A melhor profissão do mundo

Ficção é ficção

      «Quando a figura do lector de tabaquería nasceu, em 1865, só em Havana haveria mais de 500 fábricas de charutos com 15 mil operários, 85% dos quais analfabetos, escreve Bernardo Gutiérrez, na revista Qué Leer em 2005. É este jornalista que lembra que Compay Segundo, o mítico embaixador do son, que morreu em 2003, foi operário nas fábricas de tabaco da H. Upmann e da Montecristo por mais de 40 anos. Segundo dizia, tivera a melhor profissão do mundo, a única em que era possível ler enquanto se trabalhava. Hoje serão entre 250 e 300 os leitores nas fábricas de charutos cubanas e a sua função mantém-se inalterada» («Em Cuba, ler jornais, Dumas e Balzac dá direito a ser património nacional», Lucinda Canelas, Público, 31.12.2012, p. 22).
      Ainda recentemente li um romance em que se afirmava que já não havia leitores nas fábricas de charutos cubanas. Ah, a propósito: no Brasil, usa-se a palavra charutaria para designar a fábrica de charutos.
[Texto 2471]
Etiquetas
edit

«Maré-viva»?

Contribui para isso

      «Uma baleia deu ontem à costa no areal da Figueira da Foz, na zona da chamada praia do Relógio, morta e já em estado de decomposição. Segundo o comandante do porto, Rui Amado, o animal terá sido arrastado para o areal “por ação das marés-vivas” destes dias, permanecendo junto à água. A zona onde o animal se encontra foi delimitada por meios da Polícia Marítima para que a Sociedade Portuguesa de Vida Selvagem pudesse proceder a análises antes da remoção do animal» («Baleia morta deu à costa na praia da Figueira da Foz», Público, 31.12.2012, p. 11).
      Já a tínhamos visto aqui sem hífen, mas neste caso o jornalista entendeu que a devia grafar à semelhança de maré-alta e maré-cheia. Continua ausente dos dicionários gerais da língua, o que muito contribuirá para estas hesitações e significado preciso.
[Texto 2470]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «gaimira»

Inventada?

      «“É. As eleições de 69 mobilizaram muita gaimira que nunca tinha experimentado acção política. Chamavam pessimista a quem prevenia que o marcelismo tinha a vitória garantida, programadamente falseada — tu sabes. Depois houve um murchar de pichas que sei lá. Agora está a aparecer alguma malta nova gira”» (Square Tolstoi, Nuno Bragança. Lisboa: Assírio e Alvim, 1981, p. 74).
      Esta nunca a vi antes, nem sequer a encontrei em nenhum dicionário. Não parece, por outro lado, invenção de Nuno Bragança. Algum leitor a ouviu ou leu?
[Texto 2469]
Etiquetas
edit

Léxico: «bia»

Todos incompletos

      «Alguém piparotou uma bia, apontando à lâmpada e não acertando nela» (Square Tolstoi, Nuno Bragança. Lisboa: Assírio e Alvim, 1981, p. 24). Não está nos dicionários, não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que apenas regista o também coloquial «beata». Como também acolhe o sinónimo «prisca», mas não a variante «pirisca». «Obrigado assim pelas circunstâncias, Teixeira de Pascoaes esmagou no cinzeiro a pirisca quase no fim, acendeu um cigarro mais, e perguntou, “São versos o que vai dedicar a São Miguel?”» (Tiago Veiga, Uma Biografia, Mário Cláudio. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 304).
[Texto 2468]
Etiquetas ,
edit

Tradução: «fact-checker»

Mas muito mais

      «Tanto mais que o jornal médio português — por causa da crise, dos despedimentos e de maus costumes — não emprega fact-checkers. Nada impede o primeiro maluco — desde que seja baixo, gordinho e ligeiramente careca — de meter a mão no colete e se apresentar num “órgão de referência”, declarando que é Sua Majestade, Imperador dos Franceses, Rei de Itália e Protector da Confederação do Reno» («Os regimes caem assim», Vasco Pulido Valente, Público, 28.12.2012, p. 56).
      Só um intelectual mais extraordinário do que Vasco Pulido Valente é que encontraria um termo equivalente em português, língua deste malfadado país onde ele teve a desdita de ter nascido.

[Texto 2467]
Etiquetas
edit

Sobre «aciaria»

E «centro de trabalho»

      «No campo das artes, foi criado o National Centre for the Performing Arts, que impulsionou a investigação e a difusão desses saberes. Todos os centros de trabalho do grupo — fábricas, aciarias, etc. — têm um ambiente de segurança exemplar no trabalho, mormente nas suas implicações com a saúde» («Há algo a aprender com Ratan Tata?», Eugénio Viassa Monteiro, Público, 28.12.2012, p. 53).
      O Dicionário Houaiss regista «aciaria» (e «aceria»), que nunca antes li em nenhum texto português. «Unidade em usina siderúrgica onde o ferro-gusa é convertido em aço; aceria», é o que se lê no respectivo verbete. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe termos semelhantes, mas não aqueles: «aceiraria» e «aceraria» — «estabelecimento de artefactos de aço ou ferro». Não provirá tudo do castelhano acería e acerería? «Siderurgia» não dirá o mesmo? Mas esperem... Este dicionário afirma que siderurgia é o «conjunto das técnicas empregadas para extrair o ferro dos seus minérios e trabalhá-lo com vista às diferentes aplicações». É? Não aqui: «Por exemplo, o aço é um produto final numa siderurgia, matéria-prima numa metalomecânica, mercadoria/artigo numa compra, venda ou em transporte e um bem no sentido de posse (propriedade)» (Logística: Conceitos e Tendências, Benjamim Moura. V. N. Famalicão: Centro Atlântico, 2008, p. 317).
      E «centro de trabalho» não é também locução — centro de trabajo — traduzida do castelhano?

[Texto 2466]
Etiquetas
edit

O caso do ano

O valor da eloquência

      Por uma vez, concordo com Pedro Lomba: «É verdadeiramente absurdo que SIC, TSF e Expresso pensem em processar Artur Baptista da Silva. Se o fizerem, não deveremos nós processar também a SIC, a TSF e o Expresso?» («Teoria Geral de Baptista da Silva», Pedro Lomba, Público, 27.12.2012, p. 40).
      Ao que parece, a palavra ainda tem um peso determinante, pois o presidente do International Club de Portugal, Manuel Ramalho, veio admitir, ingenuamente, que «nunca quis acreditar que uma pessoa com tão bom aspecto, tão eloquente, estivesse na disposição de se fazer passar por aquilo que não era, ainda por cima num acto que iria ter tanta visibilidade pública». Num artigo da edição de hoje do Público, Bárbara Reis e Ana Henriques também escreveram – à sua maneira, com erros – que Baptista da Silva é um «homem bem falante» («Mesmo depois de descoberto como impostor, “observador da ONU” ainda desperta simpatias», Bárbara Reis e Ana Henriques, Público, 27.12.2012, p. 6).
[Texto 2465]
Etiquetas
edit

Léxico: «bovarismo»

Da literatura para a vida

      «“A sociedade procura ardentemente um guia, um raio de luz”, teoriza o psicossociólogo [Luís Rodrigues]. E não é raro que quem vai tão longe na mentira acabe por ficar convencido do que inventou. O fenómeno até tem um nome, diz o especialista: bovarismo. Acontece quando a pessoa tenta escapar à sua condição adoptando uma personalidade idealizada, como o fez Madame Bovary, a personagem de Flaubert» («Mesmo depois de descoberto como impostor, “observador da ONU” ainda desperta simpatias», Bárbara Reis e Ana Henriques, Público, 27.12.2012, p. 6).
      Até está nos dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «estado de espírito mediante o qual um indivíduo faz de si mesmo e da sua condição uma ideia falsa, como sucede com Emma Bovary, personagem principal do romance Madame Bovary, do escritor G. Flaubert, 1821-1880».
[Texto 2464]
Etiquetas ,
edit

Se temos, não precisamos

Aqui não há favelas

      «Phiona Mutesi é uma miúda de 16 anos. Nasceu no Uganda, numa favela, Katwe. Quando tinha nove anos, Phiona foi apresentada a um ex-jogador de futebol, Robert Katende. Ele mostrou-lhe um jogo tão estranho que nem sequer tinha um nome no idioma em que ela se expressava: xadrez. Ela sentiu-se atraída pelas figuras das peças. Começou a jogar. Sete anos depois, tornou-se rainha. A história dela deu um livro. A história dela faz sonhar» («Phiona Mutesi passou de analfabeta a rainha do xadrez», Vítor Ferreira, Público, 26.12.2012, p. 33).
      Sou o primeiro a defender que se use um brasileirismo na falta de termo equivalente só nosso, porque, afinal, a língua é a mesma. Não assim quando dispomos de um vocábulo para designar essa realidade. É o caso. Nunca eu diria «favela» se temos «bairro-de-lata».
[Texto 2463]
Etiquetas ,
edit

Português, língua pobre?

