Glossário: burlescos, injuriosos...

... depreciativos…


artólatra
m. Adorador do pão.│Nome dado, por irrisão, aos católicos, por adorarem a Eucaristia.
autolata m. gír. Nome dado a automóveis velhos.
aviscondalhar v. Pej. Fazer visconde.
bedelhar v. Intrometer-se com curiosidade em assuntos alheios, cavaquear.
beiçola adj. Que tem beiços grandes.
belfa f. Face de pessoa bochechuda.
belfaça f. Belfa grande.
boche adj. e m. Termo depreciativo com que os Franceses designam os Alemães.
boi-corneta m. Indivíduo intrometido, abelhudo, indisciplinado, rixoso, que em toda a parte introduz a discórdia.
bolónio m. Pop. Ignorante; simplório.
boquirroto adj. Falador, que não guarda segredo.
borboletice f. Caprichos ou modos de borboleta.│2. Volubilidade.
brichote m. Nome que, por desprezo, se dá aos estrangeiros.
brulote m. Homem de opiniões exaltadas.
bugre m. Nome depreciativo dado aos selvagens do Brasil.
camacho adj. Diz-se do indivíduo que é coxo.
capeludo adj. Que usa capelo.│Designação injuriosa dos franciscanos.
cita-cristos m. Ant. e Pop. Esbirro; oficial de diligências; beleguim.
citote m. Pop. Oficial de diligências ou qualquer empregado judicial, que faz citações.
coronelício adj. Próprio de coronel.
dentolas m. Indivíduo que tem os dentes grandes e feios.
doutoreco m. Doutor sem valor.
dramalhoco m. Drama sem valor nem merecimento.
escarumba m. Homem de raça negra.
escorropicha-galhetas m. Deprec. Sacristão.
franchinote m. Nome que no século XVI se dava em Coimbra aos padres jesuítas.
franduleiro adj. Estrangeiro.
frege-moscas m. Cozinheiro das tabernas de iscas.
godeme m. Bras. Alcunha pitoresca dos Ingleses.
machacaz m. Pleb. Indivíduo corpulento e desajeitado.
marteleiro m. Caçador que quase nunca acerta o tiro contra a caça (por alusão à pancada do cão da espingarda cobre a espoleta).
novelória f. Novela mal engendrada, mal feita.
porta-pastas m. Ministro de Estado.
possidónio m. Deprec. Político ingénuo, que só vê a salvação do país no corte profundo e incondicional de todas as despesas públicas.
rancatrilha m. Prov. Aquele que coxeia, arrastando uma perna.
repolho m. Fam. Pessoa muito gorda, muito nutrida.
requinho m. Ant. Deprec. Seminarista.
retambufa f. Pop. e Chul. As nádegas.
roupeta m. Deprec. Padre, clérigo, especialmente jesuíta. O m. q. roupeta-negra.
sargentola m. Depre. Sargento de escassos méritos.
sotaina f. Padre ou frade
teatrelho m. Teatro insignificante ou ordinário; teatreco.
teatrório m. Teatro pequeno e reles.

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Semântica: «arregaçar»

Parece-me elementar

Não costumo discutir com ignorantes que o querem ser — mas desta vez tive de fazê-lo. Era professor de Português, mas para mim podia e devia ser açougueiro ou arrieiro. Creio que o segmento de frase era «hitching up their pants». «Arregaçando as calças», lancei eu. O que fui dizer! «Forrando as calças», rugiu. «“Arregaçar” é para as mangas e só para as mangas!» Ainda lhe falei da etimologia de «arregaçar»: que originalmente era apenas puxar, recolher a borda, a barra, a fímbria de uma peça de vestuário, formando regaço, dobras ou pregas. Cá está, regaço. Que só depois, por extensão de sentido, passou a significar também — também — puxar, dobrar para cima parte de uma peça de vestuário, como as mangas da camisa. Por outro lado, fiz-lhe ainda ver, «forrar» é um provincianismo a evitar. Em vão.

