Léxico da tauromaquia

Imagem de uma chicuelina: http://www.treklens.com/
Não é bem assim

      «O vocabulário próprio que as touradas implicam não deve ser impedimento para se fazer uma boa crónica taurina. “Apesar de saber que há zonas específicas na tauromaquia que é preciso privilegiar, mas as regras são basicamente as de escrever bem”, diz Andrade Guerra, que se insurge contra “a patetice de encharcar os textos de espanholês.” No entanto, há passos [a jornalista queria escrever «passe», certamente] que não têm tradução possível: “Uma chicuelina é uma chicuelina e uma verónica é uma verónica”» («“Afición” e ofício juntos na festa brava», Sónia Correia dos Santos, Diário de Notícias, 6.07.2006, p. 29).
      Não é bem assim, caro Andrade Guerra: o vocábulo «verónica» é português, faz parte do vocabulário português tão legitimamente como «ganância», por exemplo. Já quanto a «chicuelina», estamos de acordo.

«Chicuelina. (De Chicuelo, apodo del diestro M. Jiménez Moreno, 1902-1967, que la inventó). f. Taurom. Lance que se realiza con el capote por delante y los brazos a la altura del pecho, en el que el torero da media vuelta al tiempo que el toro pasa por el engaño» (Diccionario de la Real Academia Española).

«Verónica, s. f. Sorte em que o toureiro oferece a capa ao touro, segurando com ambas as mãos e aberta, tal como nas procissões religiosas se exibe o lenço com que foi secado o suor do rosto de Jesus» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado).

Léxico: lampistaria

Imagem: http://www.trains-portugal.com/
Saber ferroviário

      «Mas há também [peças emblemáticas da história do caminho-de-ferro em Portugal que gostaria de recuperar] os logótipos que a CP usou ao longo dos tempos, a lampistaria, a sinalização e até as lancheiras do pessoal revelam uma época e um comportamento social interessantíssimo» (Carlos Frazão, presidente da Fundação do Museu Nacional Ferroviário, em entrevista ao Público. Texto de Carlos Cipriano, «Dinheiro para o arranque do Museu Ferroviário “já está comprometido”», 26.06.2006, p. 30).

Lampistaria, s. f. Local em que se guardam e preparam os lampiões, nas estações de caminho de ferro, fábricas, etc. (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado).

Raios: ultravioleta ou ultravioletas?

É do calor

      O leitor Hugo Santos escreveu-me a alertar para o facto de os nossos jornalistas ora dizerem «raios ultravioleta» ora «raios ultravioletas». Quer saber a minha opinião. Nada de frases de tafetá, que eu também estou impaciente com o calor: isto é pura tontice. Há, é verdade, aspectos da língua controversos, há variantes, opções estilísticas, questões dúbias — mas a concordância dos adjectivos com os substantivos mantém-se tão inalterável como o fluir das estações. Hoje mesmo ouvi no noticiário das 7 da manhã, na TSF, um jornalista dizer «radiações ultravioletas», o que está correcto. De seguida, outro jornalista voltou a alertar para os «raios ultravioletas», acabando, menos de um minuto depois, por enfatizar o perigo que constitui a exposição aos «raios ultravioleta». Em que ficamos? Sejamos claros: pior do que um critério errado, só mesmo falta de critério. Minutos depois, na Antena 1, foi a vez de um jornalista referir os «raios ultravioleta».
      Este erro levou-me a recordar outro, semelhante e muito comum, e que consiste em não fazer concordar o adjectivo «extra» com o substantivo que qualifica: «O meu marido ficou hoje a fazer horas extra no emprego.» Está tudo dito: como adjectivo, tem de concordar com o substantivo que qualifica: «horas extras», «serviço extra», «trabalhos extras».
      Não estropiem a língua — ela é de todos. Senhores jornalistas, mais cuidado.

Etimologia: abrolho

Imagem: http://upload.wikimedia.org/
Vê lá, rapaz

      Nada, julgo, mais simples: os agricultores romanos recomendavam aos novatos: Aperi oculos! Abre os olhos, olha que quando ceifas encontrarás umas plantas daninhas que não deves juntar às espigas. E assim nasceu o nome «abrolho», contracção de aperi oculos, através de abreolhos. O espanhol também tem o vocábulo abrojo.
      Os abrolhos estão muito presentes na Bíblia: «Não há árvore boa que dê mau fruto, nem árvore má que dê bom fruto. Cada árvore conhece-se pelo seu fruto; não se colhem figos dos espinhos, nem uvas dos abrolhos. O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o que é bom; e o mau, do mau tesouro tira o que é mau; pois a boca fala da abundância do coração.» (Lucas, 6, 43-45)
     A Vulgata diz: «Non est enim arbor bona quae facit fructus malos neque arbor mala faciens fructum bonum. Unaquaeque enim arbor de fructu suo cognoscitur neque enim de spinis colligunt ficus neque de rubo vindemiant uvam. Bonus homo de bono thesauro cordis sui profert bonum et malus homo de malo profert malum ex abundantia enim cordis os loquitur.»
      A King James Version diz: «For there is no good tree that bringeth forth evil fruit: nor an evil tree that bringeth forth good fruit. For every tree is known by its fruit. For men do not gather figs from thorns: nor from a bramble bush do they gather the grape. A good man out of the good treasure of his heart bringeth forth that which is good: and an evil man out of the evil treasure bringeth forth that which is evil. For out of the abundance of the heart the mouth speaketh.»
     Suspeita minha: aquele rubo da Vulgata, e não quero ser desmancha-prazeres, não podem ser os nossos abrolhos. Será, mais facilmente acredito, o bramble bush inglês. Este é, pelo menos, da mesma família do rubo. Compreendo, porém, a opção dos tradutores portugueses.