Absolutamente lamentável

      «Passos Coelho afirmou num órgão do seu partido que não podia prescindir de Relvas, porque ele era, em inglês, um doer. O ministro adjunto será um “doer”, mas em português. Os tombos de Relvas estão a doer ao chefe do governo, que bem poderia, por um momento, ser um thinker e pôr termo ao seu “doer”» («O figurão do ano», Carlos Fiolhais, Público, 26.12.2012, p. 37).
      Com péssimos exemplos como este, todos os descalabros no uso da língua parecem legitimados.

[Texto 2462]
Etiquetas
edit

Sobre «desenhar»

Desenham muito

      «Um dos grandes desígnios do PDJ era a limitação do poder da burocracia. É a alta burocracia — inspirada no mandarinato chinês — quem efectivamente “governa” o Japão. Foram os altos funcionários do MITI (Ministério do Comércio Externo e da Indústria) quem desenhou a estratégia de crescimento em simbiose com os grupos industriais e financeiros. Mas, a partir do fim da década de 1980, mostraram-se incapazes de responder à “estagnação”» («Japão à deriva», Jorge Almeida Fernandes, Público, 23.12.2012, p. 25).
      Mesmo se a acepção de conceber, projectar, idear sempre esteve no vocábulo português, por influência da língua inglesa, ultimamente é um fartote, e não apenas, longe disso, nas traduções. Agora, nada é concebido, projectado, ideado, pensado, é tudo, mas tudo desenhado.
[Texto 2457]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «carne verde»

Talvez devesse estar

      «No final do século XIX, princípio do século XX, o incipiente operariado português concentrava-se em poucas fábricas dignas desse nome no Norte do país, em particular no Porto, e numa multidão de pequenas oficinas em Lisboa e Setúbal e nas principais cidades do país. Eram operários e operárias, tabaqueiros, têxteis, soldadores, conserveiros, corticeiros, mineiros, padeiros, alfaiates, costureiras, cinzeladores, cortadores de carnes verdes, carpinteiros, fragateiros, estivadores, carregadores, carrejonas no Porto, carvoeiros, costureiras, douradores, etc., etc.» («Viagem ao passado por causa do presente», José Pacheco Pereira, Público, 22.12.2012, p. 44).
      Naturalmente que os dicionários não podem registar todos os termos e expressões da língua, mas as que vão aparecendo nos meios de comunicação não deviam lá faltar. Carne verde é o nome que se dá à carne de animais abatidos na véspera do consumo, sem qualquer conservação.
[Texto 2451]
Etiquetas ,
edit

«Corrector/corretor»

Por mim

      José Rodrigues dos Santos, escritor e jornalista, no Telejornal de ontem (20h41): «As tentativas de manipulação da taxa Libor pelo UBS envolveram o pagamento de subornos a vários correctores e podem vir a provocar outros processos contra o banco, caso os clientes afectados reclamem.» Grafo assim, com c, a palavra para indicar a forma como o jornalista a pronunciou, mas a verdade é que, também na RTP, deceparam os cc e os pp, pelo que seja o operador na bolsa seja o que corrige, para eles é tudo igual. O Prontuário Sonoro, também da RTP, regista a pronúncia de «corretor» (/kurrétór/), um duplo disparate. Não serei eu, com toda a certeza, que lhes enviarei mais correcções ou sugestões, pois vai para um mês que lhes comuniquei o erro crassíssimo do «uxorcida» e até hoje não o corrigiram. Uma vergonha. Talvez aquilo melhore quando for comprado pela Newshold.
[Texto 2447]
Etiquetas ,
edit

«Disco duro»

E é mesmo

      «As fotografias e vídeos estavam catalogados por temas mas também com os nomes pelos quais as vítimas são conhecidas nas redes de pedofilia internacionais. Armazenava os filmes em pen drives de grande capacidade ou em discos duros de computador» («Juíza recusa que pedófilo cumpra pena suspensa», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 14.12.2012, p. 20).
      Raramente se vê, agora, «disco duro». Amílcar Caffé, no Ciberdúvidas, afirmou que é tradução infeliz do inglês hard disk.
[Texto 2431]
Etiquetas
edit

Desgraçadíssimo verbo «haver»

É o fim do mundo

      Apesar do prometido fim do mundo anunciado para hoje (a que horas?), continua tudo mais ou menos na mesma. Os erros crassos com o verbo «haver», por exemplo: «Chegavam a haver professores em regime noturno, onde cada hora contava por hora e meia, a dar oito horas de aula semanais e a receber por horários completos» (Jorge Pedreira, ex-secretário de Estado adjunto e da Educação, em entrevista ao Diário de Notícias, 12.12.2012, p. 5).
      Doze anos de escolaridade não chegam. Aponte aí, senhor ex-secretário de Estado adjunto e da Educação: quando o verbo «haver» exprime existência e vem acompanhado de auxiliares, a locução continua a ser impessoal. «Aos fins-de-semana gosta de acordar com o bulício das garotinhas (chegou a haver 13 em São Bento) a rirem, a tagarelarem» (Máscaras de Salazar, Fernando Dacosta. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 51).
[Texto 2418]
Etiquetas ,
edit

«Os Censos»

Alguém normal

      «No ano 2050, um em cada três portugueses terá mais de 65 anos. A projeção é retirada dos Censos 2011, que revela que o País pode estar a caminhar para o envelhecimento generalizado da sua população. Atualmente, por cada cem jovens Portugal tem 129 idosos, uma tendência que se pode agravar com a atual crise económica» («Portugal já tem cem jovens para 129 idosos», André Rito, Diário de Notícias, 6.12.2012, p. 14).
      Ainda ontem ouvi na Antena 1, e ouço e leio com alguma frequência, «o Censos». Também já tínhamos visto esta falta de concordância no Assim Mesmo.
[Texto 2406]
Etiquetas
edit

Ortografia: «sub-bacia»

Segundo o desacordo

      «As três novas espécies, a lampreia da costa de Prata (Lampreta alvariensis), a lampreia do Nabão (Lampreta auremensis) e a lampreia do Sado (Lampreta lusitanica) foram batizadas segundo o local de origem. Assim, a primeira é endémica das bacias hidrográficas do Esmoriz (Ovar) e do Vouga; a segunda só existe na subbacia afluente do Nabão, na margem direita do Tejo, e a do Sado não tem nada que enganar» («Três novas espécies de lampreia», Diário de Notícias, 5.12.2012, p. 30).
      O jornalista julga que, segundo o Acordo Ortográfico de 1990, é assim que se escreve, com dois bb juntos. Não é assim segundo nenhum acordo.
      E o nome científico da lampreia não é Lampreta nem Lã Branca, é Lampetra. Para que conste.

[Texto 2403]
Etiquetas
edit

«Litigação/litigância»

Quem diria

      É inacreditável: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo «litigância», que é sinónimo, e porventura mais usado, de «litigação». Rebelo Gonçalves, valha a verdade, também não o regista.
[Texto 2399]
Etiquetas ,
edit

«Zona do euro»

Já é tradição...

      Já muitas vezes tinha pensado que a expressão «Zona Euro» é pouco portuguesa. Hoje, voltei a pensar no assunto, agora a propósito da menos (ao que me parece) usada «área euro». Já aqui há matéria de reflexão: se a primeira é a maioria das vezes grafada com maiúsculas iniciais, a segunda é sempre grafada com minúsculas. Porquê a diferença de tratamento? O guia de estilo do Centro de Informação Europeia Jacques Delors recomenda que se use a expressão «área do euro» para designar o conjunto de países que têm a moeda única. O Código Interinstitucional, a propósito de «área do euro», nota: «De observar, porém, que a expressão mais comummente usada em Portugal é “zona euro” ou “zona do euro”.»

