Mentiras e desastres
Ontem, a propósito da adopção das novas regras ortográficas por parte da agência Lusa (pretexto para voltar a clamar: «O problema é a nova ortografia ser uma mentira política e um desastre linguístico.»), o filósofo Desidério Murcho voltou a publicar um
texto sobre o Acordo Ortográfico de 1990. Eis um excerto: «Na verdade, ocorre as duas coisas: a ortografia afecta a fonética e a fonética a ortografia. Por exemplo, porque alguém no Brasil decidiu deixar de dizer o “c” de “facto”, alguém decidiu desatar a escrever “fato” em vez de “facto”, e porque se decidiu escrever dessa maneira, agora as pessoas no Brasil considerariam bizarro dizer “facto” — apesar de dizerem tranquilamente “factivo”, o que é estranho.»
É, decerto, uma caricatura. Nem se sabe exactamente como é, mas não há-de ser porque «alguém decidiu deixar de dizer o “c” de “facto”, alguém decidiu desatar a escrever “fato” em vez de “facto”». E, por outro lado, pensemos, será assim tão bizarro? Também nós não articulamos o p, consoante etimológica, de Egipto e não deixamos de o articular em egípcio. Sendo assim, inteligentes são os Brasileiros, que alijaram a carga inútil do c em facto, porque não o articulam, e não prescindem dele em factivo, porque o articulam.
Já conheço o argumento: este acordo veio consagrar o desrespeito pela unidade das famílias de palavras. Contudo, foneticamente já havia falta de unidade. Nunca haverá coexistência pacífica entre o ideal fonográfico e o princípio ideográfico (agora, com este acordo, seriamente quebrado), mas pensem só no século XIX e em toda a trapalhada que então se vivia.
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