Tradução de «Juno»

Métodos

A edição de hoje do Jornal do Brasil publica uma entrevista com a tradutora Marina Fragano Baird, por ocasião da atribuição do Óscar para o Melhor Argumento Original atribuído ao filme Juno, de que foi responsável pela tradução.

«Tradutora responsável pelas legendas de Juno e de mais de mil filmes, Marina Fragano não trabalhou sozinha no longa indicado para quatro Oscars, ganhador da estatueta de roteiro original e proprietário de gírias, muitas incompreensíveis. ­
— Na internet, encontrei expressões que achava que se adaptariam —­ entrega Marina, que diz ter se apegado bastante à história da personagem-título interpretada por Ellen Page, grávida que, em vez de abortar, decide escolher os pais mais indicados para criarem seu bebê. — No caso de Juno, pedi para meu filho de 23 anos ver o filme comigo. Discuti com ele sobre as gírias.
Mesmo com esse exercício de tentar fazer o longa não perder a leveza de linguagem, em alguns casos expressões do vocabulário do adolescente americano ficaram perdidas com a troca de idiomas. A descolada honest to blog, com referências à internet, por exemplo, virou o careta e sóbrio “francamente”. Algo parecido ocorreu com your eggo is preggo, que se tornou o protocolar “seu óvulo foi fecundado”. ­
— Houve o caso em que o namorado chama a Juno de wizard. Fiquei na dúvida. Não sabia se usava maga ou feiticeira. Falei com meu filho e a namorada dele, que tem 20 anos, e ela gostou do termo “bruxinha”. Ela disse que gostaria de ser chamada assim —­ lembra a tradutora, deixando claro que a expressão deveria ser carinhosa.
Marina é uma das tradutoras mais requisitadas do mercado. São de sua autoria legendas de grandes produções, como as das séries Senhor dos anéis e Harry Potter.
— Mas são as comédias que demoram um pouco mais para serem traduzidas. Por terem mais diálogos, gasto uma semana. Para filme de ação ou terror, demoro quatro dias — ­ explica Marina.
— Comédias italianas são ainda mais difíceis do que Juno, pois são mais complexas na linguagem. ­
— Um exemplo é Parentes é serpente. Outro com muitos diálogos é o novo do Woody Allen, O sonho de Cassandra. Allen costuma dar bem mais trabalho do que Juno.
Marina explica que seu trabalho começa quando recebe as sinopses e listas de comentários sobre o filme. Depois, lê o roteiro e vê o DVD fazendo anotações, já que as traduções dependem dos cortes e da duração das falas. ­
— Tive que ler os cinco livros do Harry Potter em inglês e também o Senhor dos anéis. É importante para uma boa tradução ­— diz. ­
— Quando é uma história de que você gosta, como é o caso de Juno, acabo torcendo para que o filme seja premiado e assistido» («Juno foi ‘decifrada’ para o Brasil», Braulio Lorentz, Jornal do Brasil, 2.3.2008, p. B5).


Alguns termos e expressões traduzidos

Wizard Bruxinha
Shut your gob Cale a boca
Your eggo is preggo Seu óvulo foi fecundado
Fertile Myrtle Senhorita Fertilidade
One doodle that can’t be undid, homeskillet Não é algo que pode desfazer
Honest to blog Francamente
Phuket, Thailand! Caramba
Pork sword Lingüiça
Haven’t taken a dump Não faço cocô
Narc you out to your folks Entregar você para seus pais
Bleeker is totally boss Bleeker é o máximo

Tradução: «athletic supporter»

