Léxico: «sínico»

Mas faz


      «Um pouco à maneira de Toynbee, Huntington dividia-nos por civilizações: Ocidental (incluindo os Estados Unidos e a Europa), Latino-Americana, Islâmica, Ortodoxa (com a Rússia como núcleo), a Hindu, a Japonesa e a Sínica (incluindo China, Coreia e Vietname), talvez houvesse uma civilização africana — que iriam de vez em quando guerrear-se umas às outras» («Samuel Huntington», obituário escrito por José Cutileiro, Expresso, 24.01.2009, p. 39).
      Um cínico dirá que «sínico» não faz falta, mas faz. Sobretudo a forma reduzida, sino, faz falta e precisa de ser conhecida, porque normalmente, na formação dos adjectivos pátrios compostos, o primeiro elemento adquire uma forma reduzida (e invariável) derivada da origem erudita da palavra: afro-americano, anglo-americano, assiro-babilónico, austro-húngaro, euro-africano, greco-romano, hispano-americano, nipo-russo, sino-russo, siro-arábico… É que já um dia li numa tradução «chino-russa»...

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Léxico: «corujeiro»


Alguém saberá


      Em alguns dicionários, o verbete «corujeiro» remete para «corujeira», e esta significa «pequena povoação, em lugar fragoso, própria para criação de corujas» (in Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). No concelho da Guarda, pegado à Cova da Beira, há uma povoação chamada Corujeira. Não sei de onde virá o vocábulo «corujeiro» a designar os negociantes de fruta, mas fica registado.

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Verbo «haver»


Queres festa


      Todos os dias podia referir mais um atropelo ao verbo haver, mas não me apetece. «Olá, sou o Robby. Sou o pai da Miley e do Jackson. Tenho uns filhos fantásticos, embora gostasse que ouvissem o que eu digo mais vezes.» Assim se apresenta esta personagem da série Hannah Montana, que passa no Disney Channel. No episódio de ontem, a personagem disse à filha: «Acalma-te! Vão haver mais festas.» Oxalá os jovens telespectadores também não o ouçam. O tradutor, é claro, ignora regras gramaticais básicas, e o actor que fez a dobragem não quer saber destas minudências.

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Superlativo absoluto sintético de «sério»


Não temo hiatos


      Há, não posso desmentir, escritores seriíssimos a escreverem «seríssimo», mas eu é que não me convenço. O superlativo absoluto sintético obtém-se acrescentando o sufixo derivacional -íssimo (no caso, pois há outros), que nos parece tão intrinsecamente português, mas que só surgiu na língua comum no século XVI, ao adjectivo na forma positiva, suprimindo-se, por vezes, a vogal temática. Assim, será séri(o)+íssimo, seriíssimo. Não sigo, contudo, cegamente a regra, pois o superlativo de «sumário» seria sumariíssimo, o que eu jamais diria. Mas será, vendo bem, talvez o único caso em que não sigo a regra, discordando da observação de Celso Cunha e Lindley Cintra (mas qual deles escreveu esta observação?) na Nova Gramática do Português Contemporâneo: «Em lugar das formas superlativas seriíssimo, necessariíssimo e outras semelhantes, a língua actual prefere seríssimo, necessaríssimo, com um só i» (3.ª ed., Lisboa: Edições João Sá da Costa, p. 260). Será então seriíssimo, tal como cheiíssimo, feiíssimo, friíssimo, necessariíssimo, precariíssimo, variíssimo… É como diz Evanildo Bechara: «Ainda que escritores usem formas com um só i (cheíssimo, cheinho, feíssimo, seríssimo, etc.), a língua padrão insiste no atendimento à manutenção dos dois ii» (Moderna Gramática Portuguesa. 37.ª ed. Rio de Janeiro, 2002, p. 151).

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Léxico: «testamento vital»


É vital perceber


      Ainda recentemente a locução inglesa living will era objecto de debate em fóruns de tradução, e as mais desvairadas sugestões estiveram sempre longe da locução que entrou agora na ordem do dia: testamento vital. «Numa altura em que se começa a debater em Portugal o testamento vital — a possibilidade de a pessoa saudável decidir se quer receber tratamentos de saúde se ficar numa situação de saúde extrema —, Alexandra reclama que também se discuta o destino dos mais novos» («“Tenho o corpo da minha filha comigo”», Catarina Gomes, Público, 22.02.2009, p. 3). O testamento vital também é conhecido como testamento biológico, opção menos colada ao inglês e talvez mais sugestiva. Embora, é verdade, tenhamos também órgãos vitais. Em francês diz-se testament biologique ou directives de fin de vie. Em italiano, testamento biologico. A verdade, porém, é que, por ser algo novo, a terminologia ainda não se consolidou. Brevemente analisarei aqui os termos «eutanásia», «ortotanásia», «distanásia» e «mistanásia».

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Léxico: «cerebrovascular»

Desta vez, acertaram

A propósito da morte da italiana Eluana Englaro, o Público de domingo publicou algumas peças sobre a eutanásia. Numa delas, «O que aconteceria se Eluana Englaro fosse portuguesa?», assinada por Alexandra Campos e Catarina Gomes, pode ler-se: «Se estivesse nessa situação, João Alcântara, coordenador da Unidade Cerebrovascular do Centro Hospitalar de Lisboa Central, não tem dúvidas: “Gostava que me deixassem morrer.”» Cá está: cerebrovascular. Assim se deve escrever, e não vascular cerebral. Parece que estamos a copiar a maneira anglo-saxónica de o dizer, mas não. Ver aqui também.