[Texto 2398]
Etiquetas
edit

Léxico: «escudete»

Malandrim setecentista

      O antiquário garantiu-me que a cómoda-toucador com tampo de rebater era seguramente do século XVIII e que a madeira era vinhático. «Já reparou nos belíssimos escudetos e nos puxadores de pau-santo?» Século XVIII... Malandrim. E também não se diz escudeto, mas escudete. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «peça exterior, de metal ou de madeira, que ornamenta a fechadura de um móvel; espelho».
[Texto 2397]
Etiquetas
edit

«Babygro», de novo

Na pronúncia, sim, /ˈbeɪbɪgrəʊ/

      «Cristina Lima e Filipa Pinto, ambas designers, deixaram os seus empregos para criar uma marca de roupa para bebés, onde há babygrows com padrão de pele de vaca e vestidos amarelo fluorescente [sic]» («Presentes únicos e baratos é o que todos querem», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 3.12.2012, p. 46).
      Ora, já vimos aqui que os dicionários registam «babygro». A explicação para o erro pode estar na etimologia e na própria pronúncia do vocábulo.
[Texto 2396]
Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

De alpercata

      «Os dedos de Guida Fonseca deslizam sobre o fio de alparca, os pés dançam levemente sobre os pedais. Uma pequena multidão junta-se em volta da roda de fiar. “Parece fácil, não é? Mas não é. Querem experimentar?” Ninguém se atreve» («Presentes únicos e baratos é o que todos querem», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 3.12.2012, p. 46).
      A jornalista, porém, atreveu-se a escrever sem consultar um dicionário. Mesmo que possa jurar ter ouvido «alparca», tinha obrigação de confirmar. Alparca é o calçado que se prende ao pé com tiras de couro. Devia ter escrito alpaca: neste caso, seria a lã do animal ruminante da família dos Camelídeos, da América do Sul.
[Texto 2395]
Etiquetas ,
edit

Sobre «formato»

Quem sabe

      «Entre os formatos que deverão prosseguir e os novos conteúdos para a RTP2 a partir de janeiro, os vínculos ainda não terão sido celebrados» («Contratos parados à espera de modelo», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 3.12.2012, p. 51).
      O verbete do vocábulo «formato» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista cinco acepções, mas não esta, que vem, ora pois claro, do inglês: «general plan of organization, arrangement, or choice of material (as for a television show)» (in Merriam Webster). Deve ou não estar nos dicionários? No Houaiss está: «género, característica, organização (p. ex., para um programa de TV)».

[Texto 2394]
Etiquetas
edit

Tradução: «suit»

Hum...

      Título do DN: «‘Suits’ (paisanos) é o jargão americano para os agentes do FBI; ‘spooks’ (espiões) são os da CIA» («Irmãos e inimigos: a difícil relação entre paisanos e espiões», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 3.12.2012, pp. 28–29).
      Será a melhor tradução, «paisano»? É que paisano é, na acepção que se adequa, o «indivíduo que não é militar». O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, se regista spook («Estados Unidos da América gíria espião»), em relação a suit nada diz. O Merriam-Webster acolhe a acepção: «slang: a business executive — usually used in plural». Logo, não se aplica somente aos funcionários do FBI, mas a qualquer homem de fato. Engravatado.

[Texto 2393]
Etiquetas ,
edit

Os erros do «Público»

Haja quem o diga

      «Isto só pode significar que há no PÚBLICO quem, devendo zelar pela correcção de eventuais erros de redacção alheios, é afinal autor e responsável directo pela publicação de uma boa parte das tolices ortográficas e gramaticais que são dadas à estampa. Não se trata, convém notar, de simples gralhas, ou de faltas de atenção que seriam sempre censuráveis, mas de manifestações de ignorância e de insuficiente domínio da língua, que não são aceitáveis num jornal que diz ter por objectivo a excelência editorial» («Erros a mais e correcções a menos: um apelo ao controlo de qualidade», José Queirós, Público, 2.12.2012, p. 55).
[Texto 2392]
Etiquetas
edit

Léxico: «psiquiatrizar»

Tudo se pode dizer

      «O psiquiatra Pio Abreu não gosta de “psiquiatrizar” as questões, muito menos quando não conhece os contornos deste caso. Ainda assim – e caso este crime tenha motivações económicas – diz que a fraca tolerância às dificuldades financeiras não é um problema de saúde mental» («Matar é o limite e quem ultrapassa é psicopata», P. C., Diário de Notícias, 2.12.2012, p. 19).
[Texto 2391]
Etiquetas
edit

Léxico: «cocacolizado»

Não conhecia

      «Uma das fotos mostra vários homens de Coca-Cola na mão, em jeito de celebração coletiva do povo, cujos hábitos alimentares se foram alterando com a chegada da fast food. Nas zonas onde abundam as cadeias americanas, explica Inês, as crianças estão a ficar obesas, com diabetes e “problemas associados à forma como a biologia reage à vacinação, escola, e todo o estilo de vida”. “Estão cocacolizados. Nas prisões, joga-se um jogo maia em que o prémio é uma Coca-Cola”, diz, enquanto aponta para a fotografia» («Preparados para o fim do mundo? Só se for em Hollywood», André Rito, Diário de Notícias, 2.12.2012, p. 23).
[Texto 2390]
Etiquetas
edit

Léxico: «virtualizar»

Já o conjugam

      «Este responsável [padre Carlos Gonçalves] do Patriarcado admite que “há nestas coisas das redes sociais e das plataformas da Internet o risco de virtualizar a realidade”. Não perdendo de vista esta premissa, o padre Carlos Gonçalves frisa que é importante “experimentar esta possibilidade de passar a mensagem de forma mais rápida”» («A evangelização faz-se com apenas 140 caracteres», Helder Robalo, Diário de Notícias, 2.12.2012, p. 18).
      Um dia destes, vão ver, vai estar — tem de estar, creio — em todos os dicionários, como já está em alguns.
[Texto 2389]
Etiquetas
edit

O autor das minúsculas

Isto vai mudar

      «E há gente que tem preconceitos, como também há gente que nunca pegou num livro meu porque eu escrevi em minúsculas! Houve gente que me escreveu a dizer “adorei a sua entrevista, mas nunca hei de lê-lo enquanto escrever em minúsculas. Nunca vou ler um livro seu, mas gostei de o ouvir falar”» («“Seria ingénuo pensar que alguém do Governo pudesse salvar-nos”», Valter Hugo Mãe em entrevista a João Céu e Silva, Diário de Notícias, 2.12.2012, p. 7).
      Ele há gente para tudo, isso sim. Vejam bem, não perdoar ao génio esta peculiaridade. Mas não vale a pena chorar. Até porque isto vai mudar, pois os jornais já estão autorizados a escreverem-lhe o nome com maiúsculas.
[Texto 2388]
Etiquetas
edit

Pontuação

Quid juris?

      O autor escreveu destarte: «Significa isto que estamos condenados ao pessimismo?» Ao que logo, poupando-nos trabalhos, respondeu: «Não necessariamente.» Veio alguém e acrescentou uma vírgula: «Não, necessariamente.» Que não era isso que pretendia dizer, afirmou o autor. Mas depois dos advérbios não e sim, se estiverem em princípio de oração e se se referirem a uma oração anterior, costuma pôr-se vírgula, defendeu-se o revisor.
[Texto 2387]
Etiquetas
edit

«Júri/jurado»

Digam-lhe

      Quase toda a gente já sabe a diferença entre «júri» e «jurado». Entre os que não sabem, para nosso infortúnio, estão muitos jornalistas. «No rosto de Seabra nada se passou. Odília Pereirinha, no banco onde se senta há mais de dois meses para assistir ao julgamento do filho, apenas baixou a cabeça por instantes. Quando cada um dos júris confirmou o veredicto – culpado, culpado, culpado... –, mãe e filho permaneceram impávidos» («Jurados rejeitam insanidade e condenam Renato Seabra», Alexandre Soares, Diário de Notícias, 1.12.2012, p. 19).
[Texto 2386]
Etiquetas
edit

Léxico: «pensionamento»

Pela primeira vez

      Acabei de a ver num texto de natureza económica, de autor português. Pensionamento. Os dicionários gerais da língua portuguesa desconhecem-na. Mas existe pensionado, pensionar, pensionário, pensioneiro, pensionista. Encontro-a nos dicionários de italiano: «Il mettere o il mettersi in pensione, collocamento in pensione di un lavoratore che ha cessato la propria attività» (in Enciclopédia Treccani). Não dirá a nossa palavra «aposentação» rigorosamente o mesmo?
[Texto 2385]
Etiquetas
edit

Acordo Ortográfico

O desastre está aí

      O número de falantes que adoptaram o novo Acordo Ortográfico e que escrevem «contato» revela-se, a cada dia que passa, assustador. E estou a falar de licenciados para cima. Professores universitários, investigadores... Convenhamos que ainda não foi ultrapassado o pior desconchavo nesta matéria: o daquela professora de Português que introduzira paulatinamente, mesmo antes de frequentar uma «ação de formação» específica, as novas regras nos textos que dava aos alunos, «adatando-os». Assim mesmo, sem p nem pés nem bom senso.
[Texto 2384]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «cremona»

