Léxico: «biofilme»

Ah, chamam-lhe isso?

      «Como os fiambres e as mortadelas são produtos sensíveis, devem ser consumidos apenas dentro do prazo. Tenha especial atenção à formação de um biofilme de gordura no exterior, “possível sinal de microrganismos que podem causar febres e diarreias ou até malformações do feto em grávidas”» («Até quando posso comer…», Bárbara Bettencourt, Activa Saúde & Beleza, n.º 222, 2009, p. 60). Trata-se de um neologismo, empréstimo do inglês biofilm («a thin usually resistant layer of microorganisms (as bacteria) that form on and coat various surfaces (as of water pipes and catheters)», in Merriam-Webster), tendo-se registado o seu primeiro uso em 1981.

Actualização em 10.05.2009

      Vale a pena trazer para aqui a sugestão deixada na caixa de comentários pelos leitores Pedro e Fernando Ferreira: que biopelícula é termo mais adequado. Não me ocorreu na altura, mas concordo.


Parónimos

Perfeito, bedel

      Quando leio em gramáticas e em manuais escolares, como exemplo de parónimos, as palavras «prefeito» e «perfeito», rio-me sempre. Uma criança brasileira sabe o que é um prefeito, como o saberá um luso-descendente (e quando é que no Diário de Notícias começam a grafar correctamente esta palavra? «Bebé lusodescendente em coma induzido» [Alexandra Carreira, 26.01.2009, p. 24]) que viva em França ou na Suíça. Para uma criança portuguesa, um prefeito é algo tão obscuro como um bedel para a generalidade dos leitores. Palavras parónimas, vale lembrar, são as que têm escrita e pronúncia semelhantes e são passíveis de confusão. Um dos melhores exemplos são as palavras «dispensa» e «despensa». Acabei de rever um texto em que se lia: «O futuro da humanidade passa por olhar, de novo, para a Terra como a verdadeira dispensa, e privilegiar os produtos biológicos às refeições.» Entre eminente e iminente, florescente e fluorescente, descrição e discrição, apóstrofe e apóstrofo, as confusões são diárias…

Léxico: «cinegenia»

Quase cinegético

«No novo filme de Wim Wenders, Imagens de Palermo [Palermo Shooting, no original], o mais famoso punk rocker da Alemanha mostra toda a sua cinegenia» («Debutante. Campino», Rui Pedro Tendinha, Notícias Magazine, 1.03.2009, p. 18). Já tínhamos fotogenia, que é a qualidade do que fica bem representado ou resulta bem em fotografia. Cinegenia, termo que vai aparecendo, mas ainda arredado dos dicionários, é então a qualidade do que fica bem representado ou resulta bem em cinema. Fica também aberta a porta para o adjectivo cinegénico, à semelhança de telegénico.

Semântica: «mazagrã» e «capilé»

Imagem: http://www.jamaicanbluemountaincoffeeonline.com/

Refrescante

«Sanduíches de torresmos, capilé ou mazagrã serão servidos no quiosque do Largo Camões, uma estrutura centenária que foi recuperada e desde segunda-feira devolvida à cidade» («Mazagrã e capilé regressam com quiosque no Largo Camões», Público, 15.04.2009, p. 19). Eu sei que sabem, mas quero voltar a contar a história a mim próprio: em 1840, soldados franceses sitiados na cidadezinha de Mazagran, no Norte da Argélia, tiveram de racionar as provisões, e, entre elas, o café. Daqui terá nascido a bebida depois designada mazagrã. Capilé é o xarope ou calda feita com suco de avenca, planta também conhecida por capilária. O étimo de capilé é o francês capillaire, tomado do baixo latim capillaris, elipse de herba capillaris.

«Second degree murder»

Do you have any information?

«À segunda tentativa, porém, e após cerca de 30 horas de deliberações, os jurados consideraram Spector culpado de homicídio simples (sem premeditação, o equivalente ao second degree murder)» («De génio e de louco Phil Spector tem de tudo um pouco», Susana Almeida Ribeiro, Público/P2, 15.04.2009, p. 4). Ora vejam se este Manual to Assist Magistrates in Dealing with Spanish-Speaking Persons ajuda na tradução de alguma terminologia jurídica norte-americana.

«Alto-representante»

E isso porquê?

«O alto-representante vem de Londres, plataforma aérea de um périplo que envolveu duas iniciativas da ONU da luta contra a tuberculose no Brasil e na China» («Alto-representante das Nações Unidas», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 12.04.2009, p. 2). Com hífen ou sem hífen? Por analogia, decerto que com hífen. O Dicionário Houaiss não regista o termo, só recentemente usado. Como o não regista, por exemplo, a 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Num anexo ao Código de Redacção Interinstitucional, pode ler-se: «alto-comissário, alto(s)-forno(s), alto-falante(s), alto-representante (mas: alto mar)». No entanto, tanto o Volp como o Dicionário Houaiss registam, e bem, «alto-mar».

Actualização em 25.08.2009

E o Diário de Notícias não é o único jornal a grafar assim: «Uma obra a que foi dada prioridade porque “é uma espécie de monstra [sic] do Estado Português”, na medida em que é utilizado para receber altos-representantes de outros países» («Restauro avança com construtoras», Leonardo Ralha, Correio da Manhã, 25.08.2009, p. 39). «Em Cascais, na procissão, os pescadores carregam a imagem da Virgem em gratidão pela faina obtida e pela protecção concedida em alto-mar» («Procissão enche baía de Cascais», João Saramago, Correio da Manhã, 24.08.2009, p. 26).

Léxico: «bocete»


No tecto


      O leitor M. A. pergunta-me como se designa o ornamento, semelhante a uma tacha, que se usa nas intersecções dos artesões (plural de «artesão» na acepção de lavor emoldurado nas abóbadas, tectos, etc.), como os que se vêem na imagem. São bocetes, cujo étimo será o francês bossette. E a propósito, caro leitor, diga e escreva artesoado (guarnecido com artesões) e não artesonado, que é espanholismo escusado.

«Boa-vontade»?

A febre

«O estudo das aves depende da boa-vontade dos 150 voluntários da SPEA, pois “nestes cinco anos não houve qualquer financiamento estatal”» («Ave do ano em risco de extinção por causa da agricultura», Rui Pedro Antunes, Diário de Notícias, 12.04.2009, p. 66). Cada vez vejo com mais frequência o uso do hífen nesta expressão.
Esta mania do hífen que se apossou de muitos falantes não tem ainda cobertura nos principais dicionários, que não registam a expressão com hífen. O mais próximo é a forma aglutinada «boavontade» no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, mas foi mais uma das distracções deste dicionarista, pois na entrada do vocábulo «vontade» regista «boa vontade». «Boavontade, s. f. Disposição favorável para qualquer pessoa ou coisa» (p. 363).

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