Nova ortografia

Protesto? Não parece.



      O semanário Independente de Cantanhede decidiu comemorar o seu 14.º aniversário com uma edição, a de 28 de Maio, totalmente redigida segundo o Acordo Ortográfico de 1990. «Com base nas regras», avisam, «apresentadas no livro “Atual — O novo acordo ortográfico”, de João Malaca Casteleiro e Pedro Dinis Correia, publicado pela Texto Editora.» Se é assim, o jornal poderá ter reproduzido alguns erros.
      É uma forma bonita de dar as boas-vindas às novas regras. Ah, não? Afinal, é um protesto: «A equipa redactorial teve a feliz ideia de apresentar a primeira edição de aniversário (a segundo será na próxima semana) com os textos escritos de acordo com as futuras regras de ortografia, saídas de um acordo que ocupou os tempos livres de muitos dos nossos agentes culturais e que, à luz do nosso entendimento, era de todo desnecessário. E se por acaso o não fosse, não consigo entender porque há-de ser a língua mãe a aproximar-se dos facilitismos brasileiros, afastando-se da sua própria raiz latina que lhe deu vida, a suportou e cultivou durante séculos. Não virão longe os tempos em que, escreva-se como se escreva, está tudo certo. É a própria Cultura a ceder aos interesses», escreve o director-adjunto do semanário, Lino Vinhal, no editorial. Como protesto não se percebe, pois o jornal continua, pese embora a adopção das regras do Acordo Ortográfico de 1990, legível. Como suspeitávamos…
      Nesta mesma edição, o Independente de Cantanhede decidiu também divulgar o seu «Pequeno Livro de Estilo», que contém regras que tomaram todos os jornais. Cito somente, pelo interesse que pode ter para os meus leitores, os «Princípios e regras gerais»:
      «Os textos do Independente de Cantanhede têm habitualmente antetítulo, título, entrada, “lead” e subtítulo. Um ou mais destes elementos podem, no entanto, ser omitidos voluntariamente, até porque, por página, apenas um texto apresenta entrada.
      Todos os textos, sem exceção, devem ser redigidos com clareza, simplicidade e exatidão, respeitando escrupulosamente as regras da Língua Portuguesa.
      Os textos de opinião devem ser bem identificados como tal.
      São assinados todos os textos que resultem do trabalho de recolha dos seus autores.
      Não são assinados os textos comerciais, nem os que resultem de comunicados de imprensa enviados à redação.
      Os números até nove deverão ser grafados por extenso e só a partir de 10 se usarão algarismos.
      As horas devem ser grafadas segundo a norma 15H30 e não 15.30h, 15.30 ou 15h30m.
      As datas são escritas por extenso. Hoje, por exemplo, é dia 28 de maio de 2008.
      Os cargos políticos ou administrativos são grafados com iniciais em caixa baixa, com exceção do Presidente da República.
      “Governo” escreve-se com maiúscula, mas “primeiro-ministro”, “ministro”, “secretário de Estado”, “presidente da Câmara” e as demais formas de tratamento escrevem-se com minúscula.
      As citações de declarações ou de documentos são grafadas entre aspas.»

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Vocativo e pontuação

A Lagoa de Sherman, de Jim Toomey, in Metro

Elementar




      Parece e é, de facto, elementar: o vocativo é isolado por vírgulas. Contudo, vejam como é de todos os dias o erro de faltar a pontuação. A indiciar que a pessoa que traduziu não sabe, eis que logo na primeira vinheta aos dois vocativos, em dois balões, falta a vírgula: «Que fazem no meu navio seus cães tinhosos?» «Aaaah! Não nos mate senhor pirata!» Grave, grave é a mesma deficiência encontrar-se em livros revistos. Alguns exemplos ao acaso:

«— Pronto Cat, agora podes trazer-nos umas cervejinhas “apimentadas”, se fazes favor» (Anjos em Sarilhos, de Annie Dalton. Difel, Lisboa, 2.ª ed., 2005. Tradução de Maria Amélia Santos Silva e revisão tipográfica de Sofia Graça Moura, p. 50). «— Porque não te sentas aqui um bocadinho Cat, ainda por cima hoje estás especialmente bonita… — disse Nick, em tom malandro» (idem, ibidem, p. 51).
«— Tu fizeste alguma coisa terrível, não foi Henrique? — perguntou o pai» (Henrique, o Terrível, Francesca Simon, tradução de Rómina Laranjeira. Gailivro, Vila Nova de Gaia, 2.ª edição, 2007, p. 17).

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Júri e jurado, de novo

Ler e pensar, e vice-versa

Por vezes, tenho a ingénua pretensão (só para mim, contudo, o que é uma forte atenuante) de que, depois de falar de determinado erro, já ninguém o dará. Ainda ontem, no programa Megaphone, da Sic Radical, ao falar de um novo reality show da BBC2, Maestro, a apresentadora, Sílvia Mendes, disse que «os concorrentes serão todas as semanas avaliados por um painel de júris». Ainda que, como apresentadora, se limite a ler o teleponto, não pode corrigir? E não tem, como comunicadora, obrigação de saber uma coisa tão simples? Se quiserem, digam-lhe como é: silviamendes.cc@kanguru.pt.

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O novo jornalismo

O resto é paisagem

      Na Antena 1, a concisão jornalística, para não lhe chamar outra coisa, está a atingir limites intoleráveis. António Macedo disse que se podia ir hoje ouvir a «escritora Lídia Jorge falar sobre Faulkner, William Faulkner, na FLAD». Não faltam aqui elementos essenciais à notícia? E que dizer de usar um acrónimo sem o desdobrar? Agora parte-se do princípio de que todos os ouvintes sabem que FLAD é o acrónimo de Fundação Luso-Americana? E nem se diz que a instituição fica em Lisboa? E a que horas se realiza a iniciativa? Ou é como no Cinema Olímpia, em sessão contínua? Ou, mais absurdo ainda, de cada vez que entrar uma pessoa na sala, Lídia Jorge reiniciará a palestra, correndo o risco de nunca a acabar? Valha-me Deus!
      A escritora Lídia Jorge irá proferir hoje, às 18.30, no auditório da Fundação Luso-Americana, em Lisboa (Rua do Sacramento à Lapa, 21), uma palestra dedicada à obra de William Faulkner, inserida no ciclo de conferências «Asas sobre a América/Wings over America», destinado a promover o encontro das literaturas portuguesa e americana. A palestra terá uma introdução feita por Laura Fernanda Bulger, Professora de Teoria da Literatura e Literatura Inglesa da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. A entrada é livre, mas, devido à capacidade limitada do auditório, convém fazer uma inscrição prévia por correio electrónico: fladport@flad.pt.


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Publicidade e gramática


Revisor, precisa-se

Quase nunca é por bons motivos que aqui falo de publicidade. O último anúncio a merecer reparos é dos CTT Expresso. Quem escreveu a frase? Foi o cliente? Foi a agência Strat? Ainda que tenha sido o cliente, já aqui expressei esta opinião, é obrigação da agência corrigir. «Se é importante conte com a nossa entrega.» A frase é bonita, sim, senhor. Mas a pontuação está errada. Estando a oração subordinada condicional («Se é importante») anteposta à subordinante («conte com a nossa entrega»), a vírgula antes da oração subordinante é obrigatória: «Se é importante, conte com a nossa entrega.» Quando falo destas questões, é vê-los de cenho carregadíssimo, como quem diz: «Vem para aqui este tipo ensinar isto que todos sabemos.» Pois é, mas quando se trata de escrever ou rever, esquecem-se da vírgula… Quanto às agências de publicidade, vê-se outra coisa: prescindem sempre de revisor, até que um dia o cliente prescinda delas.

