvez seja escusado dizer que, comparando alunos do ensino básico espanhóis e portugueses, estes ficam sempre para trás, conforme o provam estudos internacionais. Em tudo: na identificação de letras e grafemas, na latência da resposta de leitura em voz alta e sobretudo no domínio da descodificação na leitura de pseudopalavras (palavras fictícias, digamos, formadas por uma combinação de fonemas ou grafemas que não existem no léxico de uma língua).

[Post 3977]

Tradução: «rebeca»

Só temos rabecas


      Digam-me uma coisa: que nome se dá em português ao casaco de malha unissexo como o que vemos na imagem? Pois é: casaco de malha. Frustrante. Vamos a Badajoz e logo toda a gente sabe: rebeca. E onde foram os Espanhóis buscar o chamadoiro, como diria Vasco Botelho de Amaral? Ao filme homónimo de Alfred Hitchcock. Nele, a protagonista feminina, papel desempenhado pela actriz Joan Fontaine, vestia uma peça de roupa com essas características. Quando o filme foi visto em Espanha, logo as boas donas de casa espanholas começaram a tricotar casacos iguais, a que deram o nome de rebeca. E, claro, o DRAE regista o vocábulo: «Chaqueta femenina de punto, sin cuello, abrochada por delante, y cuyo primer botón está, por lo general, a la altura de la garganta.» Os dicionários bilingues espanhol-português dão como equivalente, e não podiam dar outro, «casaco de malha».

[Post 3976]

Léxico: «pantalonas»

Uma comédia


       Em espanhol, há não muito tempo, alguns nomes apenas se usavam no plural, careciam de singular: tijeras, gafas, pinzas, alicates, víveres, enseres, andas, etc. Ultimamente, porém, os substantivos que designam objectos constituídos por peças simétricas começaram a ser usados também no singular pinza, tijera, alicate, etc. Pantalón também está neste grupo. Se perguntarem a um espanhol medianamente culto qual o étimo de pantalón, logo dirá: o francês pantalon. E não erra, mas este vem, e assim a linhagem fica completa, do nome de uma personagem da Commedia dell’arte (o teatro popular improvisado de origem italiana): Pantalone, que vemos na imagem. Este tipo de calças era coisa nova na Europa de então. Pantalone em italiano, pantalon em francês, pants em inglês... Em português, os vocábulos pantalão, pantalonas, pantalonada têm o mesmo étimo.

[Post 3975]

Léxico: «sabrina»


Nem dicionários nem lojistas


      Fui inscrever a minha filha em aulas de Dança. Perguntei à professora que calçado devia levar. «Sabrinas.» Dirigi-me a uma loja de artigos desportivos. Os donos da loja, um casal já idoso, não sabiam de que se tratava. «Mas para a dança costumamos vender isto.» Isto era um par de sapatos brancos, leves e flexíveis, de pele e salto raso — como se lê na definição que se encontra no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. O Dicionário Houaiss e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa ignoram (como também desconhecem outro vocábulo ali nas imediações da ordem alfabética — sabrista, mas venham cá perguntar-me, que pratiquei esgrima, e levam uma estocada num flanco). Os Espanhóis também lhes dão o nome de sabrinas, ou manoletinas, ou toreras. Comecemos pelo fim: toreras porque há séculos que os toureiros usam sapatos semelhantes. Manoletinas como homenagem ao toureiro cordovês Manuel Rodríguez Sánchez (1917―1947), conhecido como Manolete. E sabrinas, finalmente, de onde vem? Do filme homónimo de Billy Wilder, realizado em 1954, e com o papel da protagonista desempenhado por Audrey Hepburn. Vejam a imagem em cima: calças e calçado à toureiro. (E Sabrina venceu, lembro, o Óscar na categoria de melhor guarda-roupa em 1955.)

[Post 3974]

Toponímia

Lapsos


      Numa proposta que me parece acertada, as 53 freguesias de Lisboa vão ser reduzidas quase a metade: 27 ou 29. E os nomes de algumas vão mudar. Miguel Esteves Cardoso, na sua crónica de hoje no Público, congratula-se: «O mérito principal da nova proposta é usar nomes que os lisboetas usam (Mouraria), em vez de nomes religiosos que ninguém conhece (S. Cristóvão, S. Lourenço e Socorro). Campo de Ourique em vez de Santo Condestável e Santa Isabel está bem. Avenidas Novas em vez de São Sebastião da Pedreira e Coração de Jesus também. E Areeiro em vez de São João de Deus é um alívio. Mesmo assim, as Amoreiras continuam em Santa Isabel. Os Prazeres e Alcântara são diferentes. O Lumiar nada tem a ver com os Olivais. E, já que se perdem tantos santos, porque não só Benfica em vez de São Domingos de Benfica?» («Santos a mais», Miguel Esteves Cardoso, Público, 15.10.2010, p. 49). Alto aí, Miguel! Não está a propor que haja duas freguesias denominadas Benfica, não? É que há São Domingos de Benfica e Benfica.
      (O vocábulo «toponímia» fez-me lembrar de outro, «homonímia», e do facto, estarrecedor, de recentemente ter visto umas provas de uma obra e de uma das emendas ser esta: homonímia → homonimia. Se existem ambas as grafias, qual a legitimidade de se fazer semelhante emenda? Convenhamos que não é exactamente o mesmo que substituir detalhe por pormenor ou sucesso por êxito, isto para não fugir ao que ainda é polémico.)

[Post 3973]

Sobre «carpideira»

Imagem tirada daqui
Não escreva assim

      «Não vale a pena reforçar o coro dos lamentos. Os carpideiras (não é gralha, não) disso se encarregam», escreve Ana Benavente na edição de hoje do Público («Três ou quatro coisas sobre o país actual», Público, 14.10.2010, p. 39). Não é gralha, não — é erro. Julgo vislumbrar ali uma intenção jocosa, mas não deixa de ser erro. «Carpideira» é do género feminino. Bem, parece que também há agora homens que pranteiam, a troco de dinheiro, os mortos durante os funerais. Antes eram só mulheres. (A propósito: se não temos, tirante corpoferário, vocábulo correspondente a pallbearer, a língua inglesa não tem equivalente para «carpideira». Dizem o quê? Hired mourner?) (Obrigado a R. A. pela indicação do texto do Público.)
[Post 3972]

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