Como se escreve por aí

Desta linda maneira


      «Um estúdio e uma escola que também conta com um museu e uma loja. Fernando Daniel acaba de inaugurar Nagana, um megaprojeto em Ovar dedicado à música, à gravação e ao ensino. O projeto abrange uma área de 1000 metros quadrados e assume-se já como um dos maiores e mais relevantes espaços do género a norte do País. O investimento é exclusivo do cantor e ronda os 2 milhões de euros. “Investi aqui quase todo o dinheiro que ganhei em oito anos na minha carreira. Abdiquei de muita coisa em prole deste projeto, em termos pessoais e profissionais, mas sinto que precisava de um espaço como este porque é isto que acredito que vou fazer para o resto da minha vida”, diz ao CM» («“Investi o que ganhei em oito anos de carreira”», Miguel Azevedo, Correio da Manhã, 18.04.2026, p. 35). 

      Ah, que desgosto, Miguel Azevedo. Já percebemos que faltou a esta aula. E agora já é tarde. Ou não, não sei, depende do brio.

[Texto 22 841]

O que se escreve por aí

Venham cá ver


      «Após vender o seu antigo palacete na Malveira da Serra, onde residiu nos últimos cinco anos, Alexandra Lencastre escolheu mudar-se para o Estoril, perto da Quinta da Marinha, onde já viveu anteriormente e onde continua a ter muitos amigos» («Alexandra Lencastre. Decide voltar a viver na zona do Estoril», Correio da Manhã, 9.04.2026, p. 35). 

      Então o Correio da Manhã, tão abelhudo, que parece saber sempre, não apenas o que aconteceu, como todos os jornais, mas até o que vai acontecer, como nenhum outro, agora afirma que a Quinta da Marinha é perto do Estoril? Ora bem: numa linha que acompanhe a costa, o Estoril está no ponto A e a Quinta da Marinha no ponto C, sendo que eu vivo no ponto B. Ora, para nordeste, pela costa, a cerca de 3,8 km, tenho o centro do Estoril; a noroeste, a cerca de 2,7 km, tenho a Quinta da Marinha. Perto? Mais: a Malveira da Serra está mais perto da Quinta da Marinha do que o Estoril.

[Texto 22 785]

As opções dos nossos jornais

Maus exemplos


      Assim? «Na efeméride de um mês desde o início dos ataques israelo-americanos contra o Irão, os hutis, do Iémen, atacaram Israel pela primeira vez, com mísseis balísticos. Noutra frente, no Sul do Líbano, os israelitas mataram ontem três jornalistas e nove socorristas» («Hutis entram na guerra e lançam mísseis contra Israel», Gabriel Hansen, Jornal de Notícias, 29.03.2026, p. 36). Ou assim? «Ao fim de um mês de guerra, a deslocação de mais tropas norte-americanas para a região do Golfo e as perspectivas de uma ofensiva terrestre, naval e aérea contra o Irão marcaram a entrada dos houthis do Iémen no conflito que se iniciou a 28 de Fevereiro, com um ataque surpresa que matou o Guia Supremo Ali Khamenei e várias outras guras do regime iraniano» («Rebeldes do Iémen lançam mísseis sobre Israel e deixam aviso aos Estados Unidos», Ana Brito, Público, 29.03.2026, p. 18).

[Texto 22 715]

Como se escreve por aí

Nos jornais, para mais


      «“O time [grupo] Rapids trabalha desenvolvendo soluções de data science e machine learning acelerados por GPU”, explica-nos, dizendo que há bibliotecas dedicadas à ciência de dados em código aberto (open source) que usam Unidades Centrais de Processamento (CPU). “O Rapids cria uma versão acelerada dessas bibliotecas usando o poder de processamento paralelo das GPU, para agilizar todo o processo”, explica Gilberto Titericz Júnior, que se mostra satisfeito pela aplicação da sua solução a “terabytes de imagens esperando para serem classificadas”. “A vantagem de usar as GPU é a velocidade de classificação, que aumenta significativamente comparado com as CPU”» («O primeiro serviço mundial de ondas internas do oceano é português», Teresa Firmino, Público, 23.12.2024, p. 25). 

      Se a jornalista tivesse perdido dez segundos a pensar no caso, concluiria que não devia grafar a palavra time, usada no Brasil, em itálico. O jornal Público, no entanto, não ficará conhecido por ser criterioso nestas questões. Umas páginas atrás, lia-se isto: «As imagens de videovigilância na posse da Polícia de Segurança Pública (PSP) vão ser essenciais na identificação dos membros dos No Name Boys responsáveis pelos graves desacatos na noite de sábado durante um convívio do grupo num restaurante em Sintra» («No Name Boys: PSP tem imagens de videovigilância», Miguel Dantas, Público, 23.12.2024, p. 14). Desde quando, Miguel Dantas, é que o nome de um qualquer grupo, seja qual a sua natureza, se grafa em itálico? Dez segundos também bastariam.

