«Réveillon»

Despertar

      Na sua coluna semanal no jornal O Povo, o professor Pasquale Cipro Neto aborda a questão dos galicismos, lembrando a obra Palavras sem Fronteiras, de Sergio Corrêa da Costa, em que o autor coligiu algumas palavras e expressões universais que foi encontrando, ao longo da vida, em jornais, livros e documentos. Pergunta Pasquale Cipro Neto: «Sabe qual é o idioma campeão, ou seja, aquele que mais palavras e expressões espalhou e perpetuou pelo mundo?» O inglês, talvez? «Nada de inglês, não.» O latim, então? «O idioma campeão é o francês; o inglês nem vice é. Acredite: correm pelo mundo muito mais palavras e expressões francesas do que inglesas.» Uma dessas palavras, que dá título ao texto que estou a citar, é o universal «réveillon», que vem do francês e pertence à família do verbo réveiller, «acordar, despertar». Devemos, por exemplo, despertar, contrariando o provérbio francês Il ne faut pas réveiller le chat qui dort, para o facto de ser o alemão, e não o inglês, a língua da União Europeia com maior número de falantes nativos. A União Europeia tem 23 línguas oficiais: alemão, búlgaro, checo, dinamarquês, eslovaco, esloveno, espanhol, estónio, finlandês, francês, grego, húngaro, inglês, irlandês, italiano, letão, lituano, maltês, neerlandês, polaco, português, romeno e sueco.

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Léxico contrastivo: «gato»

É crime

      «A Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Nova Cedae) retomou, neste fim de semana, a Operação Gato Bronzeado, na Barra da Tijuca. Segundo a companhia, com a chegada do verão ocorre um aumento do consumo de água, gerando assim uma proliferação de ligações clandestinas na região. Sem precisar um número específico para a Zona Oeste, a Cedae anunciou que a arrecadação recorde de U$ 1 bilhão, em 2007, teve a caça aos gatos e o combate à inadimplência como dois dos principais fatores para alcançar esta marca» («Combate aos ‘gatos’ enche o cofre», Eduardo Tavares, Jornal do Brasil, 30.12.2007, p. R3). «Gato» é termo da gíria para ligação eléctrica ilegal, e, por analogia, qualquer ligação ilegal, como a de abastecimento de água. Entre nós, diríamos que se tratava de uma baixada ou ligação clandestina ou ilegal.

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Tradução: «evolutionary»

Darwin

      O leitor V. Mendonça pergunta-me como se deve traduzir o termo inglês evolutionary. Boa pergunta. Nas traduções, já o tenho visto traduzido indiferentemente por «evolucionista» e por «evolucionário». Mas mal. «Evolucionista» é o que diz respeito à teoria chamada evolucionismo. Assim, Stephen Jay Gould e Jared Mason Diamond serão biólogos evolucionistas e não biólogos evolucionários, por exemplo. O facto de os crocodilos, ao contrário dos restantes répteis, terem quatro cavidades no coração há-de ser uma característica evolucionária, ou seja, que está relacionada com a evolução da espécie. Enquanto não souberem ler, os crocodilos não podem ser evolucionistas. Os biólogos, mesmo os melhores, por não serem muito diferentes de todos nós, não podem ser evolucionários.
      É verdade que, para complicar, Phillip Ein-Dor e Ella Segev propuseram, há mais de uma década, uma distinção entre teoria evolucionista, que é a que diz respeito aos mecanismos que produzem a mudança, e teoria evolucionária, que concerne à direcção da mudança e ao seu destino final. Ainda assim, a nossa distinção semântica fica parcialmente de pé.


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Léxico: «bico»

Bico da garrafa

      Que o vocábulo «bico» era estonteantemente polissémico, já eu sabia; desconhecia era a acepção de «gargalo de garrafa», como se vê neste artigo: «A produção de espumantes como conhecemos hoje surgiu em 1816 com a viúva Nicole Clicquot (Veuve Clicquot). Ela criou o sistema de decantação, mantendo as garrafas inclinadas com o bico para baixo, girando semanalmente até que todos os resíduos acumulassem e fossem retirados de uma só vez» («Da curiosidade de um monge à criatividade de uma viúva», Jornal do Brasil, 29.12.2007, p. R5).


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Léxico contrastivo: «gabolice»

É feio

      «O caprichado pronunciamento do presidente Lula na despedida de 2007 e os votos de boas festas na saudação ao Ano-Novo, transmitido com as fanfarras da rede nacional de rádio e televisão, na noite de quinta-feira, merece elogios pelos progressos do orador e o cuidado da assessoria responsável pelo excelente visual e pelo desempenho do astro único do show. Louvar, ainda mais no clima de esperanças de véspera de um novo ano, o terceiro do segundo mandato do orador, é mais gratificante do que criticar. Ficamos no meio justo, de agrados e ressalvas. Para princípio do balanço, o reconhecimento da excelente atuação presidencial. Desde a aparência cuidada da barba aparada, o terno de corte impecável, a gravata de cor viva e laço irretocável» («Oito minutos de gabolice na TV», Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil, 29.12.2007, p. A2). A gabolice é a gabarolice portuguesa, como facilmente se depreende. Claro que ainda não escrevemos «Ano-Novo», embora me tenha dado conta de que nesta quadra surgiu na imprensa portuguesa um infame «fim-de-ano». Em vez de se dedicarem a escrever bem, inventam tontices. Bom 2008.


