Como se escreve por aí

Só para confirmar


      Tudo estranho, neste título, da gralha à escolha de vocabulário: «Porto sediará evento supremacisto branco com figuras da extrema-direita» (Amanda Lima, Diário de Notícias, 30.01.2026, p. 16). Portanto, continua tudo na mesma, mas, como andam muito folgados, vamos passar a andar de novo mais em cima deles.

[Texto 22 326]


Como se escreve nos jornais

Como um raio

      Foi descoberto um fóssil de um dinossauro trodonte terápode, o Talos sampsoni, nos Estados Unidos. «O líder da equipa de paleontólogos que o encontrou e estudou, Lindsay Zanno, da Universidade de Wisconsin-Parkside, não tem dúvidas de que esta descoberta “é como uma espécie de relâmpago, um acaso de proporções fantásticas”, como afirmou» («Primo mais novo do Velociraptor descoberto», Filomena Naves, Diário de Notícias, 20.09.2011, p. 30).
      Tudo muito bem (pese embora o «líder»), mas o «relâmpago» não me soa nem me ilumina. Parece que Lindsay Zanno (afinal uma bela líder) disse «is like a lighting strike». Ou terá sido «lightning strike»? As fontes divergem...

[Texto 497]

«O Público errou»

E voltou a errar

      Página 32 da edição de hoje do Público: «No texto “Pouca obra para um projecto ambicioso”, publicado ontem no Local Lisboa, saiu incompleta a frase “Os custos mensais de funcionamento da estrutura da Frente Tejo rondam os 60.000 euros por mês”.» Está a revelar-se uma vocação, isto de não perderem uma oportunidade de errar.
[Texto 355]

Léxico: «parasailing»

É isso mesmo

      «Mãe e filha decidiram fazer um passeio de parasailing [modalidade em que um pára-quedas preso a uma embarcação sobrevoa o mar], mas, no momento em que se encontravam a cerca de 500 metros da praia, o cabo que as prendia à lancha ter-se-á soltado devido a uma rajada de vento inesperada e o pára-quedas voou sem controlo até à primeira linha de praia, acabando por embater numa palmeira» («Morreu turista que sofreu acidente com pára-quedas», Joana de Belém, Diário de Notícias, 7.07.2011, p. 21).
      Esta é a boa prática jornalística: sempre que se usa um estrangeirismo ou termo mais invulgar, técnico ou não, explica-se o significado.
[Texto 292]

Como se escreve nos jornais

Só dois

      Na edição de ontem do Público, Nuno Pacheco lembrou a morte de um fotojornalista, Joaquim Lobo, e de um jornalista, António Jorge Branco. Em relação a este, escreve: «E lá trocávamos ideias, impressões, histórias maiores e menores (odiava as gralhas dos jornais, assim como o mau uso do português, de que era um dedicado conhecedor)» («O adeus a um mestre», Nuno Pacheco, «P2»/Público, 11.07.2011, p. 3).
Devia então odiar o Público actual. (E outros jornais, claro, mas com o mal dos outros, etc.) Respigo só dois erros — erros, não gralhas — da edição de ontem, e da mesma notícia.
      «“Não basta um copo para se ficar doente”, alerta [Helena Rebelo, coordenadora do Departamento de Saúde Ambiental do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge], notando ainda que os organismos não reagem da mesma forma e que crianças ou pessoas com doenças pré-existentes e com o sistema imunitário mais vulnerável podem estar propensas a complicações. A “contaminação microbiológica de origem fecal”, que foi encontrada em 87,8 por cento das análises afectadas [sic], incluindo a presença da agora famosa bactéria Escherichia coli, tem como complicação mais comum a gastreenterite, com sintomas como febre, diarreia e vómitos» («“Maioria dos fontanários do país não possui água própria para consumo”, diz estudo», Catarina Gomes, Público, 11.07.2011, p. 6).
      Preexistente. Já vem do latim, e é assim que se deve escrever este vocábulo, tal como preexistência, preexistencialismo e preexistir. Não vale a pena inventar. «Gastreenterite» é confusão que advém de o termo ter duas variantes: gastrenterite e gastroenterite.
[Texto 288]