[Texto 22 649]

O que se escreve por aí

Exactamente o mesmo


      «Depois dos rumores espalhados pelos meios de comunicação do Irão de que o primeiro-ministro israelita estaria morto, Benjamin Netanyahu publicou um vídeo a ridicularizar a situação, comentando que estava “mortinho por um café”. Enquanto pedia a bebida nos arredores de Jerusalém, o assessor do chefe de Governo israelita pergunta-lhe sobre os rumores e Netanyahu respondeu com um trocadilho, já que “morto”, no calão hebraico, também é uma palavra usada para descrever alguém que está “louco por” alguém ou alguma coisa» («“Sou louco por café, sou louco pelo meu povo”: Netanyahu publica vídeo a ironizar rumores de que estaria morto», Catarina Magalhães, Rádio Renascença, 15.03.2026, 18h01).

      Calão... E como se em português não se dissesse exactamente o mesmo, Catarina Magalhães. O assessor, ouve-se no vídeo no X, menciona os rumores («Dizem que estás morto»), ao que Netanyahu responde assim: «Ani met... al kafe» (אני מת... על קפה). «Mortinho... por um café!» É coloquial.

[Texto 22 646]

Como se pensa por aí

Cada cabeça, etc.


      «Foi na juventude que se iniciou no boxe de competição, actividade que acabaria por lhe dar a alcunha, dentro do partido, de boxeur — embora usada pejorativamente para descrever o seu carácter impetuoso e emotivo» («O grande estratega que teve “uma espécie de segunda vida”», Ana Sá Lopes, Público, 8.03.2026, p. 13). Pejorativo, hein? Converse aqui com o seu colega: «Nuno Morais Sarmento, advogado e dirigente histórico do PSD, morreu ontem aos 65 anos, vítima de cancro no pâncreas, deixando uma marca de combatividade política que lhe valeu dentro do partido o nome carinhoso de “boxeur”» («Morais Sarmento não resistiu ao último combate», António José Gouveia, Jornal de Notícias, 8.03.2026, p. 30).

[Texto 22 608]

Como se escreve por aí

Pois, mas saiu mal


      «A Casa Branca bem pode desejar a deposição do feroz regime teocrático iraniano, substituindo-o por um governo submisso aos seus ditames, mas os especialistas no Médio Oriente sustentam que esse cenário é pouco provável e que os dois cenários mais viáveis são bem diferentes: um será o reforço da teocracia, bem musculada com a sua Guarda Revolucionária, e o outro a eclosão da República Islâmica do Irão, mergulhando o país num caos» («Cenários de guerra», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 10.03.2026, p. 2).

      Tenho a certeza, como não, de que o Prof. Carlos Fiolhais sabia muito bem o que queria escrever — mas errou na palavra que escolheu, que se devia reservar, por precaução mínima, para quando nos referimos aos pintainhos. Como seria de esperar, o temor reverencial do revisor impediu-o de corrigir a frase, que, assim, diz exactamente o contrário do que o autor pretendia. Já um pouco atrás o revisor, ou por ignorância ou por temor, deixara passar outro erro: «Os EUA iniciaram a ofensiva invocando a capacidade – não provada! – dos iranianos construírem ogivas nucleares.» Aqui foi a interposição dos parênteses que os obnubilou. Em suma, a língua está a revelar-se mais difícil do que a Física.

[Texto 22 597]

Como se escreve por aí

Observa bem


      «“Não há primeiras damas no nosso país”, disse Margarida Maldonado Freitas aos jornalistas, na noite em que o marido, António José Seguro, venceu as eleições Presidenciais, em fevereiro. “Portanto… eu acompanharei o meu marido, mas não há primeiras damas”, completou a mulher do Presidente agora empossado — e esta segunda-feira, 9 de março, dia da posse, assim o fez» («Os corações de Viana e o azul de Melania e Brigitte. As escolhas de Margarida Maldonado Freitas para a tomada de posse de Seguro», Sâmia Fiates, Observador, 9.03.2026, 18h41). 

      Muito bem, não há, não há. Não se fala mais nisso. Mas, ó Observador, hífen há ali naquela palavrinha: primeira-dama. Ainda queria que fosse no meu tempo termos um primeiro-cavalheiro. A Porto Editora tem tudo preparado, anda mais próvida, e assim primeira-dama é a «mulher ou companheira de chefe de Estado» e primeiro-cavalheiro o «marido ou companheiro de chefe de Estado».

[Texto 22 596]

As opções dos nossos jornais

Qual respeita mais a língua?