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Topónimo: «Indocuche»

Não, não sou o único


      Sim, já tive oportunidade de escrever mais de uma vez «Indocuche». Estou, assim, a contribuir para a tradição. Rejeito, por isso, a forma Hindu Kush. «Escavou tesouros na Pérsia. Venceu o rio Congo e os picos do Hindu Kush» («Annemarie Schwarzenbach, a viajante sem fim», Alexandra Lucas Coelho, Público/P2, 23.5.2008, p. 6). Mas há mais alguém em Portugal, pergunta o leitor malévolo, a escrever como você escreve? Ah, sim, algumas. Clara Ferreira Alves, por exemplo: «O romance de Khaled Hosseini, O Menino de Cabul, descreve a atracção do país e da sua luz, da beleza selvagem da terra e da gente, com os rios límpidos onde dormem esqueletos de tanques russos, os desertos de vento e o perfil puro da neve no Indocuche» («A traição do Afeganistão», Clara Ferreira Alves, Expresso, 24.3.2008). Claro que algum leitor se irá dar ao trabalho de me dizer que Indocuche é menos exótico…

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O «p» de «abrupto»

Embrulha


      Já tem quase 15 dias, mas não quero deixar de falar na lição de Rui Tavares. «Vasco Graça Moura escreveu um poema celebrando o sexto aniversário do blogue de Pacheco Pereira, cujo título é Abrupto, e aproveitou a ocasião para lhe lamentar a queda do “p” pelo novo acordo ortográfico, jurando que havia de pôr luto se o abrupto ficasse abruto. É bonito, sim senhor. Mas não é verdade: o “p” em abrupto não é uma consoante muda e, pronunciando-se, continuará na palavra escrita» («Uma boa decisão», Rui Tavares, Público, 14.5.2008, p. 47).

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Neologismo: «botnet»

Muito bem

O bom senso vai imperando e a boa prática estende-se: os jornais já vão explicando os termos técnicos, estrangeirismos habitualmente, que usam: «A estes problemas juntam-se seis milhões de computadores infectados por botnets (códigos que permitem controlar os computadores, que são utilizados por redes criminosas para reenviar mensagens não solicitadas e cometer fraudes electrónicas), disse ainda [o director da Agência Europeia de Redes e Sistemas de Informação, Andrea Pirotti]» («UE teme terrorismo electrónico», Global, 28.5.2008, p. 3).

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«Baseado» = «estabelecido»

Assim o provo

      Ao analisar ontem, num grupo, o texto de Alexandra Lucas Coelho já aqui citado a propósito de outras matérias, uma pessoa disse-me categoricamente que a acepção do vocábulo «baseados», usada no texto a seguir, «não é português nem é usada em português». «Na Pérsia [Annemarie Schwarzenbach] faz arqueologia, pondera casar para se libertar da família, recebe inúmeras propostas, incluindo de um príncipe curdo, pensa primeiro no seu amigo Claude Bourdet mas acaba por casar com Claude Clarac, diplomata francês baseado em Teerão» («Annemarie Schwarzenbach, a viajante sem fim», Alexandra Lucas Coelho, Público/P2, 23.5.2008, p. 6). É uma acepção menos vulgar, convenho, esta do adjectivo-particípio «baseado». Das 3197 ocorrências do vocábulo registadas só no CETEMPúblico, e sem pesquisar toda a flexão, 63 são-no nesta acepção. Chegam? Não é tão pouco, afinal, não é assim? Convém falarmos sempre com conhecimento de causa.