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Gentílicos depreciativos

Imagem: http://www.sanfranciscosentinel.com/

É só adaptar?


      O príncipe Harry de Inglaterra fez outra vez disparate, e agora tem de frequentar um curso de antixenofobia das Forças Armadas britânicas. Na última Pública lê-se: «A decisão surgiu depois de Harry se ter referido a um colega paquistanês como “paqui”, comentário xenófobo que foi imediatamente reprovado pelo exército inglês» («Princípe na escola», 22.02.2009, p. 6). Bem, não foi bem «paqui», mas «Paki», porque se trata de uma adaptação. «Our little Paki friend», terá dito o príncipe. Para as traduções, decerto que precisamos de termos correspondentes, e nem sempre os temos. Já aqui lembrei o caso de «Jap». Recentemente, um leitor perguntou-me como traduzir «spic» e «whitey». Não é fácil, pois esses termos depreciativos do inglês decorrem de uma realidade social que não é a nossa. Mas temos correspondente para «nigger», por exemplo. Na verdade, até temos um termo meio jocoso, meio depreciativo para designar um paquistanês, ou pelo menos um certo paquistanês: kefrô. Em rigor, pelo jogo linguístico subjacente, é intraduzível para inglês. Como intraduzível é o inglês «Paki».

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Léxico contrastivo: «porta-trecos»

Porta-trecos ou porta-objectos sob um banco da frente


As nossas diferenças

      «Os primeiros sinais da renovação são sentidos quando se entra no sedã. Não lembra em nada o modelo que ainda hoje é comercializado. Há mais conforto e vários porta-trecos, resultado de pesquisa da montadora junto aos compradores, que se queixavam justamente disso» («Vectra, nasce a próxima edição do sedã», Antonio Puga, Jornal do Brasil/Carro e Moto, 22.02.2009, p. V5). Para nós, Portugueses, «treco» é apenas mal-estar, chilique, e ao porta-trecos dos Brasileiros chamamos porta-objectos. E no sótão guardamos os tarecos.

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Tradução: «snags in the river»

Imagem: http://www.mdbc.gov.au/

Aplanar caminho


      O leitor M. L. quer saber como traduzir o segmento assinalado na frase a seguir: «Good teachers put snags in the river of children passing by, and over the years, they redirect hundreds of lives.» Snag ou sawyer é uma árvore ou parte de árvore à superfície de um curso de água, permitindo que animais e até mesmo pessoas o atravessem, ao mesmo tempo que serve de abrigo para os peixes. Assim, traduziria, tentando manter o sentido metafórico, da seguinte maneira: «Os bons professores põem alpondras no rio para os alunos passarem, e, ao longo dos anos, dão um novo rumo a centenas de vidas.»


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Palavras oxítonas


Post aberto a Belmiro de Azevedo

Os hipermercados também são responsáveis pela difusão de muitos erros ortográficos. É sabido que neles não se pode comprar peru, mas perú. E quem diz peru diz caju. Como vêem na imagem, o Continente comercializa caju — mas com acento. O acento deve ser porque é caju brasileiro (e eu até prefiro o indiano). Bem, caro Eng. Belmiro de Azevedo, onde está essa responsabilidade social?
É caju que se escreve. A regra, tal como está consignada na Base XV do Acordo Ortográfico de 1945, estabelece: «Quando as vogais tónicas i e u estão precedidas de ditongo, mas pertencem a palavras oxítonas e são finais ou seguidas de s, levam acento agudo: Piauí, teiú, tuiuiú; teiús, tuiuiús.» Assim, abacaxi, bambu, caju, canguru, colibri, nu, peru, rubi e algumas outras não terem acento enquadra-se nas excepções, pois aquelas vogais finais, seguidas ou não de s, não são precedidas de ditongo.
As palavras oxítonas ou agudas — nomes comuns, mas também antropónimos e topónimos — existem em muito maior número na variante brasileira do português, o que se deve à herança das línguas indígenas.

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Prosónimo: «Grande Maçã»


Grande melão

      Vêem-se por toda a cidade de Lisboa cartazes publicitários da TAP a promover viagens a Nova Iorque. Os cartazes, contudo, têm um erro: grande maçã por Nova Iorque está errado. Já tive oportunidade de aqui lembrar que os prosónimos, que são nomes próprios que servem de cognome ou apodo (no caso, está em vez de um topónimo), se escrevem com inicial maiúscula. Logo, Grande Maçã. Se fossem mesmo inteligentes, a imagem seria preenchida por maças reinetas, por exemplo, e escreviam «grande maçã» como escreverem — e, pelo jogo linguístico subjacente, estaria correcto. Com amadores, a coisa nunca sai bem.

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«Evocar» e «invocar»

É um erro, eu levo a mal


      Carlos Miguel, presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras, ontem em declarações à Antena 1: «O Ministério Público não, não, digamos, não fundamenta o despacho, não evoca qualquer razão, mas remete para uma legislação, e essa legislação proíbe a exibição de imagens pornográficas.» O «evoca» corre parelhas com o «enquadramento judicial» que o jornalista da Antena 1 prometeu dar da questão. Como o autarca ofereceu livres-trânsitos à procuradora que fez o despacho e à juíza do processo convidando-as para irem ao Carnaval, pode bem ser que alguma das magistradas lhe ensine que se diz invocar e não evocar.