      Eles nem sabem muito bem: «Em causa estão os ataques conduzidos pelo grupo de combatentes islâmicos paquistaneses TTP (os chamados taliban paquistaneses), que operam a partir de território afegão, e que Islamabad diz ter apoio financeiro, logístico e operacional de Cabul» («Paquistão garante que matou 415 talibans afegãos», Ana Brito, Público, 2.03.2026, p. 21). Estes sabem: «Segundo Islamabade, 331 soldados afegãos foram mortos e mais de 500 ficaram feridos desde o início dos combates, na quinta-feira. O Afeganistão rejeitou estes números, considerando-os falsos. Os talibãs falam em 52 mortos, a maioria mulheres e crianças, e 66 feridos» («Islamabade anuncia novos ataques a instalações militares afegãs», Jornal de Notícias, 1.03.2026, p. 33).

[Texto 22 566]

Como se escreve por aí

Não avançámos nada, nem com a IA


      «Os narcosubmarinos, que na realidade são semissubmersíveis que navegam com a parte superior à tona de água, fazem parte de um modus operandi conhecido há mais de 20 anos na costa americana» («Artur Vaz. “Os narcosubmarinos são uma grande ameaça”», Isabel Laranjo, Nascer do Sol, 5.03.2026, 8h01). 

      O sol da ortografia e da lógica quando nasce não é para todos — nem para o Nascer do Sol, onde também (como no Observador) não sabem escrever «narcossubmarino». Aqui, com a agravante de a jornalista até ter sabido que se escreve «semissubmersível». Sendo assim, reúne as condições mínimas, mas tem de treinar mais.

[Texto 22 560]

Como se escreve por aí

Mais uma escolha infeliz


      «Araghchi garantiu que o Irão mantém “uma boa relação” com os países do Golfo e que estes “não têm nenhum problema” com Teerão. “Não estamos a atacar os nossos vizinhos nos Estados do Golfo, mas a presença americana nesses países. Sabemos que os países do Golfo estão chateados com estes ataques, mas eles deviam saber que esta guerra nos foi imposta”, declarou, acrescentando que tem mantido o contacto com os seus pares nestes países» («MNE iraniano: países do Golfo estão “chateados” mas “não podem esperar que Irão fique em silêncio”», Madalena Moreira, Observador, 1.03.2026, 14h35).

      Procurei na versão em inglês das declarações de Abbas Araghchi algum termo que pudesse, ainda que de forma forçada, justificar o coloquial «chateados», mas em vão. As formulações usadas na imprensa anglófona são, como seria expectável em contexto diplomático, do tipo expressed concern, voiced objections ou were dissatisfied. Traduzir esse registo por «chateados» não é apenas uma opção estilística discutível, é uma descida clara de nível, que trivializa o discurso político e aproxima a linguagem jornalística da conversa de café. Nada que não veja, atenção, nos livros que revejo, mas francamente...

[Texto 22 558]

Como se escreve por aí

Como assinante o exijo: em português!


      Outra vez a guerra. Mas porque optam no Observador por escrever ayatollahs quando até donas de casa com a 4.ª classe nascidas na década de 30 já escrevem aiatolas? Já agora, deixem de escrever «Supremo Líder», que até parecem fanáticos do regime.

[Texto 22 544]

Como se escreve por aí

Desta linda maneira


      Há coisas muito estranhas, e esta é uma delas: «Passou um mês e não sei se já chegou a notícia a Lisboa. Ainda há cerca de duas mil pessoas sem luz e uns milhares, não se sabe bem ao certo, sem internet e comunicações. [...] Esta semana, numa reportagem na CNN Portugal, um casal com mais de 80 anos contava e mostrava como se repara um telhado esventrado pela ventania» («Ainda há gente sem luz», João Fernando Ramos, Nascer do Sol, 1.03.2026, 13h34). 

      Mas porquê o itálico em «internet» e em «CNN Portugal»? Umas linhas mais à frente, contudo: «A imagem de drone é esmagadora mostrando o homem no topo do telhado e a destruição que o envolvia.» Isto são tretas do jornal, mas há erros do jornalista: «A pergunta da jornalista é se ainda não chegou ninguém para ajudar. A resposta foi simples; ‘Pois não menina. Mas nós cá estamos de saúde para resolver isto’.» Pelo menos no que toca à pontuação, estou certo de que o trolha não faria muito pior. E podemos ter a certeza de que não usaria itálico.

[Texto 22 542]

Como se escreve por aí

Falta a cultura do cuidado


      «Os alarmes começaram a soar no dia 2 de fevereiro, quando a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX), o célebre grupo ultra-tradicionalista que vive há várias décadas às margens da Igreja Católica, emitiu um comunicado bombástico, anunciando que, daí a cinco meses, a 1 de julho de 2026, seriam ordenados novos bispos tradicionalistas no seio da organização» («Igreja Católica. Após proposta de diálogo recusada, cisma entre Vaticano e grupo ultra-tradicionalista parece inevitável», João Francisco Gomes, Observador, 22.02.2026, 17h21). 