  1. «Várias empresas que compravam diamantes às minas e os vendiam às companhias de lapidação tinham já formado um sindicato, baseado em Londres, para controlar a comercialização destas jóias.»
  2. «Richard Cornwell, analista militar no Instituto de África, baseado em Pretória, disse que Savimbi, pouco satisfeito com os termos do acordo de Lusaca, está cada vez mais próximo dos conselhos dos falcões da sua organização.»
  3. «Segundo o sindicalista Manuel Alves, terá havido uma adesão de 80 por cento entre o pessoal baseado em Penafiel (onde está sediada a empresa) e de apenas 40 por cento entre os motoristas que fazem as linhas da STCP; esta menor adesão, o líder sindical explica-a pelo facto de quase todos esses trabalhadores estarem contratados a prazo e temerem represálias da parte do empregador.»
  4. «Trabalho para o Ciciba, Centro de Investigação da Civilização Bantu, e estou agora baseado em Durban, na África do Sul, onde estudo a relação entre o antigo idioma egípcio e algumas línguas banto, em particular o zulu.»
  5. «Agora será a vez do Porto, que vai passar a ter um destes veículos baseado no Hospital de Santo António.»
  6. «A B92 está a concluir um acordo com o serviço de acesso XS4ALL, baseado em Amesterdão, para gravar digitalmente todos os seus programas e difundi-los na Internet 24 horas por dia.»
  7. «O Centro de Controlo das Doenças (CDC, baseado em Atlanta) publicou no início deste mês, directivas que recomendam ao pessoal da área da saúde mais exposto, como os cirurgiões e dentistas, que faça voluntariamente testes de despistagem.»
  8. «Elementos de milícias leais ao general Abdul Rashid Dostum (baseado no Norte do país), entraram ontem na capital, Cabul, para reforçar as suas posições, envolvendo-se em confrontos com as forças governamentais.»
  9. «Ontem, o «governo» birmanês no exílio, o NCGUB, baseado em Banguecoque, apelou às forças armadas para se juntarem à oposição democrática.»
  10. «Mas apareceu o interesse dos japoneses, o que me proporcionou uma interessante opção», comentou Lineker que se prepara para se despedir do futebol europeu após o Campeonato da Europa, embora só comece a jogar pelo seu novo clube — baseado em Nagoya — em Fevereiro de 1993.»
  11. «Ontem um dos principais movimentos da oposição iraquiana, baseado no Irão, afirmou que helicópteros iraquianos tinham efectuado na terça-feira raides aéreos contra várias localidades xiitas no Sul do país.»
  12. «Não posso prever como é que eles vão conseguir resolver esta tensão de uma forma mutuamente aceitável», afirmou uma diplomata baseado em Tirana.»
  13. «O governo da autoproclamada «República Sérvia da Krajina (RSK)», baseado em Knin, também emitiu na quinta-feira um comunicado onde reafirma a sua oposição à modificação do mandato da Forpronu.»
  14. «Antigo agente da CIA, Barnett reconheceu em 1980 ter trabalhado como espião ao serviço da União Soviética, quando estava baseado na Indonésia, entre 1976 e 1979.»
  15. «A convenção anual da BMG, importante grupo fonográfico baseado na Alemanha, que actualmente ocupa o segundo posto no top de vendas por companhias a nível europeu, decorreu de segunda a sexta-feira da semana passada, no Algarve.»
  16. «Com este clima não podemos concorrer», comentou Elizabeth Economy, especialista das questões chinesas no Conselho de Relações Internacionais, baseado em Nova Iorque.»
  17. «Reunidos em Melbourne no último fim-de-semana, representantes dos comités da Fretilin na Austrália e alguns «camaradas mandatários» da Comissão Directiva — caso de Mari Alkatiri, baseado em Moçambique, e Alfredo Borges Ferreira — decidiram pôr em marcha um processo de reorganização da «ala externa» do partido, cuja preparação ficaria a cargo dos referidos «mandatários» e de delegados dos comités.»
  18. «O banco baseado em Basileia tem uma perspectiva positiva em relação aos resultados líquidos previstos para o final deste ano, embora tenha anunciado a constituição de um montante elevado de provisões para cobrir empréstimos de cobrança duvidosa.»
  19. «Na sua edição de ontem, o “Al-Hayat”, um diário árabe baseado em Londres, cita declarações de Madani em que este se diz capaz de acabar com a espiral de violência na Argélia se o Governo responder de forma positiva ao seu apelo ao diálogo.»
  20. «Já chegou a Mogadíscio há mais de uma semana mas à noite, no oásis que é o palacete onde o MSF está baseado, Greg relata o seu dia passado no Hospital de Medina com a intensidade de quem acabou de aterrar na Somália.»
  21. «Tenho em vista estabelecer proximamente o secretariado internacional do CNRM [Conselho Nacional da Resistência Maubere], a ser baseado em Lisboa, que reuniria inúmeras personalidades timorenses.»
  22. «Na sua visita a este comando da de que depende o Iberlant, subcomando baseado em Oeiras, Gama esteve acompanhado do comandante do SACLANT, general John Sheehan.»
  23. «O Presidente Suharto criou um sistema de Governo altamente centralizado, que depende de um líder competente, um homem forte que dirija o sistema e que tenha o apoio do», disse à televisão da Reuters Bruce Gale, um analista político baseado em Hong Kong.»
  24. «A república já tinha proclamado a sua «soberania» em Junho do ano passado e o presidente do parlamento moldovo, baseado na capital Kichinev, afirmou no sábado que a proclamação seria um «primeiro passo» para a «reunificação com a Roménia.»
  25. «As negociações de Stormont, com a participação do Sinn Féin, levarão, segundo os líderes do CIRA / CAC, à criação de um parlamento baseado em Belfast, com predominância dos protestantes, o que consolidará o domínio britânico, em vez de acabar com ele.»
  26. «William Namakonya, 41 anos, foi apresentado como «membro do movimento chimuenje baseado nas antigas zonas da Renamo» e guarda-costas do político Ndabaningi Sithole, um veterano nacionalista de 76 anos, e líder da Zanu-Ndonga, um dos dois partidos zimbabueanos acusados de manter os chimuenjes em bases perto de Dombe.»
  27. «Esse programa — cujo nome oficial é Iniciativa de Defesa Estratégica (Ide) — propôs-se como um sistema de defesa supersofisticado, baseado no espaço, que seria capaz de localizar e destruir um ataque maciço de mísseis inimigos, recorrendo a armas de alta tecnologia, como canhões espaciais laser de raios P. Posteriormente, seria reconvertido e transformado numa versão mais modesta, de interceptores antimísseis baseados em terra.»
  28. «O consórcio ficará baseado em Hong-Kong e a estação de controle dos satélites será construída neste território ou em Macau.»
  29. «Numa reportagem publicada no jornal britânico “Daily Telegraph”, Peter Goodman — o correspondente norte-americano baseado em Jacarta e expulso na semana passada de Timor-Leste sob a alegação de que não possuía o necessário visto — escreve que Díli está dominada pelo temor das tropas indonésias.»
  30. «O assassínio, Francesco Mannoia, cumpria ordens da direcção executiva da mafia, e era chefe de um clã baseado em Londres.»
  31. «Tudo começou com a Guerra das Estrelas, o programa de desenvolvimento tecnológico lançado pelo presidente americano Ronald Reagan, com o objectivo de criar um sistema de defesa muito sofisticado, baseado no espaço, capaz de localizar e destruir um ataque maciço de mísseis inimigos usando nomeadamente armas laser espaciais.»
  32. «Um dos argumentos utilizados pelos EUA é o da importância da relação entre este comando Sul da Nato, baseado em Nápoles, e a 6.ª esquadra americana, estacionada no Mediterrâneo.»
  33. «À noite, coube aos jovens reconstituir, através de uma marcha, a mais importante mudança na vida religiosa de Santo António, quando o então Frei Fernando deixou o mosteiro de Santa Cruz para se juntar aos franciscanos, que se tinham baseado no ermitério dos Olivais.»
  34. «Os seus poderes serão transferidos para o novo governo federal, baseado em Sarajevo, e para os cantões individuais, inspirados no modelo helvético.»
  35. «Gustavo Gavíria Rivero “Extraditáveis fazem tréguas”. Os “Extraditáveis”, braço armado do cartel da droga baseado em Medellin, após a morte de Gustavo Gavíria braço direito do chefe do Cartel «Polícia morto na Colômbia.»
  36. «Karen Randall, relações públicas do grupo Spartanburg, baseado na Carolina do Norte, diz que a rede Denny‘s começou a oferecer hamburgers vegetarianos nos seus 1600 restaurantes em Janeiro.»
  37. «Segundo a Forpronu, a ordem oficial de cessar-fogo ainda não tinha chegado ontem ao 3.º corpo do Exército bósnio, baseado nas proximidades de Zenica, se bem que alguns dos chefes militares muçulmanos nesta região já tivessem conhecimento de que uma trégua tinha sido assinada pelos seus líderes políticos.»
  38. «Num comunicado difundido pelo diário árabe “El Hayat”, baseado em Londres, o GIA exige que as libertações sejam anunciadas na rádio e televisão argelinas e num jornal oficial.»
  39. «“Os restos mortais de Samir Assad encontram-se em Viena nas mãos do Comité Internacional da Cruz Vermelha”, afirmou à Reuter o porta-voz da Frente Democrática para a Libertação da Palestina, grupo baseado em Damasco.»
  40. «As aquisições do First Union poderão não ficar por aqui, correndo o rumor de que a instituição está interessada em adquirir um outro banco baseado na Nova Inglaterra.»
  41. «O pequeno grupo de Kelkal, baseado em Lyon, foi desmantelado, mas parece evidente que existem outros grupos do mesmo género, provenientes de zonas onde habitam muitos imigrantes de países muçulmanos.»
  42. «Entre 1940 e 1944, a sua voz tornou-se num dos principais elos de ligação entre a população francesa e o movimento de resistência França Livre, baseado em Londres e liderado por de Gaulle.»
  43. «A rota de colisão com Pequim começou em 1978, quando Ren Wanding fundou a Liga Chinesa dos Direitos Humanos, um grupo baseado na capital e que desapareceu poucos meses depois de a polícia prender a maior parte dos seus membros.»
  44. «Conhecemos a revelação de que o grupo LIPPO, baseado na Indonésia, contribuiu com milhões de dólares para a última campanha do Presidente Clinton.»
  45. «A Rússia, a Arménia, a Geórgia e o Azerbaijão chegaram na sexta-feira a acordo sobre a partilha igualitária de material militar do ex-exército soviético baseado no Cáucaso e sobre a sua transferência para os Exércitos nacionais dos Estados do Cáucaso, anunciou ontem o jornal “Izvestia”.»
  46. «O Papa, que ficará baseado em Havana durante os seus dias cubanos, chegará ao país a 21.»
  47. «Ontem foram detidos mais três indivíduos (o irmão de Yigal tinha já sido detido na véspera), um dos quais é Avishai Raviv, estudante de Filosofia na Universidade de Bar-Ilan e líder do grupúsculo radical Eyal, baseado no colonato de Kyriat Arba, nos arredores de Hebron.»
  48. «Nos próximos dois ou três anos, a agência de Jorge Sousa «tem desafios muito grandes», dos quais o mais importante parece vir a ser o “Rent-Cab Radical, um programa baseado no Gerês, com canoagem, passeios a pé, um circuito que abrange quase tudo”.»
  49. «Um comunicado do comando das forças sérvias baseado em Bileca, citado pela Tanjug, indicou que «importantes forças muçulmanas» se concentraram durante a noite de domingo para segunda-feira na linha da frente de Kalinovik e relatou «encarniçados» combates de infantaria.»
  50. «Mais tarde, já o condenado estava sentado numa das duas cadeiras da câmara de gás, passava pouco da meia-noite, chegou a informação de que Harry Pergenson, um dos 28 juízes do 9.º Tribunal de Apelação, baseado em São Francisco, assinara uma notificação a bloquear a execução de modo a proceder-se à revisão das provas que apontam o irmão de Robert, Danny, como eventual responsável pela morte de um dos adolescentes.»
  51. «“Kakanj está a partir de agora totalmente nas mãos do Exército bósnio dominado pelos muçulmanos» — revelou à France Presse um porta-voz do quartel-general da Força de Protecção das Nações Unidas (Forpronu) baseado em Kiseljak.”»
  52. «O Rali de Espanha/Catalunha está baseado na estância de Lloret de Mar e terá um total de 1606 km, dos quais 594 km serão de troços cronometrados.»
  53. «Um helicóptero baseado em Viseu e um avião pesado Catalina, estacionado em Seia, também participaram no combate às chamas.»
  54. «Esta denúncia foi feita em comunicado pelo CNRI (Conselho Nacional de Resistência do Irão), baseado em Paris, e criado em 1981 por Massud Rajavi e que se apresenta como “uma vasta coligação de organizações democráticas, de grupos e personalidades que representam um largo espectro de tendências políticas e que trabalham para a mudança do regime integrista no Irão”.»
  55. «É importante que todos os movimentos de emancipação e pró-democráticos da Ásia sintam que o problema de Timor-Leste é também um problema deles, referiu este dirigente da Fretilin que está baseado em Maputo, Moçambique.»
  56. «Os planos russos para a Tchetchénia começaram a correr mal quando Dudaiev, um general da força aérea soviética, com 47 anos, que tinha estado baseado na longínqua Estónia, regressou inesperadamente a casa e uniu o seu povo sob a bandeira da independência.»
  57. «O grupo de oposição xiita Conselho supremo da Revolução Islâmica, baseado no Irão, acusou ontem as forças leais a Saddam de terem executado cinco pessoas, sob a acusação de “simpatizarem com a oposição e trabalharem contra o [...].»
  58. «O bando rap 2 Live Crew, baseado em Miami, está nesse negócio de só usar vocabulário explícito e ostentar um sexismo abjecto porque isso irrita puritanos e censores, gera controvérsia e faz vender discos.»
  59. «“Não consigo imaginar que os passageiros e a tripulação tenham tido alguma hipótese de sobreviver”, afirmou Dimitri Polkanov, responsável do controle de tráfico aéreo baseado em Moscovo, em declarações à Reuter.»
  60. «Gallo também falou de um projecto baptizado «Immune Restauration», no qual ele e outros cientistas estão a colaborar com o “Project Inform” — um importante grupo de activistas da sida baseado em São Francisco.»
  61. «“Todos estão a pensar na vida pós-Ieltsin”, afirmou em Julho Rose Gottemoeller, especialista em assuntos russos do Instituto de Estudos Estratégicos baseado em Londres.»
  62. «O comando sul da (Afsouth), baseado em Nápoles, confirmava por seu turno a primeira missão de «presença aérea» da na Croácia, efectuada a pedido da ONU.»
  63. «Numa primeira reacção a este «crime odioso e imperdoável», o governo da guerrilha no exílio, baseado no Paquistão, evocou “a frustração» do regime das «marionetas russas” de Cabul depois as recentes “derrotas em Khost e outros lugares”.»