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Léxico: «mantéu»


Vejamos

Um amigo telefonou ontem para me perguntar se já tinha visto o cartaz da Expolíngua 2009. Que sim, e?... «Eh, pá, tu sabes: como se chamam aquelas golas?» Bem, é uma gola de folhos. «Mas tem outro nome.» Acho que também tem a designação, salvo erro, de mantéu. «Mantéu? Mantéu? Mas isso não é um traje folclórico dos Açores?» Fiquei de confirmar.
De facto, mantéu ou mantéo (do latim mantelum), como regista o Dicionário de Morais, é a «peça de adornar o pescoço, de várias feições, enrocado, desfiado, de abanos, à Balona, etc.». E acrescenta que nos «retratos antigos até o d’el-rei D. Sebastião se vêem os taes mantéus». Enrocado quer dizer pregueado, e Morais no verbete «enrocar» esclarece: «Fazer pregas, que se usavam antigamente nos mantéus, ou voltas do pescoço.» A referência a D. Sebastião (1554-1578) é crucial. No retrato de D. Sebastião atribuído a Cristóvão de Morais e patente no Museu Nacional de Arte Antiga o rei é representado com um mantéu. Também a sua contemporânea Isabel I (1533-1603) é representada com um mantéu (ruffle lace collar, em inglês), pois era uma peça de vestuário quinhentista usada por ambos os sexos. O desta rainha teria cerca de 60 centímetros de diâmetro, para o que seriam necessários à volta de 16 metros de tecido fino. Assim, a definição de «mantéu» — «colarinho largo com abas pendentes» — que encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora está errada. E mais: este dicionário não regista todas as acepções do vocábulo, pois falta, por exemplo, a de traje académico coimbrão, o mantéu talar, que era usado com ou sem capelo.
Fernando Campos, na obra A Casa do Pó, retrata Camões de «gola de folhos, colete de fendas avelutadas, coçado, capa pendente do ombro, calções tufados pela coxa, a meia torneando a perna até morrer nos borzeguins de couro». Na imagem do cartaz da Expolíngua, só temos o mantéu de papel, que o tecido é caro e a goma não a sabem fazer, e a fazer de colete uma blusa bordada fabricada na China. Alguém emprestou a pala. A parede parece ser a do Palacete Seixas, na Avenida da Liberdade, sede do Instituto Camões.

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O verbo «haver»

Apontamento

      Isabel Stilwell, na emissão de ontem dos Dias do Avesso, deu mais um pontapé na gramática: «Mas a verdade é que, eu estive a ler, continuam a não haver contactos entre a Esmeralda e os pais afectivos.» Isabel Stilwell, e refiro-o porque hoje uma caterva de blogues pode já usar o termo, usou a palavra «contra-rapto». É só isto: escreve-se contra-rapto, e não contra rapto. E mais: segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990, passar-se-á a escrever contrarrapto. Habituem-se. Como a agora conhecida contra-reacção passará a ser contrarreação. Aguentem. Eduardo Sá não disse nenhum disparate.

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Sobre o uso de estrangeirismos

A coluna da Polícia da Fronteira Indo-Tibetana (ITBP) no desfile de 2002

Valia mais estar calado


Há sempre uma parte dos jornais impenetrável à compreensão do leitor médio. Não pela complexidade dos assuntos, mas pela linguagem usada. Um dos maiores obstáculos é o uso de estrangeirismos ou de neologismos não explicados. No passado mês de Janeiro, um texto assinado por um tal M. C. falava do Dia da República na Índia, um dos feriados mais importantes naquele país («em que participam estudantes e artistas representando cada região do País», podia ler-se). Sob uma das imagens, lia-se esta legenda: «Ritmo. Espectáculo hipnótico a cargo de dançarinos tradicionais do Rajastão ocidental, animados pela música, uma constante nas celebrações do dia em que foi adoptada a Constituição indiana. O ‘warm-up’ deixou água na boca» («O grande feriado nacional da Índia», M. C., Diário de Notícias/DN Gente, 24.01.2009, p. 20).
Saiam da redacção e perguntem a quem passa na rua se sabe o que significa warm-up. Este termo é usado em especial no desporto e significa «aquecimento», os exercícios (warm-up exercises) que antecedem a prática de qualquer desporto. De um modo geral, é a actividade curta que prepara (aquece) para uma actividade mais longa e complexa. No contexto, é «a preparatory activity or procedure». Ou seja, um ensaio. Em resumo: warm-up é um estrangeirismo, não explicado e desnecessário.

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Sobre *vernaculoso


E isso significa?...

Com mil milhões de mil macacos! «Vernaculoso»? E que significa isso? O capitão Haddock é conhecido pelo conteúdo semântico quase nulo, mas altamente expressivo, das suas interjeições. Pedro Mexia, num texto de 2007, alude às exclamações do capitão: «Acho que nunca usei um ponto de exclamação. Tenho objecção de consciência aos pontos de exclamação. Geralmente, a mais leve aparição dessa sinalefa me desanima a ler determinado texto. E quando aparecem artigos que são manchas compactas de exclamações, nem olho mais. É como se fossem desabafos juvenis. Claro que há génios da exclamação, como Céline e o Capitão Haddock, mas convenhamos que são duas excepções, digamos, absolutamente excepcionais» («Contra a exclamação», Público, 12.05.2007). Retomando o fio à meada: «vernaculoso»? O mais próximo é «vernaculista», este sim, um vocábulo que existe. Contudo, vernaculista é a pessoa que fala ou escreve vernaculamente, isto é, que usa uma linguagem que conserva a pureza original, sem mácula, genuína. Ora, não parece aplicar-se ao verrinoso e verboso capitão.