      Recebem prémios de jornalismo, mas aos de ortografia nunca poderiam aspirar. Então, João Francisco Gomes, não é «ultratradicionalista» que se escreve? E o que é isso de «às margens»?

[Texto 22 537]

Como se escreve por aí

Só vêem o argueiro


      «“O discurso de Marco Rubio”, disse Alexandria Ocasio-Cortez a propósito da intervenção do Secretário de Estado dos EUA em Munique, “foi um apelo puro à cultura Ocidental”. Seria necessária uma imaginação invulgarmente fértil para conjecturar a frase que escreverei de seguida, mas aqui vai: concordo com Ocasio-Cortez. Está certa. O discurso de Rubio foi indubitavelmente uma ode à cultura e à civilização Ocidental» («Em defesa da cultura Ocidental», Gonçalo Nabeiro, Nascer do Sol, 25.02.2026, 9h26).

      Parece que nem no ISEG nem no jornal se ocupam destas minudências ortográficas, isso é para ociosos como nós. E lá aparece também Michelangelo, agora grafia obrigatória.

[Texto 22 527]

Como se inventa por aí

Ora, não vale a pena


      «Muçulmanos caxemires rezam após concluírem a oração do Asr (tarde) durante o mês sagrado de jejum do Ramadão no Santuário Dargah Hazratbal, em Srinagar», era a legenda de uma imagem no Público de ontem. Pois, era uma boa ideia, mas os gentílicos de que dispomos são dois, não três: caxemirense e caxemiriano.

[Texto 22 505]

Como se escreve por aí

Nada que se recomende


      «Seguro está a formar a sua equipa, Ventura voltou ao parlamento, Marques Mendes percorre o deserto, o almirante faz contas de cabeça e Cotrim provou não ser adepto de travessias ou de médios ou longos silêncios. Depois das presidenciais cada um foi à sua vida, uns com mais estardalhaço, outros com mais discrição, mas todos se fizeram ao caminho» («Ele acredita mesmo que o país precisa de si», Luís Osório, Diário de Notícias, 20.02.2026, p. 4). 

      Como é que escrevem o nome de uma instituição com minúscula? Nas traduções, estou sempre a ver isto. Mas são os mesmos que depois escrevem «Castanheiro-da-Índia». Decorre do défice de reflexão sobre a língua, simplesmente.

[Texto 22 498]

Conversa da treta

Nunca mais acaba esta merda


      «Aos 79 anos, Trump é o Presidente mais velho a entrar na Casa Branca e deverá ser o mais idoso a sair, roubando o recorde a Joe Biden. O antecessor saiu com nítidos sinais de declínio físico e combate agora um cancro da próstata avançado. O secretismo em torno da sua saúde foi amplamente criticado» («De Washington a Bruxelas pergunta-se se Donald Trump está bem», Pedro Guerreiro, Público, 2.02.2026, p. 20). 

      Cá estão eles com a linguagem bélica em relação ao cancro. Talvez queiram que se conclua que só morrem os fracos, os que, maus soldados, não souberam combater. Oh, por favor, acabem com esta conversa.

[Texto 22 422]

Como se escreve por aí

Só para confirmar


      Tudo estranho, neste título, da gralha à escolha de vocabulário: «Porto sediará evento supremacisto branco com figuras da extrema-direita» (Amanda Lima, Diário de Notícias, 30.01.2026, p. 16). Portanto, continua tudo na mesma, mas, como andam muito folgados, vamos passar a andar de novo mais em cima deles.

[Texto 22 326]


«Quando mais não seja»

Já disse: Torga sabia

      «Não tenho a mínima dúvida de que Soares receia uma explosão de violência — quanto mais não seja porque, uma vez iniciada, ninguém pode prever a sua evolução. E não tenho notícia de que o PS, ou mesmo os “radicais” do BE ou do PCP, se preparem para enquadrar, controlar e liderar essa explosão de violência de forma que sirva os seus objectivos políticos» («A violência, a procura de justiça e o regresso à democracia», José Vítor Malheiros, Público, 26.11.2013, p. 53).
      «Enfim, eu estou e estarei sempre com eles, quando mais não seja porque tenho de estar com os meus. Mas já ouço sem convicção o “venha com Deus” habitual. Há também nestas humanidades uma faca debaixo de cada sorriso, e a bênção de amor com que o mundo precisa de ser regado necessita de alargar os braços e chegar até aqui» (Diário, Vols. I a IV, Miguel Torga. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999, p. 244).
[Texto 3587]

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