«Advanced level (A-level)»

E neste caso?


      A propósito do ensino britânico, estou a ler o livro Jeff em Veneza, Morte em Varanasi, de Jeff Dyer (Porto: Civilização Editora, 2010, tradução de Maria João Andrade), e, na página 16, leio uma nota de rodapé que diz: «Advanced level (A-level), instaurado em 1951, é o nome de um grupo de graus académicos por que passam as estudantes da Inglaterra, do País de Gales e da Irlanda do Norte no final do ensino Secundário. (N. da R.)» Tal como no caso da junior school (sim, Francisco, também acho que escola primária é a melhor tradução), também aqui a correspondência não é perfeita. Contudo, acho discutível a explicação desta nota de rodapé (e nem me refiro, naturalmente, ao facto de nela se afirmar que são as estudantes que «passam» pelos graus académicos). Tratar-se-á mesmo de graus académicos?

[Post 3149]

Tradução: «junior school»

Como deve ser?


      Trata-se de saber como traduzir a locução inglesa junior school. A história é ambientada na Escócia da década de 1930. O tradutor optou por escola elementar. Já tenho visto traduzido por escola preparatória. Alguém sugere agora escola básica. Duas objecções em relação a esta última: na correspondência histórica, no Reino Unido havia junior schools e em Portugal, escolas primárias. Segunda: a escola básica integra três ciclos, e a antiga escola primária corresponde agora apenas ao primeiro ciclo.
      Só como curiosidade: vejo que agora no Reino Unido há primary schools. «As escolas inglesas enfrentam a maior entrada de crianças na escola primária da última década. A culpa é da crise e do baby boom de há 5, 6 anos. As escolas públicas enfrentam agora o desafio de criar mais turmas para fazer face à entrada dos novos alunos. Apesar das medidas de alargamento do número de turmas, o jornal Guardian avança que as escolas podem não conseguir dar resposta. Além do baby boom, a procura pelas escolas públicas explica-se pela crise que levou muitos pais a desistir dos colégios privados e a optar pelo ensino público. A escola de Kingston, por exemplo está a preparar para o próximo ano lectivo mais 4 turmas novas, um crescimento na ordem dos 28% em apenas dois anos» («Baby boom e crise enchem escolas primárias na Inglaterra», i, 25.1.2010).
      Como podem ver, a hiperligação é para um texto do Guardian com o título «State primary schools face biggest influx of pupils in a decade».

[Post 3148]

Elemento de composição supra-

Supra-sensível


      «O porta-voz do Exército explicou que o inquérito aberto pela PJ Militar visa apurar as causas em que aconteceu o incidente e descobrir o que falhou na altura de verificar se a câmara da pistola ainda tinha munições. “A ocorrência é estranha e anormal, mas tudo indica que seja acidental. Ainda assim, é importante que a situação seja averiguada por uma instituição independente e supra Exército como é a Polícia Judiciária Militar.”» («Polícia Judiciária Militar investiga morte de cadete», Romana Borja-Santos, Público, 16.2.2010, p. 6).
      Mesmo num dicionário como o Houaiss, supra aparece apenas como advérbio a significar acima, «usado para indicar trecho da mesma página, mais acima, ou de página(s) anterior(es)». Supra- é um elemento de formação de palavras e liga-se por hífen ao elemento seguinte quando este começa por vogal, h, r ou s. Logo, supra-Exército. Por outro lado, que é isso de o inquérito visar «apurar as causas em que aconteceu o incidente e descobrir o que falhou»?

[Post 3147]

Léxico: «samo»

Outra lacuna


      Na Praça da Alegria, na RTP 1, esteve hoje representada a Confraria Gastronómica do Bacalhau, com sede na Capital do Bacalhau, Ílhavo. Entre as várias especialidades, os confrades (e a indumentária e os títulos, grão-mestre, vice-grão-mestre, mestre chanceler, mestre cerimonial, mestre ecónomo e mestre conselheiro, fazem-me sempre rir) levaram uma feijoada de samos. Sónia Araújo quis saber do que se tratava. Um dos confrades disse que era uma membrana do bacalhau. Outro corrigiu: é a bexiga-natatória (órgão existente em alguns peixes que contém gases e regula a sua subida e descida na água e ainda, em alguns deles, auxilia a respiração) do bacalhau. Tal como ontem perguntei em relação a «melário», pergunto hoje em relação a samo (ou same, como vejo numa pesquisa na Internet): e que dicionário regista o vocábulo? Nenhum.

