Tradução de «Welfare state»

Prover ou prever?

Pergunta-me o leitor J. J. L.: «Gostava de lhe perguntar a sua opinião sobre a tradução de “Welfare State” — que vi ainda agora vertido como “Estado de bem-estar” no Público e que insisto em mudar para “Estado-previdência” (e não “providência”, como se diz e tanto escreve, o que poderia motivar um interessante debate sobre as duas concepções: tem o Estado de prevenir apenas ou de garantir sempre?).»
Em termos comparados, devo começar por dizer que em espanhol se diz «Estado de bienestar» ao que tão incertamente entre nós se diz ora «Estado-previdência» ora «Estado-providência» (e, para complicar ainda mais, alguns preferem dizer «Estado social»). A definição do Diccionario de la Real Academia é a seguinte: «Sistema social de organización en el que se procura compensar las deficiencias e injusticias de la economía de mercado con redistribuciones de renta y prestaciones sociales otorgadas a los menos favorecidos.» Atendendo ao fim deste tipo de organização política, dizê-la de «bem-estar» parece-me correcto. E «providência» ou «previdência»? Se «providência» (do latim providentia,ae) é a disposição antecipada ou prevenção que almeja ou conduz ao conseguimento de um fim e «previdência» (do latim praevidentia, «ver com antecipação, prever») a capacidade de prever ou adivinhar alguma coisa, parece que deva ser — e sempre assim escrevi — «Estado-providência». Mais uma vez em termos comparados, em francês diz-se «État-providence» e «État de bien-être». O Dicionário Houaiss regista «Estado-Providência»; o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, numa daquelas abonações inanes que oxalá não façam escola, cita precisamente o Público: «estado-providência». O mundo é pequeno. E perigoso.
Vasco Pulido Valente, sabe isso melhor do que eu, escreve «Estado-Previdência». Tem assim, caro J. J. L., muito por onde acertar ou errar.

Léxico contrastivo: «saidão»

Saído da casca

«Policiais da Delegacia de Repressão a Roubos (DRR) prenderam, ontem, um homem que praticava seqüestros relâmpagos na Asa Norte. Hermegildo Aires Mendes, 41 anos, conhecido como Magrão, estava preso no Centro de Progressão Penitenciária e fez sua vítimas durante os finais de semana e nos saidões do Dia dos Pais e do Dia das Crianças» («Detido presidiário que, durante ‘saidões’, fazia seqüestros relâmpagos», Carolina Vicentin, Jornal do Brasil/Brasília, 1.11.2007, p. D6). É o denominado, no Brasil, «livramento temporário», a nossa «saída precária».

Disparates jornalísticos

Eu sabia que era árabe


      «Tal como para Morais Sarmento, a PLMJ sempre funcionou como alforge ou berço político para vários dos seus advogados, a começar pelos líderes: António Maria Pereira foi deputado “laranja”, de 1985 a 97, e o ex-bastonário José Miguel Júdice foi líder da distrital de Lisboa do PSD» (A lei do mais forte», Tiago Fernandes, Visão, n.º 765, p. 37). Como é que um jornalista escreve um disparate destes? Alfobre deveria ter escrito, que é, em sentido figurado, um lugar que produz grande quantidade de qualquer coisa. Como o vocábulo tem várias variantes e uma delas é «alforbe» (a par de «alfofre» e «alfovre»), podia admitir-se que o jornalista a tivesse usado, tendo sido um revisor, por ignorar a palavra, a alvitrar erro ali onde havia somente desvio ao conhecido — mas de qualquer modo é erro, e erro grosseiro, a induzir em erro leitores menos preparados.
      Este texto jornalístico enferma de outros males, e um deles é o uso inadequado das aspas. Um exemplo: «[…] liderados por cada um dos 20 sócios de “capital” (o patamar mais alto, estando os de “indústria”, casos de Vítor Neves e José Jácome, um degrau abaixo.» Para que servem as aspas nas palavras «capital» e «indústria»? Tanto mais que umas linhas depois o jornalista escreve: «Em Novembro de 2006, a assembleia de sócios da PLMJ — 20 de capital e outros tantos de indústria — vota favoravelmente a redução dos 20 departamentos […].» Outro tipo de erro: «Na PLMJ, há, porém, quem garanta que o rombo provocado pela cisão e o efeito de arrastamento de clientes será mínimo. “A credibilidade e a força da instituição ainda são os valores mais seguros.” Alguns duvidam, e muito, deste auto-de-fé.» O jornalista queria dizer «profissão de fé», algo diverso e menos cruento. Assim vai a imprensa portuguesa.