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«Morrer de repente»

Assim, de repente…

«Escreveu sobre tudo isto e ponderava viver em Portugal quando morreu de repente, de uma queda de bicicleta, na Suíça, durante a II Guerra Mundial. Annemarie Schwarzenbach tinha apenas 34 anos» («Annemarie Schwarzenbach, a viajante sem fim», Alexandra Lucas Coelho, Público/P2, 23.5.2008, pp. 4-6). Quando lemos «morreu de repente», não estamos à espera que se siga outra coisa que não uma explicação como, por exemplo, de que foi de ataque cardíaco, ou nada. «Morrer de repente» é o equivalente de «morte súbita»? É que a definição de «morte súbita», que é uma expressão técnica, é «risco que consiste na morte resultante de um colapso cardiovascular da máxima gravidade, decorrente de uma crise funcional irreversível do coração provocada pela sua paragem» (cf. Lextec-Léxico Técnico do Português). O exemplo, embora faça parte da área veterinária, é elucidativo e aplicável: «O seguro pecuário cobre obrigatoriamente os riscos de morte por doença ou acidente, morte súbita e abate de urgência.» Logo, Annemarie Schwarzenbach morreu de acidente, não se tratou de morte súbita. Ainda que tenha morrido no próprio local e, supõe-se, no próprio instante. Podia, isso sim, ter sofrido morte súbita quando andava de bicicleta, em cujo caso a morte não teria sido por causa da queda, antes o contrário.

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Futurista? Visionário?

A acepção (quase) perdida

Futurist é, em inglês, também, e com registos desde antes de 1850, «one who studies and predicts the future especially on the basis of current trends». Futurista, em português? Bem, não para todos os dicionários, que, em geral, se limitam a registar a acepção de seguidor do futurismo, a escola artístico-literária fundada no início do século XX por Marinetti. Contudo, o vulgaríssimo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, tão comum nas casas portuguesas como a aspirina, nas últimas edições (desde quando?) regista — e bem — esta acepção. Tal como também a regista o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa. Se não fosse assim, o que nos restava? O vocábulo «visionário»? Não são sinónimos. Este designa o indivíduo que julga ver coisas fantásticas, a pessoa criativa e clarividente. Aquele designa o que reproduz o futuro como ele é imaginado, particularmente no que diz respeito ao progresso científico e tecnológico. Nos Estados Unidos da América, há quem faça disto profissão.

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Pólo norte, com minúsculas

Minúsculas, por favor

      «A sonda “Phoenix” vai começar a desvendar a história da existência de vida em Marte, após ter poisado, na madrugada de ontem, no Pólo Norte do Planeta Vermelho e de ter aberto imediatamente os painéis solares que lhe dão energia» («A Phoenix renasce e poisa bem no Planeta Vermelho», Meia Hora, 27.5.2008, p. 8). Não se tratando de um verdadeiro topónimo, pólo norte se escreverá. Tal como pólo sul, equador, hemisfério norte e hemisfério sul.

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Assim Mesmo no VerveEarth


Tantos!

Como podem ver, já estou no VerveEarth. É um conceito interessante, sim senhor. Assim é que se vê quantos somos e onde estamos. Se formos vizinhos (e hoje comemora-se o Dia Europeu dos Vizinhos), até podem vir cá a casa pedir sal. Ou uma vírgula.

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Manual médico


O corpo, a mente

Já está disponível na Internet o Manual Merck, Saúde para a Família. Este manual médico, editado pela farmacêutica Merck Sharp & Dohme e traduzido para 18 línguas, demorou cinco anos a ser escrito e teve a colaboração de 200 autores. É mais uma ferramenta para tradutores e revisores.

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Semântica: «lésbica»

Safa, é lésbica!

      Recentemente, foi notícia que três habitantes da ilha grega de Lesbos (que tem 350 mil habitantes), no mar Egeu, interpuseram nos tribunais uma acção contra a organização Comunidade Homossexual e Lésbica Grega (OLKE), por esta usar na sua designação o vocábulo «lésbica». Um dos co-autores da acção, o activista e editor da revista Davlos, Dimitris Lambrou, ligado a um grupo nacionalista pagão, argumentou que a utilização do vocábulo por pessoas sem relação com o seu lugar de nascimento distorce o significado histórico da palavra.
      Ora, o vocábulo «lésbica» terá sido usado pela primeira vez no século XVI, quando o autor Pierre de Brantôme, também conhecido por Abade de Brantôme, fez uma compilação dos poemas amorosos entre mulheres num livro que intitulou As Lésbicas em referência a Safo de Lesbos, poetisa do século VII a. C., contemporânea e conterrânea do poeta Alceu. Nesta altura, no século XVI, as lésbicas também eram conhecidas como ficatrices ou tríbades, ou seja, mulheres que se esfregavam umas às outras.


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Aprender mandarim

Mandarim calmante

Perante a emergência da China como nova grande potência mundial, os Brasileiros não perdem tempo. Cada vez há mais interessados em aprender mandarim. «Na Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China (CCIBC), o curso já chegou a ter fila de espera e a procura aumentou cerca de 70 % de 2007 para 2008» («Aprendendo mandarim para dominar o mundo», Anna Luiza Guimarães, Jornal do Brasil, 25.5.2008, A17). Uma professora de Mandarim, Luysi Chao, diz que a «notícia de que o idioma não tem conjugação verbal sempre acalma os iniciantes». Pois, e o resto? Mas admito: se a conjugação verbal da nossa própria língua já é uma complicação para os falantes, o que não seria igual complexidade para os que estão a aprender uma língua tão estranha à nossa cultura.

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Vantagem injusta

E porque não?

Recentemente, alguém me dizia que o conceito de «vantagem injusta» era inconcebível. Ora, não soube então nem agora sei porquê. Por coincidência, soube que há dias Oscar Pistorius, o atleta sul-africano duplo amputado, declarava a propósito de o Tribunal Arbitral do Desporto entender, ao contrário da Federação Internacional de Atletismo, que as próteses da marca Cheetah Flex-Foot que usa não lhe concediam vantagem relativamente aos outros atletas: «Estes últimos dias foram muito stressantes. Este é um dos melhores dias da minha vida e espero que isto cale as teorias malucas que circularam acerca da minha injusta vantagem”» («Pistorius, o atleta com próteses nas pernas, pode correr nos Jogos Olímpicos de Pequim», Filipe Escobar de Lima, Público, 17.5.2008, p. 38). Não há, tanto quanto a minha inteligência abrange, qualquer contradição nos termos.