[Post 3146]

Sobre «bidão»

Sempre atrasados


      «Se há coisa que nos lembramos desse dia, além da lição magistral dada pelo norte-americano — não foi por acaso que a 17.ª etapa da 93.ª edição da Grande Boucle foi considerada por muitos como um dos momentos altos da era moderna do ciclismo —, é da quantidade indescritível de água que o fugitivo bebeu. Será difícil encontrar uma imagem do dia em que Landis não tenha um bidão ou uma garrafa de água na mão» («Floyd Landis, o batoteiro também é hacker», Ana Marques Gonçalves, Público, 16.2.2010, p. 28).
      Pois é, mas os dicionaristas não têm dúvidas: bidão é a vasilha metálica, em regra cilíndrica, de grande capacidade. Mudamos o verbete ou a realidade?

[Post 3145]

Acordo Ortográfico

Primeira defecção?


      «Contrariamente ao que se escreveu entre nós sobre a nova Constituição angolana, nem o Presidente da República deixou de ser eleito diretamente nem a democracia ficou defunta naquele País. Todavia, a Constituição concentra tantos poderes nas mãos do Presidente, que o regime nela estabelecido só pode qualificar-se como superpresidencialismo, com os riscos que isso comporta.» Este é o primeiro parágrafo da crónica de Vital Moreira no Público de 9 do corrente.
      «Entre os aspectos basilares do Estado de Direito contam-se inegavelmente a inviolabilidade das comunicações privadas e o respeito da independência e autoridade dos tribunais. Apesar de constitucionalmente protegidos, ambos, porém, estão em causa entre nós neste momento, mercê da irresponsabilidade e impunidade dos media.» Este é o primeiro parágrafo da crónica de Vital Moreira no Público de hoje.
      O que se passou entre uma semana e outra, entre uma crónica e outra? Talvez nada de especial, talvez se tenha simplesmente esquecido de clicar no botão Converter para do FLIP. Mas há mais diferenças: na crónica da semana passada, assinava o texto como deputado ao Parlamento Europeu pelo Partido Socialista. Na crónica de hoje, identifica-se como professor universitário e deputado ao Parlamento Europeu pelo Partido Socialista. É Carnaval, ninguém leva a mal. Para a semana falamos.

[Post 3144]

Confusões: «extracto» e «estrato» II

Substância extraída de outra


      O jornal i propôs-se, através de um texto do jornalista Luís Leal Miranda, dizer-nos «Tudo o que precisa de saber sobre Tchekov em 5 minutos». Se o leitor fica a conhecer mais sobre este autor russo, também corre o risco de desaprender alguma coisa sobre a língua portuguesa. Leiam: «A profissão de médico foi o ganha-pão do escritor durante toda a sua vida. Nem quando as suas peças eram aplaudidas pela Rússia Tchekov deixou de exercer. A profissão permitiu-lhe viajar e conhecer gente de vários extractos sociais, que o ajudaria a compor personagens. Esta formação não o impediu, no entanto, de sucumbir à tuberculose, a mesma doença que lhe levara o irmão» (28.1.2010, p. 42). Nada de novo, para nem por isso menos lamentável, esta confusão entre extracto e estrato.

[Post 3143]

Tradução: «nobody»

Ninguém e toda a gente


      O original dizia que era «a nobody whom everybody could blame». Um ninguém? Um zé-ninguém? Pois é, podia ser, mas a coisinha insignificante era uma rapariga. E depois? Pode ser um ninguém. O tradutor foi criativo: «uma maria-ninguém que toda a gente podia censurar». Já conhecíamos maria-mijona, maria-rapaz, maria-vai-com-as-outras...

[Post 3142]

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