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Regência do verbo gostar

Grande ajuda

      Entre os 8,5 milhões de cartas e encomendas que os CTT distribuíram só na véspera de Natal, estarão uns postais já com taxa paga que a magnanimidade desta empresa nos ofertou. «Para quem está longe ou simplesmente para surpreender alguém que gosta, nada melhor que escrever um desejo sentido de Boas Festas.» Assim escrevem eles. Terão pretendido escrever isto: «Para quem está longe ou simplesmente para surpreender alguém que gosta de ser surpreendido»? Ou isto: «Para quem está longe ou simplesmente para surpreender alguém de quem gosta»? Deve ser o princípio de Peter a actuar nos CTT.


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Tradução: «catering»

Vão a casa

      Não me parece que estejamos condenados a ter de usar o vocábulo inglês catering, cara Luísa Pinto. Nem são bagatelas. Afinal, também os Franceses, por exemplo, o não usam. Usam traiteur à domicile. Usemos nós «fornecedor de refeições ao domicílio». É comprido? Pois é, mas são palavras portuguesas. E aposto que a comida será igualmente boa.


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Tradução: «penny»

Um penny ou um péni?
O digno membro

      De facto, não me parece judicioso traduzir penny por «péni», em especial se no mesmo texto também ocorre o plural da palavra, pence. Se temos, e temos, de escrever «pence», não escrevamos ao lado «péni». E se, para agravar, no mesmo texto, se insinuar a designação para o membro viril — pénis —, os leitores não julgarão que estamos a ser ridiculamente puristas, mas só pela metade? Pence, péni e pénis? Poderá ser uma conjunção fatal.


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Léxico contrastivo: «laranja»

Laranjas amargas

      «Uma nova lista com números de celulares e contas bancárias foi apreendida ontem em poder dos detentos do Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS), em Aquiraz, Região Metropolitana. Segundo o supervisor do sistema penal, coronel Taumaturgo Granjeiro, que acompanhou a vistoria, o material seria usado para a prática de golpes como “seqüestro-virtual” e “número premiado”. Segundo ainda o supervisor, a lista será entregue ao Departamento de Inteligência da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) para rastreamento das contas bancárias e dos números telefônicos. A suspeita é que as contas estejam em nomes de “laranjas” e sejam usadas para os depósitos das vítimas dos golpes virtuais» («Lista para a prática de golpes é apreendida no IPPS», Nicolau Araújo, O Povo, 28.12.2007, p. 6). Na definição do Aulete Digital, «laranja» é a «pessoa que serve de intermediária em transacções financeiras fraudulentas, usando o próprio nome para ocultar a identidade de quem a contrata». É uma espécie de testa-de-ferro. Na primeira página, O Povo titula: «Polícia rastreia contas-laranja».
 

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Selecção lexical

Erros e exageros

      «O 24horas apurou que foram encontradas no vestuário algumas impressões digitais que podem vir a ser importantes para esclarecer o mistério da identidade do grupo que bateu no jovem prelado de 38 anos, o deixou ao abandono no meio do monte e lhe destruiu o Mercedes» («‘Estava abatido, com o corpo todo dorido’», Pedro Emanuel Santos, 24 Horas, apud Global, 28.12.2007, p. 8). «Prelado»? Mas não é um mero pároco? O Livro de Estilo do Público bem previne: «[…] pode utilizar-se a palavra “prelado” para designar um bispo, nunca para referir um padre». Recorro à definição da Enciclopédia Católica Popular: «(Do lat. = superior). Nome da­do, na antiga sociedade romana, às auto­ri­dades civis. O seu uso entrou na gíria eclesiástica como título dado a quem na Igreja goza de maior autoridade no foro externo: Papa, cardeais, bispos e demais ordinários de lugar e mesmo superiores maiores de institutos, especialmente aba­des e abadessas (preladas). O anterior Código de Direito Canónico redu­ziu o uso deste título aos clérigos com jurisdição ordinária no foro externo e a quan­tos a Santa Sé o tenha concedido como título honorífico. O actual CDC reduz o título de prelado ao ordinário duma prelatura pessoal ou duma pre­la­tura territorial. Na linguagem corren­te, porém, continua a dar-se o nome de p. aos membros do chamado “alto cle­ro”, especialmente cardeais, patriarcas e bispos. Prelazia é a dignidade ou o ofício do p[relado].»
      Por outro lado, não será hiperbólico escrever que o automóvel foi destruído? É que ontem o mesmíssimo Global trazia um artigo do Jornal de Notícias em que se podia ler a legenda à imagem do automóvel do padre: «Uma janela do Mercedes do pároco António Aires foi partida pelos agressores».        
      Em que ficamos?
      E o curso de Português básico para jornalistas do Instituto Camões, já começou?


