Como se escreve nos jornais

Dão-se alvíssaras


      «É um dos livros mais aguardados da rentrée literária espanhola: a novela El sueño del celta do escritor peruano Mario Vargas Llosa. A obra parte da vida de Roger Casement (1864-1916), um diplomata e nacionalista irlandês, escritor, defensor dos direitos humanos, homossexual atormentado comisso» («Novo livro do autor Vargas Llosa», Diário de Notícias, 30.08.2010, p. 43).
      Na página na Internet da Casa Fernando Pessoa, pode ver-se assim transcrita a notícia (a parte que interessa): «A obra parte da vida de Roger Casement (1864-1916), um diplomata e nacionalista irlandês, escritor, defensor dos direitos humanos, homossexual atormentado com isso.» Ou seja, a palavra «comisso» foi interpretada como gralha. Será mesmo? É o mais provável, tanto mais que a pontuação reforça a hipótese. Contudo, se a fonte mais próxima foi a entrevista que o escritor deu ao jornal El País, fico com dúvidas. O excerto que interessa do intróito da entrevista: «Diplomático reservado, sir y escritor, temprano relator de derechos humanos, héroe irlandés, traidor británico, torpe estratega militar, homosexual atormentado, reo ajusticiado...» Sabe Deus se não quiseram traduzir «reo ajusticiado» por «comisso»... Por outro lado, como em fontes em língua inglesa relacionadas com Roger Casement é muito usada a palavra «penalty», que numa das acepções se poderá traduzir por «comisso», não sei. De qualquer modo e finalmente, «homossexual atormentado com isso» não é redacção que se recomende.

[Post 3836]

Samatra/Sumatra

Tudo na mesma


      Isto? «O vulcão Sinanbung, situado no norte da ilha indonésia de Samatra, despertou ontem, ao fim de 400 anos de actividade, levando as autoridades a accionar de imediato os sinais de alerta máximo» («Doze mil fogem de vulcão activo», Pedro Correia, Diário de Notícias, 30.08.2010, p. 21).
      Ou isto? «As autoridades da Indonésia começaram ontem a evacuar 10 mil pessoas por causa da erupção do vulcão Sinanbung, a norte da ilha de Sumatra» («Vulcão provoca retirada de milhares de pessoas», Jornal de Notícias, 30.08.2010, p. 16).

[Post 3835]

Léxico: «ventana»


Palavras ao vento

      Ventāna, ae é só um termo latino hipotético do qual derivou o espanhol ventana. E deste derivou o vocábulo português... ventana. Está bem, este deixou de ser usado em português. E do português venta, cada uma das narinas. Em latim, denominaria o lugar por onde passa o vento, daí vir a designar as janelas e as narinas. Também na nossa língua designou a abertura, nas torres das igrejas, onde se situam os sinos. Ventana e, mais frequentemente, o diminutivo, ventanilha, é o nome que se dá a cada uma das aberturas ou bocas por onde caem as bolas nas mesas de bilhar, como a imagem ilustra. Em inglês, dá-se-lhes o nome, vejam bem a pobreza!, de pocket. What a folly!

[Post 3834]

Sobre gralhas

Gralhas e ciganos


      Tanto no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora como no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, a definição de gralha, essas manchas que desvirtuam e desfeiam tantos textos, não é menos que imprecisa. Não: é errónea. A mais satisfatória é a do Dicionário Houaiss. O jornalista Rui Osório, do Jornal de Notícias, escreveu recentemente um texto em que protestava contra o Governo francês por estar a expulsar os ciganos. E, depois, aconteceu isto: «Alguns leitores do JN online não gostaram do meu protesto e indignaram-se com uma gralha que me escapou. Quis escrever “camião” e saiu-me, calculem!, “caminhão”. Foi o suficiente para que os meus críticos me acusassem de “ignorante” e de “cigano” analfabeto, incapaz da 4.ª classe» («Jornalista fingido de “cigano ignorante”», Rui Osório, Jornal de Notícias, 29.08.2010, p. 24). Ter querido escrever uma palavra e sair outra não é, evidentemente, gralha. Se Rui Osório, que é padre, tivesse sido missionário no Brasil, estaria facilmente explicada a troca. Ter alegado que a 8.ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (e decerto que a edição para (!) 2011 também) «regista “caminhão” remetendo para “camião”» também não é dos argumentos mais contundentes, pois aquele dicionário regista que é variante usada no Brasil. Os Brasileiros usam «caminhão», mera diferença morfológica, nada ralados com a opinião de Rodrigo de Sá Nogueira. O étimo é o mesmo, o francês camion, mas no Brasil estabeleceu-se, ao que parece, uma curiosa analogia com o vocábulo «caminho»: como aquele veículo é para andar nos caminhos, passou a dizer-se «caminhão». Entre nós, não era nada raro, há vinte e trinta anos, ouvir-se «camion» em vez de «camião», e não seriam decerto só os ciganos analfabetos que falavam assim, mas sem dúvida que seriam os incapazes da 4.ª classe.