Suspensório escrotal (athletic supporter) usado pelos jogadores de beisebol

Genitália


Mesmo que seja conhecido de alguém como «suporte atlético», temos honestamente de convir: pouca gente saberá do que se trata. Mas foi assim que o tradutor optou por verter a locução athletic supporter (que é o mesmo que jock, jockstrap). Certo é que para os Espanhóis — e até está registado no DRAE — a peça de vestuário se chama suspensorio. Ora, também no Brasil lhe dão o nome de «suspensório», mas não qualquer suspensório: «suspensório escrotal». Entre nós, encontrei numa tabela de comparticipação da ADSE um «suspensório testicular/trousse escrotal». Sim, porque isto não é só para atletas, mas também para homens herniados. Assim, também se podia chamar-lhe bragueiro ou mesma funda. Consoante as características específicas e o objectivo, imagino que tanto se possa encontrar um suspensório escrotal numa loja de material ortopédico, como na Decathlon ou na Sexilândia. Com ou sem concha.

Léxico: «hemaditrose»

Imagem: http://www.frugalsites.net/

Paixão de Cristo


      
«Horas antes da sua morte, Jesus suava sangue. É dos poucos casos registados de hemaditrose, um fenómeno raro que acontece a pessoas sob uma tensão e pânico extremos. […] Zugibe, ex-patologista-chefe do Instituto de Medicina Legal de Nova Iorque, desmente várias teorias clássicas, algumas delas no filme A Paixão de Cristo: Jesus só carregou o tronco horizontal da Cruz e não a totalidade e só a parte de trás do seu corpo foi açoitada [com um chicote de três tiras, com uma bola de chumbo em cada extremidade, denominado flagrum, na imagem em cima]» («Autópsia revela causa da morte de Cristo», Destak/Sábado, 28.2.2008, p. 6).
        

Antepositivo eco-


Ecos


      «A câmara de Óbidos apresenta hoje o projecto OB2 — Óbidos Sustentável, que visa pôr em prática medidas de eficiência energética nos edifícios e contribuir para o reconhecimento de Óbidos como a primeira eco-vila de Portugal» («Município quer ser eco-vila», Global, 27.2.2008, p. 8). «O projecto OB2 — Óbidos Sustentável, apresentado hoje, vai transformar Óbidos na primeira eco-vila do país ao pôr em prática medidas de eficiência energética nos edifícios da localidade. Essa eco-eficiência passa pela concepção com orientação a Sul, pela redução dos consumos de energia, minimização dos impactos dos materiais e redução do consumo de água» («Óbidos é a primeira eco-vila», Metro, 27.2.2008, p. 2). A gota de água foi ver que há um projecto «Eco-Escolas». No Ministério da Educação não há verba para um mísero dicionário de língua portuguesa. Nem nas redacções de alguns jornais. De uma vez por todas: nunca o antepositivo eco- (com uma excepção, mas não vos quero baralhar as circunvoluções) se liga por hífen ao elemento seguinte. Nunca. E, num tempo de tanta ecologia, pelo menos verbal, era bom que escrevessem como deve ser.


Léxico: «caucasiano»

Do Cáucaso

No é todos os dias, pelo menos fora do âmbito da antropologia, que se usa a palavra, razão mais do que suficiente para a registar quando surge na imprensa. De facto, só estamos habituados a vê-la nas legendas de filmes policiais. «A mulher brasileira que chega a Portugal e acaba na prostituição é caucasiana, maior de idade, na sua maioria sem antecedentes nesta actividade, tem o curso médio ou superior, vem por própria iniciativa e fá-lo por motivos financeiros. Estas são as conclusões de um estudo autorizado pelo ex-ministro da Administração Interna António Costa a partir de uma proposta do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Entre Novembro de 2006 e Fevereiro de 2007, foram inquiridas 536 brasileiras, de norte a sul do país, em casas de alterne e noutros pontos de prostituição» («Maiores, sem antecedentes e com grau académico», André Barbosa, Metro, 27.2.2008, p. 2). Caucasiano, para os leitores menos informados, diz respeito à divisão étnica ou ramo e significa branco.

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