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Léxico contrastivo: «grotão»

No cu de Judas

«Em 2004, o programa ainda estava começando, e o que nós já observamos naquele ano foi que o PT finalmente conseguiu penetrar nos grotões e aumentou bastante sua cota nos municípios menores. Muita gente fala sobre como o Bolsa Família ajudou Lula nas eleições de 2006, quando o programa atingia dez milhões de famílias, mas agora já está chegando a 12 milhões. Então, provavelmente, o PT vai ter esse ano um resultado ainda melhor, penetrando mais nas cidades menores» (David Fleischer, em entrevista a Raphael Bruno. «“PT conseguiu entrar nos grotões”», Jornal do Brasil, 25.5.2008, p. A9). Grotão é o termo popular brasileiro para designar um lugar muito distante em relação aos centros urbanos. É o aumentativo de «grota», um vale, terreno entre duas montanhas (do italiano grotta, que também regista a acepção, literária e obsoleta, de luogo scosceso, rupe: andatevene su per questa grotta (Dante)).

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A necessidade de revisão

Erros? Gralhas? Ambos?

«Infelizmente, a versão portuguesa [da obra Um Oceano de Ar, de Gabrielle Walker, com tradução de Maria Emília Novo e publicada pela Europa-América] não faz justiça à inspirada prosa de Walker. As incorrecções gráficas abundam e nalgumas passagens a média é de uma por página — excedendo claramente o limite do tolerável» («A ciência do ar», Luís Tirapicos, Expresso/Actual, 10.5.2008, p. 41). Embora a expressão «incorrecção gráfica» não seja das mais claras (são erros? São gralhas?), um facto se percebe: a obra referida tem mais erros do que é admissível. Parece ser uma opção editorial a que só os leitores poderão pôr fim.

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Iliteracias

Tantas mortes

No Metro, dois homens falavam dos dez anos da morte de Francisco Lucas Pires, esse homem admirável e político como poucos.
— De que é que ele morreu mesmo?
— Acho que foi de morte natural.
— Morte natural? Mas não foi doença?
— Há aí uma conjunção a mais. De morte natural. Mais concretamente, ataque cardíaco.

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Iliteracias

Disparates transpirenaicos

Em reportagem, ontem, Daniel Ribeiro, o correspondente da Antena 1 em França, falava, a propósito da greve convocada pelos sindicatos, de se ter aberto a «caixa de Pandorra». Não acredito que tenha sido um lapsus linguæ.
Pandora (Πανδώρα, em grego), a que tem todos os dons, foi a primeira mulher criada por Zeus, que a ofereceu em casamento a Epimeteu. Pandora levou, como presente de Zeus, uma caixa (segundo outras versões, uma jarra ou ânfora). Epimeteu, apesar de avisado pelo irmão, Prometeu, de que não devia aceitar nenhum presente de Zeus, aceita que Pandora abra ou abre ele mesmo a caixa, saindo dela os males que ainda hoje atingem a humanidade: a velhice, o trabalho, a doença, a loucura, a mentira, o vício, o crime e a paixão.
Enfim, assim já temos mais uma rima para Andorra e modorra e *orra. Mais a sério: é imperdoável que um jornalista profira um disparate deste calibre.

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Selecção vocabular

Síndrome de Fritzl

É verdade: o verbo ter já teve mais cotação. Agora, a esmagadora maioria de quem escreve prefere o verbo possuir. Dizia o original: «They are the most likely to have a mother with a master’s degree and a father with a doctorate degree.» O tradutor quis que fosse: «São os que mais probabilidades têm de possuir uma mãe com um mestrado ou um pai doutorado.» «Possuir uma mãe»? Tenham dó!

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Ortografia: «malvisto»

Com os erros aprende-se

      «Com os erros aprende-se. O problema é que em Portugal o erro é mal visto» («PSD: Experiência governativa», Joaquim Jorge, Meia Hora, 20.5.2008, p. 9). Com os erros aprende-se: deve escrever-se «malvisto», como recentemente aqui escrevi. Até no âmbito da nova ortografia: «Emprega-se o hífen nos compostos com os advérbios bem e mal, quando estes formam com o elemento que se lhes segue uma unidade sintagmática e semântica e tal elemento começa por vogal ou h. No entanto, o advérbio bem, ao contrário de mal, pode não se aglutinar com palavras começadas por consoante. Eis alguns exemplos das várias situações: bem-aventurado, bem-estar, bem-humorado; mal-afortunado, mal-estar, mal-humorado; bem-criado (cf. malcriado), bem-ditoso (cf. malditoso), bem-falante (cf. malfalante), bem-mandado (cf. malmandado), bem-nascido (cf. malnascido), bem-soante (cf. malsoante), bem-visto (cf. malvisto)» (Artigo 4.º, Base XV (Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares) do Acordo Ortográfico de 1990).

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Dicionário de Calão

Valha-me Deus

      Onde tinha a cabeça a equipa que fez o Dicionário de Calão do Instituto da Droga e Toxicodependência? Até um leigo sabe que, dado o público-alvo, nunca poderia escrever coisas tão ineptamente estúpidas como definir como «betinho», «cocó» ou «careta» «aquele que não consome droga e, por isso, é considerado conservador, desprezível e desinteressante». Assim se gastam os dinheiros públicos.

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«Colóquio/Letras» em linha

Colóquio/Letras

A revista literária Colóquio/Letras, que publicou até agora cerca de 24 mil páginas e contou com o contributo de 1100 colaboradores, editada desde 1971 pela Fundação Gulbenkian, terá a partir de hoje as suas edições publicadas até ao ano 2000 disponíveis para consulta na Internet.

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Pontuação

Nem meio mas

Para um trabalho que estou a fazer, tenho estado a ler vinte obras infanto-juvenis. Muita coisa me surpreende, e desde logo o desleixo com que são escritas, traduzidas e revistas. É, contudo, uma surpresa relativa, pois sabia, temia, que não fossem mais bem revistas, traduzidas ou escritas que todas as outras obras. Numa que estou a ler agora, Henrique, o Terrível, de Francesca Simon (tradução e adaptação de Rómina Laranjeira, publicada pela Gailivro, Vila Nova de Gaia, 2.ª edição, 2007), o uso da pontuação em orações em que está presente a conjunção coordenativa adversativa mas é completamente errada. O erro parece dever-se, em parte, à ideia ainda persistente de que a vírgula corresponde a uma pausa. Dez exemplos:
  1. «Mas, Henrique, o Terrível, pensou: “E se eu fosse perfeito? Como seria?”» (p. 10).
  2. «— Mas, eu estou sentado correctamente — respondeu o Henrique» (p. 18).
  3. «O pé do Henrique queria acertar no Pedro. Mas, lembrou-se que devia ser perfeito e continuou a comer» (p. 20).
  4. «Mas, o Henrique baixou a cabeça» (p. 23).
  5. «Mas, o Henrique não obedeceu» (p. 25).
  6. «— Mas, já fui para lá umas catorze vezes — lamentou-se o Pedro. — Por favor, posso ser o Capitão Gancho?» (p. 50).
  7. «Mas, o pai não parou…» (p. 77).
  8. «— É um bocadinho distante… — disse o Pedro. — Mas, não me estou a queixar… — acrescentou, de imediato» (p. 81).
  9. «Mas, os chuviscos transformaram-se em aguaceiros e começou a soprar um vento mesmo forte» (p. 88).
  10. «— Mas, está a chover torrencialmente — constatou o Henrique» (p. 90).



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Antropónimos

Fiquei profundamente decepcionado.
Sempre achei que os comunistas eram excelentes pedreiros.
Como é que eles chegaram ao poder?

