«Interrogação policial»

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Curioso


      «O antigo apresentador de rádio e televisão britânico Ray Gosling foi ontem detido para interrogação após ter confessado, num programa televisivo, que pôs fim à vida de um amante que estava doente com sida em estado terminal» («Apresentador britânico detido após dizer que matou um amante em estado terminal», Maria João Guimarães, Público, 18.2.2010, p. 16).
      É verdade que interrogação também significa interrogatório, mas nunca tinha visto o vocábulo ser usado nesta acepção. E, no caso, não há-de dever nada ao inglês, pois a imprensa britânica usou para interrogatório a palavra questioning.

[Post 3157]

«Tragédia humana»

Muito bem


      Não são só erros e disparates: alguns jornalistas começam a usar o adjectivo humanitário, de que já aqui falei, com propriedade: «O fundador e presidente da Assistência Médica Internacional (AMI), o médico Fernando Nobre, está na corrida a Belém, foi ontem confirmado. Amanhã, este homem habituado a palmilhar cenários de tragédia humana em dezenas de países estrangeiros vai explicar em detalhe por que razão quer ser Presidente da República e com que apoios conta — o anúncio oficial da candidatura está marcado para as 20h, no auditório do Padrão dos Descobrimentos» («Líder da Assistência Médica Internacional quer ser Presidente da República», Alexandra Campos, Público, 18.2.2010, p. 8).
      É verdade: o adjectivo «estrangeiros» está ali a mais.

[Post 3156]

Sobre/sob

Sobre erros


      Nunca li um relatório escrito por um detective privado. Na verdade, só uma vez, a pedido de um amigo, falei com um detective. E a impressão não foi a melhor. Hoje, um amigo pediu-me que o ajudasse a escolher um detective que lhe tratasse de um caso. Recorri a conhecimentos e à Internet. No sítio do detective Correia, que se diz fundador da Associação Nacional de Detectives Privados (ANDEPIP), lê-se que faz o «levantamento de bens penhoráveis e sobre hipoteca». Vendo bem, é melhor nunca ler nenhum relatório escrito por um detective.

[Post 3155]

Léxico: «cenarização»

Coisas dos políticos


      «“José Sócrates tem todas as condições internas e plena legitimidade eleitoral para exercer as funções que exerce. Não se justifica, por isso, essa cenarização.” Confrontado pelo i com a possibilidade de substituir José Sócrates no governo e no partido, António Costa, o número dois do PS, exclui-a liminarmente» («Se Sócrates se demitir, António Costa aponta para Teixeira dos Santos e Gama», Ana Sá Lopes, i, 13.2.210, p. 22).
      Os dicionários não registam a palavra cenarização, mas ela faz falta — pelo menos a quem vive de construir cenários, os conjuntos de elementos visuais que compõem o espaço onde se apresenta um espectáculo teatral, cinematográfico, televisivo, etc., não, como se diz em sentido figurado (e que talvez apenas o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registe), os desenvolvimentos programados ou previstos de uma acção.

[Post 3154]

Sobre «arrasto»

Jamais

      Acho que só se fosse pescador, e certo tipo de pescador, é que usaria a palavra arrasto. Este derivado regressivo do verbo arrastar soa-me mal. Mas já vi que alguns políticos o usam, alguns até na escrita: «Por arrasto, a TTT (Terceira Travessia do Tejo) em ferrovia […]» (Mudar, Pedro Passos Coelho. Lisboa: Quetzal, 2010, revisão de Pedro Ernesto Ferreira, p. 164). A locução por arrasto, que o Dicionário Houaiss (ó vergonha!) não regista, significa como consequência.

[Post 3153]

Actualização em 9.4.2010

      De vez em quando, aparece: «A Skoda fez um “restyling” de um dos seus modelos mais carismáticos, o Fabia. Por arrasto, o Roomster recebeu igualmente a nova assinatura do fabricante checo estreada com o topo de gama Superb» («Skoda. Fabia e Roomster melhoram visual», Paulo Moutinho, Jornal de Negócios, 9.4.2010, p. 26).


Colocação pronominal

 Língua de estalo


      Na emissão de hoje do programa Antena Aberta, o fórum da Antena 1, um participante, engenheiro civil, dizia: «Deixa está-lo, porque ele rouba mas faz alguma coisa.» Teoricamente, nas locuções verbais de auxiliar + infinitivo, as possibilidades de colocação dos pronomes átonos não excluem a ênclise ao verbo principal. Contudo, por razões de eufonia, será melhor, pelo menos neste caso concreto, escrever e dizer: «Deixa-o estar.»


[Post 3152]

Escola primária

Vamos ver


      Irão passar-se anos até deixar de se dizer (se é que não se retoma, no futuro, a designação) escola primária. Na edição do último fim-de-semana do i, lia-se numa legenda da reportagem de Kátia Catulo sobre a alimentação nas escolas: «Miguel Rocha, 6 anos, Escola Primária de Gervide, Gaia» («Problema está em casa. Os papás têm de comer a sopa até ao fim», p. 34).

[Post 3151]

«Catequese» e «escola dominical» II

Já vi


      Vai fazer um ano quando aqui escrevi que nas traduções nunca vira a locução Sunday School traduzida de outra forma que não «catequese», assim como Sunday school teacher por «catequista». Bem, isso mudou: agora já vi, e o tradutor é reputadíssimo. Elas «were Presbyterians and went to Sunday School» foi vertido para «eram presbiterianas e iam à escola dominical». O objectivo é preservar a diferenciação em português, pois a catequese é habitualmente conhecida nos países anglo-saxónicos como Catechism class.

[Post 3150]

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