Terras entre rios

Como um rio

      Por vezes, à região entre Douro e Minho dá-se o nome de interamnense, do latim «entre rios». A História mostra-nos a importância de outras zonas entre rios, como é o caso, mais conhecido, da fertilíssima Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates. Menos conhecido é o caso da região do Doab (do persa do (dois) e ab (rios), «terra entre dois rios»), na Índia. O termo «doab» é usado para descrever a planície aluvial entre dois rios convergentes, e mais especificamente a zona entre os rios Ganges e Yamuna, em Uttar Pradesh. Ainda no subcontinente indiano (e não esqueçamos que foi o rio Indo a dar nome ao país), temos o Punjab (ou Punjabe, como prefiro e forma para a qual há muitas abonações), etimologicamente «terra dos cinco (punj) rios (ab)».


Tradução

Tiro na água

      Tratava-se de uma tradução do espanhol. A locução, recorrente, «animales de tiro» julgou o tradutor adequado vertê-la como «animais de arrasto». Talvez não fosse demasiado exigir do tradutor que se esforçasse para achar algo como «animais de tracção», isto na falta de cultura e de dicionário da língua portuguesa. Na verdade, aqui não há qualquer falso cognato: «animais de tiro» pode e deve ser usado com o mesmo significado.


Taipa e adobe

Imagem: http://centros.edu.aytolacoruna.es/
Confusões ibéricas

      Num texto, alguém traduziu o espanhol tapia por adobe. Ora, a verdade é que adobe é uma coisa e taipa, outra, diferente. Ambas técnicas de construção de terra, até à década de 1950, a taipa era sobretudo usada no Sul. Parede feita de barro amassado e calcado com um pisão ou pilão, em geral entre enxaiméis atravessados por fasquias ou entre dois tabuões, como se fosse uma cofragem. Na freguesia de Lanheses, concelho de Viana do Castelo, esta técnica é designada por tapia, talvez por influência da Galiza, pois é também esta a palavra usada em galego. O étimo é o árabe tabíya. Em francês diz-se pisé ou pisé de terre. Em inglês, rammed-earth. No Brasil, para onde levámos esta técnica de construção, é designada por taipa de pilão. No adobe, palavra com étimo igualmente árabe, por sua vez, utilizam-se tijolos cozidos ao sol, às vezes acrescidos de palha ou erva, para o tornar mais resistente, e pedra da região. A pedra mais miúda, para preencher os vãos entre as maiores, designa-se por rípio. Na imagem, vê-se uma parede espanhola de taipa.

Pisé, n. m. (1562; du mot lyonnais piser, « broyer », xvie; lat. pinsare). Maçonnerie faite de terre argileuse, délayée avec de cailloux, de la paille, et comprimée (in Petit Robert).

Rammed earth
is a method of wall construction using moistened subsoil that is dynamically compacted inside removable formwork. It is essentially a precisely controlled mixture of gravel, sand, silt and clay, sometimes with sometimes with added lime, sugar paste, magnesium chloride (which is the mineral rich liquid left over when sea salt is extracted from sea water) vegetable oil, or chemical admixtures such as cement. When dynamically compacted this material yields a monolithic wall that is dense, hard, and stone-like.


Léxico: «flange»

Imagem tirada daqui
Engenheiro Alicate

      Uma das bombas do poço da cave avariou. Veio um técnico, num fato-macaco imaculado. Não é só a bomba que está avariada, avisa-me. Está a ver ali aquele esguicho, no tubo da esquerda? Precisa também de uma «falange». Com o Primo de Rivera morto, pensei, onde diabo vamos nós buscar uma «falange»? Ou, pior ainda, será que é uma falange dos dedos? Vão-se os anéis e fiquem os dedos, lá diz o povo. E o povo é sábio, dizem os intelectuais.
      Afinal, a coisa não era tão grave nem cruenta: era apenas uma flange, como a da imagem, um aro desbordante de tubo, rebordo, roda, cilindro, etc. Acessório metálico em forma de coroa circular ou oval, cuja abertura se adapta nas extremidades dos tubos.
      Incompetência, só linguística: tecnicamente o homem era competente e nem sujou muito o fato-macaco.
 


Feminino e masculino

Tamanhos

      Recentemente, dizia a uma pessoa que, em regra, nos pares de palavras portuguesas como saco/saca, pipo/pipa, bolso/bolsa, cesto/cesta, janelo/janela e outras semelhantes o feminino designava um objecto maior. Talvez por ser mulher, a minha interlocutora pensou que eu estivesse a brincar. Mas não estava: é mesmo assim. E isto faz-me lembrar o texto que corre na Internet, e que me fizeram chegar, sobre o «machismo» linguístico: vagabundo e vagabunda; touro e vaca; aventureiro e aventureira; menino de rua e menina de rua; homem da vida e mulher da vida; puto e… Bem, já sabem. Nestas oposições, o masculino, referido ao homem, designa sempre realidades positivas, ao passo que o feminino remete sempre para comportamentos censuráveis.

Topónimo: Devesa

Defesas

      De passagem por Portalegre, vejo que um dos monumentos é a Porta da Devesa. O nome, aliás, repete-se pelo País. Ora tentem lá adivinhar donde vem aquele «Devesa»… Já aqui abordei, a propósito do vocábulo «ourives», o fenómeno fonético que consiste na passagem das fricativas surdas a sonoras. É o que acontece com «devesa». O étimo é o latino defensa-, e o mais provável é que, ou por influência culta ou por importação do romanço (ou romance) moçarábico-meridional, como sugere Leite de Vasconcelos, tenhamos passado a ter também «defesa».


Léxico: amnésia anterógrada

Imagem: http://www.h33.dk/
Memórias

      Há poucas semanas, a mãe de uma amiga minha desmaiou subitamente. Transportada para um hospital, quando voltou a si não sabia onde estava, o que era natural, nem o que tinha acontecido. Com receio de problemas mais graves, a filha fazia-lhe perguntas sobre factos da vida dela. A memória parecia estar em perfeitas condições. Eis que, a determinada altura, perguntou à filha que dia era. A filha disse-lhe. Passados uns minutos de uma conversa que se revelara coerente, eis que voltou a perguntar onde estava, porquê e que dia era. Informada, a conversa prosseguiu normalmente — até que voltou a fazer a mesma pergunta: onde estou, porquê e que dia é? É o que em medicina se designa por amnésia anterógrada, que é uma inibição dos mecanismos de consolidação da memória recente.

Léxico: acaburro

Imagem: http://www.cm-vinhais.pt/freguesias/freg_nunes.html
Para ser mais preciso…

      Amanhã, os produtores de cereja de Nunes e Romariz, no sopé da serra de Nogueira, no concelho de Vinhais, vão até Bragança acaburro, numa recriação da Rota da Cereja, como se fazia antigamente. Sim, porque se os animais são asininos, como o competente repórter da Antena 1 salientou, não vão a cavalo. Estou a brincar.

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