Também do francês

      «Quando acordou[,] viu que Raul, de tronco nu, fazia a barba olhando-se no espelho pequeno que tinha por hábito pendurar na cremona da janela mais pequena» (Nunca É de mais, Maria Roma. Lisboa: Bertrand Editora, 2003, p. 214). Conheci-a ontem. Na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «ferrolho duplo, comprido, da altura da porta ou da janela, que fecha simultaneamente em cima e em baixo». Também se diz carmona.
[Texto 2383]
Etiquetas
edit

Sobre «impasse»

Se são meramente descritivos

      «Encontro», escreve a autora sobre Lisboa, «ruas que vão dar a impasses e escadas que acabam de repente.» Sempre achei muito curioso este galicismo. Impasse é o mesmo que beco sem saída. O termo, que talvez tenha sido introduzido na língua na década de 1940, já está nos dicionários, mas há imprecisões que é necessário corrigir. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, estão registadas duas acepções — e nenhuma é esta. No Dicionário Priberam da Língua Portuguesa aparece como terceira acepção, mas com esta particularidade: «[Portugal: Madeira] Rua sem saída». Ai sim? Experimentem pesquisar no sítio Lisboa Interactiva e verão quantos impasses por ali estão. Se acolheram o galicismo, têm de registar todas as acepções usadas na nossa língua, que são precisamente as do étimo, como se pode comprovar no Le Trésor de la Langue Française Informatisé: «Rue sans issue. Synon. cul-de-sac» e «position ou situation qui ne présente pas d’issue favorable».
[Texto 2382]
Etiquetas ,
edit

Dia da Espiga

Pois então

      Na obra Festividades Cíclicas em Portugal, de Ernesto Veiga de Oliveira (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984, p. 113), é Dia da Espiga, com maiúsculas iniciais, que se pode ler. Por analogia com outras datas, também sou de opinião que se deve grafar desta forma.
[Texto 2381]
Etiquetas
edit

Léxico: «feijão-mungo»

Nutritivos

      Hoje comprei rebentos de feijão mungo no supermercado, para fazer com ravióis. É o que se lia na embalagem, e eu pensei logo que havia de ser designação mal traduzida do inglês: mung beans sprouts... Engano o meu: está na honestíssima Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (vol. 11, p. 28): feijão-mungo, nome vulgar do Phaseolus mungo Lin., também conhecido como feijão-do-congo. Não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 2380]
Etiquetas ,
edit

«Catarense»/«catariano»

Seria melhor

      «Há ainda outros dois trunfos que reforçam a esperança do xeque do Qatar. Uma delas é a amizade entre Mourinho e o presidente do Paris Saint-Germain, o também catari Nasser Al-Khelaifi, que numa entrevista recente ao jornal espanhol Marca desfez-se em elogios a Mourinho. “É muito inteligente e está a fazer um grande trabalho em Madrid”, disse» («PSG seduz José Mourinho com oferta estratosférica», Carlos Nogueira e Madalena Esteves, Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 37).
      Está longe de ser português, como salta à vista. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista catariano, que remete para catarense.
[Texto 2379]

 

Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

Está na hora de mudar de jornal

      «A ausência do Presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante as últimas semanas na comunicação social causou estranheza e especulação entre a população, com o chefe de Estado a vir ontem explicar-se: Putin, 60 anos feitos em maio e cinturão negro em judo, garantiu ter-se magoado num combate, tendo lesionado-se na coluna, o que lhe tem provocado dores nas costas» («Putin lesiona coluna no judo», Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 26).
[Texto 2378]
Etiquetas ,
edit

Aspas escusadas

Pecha muito vista

      «Tanto ela [Ana Saltão] como o marido tinham ido ao funeral da octogenária assassinada, cerimónias que decorreram este sábado. Mas, apesar de estar habituada e ter conhecimentos técnicos sobre como ‘ler’ cenários de crime, a inspetora terá cometido alguns deslizes, cruciais para o sucesso desta investigação. A arguida, de 36 anos, natural da Figueira da Foz, estava de baixa médica devido a uma intervenção cirúrgica» («Inspetora da PJ recusa explicar porque matou», Paula Carmo, Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 19).
       Não interessa se é um sentido principal ou um sentido figurado — não precisa das aspas.

[Texto 2377]
Etiquetas
edit

Ortografia: «inclusive»

Para a próxima

      «Ao longo dos meses, a investigação conseguiu também reunir muitas outros tipo de prova, nomeadamente através da vigilância realizada tanto na Sé como junto às habitações. O agente em causa foi inclusivé visto a sair da casa de Aurélio, pertencente ao grupo de detidos e que está em prisão domiciliária à espera de ser julgado por tráfico de droga. Terá avisado os restante detidos de rusgas agendadas e terá inclusivé reunido com os advogados dos indivíduos. Nos autos constam ainda escutas telefónicas onde [sic] o polícia participa» («Chefe da PSP que avisava traficantes fica em preventiva», A. T., Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 19).
      Pode ler-se assim, pode, mas não se escreve dessa forma, pois trata-se de uma palavra grave.

[Texto 2376]
Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

Não é para aqui

       «Depois de várias negas, Ana Filipa [Miranda] apresenta-nos o primeiro classificado. Certamente um dos poucos que não terá sofrido ataques de ansiedade» («Cardiologia e neurocirurgia no topo das escolhas de novos médicos», Diana Mendes, Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 17).
      «Negas»... Tanto informalismo ficava melhor numa conversa à esquina, entre amigos, a jornalista deve saber isso.
[Texto 2375]
Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

Não era necessário

      «Já o juiz presidente tentou, sem sucesso, que Anabela Moreira fizesse um esforço de memória ao listar algumas das célebres prendas enviadas por Manuel Godinho por alturas do Natal apreendidas pela PJ na residência de José Penedos» («MP passou rasteira a ex-secretária de José Penedos», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 29.11.2012, p. 12).
      Listar é, mais propriamente, pôr em lista, inscrever, alistar; catalogar. Creio que nenhuma se adequa ao contexto. Não seria melhor «enumerar» ou «mencionar»? E, se escrevem «juiz-conselheiro», não deviam escrever «juiz-presidente»?
[Texto 2374]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «grife»

Como tantas outras

      «Miranda Kerr pode deixar de ser um dos ‘anjos’ da Victoria’s Secret. A notícia caiu como uma bomba uma vez que a australiana é uma das manequins preferidas da marca, mas a justificação é simples: foi noticiado que a conhecida grife de lingerie usava produtos tóxicos na sua confeção, segundo o The Daily Telegraph» («Miranda Kerr quer deixar de ser ‘anjo’», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 28.11.2012, p. 53).
      Parece que já é portuguesa... No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o verbete remete para «griffe». A acepção é a primeira: «empresa produtora e/ou distribuidora de artigos de vestuário e acessórios de luxo».
[Texto 2373]
Etiquetas ,
edit

Sobre «operacional»

Então está errado

      «Em junho de 2011, Nuno Pereira, inspetor-chefe da Polícia Judiciária (PJ) na reforma, matou a empregada que fazia a limpeza em sua casa com um tiro na cabeça, alegadamente por motivos passionais. O crime ocorreu no escritório da sua casa e pensa-se que foi motivado pela recusa da vítima, uma ucraniana de 45 anos, em iniciar um relação amorosa com o ex-operacional» («Homicídio passional», Diário de Notícias, 28.11.2012, p. 18).
      Mas «operacional» não se aplica apenas a militares? É o que se pode comprovar nos dicionários. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só está registado como adjectivo. Se, em vez da Polícia Judiciária, se tratasse da GNR, que é uma força de segurança de natureza militar, talvez se adequasse.

[Texto 2372]
Etiquetas ,
edit

Pronúncia de «cônjuge»

Impressionante!