Millôr Fernandes sobre a queda do Muro de Berlim

Melhor assim, Millôr


As vicissitudes das palavras, dos substantivos comuns, são desconcertantes. As dos nomes próprios, ainda mais. Pela entrevista que Millôr Fernandes (jornalista, escritor, humorista, dramaturgo, artista gráfico, desenhador e tradutor autodidacta de Shakespeare e Molière) dá hoje ao Jornal do Brasil, ficamos a saber que o nome que a família lhe destinara era outro: Milton. «O escrivão se atrapalhou no momento de redigir a certidão de nascimento do filho dos Fernandes. E o nome Milton ­— desejado pela mãe —­ ganhou estranhos contornos na grafia confusa do funcionário público. O traço de corte ficou além do T ­— que virou um L ­— e se transformou num acento circunflexo. O N quadrado ficou parecendo um R. E assim eternizou-se a variação esdrúxula que, de acordo com o próprio, foi decisiva para a sua formação. Adotado definitivamente desde os 17 anos, o nome resume, por seu exotismo e singularidade, a obra de um dos artistas mais desconcertantes do país» («Um nome a zelar. Millôr… e suas várias assinaturas», Jornal do Brasil, 18.5.2008, p. B8).

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Assim que + conjuntivo

Agora e no futuro

«Depois de muita polêmica, o parlamento de Portugal aprovou ontem o novo acordo ortográfico da língua portuguesa, que unifica a forma como é escrito o idioma nos países lusófonos. Assim que obter a sanção do presidente Cavaco Silva, que já se mostrou favorável ao acordo, o país terá seis anos para se adaptar às novas normas» («Portugal aprova acordo ortográfico», Juliana Krapp, Jornal do Brasil, 17.5.2008, p. A5).
Nada vi, ao consultar gramáticas de autores brasileiros, que autorize o uso do infinitivo «obter» neste tipo de oração. Entre nós, é clarissimamente incorrecto. Com a locução conjuncional temporal assim que numa oração que se reporte ao futuro, o modo verbal exigido é o conjuntivo (subjuntivo, no Brasil). No caso, futuro do conjuntivo. A sanção do presidente Cavaco Silva não é uma eventualidade, uma possibilidade? E não é o modo conjuntivo que o expressa? Parece uma frase mal traduzida do inglês, língua em que o Simple Present é usado pelo nosso futuro do conjuntivo: When you come to my house, I’ll show you the books. Com verbos regulares, a ignorância de quem escreve nem se nota nestes casos…
Quanto ao Acordo Ortográfico, os Brasileiros terão, depois da assinatura, a 1 de Janeiro de 2009, da minuta preparada pela Comissão de Definição da Política de Ensino, Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa (Colip), três anos para se adaptarem. Contudo, a partir de hoje, todos os textos publicados pela Academia Brasileira de Letras já seguirão a nova norma. Até ao fim de 2008, sairá a 5.ª edição do Vocabulário da ABL, já com 8 % a 10 % das 400 mil palavras que o compõem adaptadas à nova grafia.

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Senão e se não

Não há bela

      «Mudando o nome e o país, geralmente são da Nigéria, e com as histórias, senão parecidas, sempre emocionantes» («Ao computador todos temos cara de tansos», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 20.4.2008, p. 11). Nesta frase, o se é, na verdade, conjunção subordinativa condicional que introduz uma oração na negativa, com o verbo subentendido. Logo, separada do advérbio não: «Mudando o nome e o país, geralmente são da Nigéria, e com as histórias, se não parecidas, sempre emocionantes.» Frase que podia ter esta redacção: «Mudando o nome e o país, geralmente são da Nigéria, e as histórias, se não são parecidas, são sempre emocionantes.» Ou estoutra: «Mudando o nome e o país, geralmente são da Nigéria, e com as histórias, se é que não parecidas, sempre emocionantes.» O único elo entre se não e senão, tirando casos de fronteira, é a homofonia.

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Regressar à Terra

Os coveiros da língua

As parangonas do Meia Hora levantaram o ânimo a toda a Oposição: «INE obriga Governo a regressar à terra». Mas será mesmo assim? Se andava na estratosfera, o Governo terá sido obrigado a regressar à… Terra. Regressar à terra não anda longe de descer à cova ou baixar à terra, que é ser enterrado. E esta foi mais uma pazada.

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Milhões e biliões, outra vez

Prince Charles said

Uma notícia publicada hoje no gratuito Meia Hora deixou-me muito preocupado. Mais concretamente foi um destaque do artigo «Príncipe Carlos quer travar abate de árvores tropicais» (Margarida Caseiro, Meia Hora, 16.5.2008, p. 8) o que me deixou de rastos. Pode ler-se aí: «Tropical 1.4 [sic] biliões. Pessoas dependentes da floresta tropical, que terão de ser ajudadas se o corte de madeira for proibido.» Isso não é muita gente? Fui espreitar, aterrado, o relógio da população mundial: 6 667 997 711. Até ordem em contrário, ninguém pode morrer nos próximos tempos, até perfazer o número lançado para cima do leitor.

«The trouble is the rainforests are home to something like 1.4 billion of the poorest people in the world» (in BBC).

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Intervindo

Simples, simples…


      Quando chamo a atenção para questões aparentemente tão comezinhas como esta, por algum motivo o faço. Ainda hoje revi um texto em que se podia ler: «Em Abril, a Santa Sé já tinha intervido na 30.ª Conferência Regional da FAO para a América Latina, em Brasília (Brasil).» Ora, já devia estar na cabeça de toda a gente que o verbo intervir se conjuga (exceptuando algumas particularidades que não interessam ao caso) como o verbo vir. Logo, o particípio passado é intervindo. Como vindo. Mas são coisas simples...


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Pronúncia: «fretado»

Menos aberto

No noticiário da Antena 1, ao meio-dia, o jornalista, a propósito da recente polémica de membros do Governo terem fumado durante um voo para a Venezuela, disse que era um avião /frétado/. Mas não. Em «frete», já o escrevi aqui um dia, o e é (maioritariamente) aberto porque é sílaba tónica; em «fretado» não é sílaba tónica. O mesmo erro acontece, e com mais frequência, na pronúncia da palavra «drogado».

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Pontuação

Ah, a pontuação…

«O futebolista português Luís Figo desmentiu que tenha morto um gato preto como noticiou um diário italiano, exigindo um pedido de “desculpas”, caso contrário levará a publicação a tribunal» («Figo acusado de ter morto gato», Global, 12.5.2008, p. 3). «Como noticiou um diário italiano»: oração subordinada adverbial conformativa. Como está intercalada, a vírgula é obrigatória. Sem vírgula, seria uma oração adjectiva (em que o como seria parafraseável por «(d)o modo que») e o sentido bem diferente. Sim, uma vírgula pode ter consequências sintáctico-semânticas desta importância.

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Biblioteca Digital


Pelos seus dedos

      Talvez achem, como eu, que a Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto tem documentos que vale a pena conhecer.


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«Trabalhador social» ou «ongueiro»?

É fácil

Ninguém como os Brasileiros para afeiçoar a língua ao nosso particular modo de dizer. Até nós, Portugueses, o reconhecemos. «Vestidos de T-shirt encarnada e boné preto, estes “ongueiros” (trabalhadores de ONG, como lhe[s] chamam os brasileiros), [sic] começaram a retirar os habitantes de Chirembwe, no dia 14 de Janeiro» («Expulsos pelo Zambeze», Carla Alves Ribeiro, Visão, 7.2.2008, pp. 70-71).

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«O Dicionário dos Dicionários»

Onde está?

Algum leitor encontrou, nas suas deambulações, O Dicionário dos Dicionários, de autoria de Dieter Messner, professor na Universidade de Salzburgo, na Áustria? O objectivo do autor é o de compilar, nos volumes que for necessário, e estão previstos 50, todos os verbetes da língua portuguesa, da maneira como cada um foi explicado nos principais dicionários da língua.

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Norma-padrão e erro

Nem pensar

Há, mesmo entre professores, a crença de que a evolução da língua tudo desculpa e tudo justifica. É um erro. Enquanto houver uma norma-padrão — ainda que actualmente promanada pelo meio de difusão que é a televisão, por natureza menos cuidado —, haverá desvios e erros. Perguntaram-me recentemente se a construção «a gente vamos» não está correcta. Claro que não. «A gente vamos» está por «a gente vai». Contém um erro de concordância. Na análise de Maria Helena Mira Mateus e Esperança Cardeira, este erro é «causado pela falsa impressão de que a gente é plural e pelo paralelismo com a construção nós vamos» (in Norma e Variação, colecção «O Essencial sobre Língua Portuguesa», Caminho, 2007, p. 41).