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Ortografia: «contraproducente»


Em duas palavras: extra ordinário

Um amigo acaba de me mandar o recorte de A Voz do Nordeste que encima este texto. Na resposta a agradecer, aleguei que pode tratar-se de gralha, por faltar o hífen na translineação, e não de erro. Na volta, o meu amigo argumentou, e só o podia fazer quem conhece este semanário, que «a desculpa seria aceitável se noutras ocasiões, e com espaço suficiente, eles não tivessem escrito “contra producente”» E, o que tem mais graça, citou aquela frase que se atribui a Samuel Goldwyn (o G em MGM, dos estúdios cinematográficos): «I’ll say it to you in two words: im possible!»

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O prefixo des-

Sem desazo nem desbrilho

O prefixo des-, o mais produtivo na língua portuguesa, que para Said Ali não passava da romanização do prefixo latino dis-, presta-se a jogos e salva, frequentemente, uma frase. Por vezes, como é o caso que vou referir, a palavra não existe, demonstrando o seu uso apenas a criatividade de quem escreve. Se querem renovar o léxico, frequentem esta zona do dicionário.
A propósito de Joana Amaral Dias ter ficado fora da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda, escreveu Ferreira Fernandes: «Neste caso, foi-se buscar Estaline porque os dois maiores partidos que fundaram o BE já cantaram loas, um, a UDP, a Estaline, e outro, o PSR, a Trotsky. À falta de se discutir essa união (talvez) contranatura, aproveita-se um qualquer pretexto para evocar o gosto pelo Photoshop (a arte de mudar as fotografias) dos revolucionários comunistas. Foi-se por aí, sem ninguém parar na pergunta primeira: mas Joana Amaral Dias foi apagada de quê? Um partido que já a tinha votado para a direcção desvotou-a» («Mas Joana Amaral Dias foi apagada de quê?», Diário de Notícias, 15.02.2009, p. 9).

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Tradução: «gambrel roof»

Celeiro com telhado de quatro águas (c. 1920), em Eagle Mills Farms, Whatcom County
© http://www.wa.nrcs.usda.gov/


Telhados de vidro



      Consultamos o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora e vemos que gambrel é o jarrete dos cavalos, e, fazendo parte de expressões, gambrel swelling, o que nós chamamos alifafe, um tumor nas articulações do jarrete do cavalo, e, cá está o que interessa, gambrel roof, que é o «telhado com tacaniça cortada». Só que — já aqui o escrevi? — este resultado, encontrável para vários termos e em vários dicionários, é risível. Não é, como esperávamos, a palavra ou expressão que traduz a expressão inglesa — é uma definição, e não se traduz com definições. Um gambrel roof é, na verdade, um telhado de quatro águas, e assim devia figurar no verbete.

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Tradução: «double-knit»

Imagem: http://free-knitting-pattern.com/


Malhas que a tradução tece



      A rapariguinha, que era «chubby», vestia «a pair of dowdy brown double-knit stretch pants». Um horror, imagino. Mas o leitor M. L. não pretende opiniões sobre estética, mas sim traduzir aquele «double-knit», que não encontrou nos dicionários bilingues nem monolingues que consultou. É natural — e literal. Significa de «malha dupla», e assim deverá traduzir. Já agora, prevenindo, se aparecer uma rapariguinha, gorda, magra ou assim-assim, de calças narrow elastic, será elástico estreito; wide elastic, elástico largo; tricot knit, malha tricô; warp knit, malha urdume; single knit, meia malha…


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Ortografia: «infra-estrutura»


O acordo é para eles

Triste ironia: quem escrevia incorrectamente há vários anos certas palavras (vimos ontem o caso de «fim-de-semana») é agora premiado pelo Acordo Ortográfico de 1990. O vocábulo «infra-estrutura», por exemplo, que até revisores deixam passar sem hífen, passa de facto a escrever-se dessa forma: infraestrutura. Antecipando-se à entrada em vigor das novas regras, é assim que já se escreve na Câmara Municipal de Lisboa. Têm muita sorte.

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O Acordo Ortográfico no Brasil

Não sabiam, hã?

As provas de Língua Portuguesa em concursos públicos no Brasil são, é a ideia que tenho, mais rigorosas, mais exigentes do que em Portugal. Agora, com a entrada em vigor do Decreto 6583, que promulgou as novas regras ortográficas, esses concursos, as provas escolares e os vestibulares passam a ser um obstáculo ainda mais difícil de superar, pois se o examinando pode usar, no período entre 2009 e 2012, qualquer uma das duas normas — ou as duas no mesmo texto! — nas provas discursivas, também o examinador, nas perguntas directas, pode exigir somente o conhecimento das novas regras ou das antigas.

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«Fim de semana»?

Parece fim da semana

«No último fim de semana, com parte da Baixa fechada ao trânsito por causa da repavimentação da Rua da Prata — e como tardou —, um taxista comentava, escarninho: “Vêm aí as eleições, já começam as obras”» («Vão mas é de carrinho», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 13.02.2009, p.). Vêem como o Diário de Notícias já adoptou as novas regras ortográficas? Outra vez: Veem como o Diário de Notícias já adotou as novas regras ortográficas? Mas espera… Ah, mas a penúltima frase do artigo de Fernanda Câncio é: «É bom que todos os que querem uma cidade e não uma auto-estrada percebam que há uma guerra, e que é preciso lutar.» Pelo Acordo Ortográfico de 1990, passa a escrever-se «autoestrada». Afinal, o «fim de semana» é mesmo erro, e erro que vejo com uma frequência assombrosa.
Bem, Fernanda Câncio, errando, livra-se das galés, a que o tal leitor legalista queria condenar os prevaricadores que já adoptaram as novas regras ortográficas, como o director do Record. Mas talvez Alexandre Pais, que é diretor daquele diário desportivo, não ligue a acções judiciais, pois já se vai habituando apenas a ações.