      E no mesmo Jornal das 8 da TVI, a jornalista Judite de Sousa contribuiu activamente para divulgar entre as massas uma calinada das grandes: «Uma marcha que acontece no dia em que as Mulheres Socialistas apelaram à mudança da lei que permite ao assassino de um cônjugue ser herdeiro da vítima e ter direito a pensão de sobrevivência.» Tão experiente, e sai-nos com uma destas. Saiba a jornalista que essa palavra não existe. Existe «cônjuge», que só tem uma forma de ser pronunciada: /côn–ju–je/. Um conselho: consulte o Prontuário Sonoro da RTP.
      Aproveitemos também para lembrar que «cônjuge» é um substantivo sobrecomum, isto é, tem um género determinado e invariável, masculino, neste caso, para designar as pessoas de um ou outro sexo: seja homem ou mulher, diz-se sempre «o cônjuge».
[Texto 2371]
Etiquetas ,
edit

«Terá abrido fogo»

Mas estava assustado

      Tiroteio em São Miguel d’Acha. Anteontem, no Jornal das 8 da TVI, o alferes da GNR Tiago Delgado, ainda com ar assustado, afirmou: «Um dos indivíduos que tinha fugido terá regressado numa moto. Os militares, ao avistarem a moto, estranharam porque o indivíduo até estaria sem capacete. Ao tentarem abordá-lo, o indivíduo imediatamente sacou de uma caçadeira e terá abrido fogo sobre os militares.» É o particípio passado regular do verbo «abrir» — mas caiu em desuso. O alferes Delgado, com vinte e tal anos, devia saber isto.
[Texto 2370]
Etiquetas ,
edit

Conjunção subordinativa causal

Pois

      «A conjunção pois não tem sido classificada como conjunção [subordinativa] causal», escreveu o consultor do Ciberdúvidas numa consulta datada de 6 de Março deste ano. Tem a certeza? Veja lá, é que eu tenho a certeza do contrário — e provo-o já: Celso Cunha e Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo. Lisboa: Edições Sá da Costa, 1984, pp. 381-82) integram-na entre as conjunções subordinativas causais, o que abonam com uma frase de Érico Veríssimo de Um Lugar ao Sol: «Tio Couto estava sombrio, pois aparecera um investigador da polícia perguntando por Gervásio.» Lá está a iniciar oração subordinada denotadora de causa.
[Texto 2369]
Etiquetas ,
edit

Ortografia: «alto-mar»

Como neste caso

      «A EDP, que tem a única eólica de alto mar em operação em Portugal, quer instalar mais cinco novas torres de produção de energia, desta vez no mar perto da Nazaré. “Com grande probabilidade será desenvolvido na zona-piloto [de energia das ondas] em São Pedro de Moel”, referiu ao DN/Dinheiro Vivo fonte da empresa» («EDP quer cinco eólicas de alto mar perto da Nazaré», Ana Baptista, Diário de Notícias, 26.11.2012, p. 30).
[Texto 2368]
Etiquetas ,
edit

Ortografia: «borboleta-do-mar»

Espécime dos pterópodes

      «O animal em causa, Limacina helicina antarctica, é uma espécie de caracol marinho, conhecido popularmente como borboleta dos mares. Num artigo publicado na revista Nature Geoscience, uma equipa de investigadores da British Antartic Survey, coordenada por Nina Bednarsek, confirmou que esta espécie já revela enfraquecimento ou mesmo dissolução de duas estruturas laterais duras, que caracterizam esta espécie» («Borboleta dos mares afetada por maior acidez do oceano austral», Diário de Notícias, 26.11.2012, p. 30).
      E os hífenes? E não apenas isso: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora grafa-o assim: borboleta-do-mar.
      (O apelido da investigadora na verdade é Bednaršek, mas isso talvez não tenha qualquer importância.)

[Texto 2367]
Etiquetas ,
edit

Ortografia: «micrometeorito»

Da pressa não é, porque demora mais

      «Na mira destes caçadores de meteoritos estão, não apenas os de dimensão média de uma pequena pedra, mas também os chamados micro-meteoritos, com tamanhos inferiores a dois milímetros, que são os mais abundantes de todos» («Caçadores de meteoritos a caminho da Antártida», Filomena Naves, Diário de Notícias, 26.11.2012, p. 30).
      Quando é necessário hífen, como já vimos inúmeras vezes, não o usam. Vá lá a gente percebê-los.

[Texto 2366]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «papável»

Não percebo

      «Luis Antonio Tagle. Filipino, 55 anos, arcebispo de Manila, é um dos mais novos cardeais, apontado como papabile, pelo dinamismo da Igreja na Ásia» («Quem é quem», Diário de Notícias, 25.11.2012, p. 26).
      Se temos o adjectivo papável — que pode ser eleito papa —, para quê usar um termo estrangeiro, italiano no caso? E porque dirá o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora que é um termo coloquial?
[Texto 2361]
Etiquetas ,
edit

Parece uma brincadeira

Com muita pedagogia

      Já fiz, mais do que uma vez, sugestões para o Prontuário Sonoro, do portal da RTP. Não sei, nem isso agora interessa, se as aceitaram ou não. Convém que aceitem esta: corrijam «uxorcida», que não existe. Se o radical é uxori, que fizeram do i? É uxoricida. A transcrição também está mal, mas é coerente com o primeiro erro: /ukssurssida/. E, por fim, alguém pronuncia a palavra que não existe. Não estiveram envolvidas menos de quatro pessoas — e tudo para tamanho erro. E estão a ensinar os colegas...

[Texto 2356]
Etiquetas
edit

Sobre «iúca»

Com que então, uma árvore...

      Aqui a nossa protagonista está em casa a comer «cold yuca with hot oil». «Iúca», verte o tradutor, e bem. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porém, iúca é apenas a «árvore da família das Liliáceas (género Yucca), própria das regiões da América, cultivada em Portugal com fins ornamentais». Incompleto, pelo menos. A iúca tanto pode ser um arbusto como uma árvore. A iúca comestível é uma raiz tuberculosa (tadinha... poor thing!), extraída do arbusto, e usada para fazer pão e tapioca. Os dicionários têm muito por onde melhorar e nós estamos cá para ajudar.
[Texto 2299]
Etiquetas ,
edit

Tradução: «cocoa pañyol»

Ou não?

      A rapariga, nascida em Trindade, era «cocoa pañyol». Está bem, mas podemos saber o que significa em português? O conceito em inglês: «someone of mixed race». Ah, mestiço, então.
[Texto 2298]
Etiquetas
edit

Tradução: «pussy»

Coño

      «And I have to touch her pussy...» «E eu levo-lhe a mão ao chocho...» Nunca tinha ouvido ou lido tal. Em português, digo, porque isto é vulgarismo espanhol: cona, rata. Vá lá perceber-se o que leva a estas opções descabeladas...
[Texto 2297]
Etiquetas ,
edit

Sobre «livre-arbítrio»

Qual a vossa preferida?

      Há algum problema com o livre-arbítrio? Talvez haja dois: não é raro vê-lo escrito — mesmo por professores universitários, tradutores, escritores — sem hífen. O outro problema é o da definição. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «poder de escolher ou não escolher um acto ou uma atitude, quando não se tem razão para se inclinar mais para um lado do que para o outro». Para o Dicionário Houaiss, é a «possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante». Com mais quatro caracteres, é a minha preferida. E agora leio outra, quase lapidar, com 58 caracteres, de um livro em edição: capacidade de actuar sobre as coisas do mundo por iniciativa própria. Mais breve do que esta, em inglês, do Merriam-Webster: «freedom of humans to make choices that are not determined by prior causes or by divine intervention».
[Texto 2296]
Etiquetas ,
edit

«Dedo auricular»

Onde se fala da digitoagnosia

      Ao ler, agora mesmo, a palavra «digitoagnosia» (sim, talvez demasiado técnica para estar nos dicionários comuns — mas estão lá outras igualmente técnicas), lembrei-me de outro caso recente de tradução do inglês. Havia uma personagem, e não era pirata, que tinha um diamante... onde? No auricular. Pobre leitor... «Dedo auricular, o mínimo, porque é o que acode aos ouvidos», escreveu Madureira Feijó. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o, e remete para «mendinho». Como podia remeter para mínimo, mindinho, minguinho, meiminho...
[Texto 2295]
Etiquetas ,
edit

«Hiperceratose/hiperqueratose»

Essa muleta

      «Oitenta e cinco por cento dos portugueses sofre de doenças dos pés», disse o jornalista João Tomé de Carvalho na edição de ontem do Bom Dia Portugal. Não falta quem afirme que, nestes casos, é indiferente que o verbo fique no singular ou no plural. Não é assim para mim. Não está tudo no plural? Então, o predicado deve ir para o plural, concordando com o sujeito, que também está no plural. Este foi apenas o intróito para a entrada do podologista Pedro Lopes, que tinha um bordão da linguagem menos ouvido agora: usou, em dois minutos, oito «portantos». (Agora espero que, lá por ser podologista, não me queira pisar os calos...) E, por fim, usou, e bem, a palavra «hiperqueratose». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista a variante «hiperceratose».
[Texto 2294]
Etiquetas ,
edit

«Raízes tuberculosas»

Rabanetes e parvoíces

      A ignorância é sempre atrevida. O autor disse que o Homem começou por se alimentar de raízes tuberculosas... «Tuberosas», julgou corrigir a virago abigodada lá ao fundo. Mas tuberculoso é o relativo a tubérculo, que é o cormo engrossado, em regra subterrâneo, com folhas reduzidas e carregadas de reservas nutritivas.