Léxico contrastivo: «baderna»

«Lá em cima daquela serra, passa boi, passa boiada,
passa gente ruim e boa, passa a minha namorada.»

Herança italiana


«A Barra, com sua orla privilegiada, recebe durante todo ano um contingente de visitantes que busca usufruir da beleza natural que compõe sua paisagem. Mas esta procura não ocorre de forma organizada e consciente. A invasão acontece de maneira predatória e sem limites, principalmente no verão. Para coibir a ocupação desordenada e os abusos no trânsito, uma megaoperação comandada pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-Rio) terá início amanhã, na Barra» («Operação combate baderna na orla», Eduardo Tavares, Jornal do Brasil/Barra, 1.11.2007, p. 3). Regista o Aulete Digital: «Desordem barulhenta; confusão, bagunça, bulício: “...você vai preparar as armas, para enfrentar o Targino amanhã, na hora da baderna, não vai?” (Guimarães Rosa, Sagarana*).» O étimo é o antropónimo Baderna, bailarina italiana que se radicou no Brasil em 1849.


* Para uma competente análise estilística desta obra, ver aqui.

Léxico contrastivo: «bandalha»

Bandalheira

«Para pôr fim às cenas de desordem no trânsito que se repetem nos fins de semana nas vias próximas à orla, na Barra da Tijuca e no Recreio, a CET-Rio dará início, neste feriado de Dia de Finados, à Operação Verão. Mudanças nos tempos dos sinais, inversões de mão, bloqueios de trechos e atuação efetiva do policiamento, rebocando e multando infratores, são algumas das ações prometidas» («Repressão às bandalhas na orla terá início amanhã», Jornal do Brasil/Barra, 1.11.2007, p. 1). É um vocábulo regressivo de «bandalheira»: «Manobra ilegal no trânsito: Fez uma bandalha, cruzando o canteiro central» (in Aulete Digital).

Léxico contrastivo: «legenda»

Oposição mítica

«Em busca de apoio para a aprovação da CPMF no Senado, o governo apresentou ontem a líderes do PSDB um conjunto de nove medidas envolvendo promessas de desoneração de investimentos e de aumento para os recursos destinados à Saúde a partir do próximo ano. Na tentativa de convencer a legenda oposicionista, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ofereceu a isenção da CPMF para pessoas físicas com salário até R$ 1.642» («Governo aumenta o pacote de bondades», Karla Correia e Juliana Rocha, Jornal do Brasil, 1.11.2007, p. A4). Segundo o Aulete Digital, no âmbito político, legenda é o «partido ou grupamento político, ou sua sigla: O presidente elegeu-se pela legenda do Partido dos Trabalhadores (PT)».

Léxico contrastivo: «despencar»

Lá do alto

«Como em outras capitais brasileiras, o consumidor de Fortaleza também ficou desconfiado com o leite UHT, chamado longa vida ou de caixa, após a fraude ocorrida em duas cooperativas mineiras e denunciada na semana passada» («Preço do leite longa vida despenca», Artumira Dutra, O Povo, p. 24). Despencar é, referido a preços, diminuir muito e rapidamente. Em Portugal, poder-se-ia escrever algo como: «Preço do leite UHT desce a pique».

Palestino/palestiniano

Eles sabem


      «Na Faixa de Gaza, a lei da oferta e da procura vem fazendo estragos. Bloqueados pelos israelenses, os encarregados das passagens fronteiriças permitem somente a circulação de produtos de consumo diário a conta-gotas, disparando assim os preços e desanimando os palestinos» («Preços disparam em Gaza e ânimo dos palestinos desaba», O Povo, 31.10.2007, p. 29). Palestinos, pois claro.

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