«Questões domésticas»?

Muito lá de casa

      «Num discurso que abarcou as questões domésticas americanas e a política externa, Rahm Emanuel garantiu que a Administração Obama continua comprometida e esperançosa num “final feliz” para o processo de paz no Médio Oriente e corrigiu as leituras dos que encaram a abertura de Obama ao mundo árabe como um remoque a Israel» («Judeus dos EUA frustrados com relação entre a América e Israel», Rita Siza, Público, 12.11.2009, p. 16). Domésticas, só tarefas e animais. Para questões, é melhor internas. Claro que alguns jornalistas deliram com domestic flights, que traduzem por voos domésticos…

[Post 2803]

«Aos bochechos»

Expressões correntes     


      A propósito do processo «Face Oculta», Noronha do Nascimento, presidente do Supremo Tribunal de Justiça, disse ontem à RTP: «Aquilo que tem sido uma surpresa negativa é que o que tem chegado, digamos, é um pouco às bochechas, digamos, aos bocadinhos.» Nunca saberemos, nem isso interessa, se foi lapso ou se Noronha do Nascimento acha que é assim que se diz. O Público de hoje teve o bom senso de corrigir: «O presidente do STJ, Noronha Nascimento, disse à RTP que estranha que as certidões relativas ao processo Face Oculta lhe estejam a chegar aos “bochechos”. “Aquilo que tem sido uma surpresa negativa é que o que tem chegado tem sido aos bochechos, aos bocadinhos, não percebo por que é que não se envia tudo ao mesmo tempo”, afirmou» («Noronha estranha chegada de certidões aos “bochechos”», Público, 12.11.2009, p. 5).

[Post 2802]

«Decree-law» ou «executive law»?

Confesso

      Caro M. L.: eu também estou surpreendido. Nunca tinha visto o termo decree-law como equivalente do nosso decreto-lei. Até pensei, confesso a minha ignorância neste ponto, que fosse invencionice mal-enjorcada do tradutor (trata-se de uma tradução de português para inglês). Contudo, vejo que no nosso Parlamento traduzem (veja aqui na Base de Dados Terminológica e Textual) decreto-lei por executive law.

[Post 2801]

«Leges artis»

As regras da arte

      Um leitor, que me sabe «agora muito ocupado com o latim», pergunta-me como se deve escrever: leges artis, legis artis ou artis legis, porque já viu todas as variantes. Quer também saber se se deve escrever e dizer «este tratamento está de acordo com a leges artis» ou «este tratamento está de acordo com as leges artis». Depois de citar alguns exemplos colhidos em diplomas legais e em acórdãos, remata: «É preciso um prontuário de expressões latinas para uso nos tribunais por magistrados e médicos e, já agora, no DR?» Sem preâmbulos: deve dizer-se «as leges artis». Não há outra forma. Vejamos as coisas ao contrário: a tradução é as regras da arte [médica]. Lex, legis é um nome imparissilábico da terceira declinação. No nominativo plural, que é o caso do sujeito, é leges. A forma legis é o genitivo singular, que é principalmente o caso do complemento determinativo do nome, logo não se podia formar a expressão legis artis. Da arte diz-se em latim artis, genitivo singular de ars, artis, também da 3.ª declinação. É então leges artis. Quanto ao que pede, um prontuário de expressões latinas, já existe. Sobretudo no Brasil, há muitos e excelentes. Talvez os revisores da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, e alguns lêem este blogue, possam vir aqui explicar porque é que não corrigem estas barbaridades.

[Post 2800]

Abreviatura «cas.»

Não vemos o mesmo

      «Ana Manta Botelho, 30 anos, nunca foi de se imaginar a percorrer um altar, envolta em tules e sedas brancas, ou sequer de se pôr a pensar nas implicações de ver as iniciais “cas” estampadas no seu Bilhete de Identidade» («Casamos cada vez menos e só depois de testar a relação», Natália Faria, Público, 11.11.2009, p. 10). Ora, também sou casado, e no meu BI não vejo as «iniciais “cas”», mas sim a abreviatura cas., de «casado». Uma pequena imprecisão terminológica.

[Post 2799]

Os títulos dos jornais II

Depende de qual

      «Gosto», escreve Miguel Esteves Cardoso na sua crónica de hoje, «da sobranceria com que o PÚBLICO acompanha o New York Times, tanto como gosto da sobranceria do New York Times em relação a todos os outros jornais dos EUA e, a bem dizer, do mundo. Gosto deste hábito português de escrever em maiúsculas só o nome do jornal onde escrevemos e em itálico os nomes dos jornais estrangeiros onde, apesar de todos os nossos esforços, não. Isto é o PÚBLICO mas aquilo é o New York Times» («Os Bijagós e nós», Público, 11.11.2009, p. 39). Depende, como já aqui vimos, do jornal onde escrevemos.

[Post 2798]

Selecção vocabular

Língua do avesso     


      Isabel Stilwell, na emissão de ontem dos Dias do Avesso, falava sobre a educação. Dizia ela: «Por exemplo, mesmo, podemos dizer que a lei da educação sexual eventualmente será boa, a verdade é que já está em exercício desde o dia 15 de Setembro e ainda não foi regulamentada.» É como está na página da Internet do programa: «Dias do Avesso é uma conversa em sexta velocidade, no meio do trânsito». O perigo dos erros nos meios de comunicação social é o da sua propagação. Quem sabe se hoje mesmo não há por esse País fora pessoas a dizerem o mesmo disparate? Em exercício refere-se a pessoas, ao seu desempenho de uma actividade profissional. Isabel Stilwell deveria ter dito «em vigor», «em vigência».

[Post 2797]

Estrangeirismos na rádio

Língua rápida

      Ouvi e não queria acreditar: Adelino Gomes, provedor do ouvinte da RDP, defende que se usem estrangeirismos, porque «toda a gente diz isso, hoje, na Academia…». Estou mesmo a ver um «académico» desses que andam com uma enxada nas mãos e penduram um radiozinho na cerca enquanto cavam entender must e case study… Mas — preparem-se! — o provedor tem um argumento que ele julga imbatível: «o must é mais rápido» de pronunciar e «mais impactante». Bem, se quisermos uma língua sintética, o melhor é regressarmos ao latim, não ao inglês. Mas isto não ficou assim. O provedor, que debatia a questão do uso dos estrangeirismos com a linguista Regina Rocha, contra-atacou: «Mas deixe-me fazer aqui uma adversativa. E esta adversativa que eu queria trazer é a seguinte: quando nós dizemos must — “é um must” — toda a gente pode utilizar essa palavra e toda a gente compreenderá rapidamente o que se diz…» Tem um vasto programa: quer pôr-nos a todos a falar inglês, porque a língua portuguesa é manifestamente insuficiente para nos exprimirmos. Em suma, para o provedor, os jornalistas só pecam por defeito, deviam usar mais estrangeirismos. «Culpam excusare altera culpa est» (desculpar uma culpa é outra culpa), já diziam os Romanos. No próximo programa, ameaçou, vai voltar aos estrangeirismos. Ai, ai...

[Post 2796]

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