[Texto 2293]
Etiquetas ,
edit

«Topographical error»

Quase

      «In mentioning the rivers which the missionaries had lately crossed, our author has been guilty of a great topographical error in placing the river Dissennith between the Maw and Traeth Mawr, as also in placing the Arthro between the Traeth Mawr and Traeth Bychan, as a glance at a map will shew» (The Itinerary of Archibishop Baldwin through Wales, Giraldus Cambrensis. Middlesex: The Echo Library, 2007, p. 107).
      Agora imaginem que alguém traduzia topographical error por «gralha topográfica». Que pensaria o pobre leitor sem acesso ao original? Ia acontecendo...

[Texto 2292]
Etiquetas
edit

Léxico: «subsidência»

Nem todos faltam

      «Além do já “habitual culpado” aquecimento global, que faz subir o nível médio do mar, Veneza ainda sofre os efeitos de décadas de bombeamento de águas subterrâneas, que causaram danos significativos à frágil fundação da cidade e deram origem a um fenómeno denominado de subsidência. Este consiste no progressivo afundamento do solo devido à extração de águas subterrâneas. Ou seja, a cidade está cada vez mais “afundada” relativamente ao nível médio do mar» («Ações do homem agravam fortes inundações que alagam toda a cidade de Veneza», Ricardo Simões Ferreira, Diário de Notícias, 2.11.2012, p. 25).
      Está registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «movimento de descida do fundo de uma bacia de sedimentação».
[Texto 2291]
Etiquetas
edit

Ortografia: «coro alto»

Porquê?

      «Voltaram os andaimes ao Mosteiro de Santa Clara-a-Velha por causa do desprendimento de um brasão de pedra de grandes dimensões, que estava desde a década de 40 do século passado no topo do coro-alto» («Engenheiros testam ‘culpa’ do som na queda de brasão», Paula Carmo, Diário de Notícias, 2.11.2012, p. 22).
      Por vezes, vê-se assim, com hífen, mas não vejo razões para isso. Há séculos que se usa coro alto, e é assim que continuarei a escrever.
[Texto 2290]
Etiquetas
edit

Sobre «bufete»

Pode não ser

      «No documento, que estabelece os alimentos a retirar dos bufetes das escolas – que o DN noticiou em setembro (ver caixa) –, a DGS enuncia um conjunto de alimentos e produtos “que contêm glúten”, e que deve ser tido em conta pelas escolas e empresas que confecionam as refeições para os alunos» («DGS previne alergias nas cantinas», P. S. T., Diário de Notícias, 3.11.2012, p. 15).
      Das quatro acepções de «bufete» registadas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, qual é a do artigo acima? Bem, talvez nenhuma.
[Texto 2289]
Etiquetas
edit

Frades, marifusas

É da crise

      «Alheios a essas questões, logo que surgem as primeiras chuvas de outono centenas de pessoas percorrem as florestas de Trás-os-Montes. Este ano, o “exército de apanhadores” é engrossado por muitos desempregados como Augusto Lopes 45 anos de Poiares (Peso da Régua). “Não há trabalho, temos de sobreviver e sustentar a família, por isso nesta época dedico-me à apanha de cogumelos, mas a maioria é para consumir em casa.” Confrontado com a recente morte de três conterrâneos seus por ingestão de cogumelos venenosos, foi rápido na resposta: “Sei o que apanho: primeiro só apanho ‘frades’ (nome popular da espécie Macrolepiota procera), e já o faço há mais de 20 anos, e aqueles que não conheço nem lhes toco”» («Comércio ilegal de cogumelos gera cinco milhões de euros só no Norte», José António Cardoso, Diário de Notícias, 3.11.2012, p. 20).
      Vírgulas a menos, aspas a mais, parênteses errados... Mas o que me interessa agora: «frade» não é o regionalismo para «cogumelo», como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas apenas o nome comum, regionalismo, sim, da espécie Macrolepiota procera, também conhecida por marifusa.
[Texto 2288]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «embrace»

Um abraço

      Em inglês diz-se curtain cord, eu conhecia-o apenas por cordão, mas o nome em português é embrace (por derivação regressiva de embraçar): «cordão ou faixa com que se prende um reposteiro, cortina de porta ou janela, etc.», conforme se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

[Texto 2287]
Etiquetas
edit

Tradução: «twist»

Outro golpe

      Não seria traduzir para francês, mas quase. Twist por «golpe de teatro», decalque escusado do francês coup de théâtre. Parecido, mas inteiramente português, é lance teatral. Dependendo do contexto, lance imprevisto também poderá adequar-se.
[Texto 2286]
Etiquetas ,
edit

Tradução: «bay window»

Escusadamente

      O tradutor quis que fosse «janela de bojo», mas o que me parece é que é querer inventar o que já foi inventado. Até na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira leio «janela saliente». E já li, algures, traduzido por «janela de ângulo», o que não se me afigura correcto, pois esta é a que, numa esquina, se abre nas duas paredes contíguas, muitas vezes mainelada por uma coluna ou pilar na prumada do cunhal, no que não apresenta qualquer semelhança com a bay window.
[Texto 2285]
Etiquetas
edit

Tradução: «knickerbockers»

Não desta vez

      Então se até o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora dá como tradução de knickerbockers «calças à golfe» (que faz anteceder do labéu de «antiquado»...), o tradutor deixa no original? Não pode ser. «E já muda o turno, agora é um rapaz alto, de aspecto amável, calças à golfe, cabelos loiros de caracol à Tintin. O homem sorri-se, lembra-se de Óscar com seis anos ao seu colo, a ouvi-lo ler a história de Les Bijoux de la Castafiore» (Não Te Esqueças de Mim: O Pó das Palavras Mortas, Nuno de Figueiredo. Lisboa: Escritor, 2000, p. 173).
[Texto 2284]
Etiquetas
edit

Tradução: «doily»

Com paninhos

      Fico sempre perplexo quando alguém traduz do inglês — com termos de outra língua que não a portuguesa. Desta vez, a palavra era doily ­— paninho ornamental, segundo o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora. O tradutor quis que fosse napperon. Mas até o temos aportuguesado, naperon. E é assim que ele aparece abundantemente na obra de António Lobo Antunes, talvez o autor que mais a usa.

[Texto 2283]
Etiquetas ,
edit

«Golpe de magia/passe de magia»

Não vá o Diabo tecê-las

      «Como explicar, senão por um golpe de magia, esse estranho fenómeno colectivo que varreu rotinas, sacudiu torpores, quebrou tabus e nos levou, como que tocados pela graça, ao autoconvencimento de que íamos fazer História?» (Arte de Marear, Manuel Alegre. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002, 2.ª ed., p. 116).
      Isto não cheira logo, mesmo ao longe, a galicismo? Ora golpe, coup... Prefiro «passe de magia»: «Por um verdadeiro passe de magia, o autor, desprezando a coerência da unidade espacial, faz coincidir a localização dos dois centros de acção» (Vida e Obra de Raul Brandão, Guilherme Castilho. Lisboa: INCM, 2006, p. 278). Claro que, se o autor, ou alguém por ele, decide que «golpe de magia» (e, para maior francesia, «golpe de mágica» ainda era melhor: coup de magique) é que é, nada podemos fazer.