[Post 3833]

«Taliban», outra vez

Elogio da sensatez


      «Dezenas de taliban atacam duas bases no Leste do Afeganistão e sofrem 21 mortos» (Jorge Heitor, Público, 29.08.2010, p. 12).
      Já aqui (e aqui) falei desta aberração, e sei que há leitores do Público que mandam mensagens de correio electrónico e cartas à directora em que protestam contra este abastardamento. Pura perda de tempo. Itálico, já sabemos, é recurso que a generalidade dos jornais vai ignorando. Contudo, há sempre pior, como isto: «Ataque a bases da Nato mata 24 rebeldes talibã» (Jornal de Notícias, 29.08.2010, p. 57).


[Post 3832]

Mercados de levante

Elogio do clima


      Decerto que se recorda da questão do mercado de levante. Pois na edição de ontem do Público podia ler-se isto: «Viajando por diversas cidades, procuro — e facilmente encontro — os mercados mais diversos. Mercados permanentes e mercados de levante (que, justamente, se levantam de madrugada e retiram ao fim do dia)» («Os mercados de levante», João Seixas, «Cidades»/Público, 29.08.2010, p. 2). Muito bem explicado, sim senhor. Levantam-se, isto é, são armados (tendas, barracas), montados (bancas), logo de madrugada, e retirados ao início da tarde ou ao fim da noite. O autor do texto, geógrafo urbano, diz-nos que «só nos últimos dois anos, Nova Iorque instalou 50 novos mercados, quase todos de levante», estranha que num país como o nosso, com este clima, não haja mais mercados.

[Post 3831]

Tradução: «ingenio»

Imagem tirada daqui

Engenhar com números


      Ingenio é uma dessas palavras espanholas infinitamente mais ricas na língua que no dicionário, sim, mas, ainda assim, infinitamente mais ricas no Diccionario da Real Academia Española que em qualquer dicionário bilingue. Se eu fosse sentenciador (e parvo, e parvo), até diria: dos que houve, há e haverá. No D. Quixote, ingenio, que aparece 45 vezes, é agudo, maduro, cultivado, felicísimo, boto, corto, seco, sutil, admirable, gran, ruin, desenfadado, buen, resfriado... Abro de novo a tradução de D. Quixote feita por José Bento, que me acompanha por estes dias que me abafam o engenho para obra mais substanciosa, e faço as contas: o tradutor verteu o vocábulo 21 vezes como «engenho», 13 como «inteligência», duas como «esperteza», cinco como «mente», duas como «imaginação», uma como «espírito» e uma como «cérebro». Vamos agora, como leitores usurários, aplanar o trabalho alheio e dizermos que podia ter recorrido a menos palavras, ou mesmo a uma só, como alguns pretendem? Não e não, que os matizes no original também podem, e muitas vezes devem, ser dados por diferentes vocábulos. Que não vamos agora poupar riquezas e esbanjar pobrezas.

[Post 3830]

«Faixa de Gaza»

Já há quem


      Só espero que não tenha sido por acaso, que tanta culpa tem no que acontece de bom e de mau: na revista Notícias Sábado de ontem, num artigo sobre a inauguração de um centro comercial, o Gaza Mall, na faixa de Gaza, a jornalista foi assim mesmo que grafou e como eu recomendei há uns meses: «As notícias internacionais mostram o território da faixa de Gaza isolado, com uma população miserável apanhada no meio da guerra fratricida entre o Hamas e a Autoridade Palestiniana e sujeita ao embargo israelita» («Até a faixa de Gaza já tem um centro comercial», Ana Pago, Notícias Magazine, 28.08.2010, p. 11).

[Post 3829]

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