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Artigo em topónimos

Imagem: http://www.porto.taf.net/

Erro, disse ela



      Na madrugada de quinta-feira, o bibliotecário de Babel, isto é, José Mário Silva, partiu de Santa Apolónia para… para onde? Para a Campanhã ou para Campanhã? Estão decerto recordados do meu conselho: perguntem, nunca foi tão fácil, a alguém que resida na localidade. Não precisei de o fazer, pois a leitora Bárbara Rocha escreveu-me: «Eu sou do Porto e nunca ouvi ninguém de lá dizer que vai “à” Campanhã ou que vem “da” Campanhã». No Jornal de Notícias, um simples relance aos títulos dilucida a questão: «Casal vive isolado em Campanhã», «Junta de Campanhã contra prova de motos», «Incêndio em Campanhã destrói prédio», «Europeu feminino na piscina de Campanhã»…

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Interjeição «xi»

Grandes emoções

Graças ao caso Freeport, pude ler pela primeira vez a interjeição xi. «Sobre a existência de offshores em seu nome para pagamento de luvas respondeu: Xiiiiiii. Realmente isso existe. Existiu, isso existiu» («Tio envolve Sócrates no caso Freeport», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 24.1.2009, p. 6). Pelo menos para este blogue, o resto não interessa, pois o homem, o tio materno de José Sócrates, Júlio Coelho Monteiro, não diz coisa com coisa. Assim mesmo.

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Ortografia: «profiláctico»

Reescreva

Outra palavra infamemente maltratada é «profiláctico», que muitas pessoas grafam sem o c, antecipando-se às regras do Acordo Ortográfico de 1990. Vá um exemplo: «José Barata Moura, aliás como todos os intervenientes, sublinhou que promover a leitura não se conjuga com o imperativo “(Lê!”), mas sublinha que “há quem por aí considere que “riscar a cultura é uma medida profilática porque esta se torne num impecilho [sic] da acção. Ora eu acho que os sentidos educam-se!”» («“Ler é compatível com a Net, televisão e jornais”», Ana Marques Gastão, Diário de Notícias, 24.1.2009, p. 43). Claro que o texto tem mais problemas e erros, aspas a mais e aspas deslocadas, formas verbais erradas, etc., o que demonstra, mais uma vez, o desleixo com que, de vez em quando, se escreve nos jornais. A conclusão, porém, é sempre a mesma: é inadmissível que uma jornalista escreva assim. É inadmissível que um jornal como o Diário de Notícias publique textos editados às três pancadas.

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Idiomatismo trocado


Um país traduzido

A investigadora universitária Fátima Monteiro, que participa no programa Esplendor de Portugal, que passa às quintas-feiras na Antena 1, acaba de dizer, a propósito da eutanásia e da morte da italiana Eluana Englaro: «Eu estou a tentar colocar-me nos sapatos de quem reage de uma forma menos racional a estas coisas.» «Colocar nos sapatos»? Calma aí, temos as nossas próprias formas de dizer as coisas. O que disse não passa de uma tradução do idiomatismo ou idiotismo inglês «to be in another man’s shoes». A permanência na Universidade de Harvard há-de pesar, mas tem de respeitar as idiossincrasias de cada língua.

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Novos programas de Português

Um novo ensino?

Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta e especialista em Estudos Portugueses, foi convidado pelo Governo para coordenar a equipa que elaborou os novos programas de Português dos 1.º, 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, actualmente em consulta pública. Em entrevista ao Público na segunda-feira, afirmou que os novos programas vêm combater a cultura de facilitismo e de tolerância ao erro que tem imperado nos últimos anos no ensino. Como?, pergunta-lhe a jornalista. «De duas formas. Antes de mais, acabando com a chamada “pedagogia do erro”. Aquela coisa de “se o menino erra[,] tem de se valorizar o erro, a expressividade...”. Sou completamente contra isso. Um erro é um erro, em Português como em Matemática. Se no discurso corrente, quotidiano, o sujeito não concorda com o predicado, isso é um erro.» A outra forma: «Os novos programas revalorizam aquilo a que os especialistas chamam o conhecimento explícito da língua e, dentro dele, o domínio da gramática, que durante anos foi, por assim dizer, marginalizada. Não pretendemos martirizar ninguém, mas sim que a língua mantenha alguma coesão. Porque a gramática não é um fim em si mesmo, é um instrumento fundamental para que possamos, justamente, ter a noção do erro» («“São precisos professores que gostem de ler”», Graça Barbosa Ribeiro, Público, 9.02.2009, p. 10).