[Texto 2282]
Etiquetas
edit

Léxico: «lamieiro»

Isto não tem fim

      O que o homem disse, e a mulher repetiu, é que ano sim, ano não corta os lamieiros lá no terreno e os usa como estacas para o feijão. Que são plantas altas, fortes, com folha viçosa semelhante à da laranjeira. Alguém conhece o termo nesta acepção? Para todos os dicionários e enciclopédias que consultei, é apenas outro nome para o pisco-azul. Será regionalismo?
[Texto 2281]
Etiquetas
edit

Léxico: «biotítico»

Mas devia

      «No Geoparque Arouca é possível assistir a um fenómeno que, até hoje, é considerado único no mundo. Junto à aldeia da Castanheira, num afloramento de granito com cerca de um quilómetro de extensão, discos de pedra (chamam-se nódulos biotíticos) soltam-se de rochas de granito, como se delas nascessem. São as pedras parideiras» («Pedras parideiras ganham ‘maternidade’», Helder Robalo, Diário de Notícias, 3.11.2012, p. 27).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não regista este adjectivo: relativo à biotita (ou biotite) ou que contém este mineral.
[Texto 2280]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «canhotismo»

Sinistro

      Sim, «paladar» também tem essa acepção de parte superior da cavidade bucal. Veja-se o Salmo 137: «Pegue-se-me a língua ao paladar,/ se eu não me lembrar de ti,/ se não fizer de Jerusalém/ a minha suprema alegria!» É também este salmo que se refere, ao que parece, ao canhotismo — mas esperem: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista «canhotismo». Se até regista «mancinismo» e «sinistrismo»...
[Texto 2279]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «hostal»

Boa alternativa

      «Na Baixa de Lisboa, o Lisbon Story Guesthouse recebe hóspedes de todo o mundo. Mas estes, para além das suas histórias, deixam solidariedade para os sem-abrigo da cidade. A ideia, inédita, partiu de Bruno Ferreira, o seu proprietário e gerente, que dia após dia, via os sem-abrigo nas imediações do seu hostal» («Hóspedes entregam pão e roupa para sem-abrigo», Joaquim Cardoso e Marina Almeida, Diário de Notícias, 1.11.2012, p. 16).
      Ora muito bem: em vez de um termo estrangeiro, um termo português antigo. Curiosamente, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista «estau», não acolhe nem «hostal» nem «hostau».
[Texto 2278]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «fashionista»

Nunca a tinha encontrado

      «E como dizem as fashionistas, a história da Cinderela é a prova de que um par de sapatos nos pode mudar a vida» («Bela sedutora com novo visual», Eunice Gaspar, Nova Gente, n.º 1885, p. 5).

[Texto 2277]
Etiquetas
edit

Léxico: «congeneridade»

Mas existe

      E a propósito de «congénere». Sabiam que os dicionários registam o vocábulo «congeneridade»? Nunca a viram antes? Ei-la: «Uma escolha paradoxal, pois Salazar não nega só a congeneridade dos regimes estadonovista e mussoliniano, mas faz todo um rol de afirmações as quais, no seu conjunto, não abonam em absoluto o fascismo italiano» (Portugal e Itália: Relações Diplomáticas (1943-1974), Vera de Matos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2010, p. 16). De «estado-novista» falámos aqui.

[Texto 2276]
Etiquetas
edit

Sobre «aspirina»

Uma dor de cabeça

      «Os doentes de cancro colorretal que são portadores de uma mutação específica num gene chamado PIK3CA podem sobreviver mais tempo quando tomam também uma simples Aspirina. Essa é, pelo menos, a conclusão de um estudo de médicos e investigadores norte-americanos, que foi publicada ontem na revista New England Journal of Medicine» («‘Aspirina’ prolonga a vida em certos cancros colorretais», Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 27).
      Será necessário o itálico e a maiúscula inicial? É marca? Mas também é a designação comercial do ácido acetilsalicílico.
[Texto 2275]
Etiquetas
edit

Léxico: «cicloviajante»

Conhecíamos «cicloturista»

      «[Eric Feng] Dormiu em pousadas e casas de pessoas inscritas numa rede de apoio a cicloviajantes, como aconteceu na sua última noite, em Almada, onde um grupo de ciclistas conseguiu organizar um final à medida do seu desafio. Regressou ontem à China, sem direito a fotografias ou diretos na televisão. Mas diz que gostou de Portugal» («A jornada épica de um ciclista a quem roubaram a bicicleta», André Rito, Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 19).
[Texto 2274]
Etiquetas
edit

«Custoias/Custóias»

Nada de constante

      «A Polícia Judiciária informou, ontem, a [sic] detenção de uma mulher de 30 anos, por tráfico de estupefacientes, no Estabelecimento Prisional do Porto (Custoias). Segundo a PJ, a arguida terá conseguido introduzir cerca de 66 gramas de haxixe no estabelecimento prisional, que entregou a um recluso, seu familiar» («Mulher traficava droga na prisão», Diário de Notícias, 11.10.2012, p. 19).
      «Um diretor de uma cadeia central como é o Estabelecimento Prisional de Lisboa ou Custóias, no Porto aufere cerca de 2700 euros líquidos, compreendendo já suplementos. Inclui subsídio de renda de casa, subsídios de risco e de representação e ainda carro do Estado» («Guardas prisionais já podem ser directores de cadeias», Rute Coelho, Diário de Notícias, 29.10.2012, p. 20).
      São mais de vinte os topónimos portugueses que sofreram alterações com o Acordo Ortográfico de 1990. Infelizmente, os jornalistas só quando calha é que se lembram.
[Texto 2273]
Etiquetas ,
edit

«Publisher», de novo

Mais claro

      «Para publisher da mesma publicação – o cargo que faz a ligação entre a direção do título e a administração da empresa –, a comissão executiva do grupo Impresa decidiu nomear Júlia Pinheiro, que manterá também as suas atuais funções de diretora de Gestão e de Desenvolvimento de Conteúdos da SIC. Sofia Carvalho e Júlia Pinheiro substituem, desta forma, Clara Marques, anterior publisher e diretora da Activa» («Sofia Carvalho e Júlia Pinheiro na ‘Activa’», Diário de Notícias, 30.10.2012, p. 51).
      Já vimos por duas vezes (aqui e aqui) esta questão. Hoje ficamos com mais elementos para avaliar a necessidade do termo inglês.
[Texto 2272]
Etiquetas
edit

«In corpore»

Tão cultos...

      «Um homem de 39 anos foi detido de Lisboa com 3400 gramas de cocaína no interior do organismo. “Esta foi a maior apreensão de cocaína transportada in corpore por um único indivíduo alguma vez detetada pelas autoridades em território português”, explicou a Polícia Judiciária (PJ) em comunicado» («Traficante que engoliu 3,4 quilos de droga bate recorde», Luís Fontes, Diário de Notícias, 30.10.2012, p. 21).
[Texto 2271]
Etiquetas ,
edit

«Regras da competitividade»!

Não tem limite

      «Este negócio surgiu com o objetivo de liderar no mercado e fazer frente a Amazon, Google e Apple, que nos últimos anos têm conquistado o mercado editorial, principalmente nos livros e leitores digitais. Ainda assim, alguns analistas já colocaram em causa esta fusão, questionando se se estão a respeitar as regras da competitividade» («Editoras anunciam fusão», Diário de Notícias, 30.10.2012, p. 49).
      Sobre «colocar em causa» está, ao que me parece, tudo dito. Resta-nos esperar que lhes passe. Nunca tinha ouvido falar dessas «regras da competitividade»...
[Texto 2270]
Etiquetas ,
edit

«Congénere de»

Confusões e trocas

     «A Polícia Judiciária (PJ) foi convidada, esta semana, para participar e colaborar com a Ameripol, Comunidade de Polícias da América (a organização americana congénere à Europol), com o estatuto de observador» («PJ com papel de observador na união de polícias americanas», A. T., Diário de Notícias, 29.10.2012, p. 20).
      Como é? «Congénere à»? Há-de ser cruzamento de «semelhante à» com «congénere de». Tem é de se rever mais de uma vez aquilo que se escreve, sobretudo se vivemos disso.
[Texto 2269]
Etiquetas
edit

Uso da maiúscula

Porque a nossa é mais pequena...