Endereço electrónico

@ de razão

      Na sua crónica de hoje, Nuno Pacheco ocupa-se de uma questão que já aqui foi tratada: a publicação, pelo Ministério da Educação e Cultura do Brasil, de uma obra, Por uma Vida Melhor, em que se defende o indefensável. Escreve, a determinado passo, Nuno Pacheco: «No endereço electrónico do ministério, a polémica favorece o livro. A professora que o escreveu é bem-intencionada, os que criticam o livro não o leram bem, etc.» («O caçador caçado», Nuno Pacheco, «P2»/Público, 20.06.2011, p. 3).
      É uma confusão já nossa conhecida: quer escrever-se «sítio» e sai «endereço electrónico». Ou terá sido porque, querendo evitar — o que é mais que louvável — o anglicismo site, pensou em «página electrónica»? Há-de ser lapso, mas, para o caso de subsistir alguma dúvida, deixo a definição da Infopédia: «Endereço utilizado para envio de mensagens pela Internet. É constituído pelo nome do utilizador, o símbolo @ (“arroba”), seguido do nome do fornecedor de serviços de acesso à Internet e o símbolo . (“ponto”) com a zona. Exemplo: utilizador@fornecedor.pt».
[Texto 188]

«Saco de gatos»

E podia ter acertado

      De «O Público errou»: «Escrevemos na edição de ontem que António Vitorino usara, num comício do PS em Setúbal, a expressão “saco de ratos”, quando o que foi dito foi “saco de gatos” (“quando cheira a poder aparecem todos juntos, para logo a seguir voltarem a ser um saco de gatos”)» (Público, 1.06.2011, p. 38). Apenas com a transposição de uma letra e troca de outra: «quando cheira a podre aparecem todos juntos, para logo a seguir voltarem a ser um saco de ratos». No D. Quixote também há, lembra-se, Fernando Venâncio?, um saco de gatos, não para dar a ideia, agora transmitida quando se usa a expressão, de desorganização, mas literal.
[Texto 88]

Como se escreve nos jornais

E por falar em triunvirato

      «O discurso de Sócrates na terça-feira sobre o acordo com o triunvirato BCE-FEEF-FMI teve um carácter absolutamente singular na história da comunicação política portuguesa, porventura mundial e até histórica» («Inovação retórica: inventar para desmentir», Eduardo Cintra Torres, «P2»/Público, 6.05.2011, p. 12).
      Sim, percebo, mas não é por estar bem escrito — porque está malissimamente escrito. Muita «história». E o triunvirato não é BCE-CE-FMI?
[Post 4751]

Como se escreve nos jornais

O do triunvirato

      «O anúncio do grupo francês surgiu a poucas horas do início da cimeira bilateral entre a Itália e a França, em Roma, que promete ficar ensombrada por esta jogada gaulesa nada desejada pelo Governo romano» («Lactalis lança OPA à Parmalat para reagir a lei de Berlusconi», Carla Aguiar, Diário de Notícias, 27.04.2011, p. 34).
      «Governo romano»: pensamos logo em Marco António, em Lépido e em Octávio, por exemplo. É uma figura de estilo, bem sei, mas vai a par do uso imoderado do termo «luso» na imprensa gratuita. «Jogada gaulesa» é outro produto do excesso de imaginação.
[Post 4736]

Como se escreve nos jornais

Mas não sai

      Na redacção. Não são dos piores. Mas uma jornalista escreveu que «Nuno Alves Pereira levou a sua hoste para a Herdade dos Atoleiros, 2,5 km a sul de Fronteira». E, como escreveu duas vezes o nome daquela maneira, decerto que pensará que é assim mesmo. Nun’Álvares Pereira, vamos lá usar até o apóstrofo. Não são dos piores, mas a pontuação? Mais um estágio no Inferno. Ou no Paraíso?

[Post 4638]

Como se escreve nos jornais

Escreve-se mal

      «As eleições nos estados federados de Estugarda e Mainz são a terceira e quarta de um superano eleitoral na Alemanha, que começou com Hamburgo (e uma pesada derrota da CDU) e que terminará em Berlim (onde se prevê um duelo entre SPD e Verdes). Estas eleições são importantes» («A quarta eleição do superano eleitoral», Maria João Guimarães, Público, 27.03.2011, p. 16).
      Não é à primeira — nem talvez à quarta — que o leitor desprevenido consegue atingir o estratosférico pensamento da jornalista. Primeiro pensei que fosse uma tentativa (frustrada, a avaliar pela dificuldade em interpretar) de aportuguesar um vocábulo alemão. Ah!, é o prefixo super + o substantivo ano. Ah... Parece uma charada. Soberano? Soprano? Gostava de saber o que José Queirós, o provedor do leitor do Público, diz desta palhaçada.