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Sobre o uso de «respectivamente»


Sem relações

O leitor N. G. L. escreveu-me: «Encontrei a seguinte frase num pacote de açúcar: “Os três principais países produtores de café são o Brasil, Vietname e Colômbia, respectivamente.” A minha questão é a seguinte: “respectivamente” é correctamente usado nessa frase, ou é uma palavra obsoleta? Se a frase fosse “Os três principais países produtores de café são o Brasil, Vietname e Colômbia, respectivamente primeiro, segundo e terceiro maiores produtores”, o respectivamente seria já essencial, não? Coloco esta questão por me ter sido dito que, por exemplo, em termos judiciais, essa frase faz todo o sentido. Disseram-me que “respectivamente” coloca o Brasil como primeiro produtor, o Vietname como o segundo e a Colômbia como o terceiro. O que me parece é que “respectivamente” é um elemento de ligação entre elementos da frase, e que, utilizado assim isoladamente, perde todo o significado. Tenho razão?»
O leitor tem razão. Mas atenção: «respectivamente» não é uma palavra obsoleta, como afirma, mas uma palavra inadequada no contexto. De facto, «respectivamente» significa «cada um a cada um» e «na devida ordem», e esta ordem é impossível de estabelecer na frase, por falta de elementos. É relativamente comum o uso desnecessário e inadequado deste advérbio. Se a frase fizesse parte de um diploma legal, as considerações não seriam diferentes destas.

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«Dignitário» e não «dignatário»

Por quem é

      Um leitor acaba de me dizer que Manuel António Pina, na edição de hoje do Jornal de Notícias, usou a palavra «dignatário» na sua crónica, Por Outras Palavras. «Os escrúpulos científicos deste e outros dignatários desta e doutras igrejas inquietam-me sempre.» Esta questão nunca aqui foi tratada, mas alguns leitores saberão que «dignatário» não é vocábulo correcto, que se usará talvez por influência de «dignar». Correcto é «dignitário». Se vem do latim dignitas…

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Referir as horas


Ali para Telheiras

Simpática, sim, mas com uma mania supinamente irritante.
— Boa tarde. A biblioteca fecha às 7 horas, não é?
— Deve querer dizer 19 horas, imagino.
— Não, é mesmo 7 horas, da tarde, porque agora faltam 15 minutos para as 6.
Jack Bauer ia gostar dela, Cinderela pós-moderna e digital que não tem de voltar para casa à meia-noite mas às 24 horas.


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Ortografia: «ascensão»

Que tristeza!


      Uma das palavras mais infamemente mal escritas é «ascensão», que vem do latim ascensione, «ascensão, subida, acto de ascender», do latim ascendere. O étimo está presente em muitas outras palavras, como «ascensor», «ascensorista», «ascendência» e «descendência», por exemplo. Ainda ontem o Público titulava assim uma notícia: «Retrato de uma estrela em ascenção». A estrela é Elina Garanca, o erro há-de ser de Cristina Fernandes, a colaboradora que assina o texto e que, sendo embora licenciada em Ciências Musicais, tem obrigação de escrever correctamente. Na Ípsilon em linha, o erro ainda lá está, a servir de mau exemplo.

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Tradução: «Basic Skills Test»


Elementar

O leitor J. S. T. pergunta-me como traduzir Basic Skills Tests. Poderá traduzir por «Testes de Competências Básicas», expressão que, pelo menos no âmbito das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), é usada.

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Aportuguesamento: «guglar»

Já é nosso

Miguel Esteves Cardoso escreveu ontem na sua crónica do Público sobre o bispo negacionista. «No recolhimento profundo onde se encontra em Buenos Aires aposto que está a fazer directas atrás de directas, colado à Internet, a guglar o nome dele vez após vez» («Também me recolhi», Público, 9.2.2009, p. 35). Se temos de usar o termo, e há milhares de falantes de português a fazê-lo, que o escrevamos assim.

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Como se fala na rádio


Varie, altere, inove!

Todos, mas especialmente os jornalistas, temos de renovar o léxico, encontrar novas formas de dizer. Como se este fosse um guarda-roupa: define um estilo, sim, mas as peças têm de ser renovadas e introduzir-se de vez em quando algo novo. Nas tardes da Antena 1, há anos que Filomena Crespo, para falar da meteorologia, começa por dizer «e do lado do tempo». Revela, temos de denunciá-lo, uma imaginação indigente, o contrário do que se espera e do que sempre recebemos da rádio.

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Tradução: «lawn chair»


Cadeira, sim, mas qual?

Caro João Mendes, não, não acho que todas as cadeiras sejam de descanso. A cadeira eléctrica, por exemplo, não o é, não concorda? De resto, também na língua o todo é diferente da soma das partes. Uma cadeira de descanso será algo semelhante ao que temos na imagem. Ora, decerto que não é numa destas cadeiras que trabalha no seu escritório ou come à mesa ou consulta o seu advogado. Já quanto a não encontrar a expressão (e, por vezes, palavra, lawnchair) no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, não é nada de surpreender, só de lamentar.

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Respeito pela língua

Imagem: http://pwp.netcabo.pt/0171492201/blog/cinemaalvalade.jpg

Com a verdade me enganas


      O Cinema Alvalade renasceu. Pelo menos é o que afirma a imprensa, mas é um manifesto exagero. É como se, depois de eu morrer, se disser que renasci só porque alguém recebeu os meus olhos, por exemplo, porque sou dador. Parece que do antigo Cinema Alvalade só restou um painel alegórico da autoria da pintora Estrela Alves de Faria. Mas adiante. O que mais estranhei, apesar de tudo, foi o novo nome: Cinema City Classic Alvalade. Não fui o único. Miguel Esteves Cardoso também escreveu sobre o caso: «Para mim, o diabo está nos pormenores. O novo Alvalade parece perfeito. Porquê estigmatizar o bebé recém-renascido com um nome tipo Tiffany Maria Chanel Simões? É que o cinema chama-se Cinema City Classic Alvalade.
      Mas porquê aquele Alvalade no fim? Se tem de ser em amaricano, ao menos ponham as palavras numa ordem inteligível como Classic City Cinema.
      Numa cidade com uma toponímia predial de tão bom gosto, cujas certíssimas “Twin Towers” não se chamam “Towers Twins” como gostariam os patos-bravos, é pena — quiçá até piroso — que não se respeite a sintaxe das línguas estrangeiras que tanto amamos. E que são tão nossas, à maneira delas» («New Column Classic», Público, 26.1.2009, p. 35).