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Relativas cortadoras (I)

Não cortes

Jornal Nacional da TVI, ontem, debate entre Bagão Félix e Carvalho da Silva. À pergunta de Manuela Moura Guedes sobre se concordava com as recentes alterações ao Código de Trabalho, de que foi o mentor, Bagão Félix respondeu: «Não tenho uma visão maniqueísta: há coisas que concordo e coisas que discordo.» A eliminação, nesta última oração — oração relativa, mais especificamente denominada relativa cortadora, aquela em que ocorre um “corte” do sintagma nominal relativizado e da preposição que precede o pronome relativo —, das preposições pode atender a um princípio de natureza pragmático-discursiva e está abundantemente estudado, sobretudo no Brasil, onde o fenómeno começou ainda no século XIX. Na oralidade, vai atingindo (?) o estatuto de regular. Na escrita, incide mais sobre outros verbos, como o verbo gostar (* Este é o livro que eu mais gosto).
Voltemos à frase de Bagão Félix. Na oralidade, a propensão para a agramaticalidade neste tipo de oração é ainda propiciado pelo facto de estarmos perante dois verbos com regência diversa: concordar rege a preposição com; discordar rege a preposição de. Maria Helena Mira Mateus e Esperança Cardeira, na obra que tenho vindo a citar nos últimos dias, Norma e Variação (Caminho, 2007), escrevem: «Ora em 265 orações relativas analisadas em discursos de rádio, televisão e imprensa, 74 (portanto 28 % do total) têm supressão da preposição pedida pelo verbo. […] Esta alteração sintáctica aproxima as duas variedades do Português (Europeu e Brasileiro) numa questão que tem sido apresentada, nas gramáticas tradicionais, como uma das diferenças mais notórias entre ambas» (pp. 70-71).

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Léxico: «borregar»

Abortar, pois



      «O avião já rolava na pista quando surge a ordem de “borregar”. O piloto aceita a ordem e acciona o sistema de travagem brusca, para susto dos passageiros e evidentes danos no aparelho que por ali teve de ficar, desembarcando os passageiros para uma penosa espera de 12 horas pelo avião que saído de Luanda os foi buscar a S. Tomé…» («Mandou parar avião para poder embarcar», Diário de Notícias, 4.5.2008, p. 31). Neste sentido — abortar a descolagem —, nunca antes vi o verbo borregar ser usado. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista para o verbo borregar: «AERONÁUTICA abortar a aterragem». Num relatório de incidente do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves, lê-se: «O aluno-piloto fez uma volta de pista e no momento da aterragem decidiu “borregar”.» O Novo Dicionário da Língua Portuguesa, da Texto Editores, o tal que está «conforme Acordo Ortográfico», regista: «(Aeron.) corrigir uma aterragem malsucedida». Suponho que com corrigir se pretende dizer «abortar».

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Léxico: «isoacrónimo»

BB, por exemplo

O leitor João P. Martins quer saber o que são isoacrónimos. São siglas dobradas e usam-se para designar pessoas famosas cujo nome e apelido têm a mesma letra inicial: BB por Brigit Bardot ou Baptista-Bastos, HH por Helenio Herrera, RR por Robert Redford, TT por Torquato Tasso, etc.

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«Tombado» e «queijo-de-minas»

Bem feito

«Queijo-de-minas, gostoso e tombado» (Pedro Vieira, Jornal do Brasil, 8.5.2008, p. A6). Qual é o português que não se sente perplexo com um título destes? «Queijo-de-minas»? «Tombado»? Vá lá que, mesmo composto, o queijo é queijo: «Queijo de massa branca, crua e homogênea, baixo teor de gordura e cuja consistência varia conforme esteja mais ou menos curado, muito consumido no Brasil» (Aulete Digital). Os Brasileiros têm ainda o queijo-do-reino e, só de nome, o queijo-de-ovos, que é um doce não queijoso ou caseoso. Portugueses e Brasileiros temos os queijinhos-do-céu. E tombado não porque caiu do cincho sobre o trincho, mas porque foi «colocado sob a guarda do governo para proteção e conservação», na definição do citado dicionário.

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Informação


Curso de Técnicas de Revisão

Entre 13 e 30 de Maio, vou estar novamente, ao final da tarde, na Booktailors, ao Chiado, como docente de Técnicas de Revisão (segundo curso de formação inicial). Se quiser aparecer (há lanchinho no intervalo), inscreva-se. Mais informações aqui.

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Ascendente e descendente

Altos e baixos

      Todos conhecemos colegas na escola que confundiam direita com esquerda. De alguma maneira, também parece ser dislexia o que levava outros colegas a confundirem ascendente com descendente. Nada de muito grave quando se tem 8 ou 10 anos. Era até divertido. Grave é que jornalistas confundam os conceitos, como se vê neste excerto de um artigo: «Espécie de enfant terrible da vida pública britânica da última década e meia, as raízes de Boris [Johnson, recém-eleito mayor da cidade de Londres] estão na Turquia. Basta recuar até final do século XIX para encontrar descendentes turcos na sua genealogia, membros da administração de um império otomano crepuscular» («O jornalista que quer chegar ao topo do mundo», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 4.5.2008, p. 37). Descendentes turcos de Boris Johnson? O homem tem decerto algo de muito especial, mas ainda não consegue fazer tal. Digo eu. De resto, o artigo a que pertence o excerto tem erros crassíssimos de pontuação. Está a fazer falta um curso somente sobre pontuação, não acham?

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Disjunção da preposição e do artigo