[Post 4621]

«Khadafi/Kadhafi»

Se forem coerentes

      «Depois de terem atacado posições de Khadafi na estrada que liga Ajdabiya a Bengasi — cidade-berço da revolta que estava sob cerco quando a operação internacional começou, sábado —, assim como bases militares ao longo da costa, os aviões estrangeiros concentraram-se nos últimos dias em Misurata, tentando impedir o coronel de ali fazer chegar reforços» («França abate avião de Khadafi em Misurata», Sofia Lorena, Público, 25.03.2011, p. 19).
      Não, não vou tecer mais comentários em relação a «cidade-berço». Que se enxerguem. Sobre o nome do ditador líbio, sim. No Público, é Khadafi. No Diário de Notícias, é Kadhafi. Está tudo bem, desde que escrevam sempre da mesma forma. Também pode escrever-se Cadáfi, Kadafi, Gadhafi, al-Khaddafi, al-Qadhafial-Khadafi...
      Multímodo, multifário, como o próprio homem.
[Post 4610]


Léxico: «acantonar»

Quem se queima que assopre

      Garrett usou assossegar; Herculano, Camilo, Antero de Figueiredo e outros usaram também assossegar e asserenar, lançando mão de um recurso, a próstese, de origem claramente popular. No adagiário não faltam estes verbos, e sobretudo assoprar. Jorge Mourinha, na sua crónica de hoje no Público, no que me parece uma espécie de hipercorrecção (outros virão atrás de mim increpar-me a complacência), usou o verbo «cantonar»: «E falar dele [Artur Agostinho] como “homem da rádio”, como alguns noticiários fizeram, equivale a cantoná-lo num papel que, se foi o mais importante da sua carreira, foi apenas uma parte dele — e, ironicamente, a parte que menos dirá a muitos daqueles que hoje se recordam dele das novelas ou dos talk-shows onde era convidado regular» («Artur Agostinho», «P2»/Público, 24.03.2011, p. 10). (Quanto à substância da crónica, se é que pode descortinar algo remotamente parecido, pode ser resumida no último parágrafo: «Mas é significativo que tanto Júlia Pinheiro como Jorge Gabriel estivessem verdadeiramente emocionados ao encerrarem as suas emissões da manhã de terça-feira: isso diz mais sobre Artur Agostinho do que dezenas de obituários.»)
      Em espanhol, sim, existe o verbo cantonar, que significa o mesmo que o nosso «acantonar» (e acantoar, variante). Quanto às formas prostéticas, não faltam, mormente na oralidade: alevantar, amostrar, alimpar, abaixar... E, imorredoiro, aquase.


[Post 4608]

Uso do latim

De pé atrás

      Abel Coelho de Morais traçou hoje, no Diário de Notícias, o perfil (mais um termo com uma definição deficiente no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa) de Jacques Chirac. Eis um excerto: «Noutra ocasião, menosprezou a gastronomia britânica ao dizer que um povo que cozinha assim “não é de confiar”. O que, cum grano salis, não deixa de ter algum fundo de verdade» («Um presidente francês sem vergonha nem glória», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 12.03.2011, p. 44).
      Posso estar a avaliar mal, mas creio que o jornalista apenas quis alardear que conhece uma expressão latina, mas saiu-se mal. Cum grano salis traduz-se, literalmente, por «com um grão de sal». Dito por outras palavras, significa que se deve temperar o que alguém disse ou escreveu, porque revela um exagero de qualquer natureza. Ou seja, sem ser falso, é conveniente que seja visto com algumas reticências. Aderir, da forma que o jornalista o fez — «não deixa de ter algum fundo de verdade» — mesmo que com tais arrevesadas cautelas, à afirmação de Chirac é inconcebível. 

[Post 4554]

Selecção vocabular

Ao calhas

      «No processo, segundo o DN apurou, consta que os três disparos ficaram registados na comunicação rádio da polícia antes da chamada para o 112. Nessa gravação audio [sic] ouve-se um primeiro disparo seguido de outros dois seguidos (o que corrobora o que o arguido contou agora em tribunal)» («“Não sou maluco para andar aos tiros ao calhas”», Rute Coelho, Diário de Notícias, 23.02.2011, p. 19).
      «Um primeiro disparo seguido de outros dois seguidos», escreveu o jornalista, como se não houvesse sinónimos nem paciência para escrever melhor. «Comunicação rádio» também é assaz estranho.


