Infinitivo pessoal

A troika

      «Muito manifestamente, os senhores a que pedimos para mandar em nós, depois de observarem a balbúrdia indígena, não têm confiança nos portugueses para tratar sem ajuda dos problemas de Portugal» («O mau aluno», Vasco Pulido Valente, Público, 6.05.2011, p. 48).
      Temos duas acções — pedir e mandar — e dois sujeitos, «os senhores» e «nós». Para distinguirmos, não devemos usar o infinitivo pessoal ou flexionado?

 [Post 4748]

Infinitivo

Também podia ser


      Um leitor, A. C. M., acaba de me mandar uma mensagem de correio electrónico em que me diz que no texto anterior, sobre o uso escusado e errado do vocábulo «gay», o verbo «trabalhar» não podia estar flexionado. «Alguns dos operários despediram-se, por julgarem que ao trabalharem sob o arco-íris das Pinturas Zeitoun iria supor-se que eles eram gay, que por qualquer motivo a empresa somente conseguia contratar pintores gay» (Zeitoun, Dave Eggers. Tradução de Jorge Pereirinha Pires e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2010, p. 24). Não é assim. Se for regido de preposição (a, na frase citada), o infinitivo pode ser flexionado ou não: ao trabalhar ou ao trabalharem. Ambas as construções estão correctas.

[Post 4331]

Infinitivo flexionado

Também movediças


      Mais uma vez a questão do infinitivo e da sua flexão. Leiam esta frase: «Mas também ouvimos pessoas rejubilar com essa mesma erosão […].» Com verbos sensitivos, defendem alguns estudiosos da língua, não se flexiona o infinitivo. Mas há excepções, alertam outros: se o sujeito vier antes do verbo no infinitivo, a flexão do infinitivo já é obrigatória. É o que eu também defendo. Ora, é justamente o caso da frase que cito acima. Logo, eu escreveria (e corrijo, porque sou revisor e tenho de tomar decisões, que, por vezes, sou chamado a justificar): «Mas também ouvimos pessoas rejubilarem com essa mesma erosão […].»
      É este caso idêntico ao dos dragões? Não é: a de hoje tem uma estrutura diferente, estão em causa dois verbos e dois sujeitos. Mas vale a pena compará-las. Gostava de conhecer a opinião dos meus estimados leitores.

[Post 3721]

«Como nos prepararmos...»

Agora sem dragões


      «Como nos preparar para esses novos desafios?», perguntou o ensaísta. Poderia ter perguntado de outra maneira? Sim: «Como nos prepararmos para esses novos desafios?» Hoje, até prefiro, numa frase simples introduzida por como, usar o infinitivo pessoal. Andei a estudar a questão e o meu juízo de gramaticalidade de frases com esta estrutura alterou-se. Afinal, leio frases semelhantes em autores consagrados, e as gramáticas não o proíbem. Mais: é como me parece que as pessoas falam. Há três meses, um leitor escrevia-me: «A Páscoa está aí, e com ela as férias escolares e os filmes para crianças (M6). E um deles, em exibição em variadíssimas salas, tem por título Como Treinares o teu Dragão (How to train your dragon). Pobres crianças, nem em férias as dispensam de desaprender português!»
      Digam-me apenas se dizem e escrevem a frase a), «Como nos preparar para esses novos desafios?», ou b), «Como nos prepararmos para esses novos desafios?» Está aberto o fórum.

[Post 3697]

Infinitivo impessoal

Sem escolha


      «No século XVIII, Rousseau, os médicos e os moralistas souberam fazer vibrar esta corda para convencer as mães a consagrar-se inteiramente aos seus filhos, a amamentá-los, a cuidar deles e a educá-los.» Neste caso, já o infinitivo não pode ser — nunca — flexionado, pois, com o verbo («convencer») regido da preposição, funciona como complemento. Efectivamente, ninguém diz ou escreve (melhor: ninguém deve escrever ou dizer) *Os alunos estão dispostos a competirem, ou *Consegui convencê-los a aceitarem. Antes Os alunos estão dispostos a competir, e Consegui convencê-los a aceitar.


Nota: aceitei a sugestão de um leitor de assinalar de cor diferente (escolhi o fundo branco) o que está correcto e a vermelho somente o que está incorrecto. É o que farei doravante.

[Post 3663]

Infinitivo pessoal

Certo, para quem não sabe


      Original: «Les pédiatres et les nombreux “ spécialistes ” de la maternité, dénonçant les préceptes de leurs prédécesseurs — et parfois les leurs propres à quelques années de distance — retrouvaient les arguments d’un Plutarque ou d’un Rousseau qui surent si bien culpabiliser celles qui restaient sourdes à la voix de la nature.» Tradução: «Os pediatras e os numerosos “especialistas” da maternidade ao denunciar os preceitos dos seus predecessores — por vezes os seus próprios de alguns anos atrás — reencontravam os argumentos que tão bem souberam culpabilizar as que se mantinham surdas à voz da natureza.»
      Pois é, e onde está a concordância do infinitivo? E as necessárias vírgulas? Pois é... «Os pediatras e os numerosos “especialistas” da maternidade, ao denunciarem os preceitos dos seus predecessores — por vezes os seus próprios de alguns anos atrás —, reencontravam os argumentos que tão bem souberam culpabilizar as que se mantinham surdas à voz da natureza.»

[Post 3657]

Infinitivo, sim, mas qual?

É igual

      «Esforçamo-nos sempre por melhorarmos a nossa natureza e aproximarmo-nos de um ideal» (Grandes Tradições Religiosas, Karen Armstrong. Tradução de Maria Eduarda Correia e revisão de Pedro Ernesto Ferreira. Lisboa: Temas e Debates, 2009, p. 14). Nesta frase, em vez de se ter usado o infinitivo pessoal, não era obrigatório usar o infinitivo impessoal, pois a marca da pessoa já está no primeiro verbo? Não, não era: se for regido de preposição (por, na sua frase) o infinitivo pode ser flexionado ou não. Ambas as construções estariam correctas.

[Post 2921]

Infinitivo: qual deles?

Podes crer

      «Markie, tu estás aqui para ser um estudante e para estudar o Supremo Tribunal e para estudar o Thomas Jefferson e para te preparar para entrar na faculdade de Direito» (Indignação, Philip Roth. Tradução de Francisco Agarez e revisão de Clara Joana Vitorino. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 132). Se for regido de preposição (neste caso, «para»), o infinitivo pode ser flexionado ou não. Logo, o tradutor poderia ter optado por escrever: «Markie, tu estás aqui para seres um estudante e para estudares o Supremo Tribunal e para estudares o Thomas Jefferson e para te preparares para entrar na faculdade de Direito.» E seria mesmo desta forma que eu poria a falar a mulher de um talhante, kosher ou não.

[Post 2838]

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