Será, será

«Uma mulher de 44 anos entregou-se ontem à polícia, em Wenden/Olpe, na Alemanha, depois do filho, de 18 anos, ter descoberto os restos mortais dos seus três irmãos, três bebés que a mãe admite ter morto em três ocasiões separadas na década de 1980» («Alemã confessa ter morto três filhos», Global/24 Horas, 6.5.2008, p. 14).
A frase acima está correcta? Para o falante comum da língua, sim. Para as autoridades da língua, do ponto de vista da norma-padrão, não. Ou, pelo menos, oferecer-lhe-á matéria para alguma reflexão. Melhor: vou incluir-me, por um momento, nesse círculo restrito de falantes e antes direi: oferecer-nos-á.
Determina a Base XXXIV do Acordo Ortográfico de 1945: «Abolição do apóstrofo nas dissoluções gráficas de combinações da preposição de com formas do artigo definido, pronomes e advérbios, quando estas formas estão ligadas a uma construção de infinitivo. (Exemplo: Em virtude de os nossos pais serem bondosos.)» Logo, face à norma actual, a notícia acima devia estar redigida assim: «Uma mulher de 44 anos entregou-se ontem à polícia, em Wenden/Olpe, na Alemanha, depois de o filho, de 18 anos, ter descoberto os restos mortais dos seus três irmãos, três bebés que a mãe admite ter morto em três ocasiões separadas na década de 1980.» O falante médio fala e escreve desta maneira, com esta correcção? Na verdade, não, o que nos obriga a aprofundar mais a questão.
A este propósito, escreveu o Prof. Vasco Botelho de Amaral: «Disciplinadamente, ao anotar a base XXXIV do Acordo, exemplifiquei [em editorial de A Voz, n.º de 21 de Julho de 1945, quando se estava a preparar a Conferência Ortográfica]: “De e o ligam-se em do. Porém, se o artigo ou o pronome o se referem a um infinitivo seguinte, a regra actual manda separar a preposição do artigo ou do pronome. Portanto: 1. O livro do rapaz estragou-se com a chuva. 2. O prejuízo de o livro do rapaz se estragar com a chuva é grande.”
Isto, repito, expliquei eu disciplinadamente. Mas o que posso agora dizer, com objectividade de crítico, é diferente.
Na verdade, continua a ser obrigatório grafar:
“Em virtude de os nossos pais serem bondosos.”
Gramaticalmente, a disjunção do de e do os, em duas palavras, é compreensível. Mas na expressão natural há muita coisa que, não sendo gramatical, é idiomático.
A maior parte das pessoas cultas, tanto a falar como a escrever, ligam de os em dos, e escrevem: “Em virtude dos nossos pais serem bondosos.”
Ora, esta habitual ligação devia ser considerada correcta, pois, além de constituir uma irreprimível tendência de ligação fonética, é paralela, até, a um jeito tradicional (clássico e popular). Reparem os filólogos nisto:
Os clássicos, em vez de por o ver, escreviam “pelo ver”, apesar de hoje se ter por mais canónica a disjunção — por o ver. O povo dos nossos dias faz o mesmo. Paralelamente, quase toda a gente, apesar do que estipula a Lei (e eu afianço que tenho lido até em artigos de professores a infracção), liga a preposição de ao artigo o, a, os, as, mesmo naquelas frases em que a legal grafia (aliás, a legal sintaxe) determina de o, de a, de os, de as.
Erro! exclama-se… Será, será; mas é um erro tão frequente, tão teimoso, tão espontâneo, que amanhã a cláusula ortográfica abrigadora desta fusão será bem recebida por todos. É que o hábito está a forjar uma invencível forma de dicção e, consequentemente, de escrita social» (in Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, pp. 381-382).
Ficaria a nossa autoridade satisfeita com a correcção introduzida na frase? Não. Segundo a norma-padrão, usa-se a forma regular (ou fraca) dos particípios duplos na constituição dos tempos compostos da voz activa, ou seja, acompanhada dos auxiliares ter ou haver. Logo, a nossa autoridade exigiria ainda outra emenda: «Uma mulher de 44 anos entregou-se ontem à polícia, em Wenden/Olpe, na Alemanha, depois de o filho, de 18 anos, ter descoberto os restos mortais dos seus três irmãos, três bebés que a mãe admite ter matado em três ocasiões separadas na década de 1980.» Mais uma vez, contudo, se verifica que a tendência é contrária à norma, estando a cair em desuso a forma regular dos particípios de certos verbos, em que se incluir o verbo matar, acompanhada do verbo ter. Assim, é frequentíssimo ver ter pago, ter gasto, ter limpo, ter ganho, ter entregue, ter salvo, ter morto, ter aceite, etc. Todavia, como afirmam Maria Helena Mira Mateus e Esperança Cardeira na obra Norma e Variação, da colecção «O Essencial sobre Língua Portuguesa» (Caminho, 2007), a norma linguística não é democrática.

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Fluído e fluido, outra vez

E porquê?


      «O vírus é transmitido por contacto directo com secreções do nariz e boca, saliva, fluídos e bolhas, além de fezes de infectados» («País em alerta por vírus que mata sobretudo crianças», Meia Hora, 5.5.2008, p. 8). Nem o substantivo, como é o caso, nem o adjectivo levam acento agudo. Como a vogal tónica é o u, o i não leva acento. Já a forma com acento agudo, «fluído», é o particípio passado do verbo «fluir» (como puído, saído, caído, etc.) Como é óbvio, a prosódia destas formas (nominal e verbal) é diferente. Um exemplo em que se usa, respectivamente, o substantivo e o particípio passado: «O azeite, o precioso fluido mediterrâneo, tem fluído bem, apesar de um pouco coalhado por causa do frio.»



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Suma ≠ súmula

Os melhores

Bem sumulado, o caso conta-se assim: dois alunos de Engenharia Informática da Universidade de Évora foram escolhidos para participar no Google Summer of Code 2008, uma iniciativa da Google para estimular o desenvolvimento do software livre. Um deles, Luís Rodrigues, que participa pela segunda vez, vai desenvolver novas funcionalidades para o Moodle, uma plataforma de apoio à aprendizagem, e afirmou ao Público: «É de súmula importância, uma vez que nos abre muitas portas.» Com este domínio do português, só nos resta ter esperança de que o seu trabalho não passe da programação informática.

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Léxico: «oráculo»

Mais uma revelação

«Às vezes, pergunto-me se quem escreve os oráculos (as barras em movimento) dos noticiários tem a noção do que está a escrever e para quem» («O oráculo da cultura», Jorge Mourinha, Público/P2, 4.5.2008, p. 18). Numa deliberação da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), leio o seguinte: «Durante o lançamento realizado pelo pivô do jornal, lê-se no oráculo que acompanha a emissão da peça o seguinte texto: “Luís Marques Mendes desmente Agostinho Branquinho”» (deliberação 1/DR-TV/2007).

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Pontuação nas subordinadas

Vá lá, revejam

«Quando Sócrates começou o seu programa de “reformas” seduziu e comoveu a direita» («Cair pelo buraco», Vasco Pulido Valente, Público, 2.5.2008, p. 48). O leitor minimamente atento sabe que este é um erro muito comum, tanto nos livros como nos jornais: pontuação errada em algumas orações subordinadas adverbiais. Na frase de Vasco Pulido Valente, que começa com uma oração subordinada adverbial temporal, a vírgula é necessária depois do vocábulo «reformas». Porque não emendam os revisores? Porque estão inseguros, porque é um autor conhecido, porque já souberam o ano passado, mas hoje estão esquecidos.

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Toscana

Não, não

      Desta vez, foi Eduardo Pitta que escreveu «Toscânia». Topónimo mal traduzido, já aqui o vimos várias vezes, do inglês Tuscany. Em português é Toscana. «É praticamente impossível descrever as mil peripécias da aprendizagem de Buford (a qual incluiu uma viagem à Toscânia para aprender os segredos da “pasta”), os seus momentos de tensão, humor e júbilo, os mexericos, as duras regras que teve de vencer para passar de escritor a cozinheiro» («O escravo», Eduardo Pitta, Público/Ípsilon, 2.5.2008, pp. 40-42).


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Uso dos parênteses

De outiva não vamos lá


      Há algum tempo, escrevia um anónimo o seguinte comentário: «Invoco, outra vez, o lema deste sítio e a condição de simples “tocador de ouvido” para dizer que não parece correcto fazer de um parêntesis um período. Ele há-de pertencer ao período cujos termos são clarificados pelo que for dito no parêntesis.» A frase era minha e o contexto era o seguinte: «Muito estranho, cara Luísa Pinto, que a professora de Português do seu filho tenha dito que a frase estava incorrecta. (Ou não estranho nada, isto é uma figura de retórica.)» O leitor já antes tinha deixado, noutro post, um comentário semelhante a uma frase estruturalmente igual. Claro que eu sabia que era correcto, e por isso assim escrevera. Sabia, até, que o consultor do Ciberdúvidas D’Silvas Filho era da mesma opinião. Ainda assim, consultei a Academia Brasileira de Letras, que ontem me respondeu: «Não há restrição quanto a isso. Leia em boas gramáticas sobre os diversos empregos dos parênteses. É interessante.» Conselho que passo, inteirinho, e legitimamente, para o leitor anónimo. E da próxima vez, já sabe: estude e depois diga qualquer coisa.

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Ortografia: «malvisto»

Bem visto

      Lê-se na edição de hoje do Público: «Da “Áustria dos nazis, onde todos se espiavam e denunciavam”, passou-se para uma Áustria onde olhar para a casa do vizinho, querer saber o que se passa com ele ou denunciá-lo é “muito mal visto”, diz Max Friedrich, da Universidade de Viena, médico de Kampusch, ao El País» («O homem que manteve a filha em cativeiro 24 anos remeteu-se ao silêncio», Andreia Sanches, 1.5.2008, p. 20). Dizia a notícia do El País: «La historia reciente del país ha agravado esta tendencia según Friedrich, que recuerda la “Austria de los nazis, en la que todos eran espías y se denunciaban unos a otros, con el resultado de que en la sociedad de hoy, la denuncia y el espionaje son asuntos muy mal vistos”» («Un país sentado en el diván», J. Gómez, El País, 30.4.2008). Em espanhol, «mal visto» é uma locução adjectival, tal como «bem visto». Em português, é uma só palavra, que é um adjectivo: malvisto. No caso, no grau superlativo absoluto analítico: muito malvisto.

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