      «Christopher O’Neill [noivo da princesa Madalena da Suécia] exerce funções na Bolsa de Nova Iorque e descende de uma família abastada dos EUA» («Madalena está noiva e casa-se no verão de 2013», Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 53).
      «A bolsa de Lisboa encerrou a primeira sessão da semana em terreno negativo, a acompanhar as perdas registadas pelas pares europeias, pressionada pelos títulos do sector financeiro e pelo pesos-pesados» («Grécia e ‘Sandy’ assustam bolsas», Diário de Notícias, 30.10.2012, p. 35).
[Texto 2268]
Etiquetas
edit

Léxico: «gearing»

Temos de saber

      «Em Portugal, o Pingo Doce e o Recheio, apesar da envolvente muito difícil, continuaram a reforçar as respetivas quotas de mercado. O resultado líquido consolidado cresceu 6,2%, atingindo 271,5 milhões de euros. O cash flow gerado, após investimento, foi de 147,1 milhões de euros. A dívida líquida consolidada cifrou-se em 251,8 milhões de euros e o gearing foi de 16,0% no final de setembro» («Jerónimo Martins ganha na Polónia», Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 31).
      Temos de saber inglês e economia. «Gearing é», leio no sítio da Deco Proteste, «o rácio entre o endividamento da empresa (dívida financeira) e os seus capitais próprios. Um gearing elevado é, em regra, um sinal de maior risco.»
[Texto 2267]
Etiquetas
edit

Tradução: «tile»

Combinem melhor

      «Depois das janelas, os mosaicos. A Microsoft deixou cair tudo o que era confortável no Windows e reinventou o seu sistema operativo, transformando-o em algo fluido e adaptado às expectativas de consumidores habituados a ecrãs táteis. O Windows 8 é lançado hoje em todo o mundo e traz uma vaga de novos computadores, incluindo portáteis com ecrã tátil e tablets que se convertem em portáteis» («Windows 8 é a mais ambiciosa reinvenção da Microsoft», Ana Rita Guerra, Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 32). Num texto de apoio, lê-se: «Redesenho total, com interface organizada em torno de “telhas” (tiles) e mais parecida com os ambientes de smartphones e tablets
[Texto 2266]
Etiquetas ,
edit

Como se escreve nos jornais

Ora esta

      «No total, foram exibidas mais de cem fotografias durante a audição do detetive Ricardo Yanes, um dos elementos da Polícia de Nova Iorque responsáveis pelo processamento do local do crime. O corpo estava posicionado no canto do quarto, junto à janela, completamente nu, de barriga virada para cima. O seu rosto estava inchado, todo negro e vermelho, com uma enorme ferida na parte superior da cabeça, que deixava ver o branco do crânio, e duas chagas no lugar dos olhos» («Fotos exibidas em tribunal mostram horror na morte de Carlos Castro», Alexandre Soares, Diário de Notícias, 13.10.2012, p. 22).
      Já todos tínhamos ouvido falar em «processamento de salsichas», por exemplo, nunca do local de um crime.
[Texto 2199]
Etiquetas ,
edit

Infinitivo pessoal

Resta a eufonia, a música interior

      «Também Garrett era muito bom estilista, e aqui temos, no Frei Luís de Sousa: “Vai e deixa-te lá estar até veres chegar o bergantim.” Ver chegar era bastante para a clareza. Mais ênfase em veres do que em ver, não se lobriga. Resta a eufonia, a música interior: com veres cortou-se a série estar-ver-chegar. Seria isto?... Ao certo não sabemos nada, por muitas regras que a Gramática nos dê» (Glossário de Incertezas, Novidades, Curiosidades da Língua Portuguesa, e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, 1938, p. 149).
[Texto 2198]
Etiquetas
edit

A dengue

Não quis saber

      Hoje ofereceram-me o Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo (Lisboa: Livraria Bertrand, 1945, 10.ª ed.). Lá está «dengue» (p. 434) registada como sendo do género feminino. O tal «sábio» estava mesmo enganado. Não se quis dar ao trabalho de pesquisar, foi o que foi.

[Texto 2197]
Etiquetas
edit

«Fazer o possível»

E os impossíveis

      «Fazer o possível. — Assim dizem os cultos. O povo, porém, ouviu e aperfeiçoou: Farei os impossíveis — ouve-se na Beira e alhures. Assim a expressão, quer era baça e somítica, se tornou mais imaginosa, mais amável, e portanto mais expressiva» (Glossário de Incertezas, Novidades, Curiosidades da Língua Portuguesa, e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, 1938, p. 136).
[Texto 2196]
Etiquetas
edit

«Entrevistar a testemunha»

Coisas dos amaricanos

      «A procuradora do caso, Maxine Rosenthal, foi a primeira a entrevistar a testemunha. Fez Vanda Pires recuar dois anos, até ao dia em que ouviu o nome Renato Seabra pela primeira vez. A 23 de outubro de 2010, pelo Facebook, Castro contava-lhe que ia aos EUA com “alguém muito especial” e “pedia segredo” da identidade do seu companheiro» («Últimos dias de Carlos Castro recordados no julgamento de Seabra», Alexandre Soares, Diário de Notícias, 11.10.2012, p. 19).
      Desde as Ordenações que as testemunhas eram inquiridas em tribunal — agora passaram a ser entrevistadas. Esperemos que seja apenas nos Estados Unidos da América.
[Texto 2195]
Etiquetas ,
edit

«Sine data»

Para variar

      «A empreitada, orçada em 16 milhões de euros, visa permitir que circulem na Linha Verde comboios com seis carruagens, algo que, uma vez prolongado o cais, vai continuar a não ser possível. Isto porque, para que tal acontecesse, seria necessário que a estação de Arroios fosse também intervencionada – um investimento que foi adiado sine data. [...] É que, para que possam efetivamente circular na Linha Verde comboios de seis carruagens, também a estação de Arroios terá de ser intervencionada – uma empreitada que foi adiada sine data pelos conhecidos constrangimentos financeiros do Metropolitano de Lisboa, E. P. E., bem como da conjuntura económica do País» («Obras no Areeiro sofrem novo atraso e só vão acabar em 2014», Inês Banha, Diário de Notícias, 11.10.2012, p. 21).
      Quase nunca se vê esta locução latina — que significa o mesmo que sine die —, mas desta vez foi logo um par no mesmo texto. (A jornalista gostou tanto da locução, que quase repetiu a frase. Ninguém deu por nada.) Agora vejam lá é como a pronunciam.
[Texto 2194]
Etiquetas
edit

Como se escreve nos jornais

Desnecessário, afinal

      «A polaroid do atual momento do sector dos media foi debatida no painel dedicado aos publishers (editores), durante o eShow Lisboa, organizado pela ACEPI» («Quebra de publicidade obriga jornais e TV a repensar negócio», Ana Marcela, Diário de Notícias, 11.10.2012, p. 31).
      Há muitas outras formas de dizer o mesmo, mas, para ficarmos na área da fotografia, não seria melhor «instantâneo», por exemplo? Que alguns dicionários não registam nesta acepção. E, afinal, fica demonstrado que não precisava de ter usado o termo «publishers».
[Texto 2193]
Etiquetas ,
edit

Toscana

Toscanejam

      «O estabelecimento [L’e’ Maiala!] de Donella Faggioli e do marido, Frank, encontrou uma nova forma de combater a crise: aceita vegetais e outros bens de consumo em troca de uma verdadeira refeição da Toscânia, a região de Itália onde fica Florença» («No L’e’ Maiala! trocam-se bens por refeições», Diário de Notícias, 11.10.2012, p. 9).
      Senhor jornalista, então em português não é Toscana que se diz? Ah, sim, também está no Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, na página 1014.
[Texto 2192]
Etiquetas ,
edit

«Dengue», mais uma vez

Esqueçam isso

      «“O vírus tem quatro serotipos identificados. No caso da Madeira, revelou fortes semelhanças com o serotipo um que circula na Colômbia e na Venezuela. Todos os serotipos provocam febre do dengue, mas este aparentemente está associado a quadros mais benignos e ao surgimento de mais casos em menos tempo”, explicou ao DN Maria João Alves, responsável pelo Centro de Estudos de Vetores e Doenças Infecciosas do INSA» («Dengue na Madeira menos grave mas mais contagioso», Ana Maia, Diário de Notícias, 10.10.2012, p. 17).
      O tal «sábio» é que escrevia que só tinha encontrado o género feminino para a doença na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Já não seria pouco, mas não: Rebelo Gonçalves, na página 319 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista-o como feminino.
[Texto 2191]
Etiquetas ,
edit

Aportuguesamento: «napalme»

Estranho seria que não

      Aportuguesada, pois. Conheço várias abonações, Luísa, mas deixo-te só uma: «Votou-se ainda o teor dum telegrama, mais incendiário que uma bomba de napalme, a dirigir ao presidente da Duma e, depois de muitos vivas e morras, abraços e parabéns, cada mocho foi para seu soito a ruminar na noitada» (Um Escritor Confessa-se, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Bertrand Editora, 1974, p. 179).
[Texto 2190]
Etiquetas ,
edit

Léxico: «tranqueira»

Quase obscuro

      Podemos estar sempre a aprender, se quisermos, se mantivermos os olhos abertos. Hoje, por exemplo, fiquei a conhecer a palavra «tranqueira» na acepção de cercado de madeira para fortificar. Esta a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Tranqueira de Balibó, tranqueira de Kailako... Em Timor. Nunca antes tinha visto. Obra de defesa indígena.
[Texto 2189]
Etiquetas
edit

Arquivo do blogue