Etimologia: Bombaim

Tudo igual

      «Os portugueses baptizaram-na no século XVI de Bombaim, a partir de “Bom Bahia”; tornou-se Bombay quando passou a colónia britânica, e Mumbai em 1996, como era identificada por falantes de gujarati e marathi» («Índia em estado de alerta máximo», Francisca Gorjão Henriques, Público, 12.07.2006, p. 2). Como já referi acerca de Pequim → Beijin, não temos de seguir, apesar dos protestos de certas pessoas bem-intencionadas, esta alteração de Bombaim para Mumbai. Ah, e em português escreve-se «guzerate» e «marata».

Poesia: «Ode ao dicionário»

Diccionario, no eres
tumba, sepulcro, féretro,
túmulo, mausoleo,
sino preservación,
fuego escondido,
plantación de rubíes,
perpetuidad viviente
de la esencia,
granero del idioma.
Y es hermoso
recoger en tus filas
la palabra
de estirpe,
la severa
y olvidada sentencia,
hija de España,
endurecida
como reja de arado
fija en su límite
de anticuada herramienta,
preservada
con su hermosura exacta
y su dureza de medalla
..............................................................................................
De tu espesa y sonora profundidad de selva,

dame,
cuando lo necesite,
un solo trino, el lujo
de una abeja,
un fragmento caído de tu antigua madera perfumada
por una eternidad de jazmineros,
una sílaba,
un temblor,
un sonido,
una semilla:
de tierra soy y con palabras canto.

Pablo Neruda, «Oda al diccionario»

Verbo faltar

Falta aprender as conjugações   

      «Faltam ainda recolher pistas, mas as fontes em Nova Deli ouvidas pelo diário indiano afirmaram que os atentados seguiram o modus operandi do LeT [Lashkar-e-Toiba, «Exército dos Puros», grupo islamita com base no Paquistão] em estreita colaboração com o SIMI, que cada vez tem mais influência no estado de Maharashtra, do qual Bombaim é a capital» («Atentados com impressões digitais do Lashkar-e-Toiba», Francisca Gorjão Henriques, Público, 12.07.2006, p. 3).
      Este é um dos erros mais comuns na conjugação verbal. Ora, o sujeito do verbo faltar, que é pessoal, é outro verbo, o verbo recolher, que está no infinitivo. O valor nominal do verbo no infinitivo exige assim que o verbo faltar esteja no singular. O valor nominal do infinitivo já vem do latim. Que digo eu? Já vem do grego. No latim, o infinitivo era um antigo substantivo que exprimia a noção verbal pura e simples. Contudo, à semelhança do grego, o latim tendia a fazer entrar o infinitivo na conjugação, dando-lhe tempos e vozes: lecturum esse, legisse, lecturum fuisse (irreal); lectum fore, lectum esse, legendum esse. Por vezes, como acontece em português, o infinitivo era mesmo substantivado, virtualidade que já vinha do grego, língua em que era muito comum graças ao uso do artigo. «Hic uereri perdidit» («Perdeu todo o sentido do respeito»), escreveu Plauto nas Bacchides, exemplo em que uereri está por uerecundiam. E mesmo os escritores da época imperial alargaram este uso do infinitivo substantivado: «Illud […] iucundum nihil agere» («Este agradável nada fazer»), escreveu Plínio, o Jovem, nas Epistolae.

O grama/a grama

Elementar

      Claro que é elementar, meu caro Watson, mas ainda há e haverá quem erre o género da palavra «grama» no sentido de milésima parte da massa do quilograma-padrão. Nesta acepção, é um substantivo do género masculino: o grama. No sentido de erva, relva, é do género feminino: a relva. Na oralidade é relativamente comum este erro; na escrita, e sobretudo na escrita jornalística é raro — e imperdoável.
      «Nos melhores dias, ele chega a encontrar uma grama de ouro, no máximo», «Ouro. Uma grama por dia, à espera que a mina volte a abrir», Público, 10.07.2006, p. 48.

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