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Pluralização dos apelidos, outra vez

Ele sabe

O escritor brasileiro Antonio Olinto (membro da Academia Brasileira de Letras, vice-presidente do Pen Club Internacional e doutor honoris causa da Fagoc (MG) e da Universidade de Vasile Goldis, de Arad, na Roménia) escreve hoje no Jornal do Brasil sobre a presença italiana no Brasil. «Na minha pequena cidade do Piau, em Minas Gerais, terra de minha mãe, tenho primos e primas com os sobrenomes de Lucchese, Milani, Vilani, Campomizzi, Calderaro, todos brasileiríssimos, parentes dos Loures, Santos, Rochas, Paivas, Honórios e Ribeiros locais» («Os italianos e nós», JB, 8.2.2009, p. A10). Vejam se Antonio Olinto não pluralizou os apelidos.

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Criação vocabular

Registe-se

Desconheço se há algum levantamento da criação vocabular na língua portuguesa. Fazia falta, isso sei. Nele não deixariam de figurar palavras como «ictioxenófobo», que Miguel Esteves Cardoso usou recentemente na sua crónica no Público, e «twitteiro», a partir de «blogueiro» (vocábulo tão foleiro como o vocábulo «foleiro»), que Patrícia Silva Alves usou na mesma edição do jornal Público.

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Disparates jornalísticos

Repita lá

Em texto assinado por Bruno Martins, a edição do dia 27 de Janeiro do gratuito Metro falava do primeiro trabalho a solo do brasileiro Marcelo Camelo, ex-vocalista de Los Hermanos, e um texto de apoio tinha como título «A romântica descendência portuguesa». Como é que um jornalista escreve parvoíces deste calibre? A «descendência» incluía uma avó da Póvoa de Varzim e um avô do Vale do Bouro. Realfabetização, já.

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Ortografia: «videocurrículo»

Agora sim

Surgiu uma nova ferramenta para quem procura emprego: o currículo em vídeo. No início de Janeiro, o gratuito Metro fazia a primeira página chamando a atenção para o facto, e titulava: «Vídeo-currículos são nova forma de procurar emprego». Na página 6, no artigo «Quer emprego? Faça um filme», assinado por André Barbosa, a palavra aparecia dez vezes — mas sempre incorrectamente grafada. Se se escreve «videoconferência», por exemplo, como é que se poderia escrever «vídeo-currículo»? Será, é óbvio, videocurrículo. Num texto de apoio, é usada também a palavra «vídeo-anúncio», e também está incorrectamente grafada, pois se escrevemos «videoamador», não deixaremos de escrever videoanúncio. A nova ferramenta é óptima para quem escreve mal.

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Léxico contrastivo: «pitaco»

Conhecemos a atitude


      Alvaro Costa e Silva escreve hoje no Jornal do Brasil sobre o ecólogo John Whitfield, que tem um blogue para contar a experiência de ler A Origem das Espécies: «À medida que o biólogo avança nos parágrafos da famosa teoria, e as comenta, recebe pitacos ­os mais variados­ de visitantes. A ideia é encerrar tudo na próxima quinta, dia do bicentenário de nascimento de Darwin. O resultado pode ser conhecido no Blogging the origin» («Darwinista não leu Darwin», JB, 7.2.2009, p. L2). Pitaco, que nem o Aulete Digital nem o Dicionário Houaiss registam, é palavra de amplo uso no Brasil, e desconhecida em Portugal, que significa «palpite».


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Confusões: «rupia» e «rúpia»

Grandes pestes

Em letras garrafais, acabou de aparecer no Disney Channel, na série Phineas e Ferb, a palavra «rúpia», pretendendo referir-se à unidade monetária da União Indiana. Para piorar tudo, uma voz off pronunciou a palavra como grave. A rúpia é uma inflamação cutânea que produz crostas semelhantes a conchas que se transformam em úlceras. A rupia, por sua vez, é a unidade monetária da União Indiana. A pergunta é sempre a mesma: mas quem é que escreve estes disparates com que inquinam as nossas criancinhas?

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Emprego do infinitivo impessoal

Ah, depende…

Caro M. L.: isso é, não nego, o que afirmam algumas gramáticas, mas vá lendo os nossos grandes escritores, que usam com verbos sensitivos (ouvir, sentir, ver…) o infinitivo pessoal: «Em tal noite de folganças, bem comparante à da véspera do mártir Senhor São Sebastião, enquanto dava uma carouça, ou um pêto, enquanto metia, ou atrancava (termos do jogo), teria eu ouvido os velhos da freguesia asseverarem, com acenos de cabeça, que o raio que partira a Toural fora castigo do Céu» (Tomaz de Figueiredo. Procissão dos Defuntos. Segunda edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1967, p. 173).