[Post 4482]

«Palavra de ordem», de novo

Mesmo entoada

      Muito bem: palavra de ordem vem do francês mot d’ordre e, já que não vivemos sem a expressão (lema ou divisa traduzirão bem a ideia contida na locução francesa?), pelo menos que se use adequadamente: «Estava marcada para se iniciar hoje a campanha “os dias da raiva”, movimento de contestação ao regime de Muammar Kadhafi, mas começou já ontem com milhares de líbios a saírem às ruas de Bengasi, entoando palavras de ordem que deixam pouco espaço para dúvidas sobre o sentimento popular neste país do Magrebe» («Começam ‘os dias da raiva’ contra o regime de Kadhafi», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 17.02.2011, p. 25). E lá está o gerúndio, como aqui...

[Post 4449]

Como se escreve nos jornais

Mexerufada

      «A receita da Coca-Cola foi ontem revelada por um programa de rádio norte-americano e nela podemos encontrar ingredientes que, curiosamente, poderiam fazer parte de qualquer prato da culinária nacional. Além destes, o sabor (até agora) secreto, chamado de “7X”, leva óleos de laranja, limão e noz moscada, além do óleo de néroli, produzido a partir das flores de laranjeira Bergamota» («O segredo da ‘Coca-Cola’ vazou na Internet», Bruno Abreu, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 18).
      No artigo diz-se que John Pemberton foi o inventor da Coca-Cola, uma «bebida alcoólica intelectual e medicinal». (Há-de ser isto.) Na coluna da esquerda, lemos que Pemberton nasceu na Geórgia; na coluna da direita, lê-se duas vezes Jórgia. E mais: John Pemberton «sobreviveu à Guerra Civil Americana com uma adição à morfina». Quanto a «néroli»: é o nome comercial do óleo extraído de flores de laranjeira. Nem todos os dicionários acolhem o vocábulo.

[Post 4442]

Como se escreve nos jornais

Decida-se

      «A equipa, que foi coordenada por Alexandra Houssaye, do Museu de História Natural de Paris, contou também com a colaboração de investigadores do sincrotrão europeu, o European Sychrotron Radiation Facility, instalado em Grenoble, onde as imagens de raios X foram realizadas, e do Karlsruhe Institute of Technology, na Alemanha, onde as imagens foram estudadas» («Cobras primitivas tinham pernas», Filomena Naves, Diário de Notícias, 9.02.2011, p. 31).
      Antecipei-me em meses, peço desculpa: eu já tinha dito à minha filha que dantes as cobras tinham pernas. (Espero que não me escorracem da comunidade científica.) Agora aquela equipa veio demonstrá-lo. Bem, mas isso agora não interessa. Parece-me que a jornalista se enganou: Alexandra Houssaye é do National Museum of Natural History. Ah, não é essa a regra, escrever tudo em inglês? Não? Sendo assim, melhor se diria que a outra instituição era o Instituto de Tecnologia de Karlsruhe. Ou, então, tudo nas respectivas línguas: Muséum National dHistoire Naturelle e Karlsruher Institut für Technologie.

[Post 4419]

Como se escreve nos jornais

É chinês


      A Liga dos Chineses em Portugal (LCP) apoiou, lembram-se de o ter dito aqui?, Cavaco Silva. Pois agora, numa notícia sobre o agiota chinês que sequestrou uma mulher, lia-se isto na edição de ontem do Diário de Notícias: «Mas o presidente da Associação China Única, Y Pong Chow, desmentiu ao DN a existência de máfias chinesas a operar em Portugal» («Chinês já estava referenciado por agiotagem há 15 anos», Joaquim Gomes, Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 23). Não apenas o nome da associação não está certo, mas, pior ainda, o nome do próprio presidente da associação, e aparece três vezes no artigo. E era facílimo comprovar estes dados. Se isto não é escrever com os pés, o que é?

[Post 4405]

Como se escreve nos jornais

Inacreditável... ou quase


      «No entanto, os seus hábitos [do arminho] esquivos e a falta de estudos aprofundados sobre este animal não permitem haver dados concretos sobre sua densidade populacional em solo nacional, mas estimando-se, apesar de tudo, que não exista um grande número de exemplares no estado selvagem» («O sobrevivente da cobiça real e exterminador natural», José Pedro Gomes, Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 42).
      Há quem escreva quase tão mal — mas não é jornalista.

[Post 4402]

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