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Advérbio «meio»


Se tivesse sido o rato...

No episódio de ontem de Martim Ratola, na RTP2, passou um documentário sobre as cobras-reais. Uma voz off disse que, quando a cobra está para mudar a pele, está «meia cega». Este é mais um erro de todos os dias, nas traduções, nos meios de comunicação social, nas escolas. Na expressão, «meio» aparece a modificar um adjectivo, «cega». É um advérbio. Ora, os advérbios não variam em género nem em número. No registo clássico, não era sempre assim. Camões, por exemplo, escreveu, referindo-se aos mouros na Batalha de Ourique: «Huns caem meios mortos…» (Os Lusíadas, III, 50).

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Neologismos italianos

La Parola del Giorno

Escreve hoje Ferreira Fernandes na sua crónica no Diário de Notícias: «Sintomaticamente, na semana em que Quaresma partiu, lançou-se o livro Parole Nuove dai Giornali, com os 4163 neologismos italianos dos últimos dez anos.» Fui atrás da notícia e descobri que a editora desta obra, a Treccani, tem uma base de dados com os neologismos. É mais uma ferramenta para os profissionais e um regalo para os curiosos.

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Pronúncia: «bacharel»

Vê lá

«Ó estudante de Coimbra, não digas bàcharel. Não digas bàcharel nem bàicharel, como às vezes te oiço dizer. Nenhum dos teus antecessores, desde Camões a António Nobre, pronunciou bàcharel» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 29).

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Definição: «brecagem»


Coisas da mecânica


      «Um carro eléctrico (o ‘city car’) que não produz emissões de dióxido de carbono, desdobrável, recarregável nos lugares de estacionamento e cujas rodas têm um sistema de brecagem capaz de fazer uma volta de 360 graus está a ser estudado no Massachusetts Institute of Technology (MIT)» («Um carro ideal para Lisboa», Diário de Notícias, 28.1.2009, p. 24).
      Sei que nem toda a gente, nem sequer condutores, conhece o termo «brecagem». A minha preocupação, neste caso, é a de os leitores que consultarem um dicionário neste verbete e não entenderem o que lêem. Pegue-se num dicionário da língua portuguesa da Porto Editora e leia-se: «Brecagem s. f. MECÂNICA. Ângulo horizontal máximo que as rodas directoras de um veículo podem descrever a partir da sua posição em movimento rectilíneo.» Hã? Talvez a definição da Autopédia, a que pertence a imagem, seja melhor: «Perímetro da menor circunferência que um automóvel consegue descrever. Um automóvel com uma boa brecagem consegue descrever círculos apertados.» Creio que no Brasil não se usa esta palavra, mas já os meus leitores habituais, como Paulo Araujo, Roberto de Barros Benévolo ou Gustavo Nagel, confirmarão.

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Léxico: «homejacking»

Já aparecerá outra

Depois do fenómeno do carjacking, que quase eclipsou as outras notícias, agora temos o homejacking, de que os meios de comunicação social andam a falar há meses. «A Polícia Judiciária do Porto anunciou a detenção de cinco homens pela presumível autoria de seis assaltos violentos em residências (homejacking), na zona de Matosinhos, e de um em estabelecimento, no Porto» («PJ desmantela quadrilha de assaltantes», Global, 3.2.2009, p. 7).
Sendo a definição de «assalto» «ataque súbito utilizando a força ou ameaças, com o objectivo de roubar», pergunto-me o que faz ali o «violento», mas não é disso que pretendo falar. Parece ser algo diferente de um simples assalto, o que justificará (?) o empréstimo: «É um tipo de criminalidade grupal organizada com grande capacidade de mobilidade por todo o País», ouvia-se ontem no Rádio Clube Português. Num portal belga, lê-se esta definição: «Le homejacking consiste à dérober un véhicule après en avoir volé les clés dans la maison. Les auteurs de ces vols ont recours à la violence et à des menaces. Lorsque les voleurs n’ont pas recours à la violence ou à des menaces, on parle de “vol de garage”.»

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Léxico: «fiação»

Imagem: http://img79.echo.cx/

Não são só têxteis

O historiador e colunista do Jornal do Brasil Paulo Passini escreveu ontem sobre as siglas que se encontram nas tampas de ferro das caixas de visita dos vários serviços no Rio de Janeiro. Foi neste artigo que li pela primeira vez a palavra «fiação» com a acepção (conjunto de fios que constituem a instalação eléctrica de uma habitação ou localidade) aqui usada: «As primeiras tampas referentes a serviços telefônicos são identificadas pela sigla CTB (Companhia Telefônica Brasileira), tradução do nome da empresa canadense Brazilian Telephone Company, em 1923. A história da telefonia brasileira havia começado bem antes, em 1877, com linhas particulares entre alguns privilegiados. Como a fiação era toda aérea, levaria algumas décadas até existirem cabos subterrâneos, e, conseqüentemente, tampas» («Siglas que não se perdem no espaço», Paulo Passini, Jornal do Brasil, 2.02.2009, p. A20).

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Acordo Ortográfico


Fora-da-lei

Amedrontado com as cominações da lei, aqui brandidas por um leitor, e repeso e contrito por abalar a coesão nacional, o desportivo Record decidiu não continuar a usar as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Ah!, não?... Afinal, estão aqui a dizer-me que não é nada disso: esqueceram-se foi de que os nomes dos meses passam, segundo as novas regras ortográficas (art. 1.º, b), da Base XIX), a grafar-se com inicial minúscula.

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