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Regência de emboscar

Gramática e lógica

      «Continuam envoltas em mistério as razões da agressão de que foi vítima o pároco de Alijó, na noite de consoada, supostamente levada a cabo por um grupo de indivíduos que o emboscou, por volta da meia-noite, na estrada de montanha que liga Sanfins do Douro à vila de Alijó» («Padre agredido em silêncio com medo de represálias», Global, 26.12.2007, p. 8). Um grupo de indivíduos que «o emboscou»? Está certa, esta regência? No contexto, está completamente errada. Tal como foi redigida, a frase significa que os indivíduos embrenharam a vítima, o padre, numa zona de boiças, por exemplo. Ou então que o puseram de emboscada. Ora, o que o texto nos afiança é que apenas o deixaram amarrado a uma árvore. A frase saiu semanticamente embostelada, foi o que foi. Por outro lado, se o agredido não fala, como é que se pode afirmar que o silêncio se deve a medo de represálias? Se não fala, o que se diga sobre as razões é mera especulação.


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Comunicação

Imagem: http://www.novabiotics.co.uk/
País de p(o)etas

      Prevendo porventura o adiamento da aprovação do Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico, e celebrando o facto, os Portugueses desunharam-se a enviar SMS. Bateram-se todos os recordes: perto de mil milhões de mensagens! É obra. Vão aparecer mais escritores, pela certa. Os CTT também já se apressaram a reclamar um recorde impossível de bater pela concorrência: distribuíram 8,5 milhões de cartas e encomendas só na véspera de Natal. Como uma me chegou precisamente nessa data, tendo a acreditar na estatística.


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Léxico contrastivo: «cossoco»

Cossoco é naifa

      «Na madrugada de ontem, mais um preso foi morto no Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS), em Aquiraz. O preso Francisco Bibiano da Silva foi morto a golpes de cossoco (faca artesanal) e golpes de barra de ferro» («Preso é morto a golpes de cossoco», Marcos Cavalcante e Landry Pedrosa, O Povo, 26.12.2007, p. 9). Sim, cossoco, termo da gíria prisional brasileira, é uma arma branca artesanal, feita pelos próprios reclusos.


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Tradução: «tannerie»

Curtumes

      Se queremos traduzir a palavra inglesa tannerie, recorrendo a uma riqueza vocabular que estamos habituados a ver elogiada na língua inglesa e ignorada ou desprezada na nossa própria língua, talvez seja melhor esquecer a solução fácil de verter como «oficina ou fábrica de curtumes» e usar, corajosamente, «tanaria» (cujo étimo é o francês tannerie: «établissement où l’on tanne les peaux»). Ou charola. Afinal, ainda que antigo, o termo existe na língua portuguesa. Em relação a curtumes, conheço mais alguns.

Baqueta f. Couro de bezerro ou vitela para calçado.
Barquino m. Pele de cabrito, preparada para conter e transportar água potável.
Cabrim m. Pele de cabra preparada, curtida.
Chagrém m. Couro granuloso, que se prepara ordinariamente com peles de jumento ou de macho.
Charola f. Pequena fábrica de curtumes.
Charoleiro m. Dono de fábrica de curtumes.
Cordovão m. Couro de cabra, curtido e preparado especialmente para calçado.
Correol m. Prov. alent. Fio, corda resistente, formado de finíssimas tiras de couro, cortadas e tecidas em fresco.
Cortim m. Substância extraída das cascas das árvores, que curte o couro; tanino.
Crónico m. Couro cru.
Enfuste m. Preparação com que se entumecem as peles.
Enoque m. Fábrica de curtumes.
Escabela f. Acto de arrancar os pêlos ao couro antes da curtimenta.
Escabelar, escabeleirar ou escabelizar v. Tirar, arrancar os pêlos aos couros durante a curtimenta.
Escarna f. Tecnol. Operação que consiste em escamar as peles dos animais antes do curtimento.
Escouçar v. Tirar às peles a água de cal que se lhes juntou para a escabela.
Espichadeira f. Mulher que, nas fábricas de peles, espicha os couros para secarem.
Fijola f. Tira de cabedal ponteada e que forma bolso em volta de duas peças de couro.
Garra f. Sola ou cabedal ruim, com pêlo.│2. Retalho de couro.
Grosa f. Faca de fio embotado, para descamar peles.
Grosador m. Ferro com que se raspam os couros na surragem.
Humada f. Prov. minh. Aguada de lixo de pombos, empregada na preparação de couros.
Lombeiro m. Couro do lombo de certos animais.
Lonca f. Bras. do S. Couro de que se raspou o pêlo.│m. pl. Tiras fininhas que se tiram do couro pelado e raspado, para fazer trançados.
Magis m. Espécie de couro empregado em sapataria.
Palissão m. Instrumento com que os cortadores abrem e amaciam as peles, depois de cortadas e secas.
Parruá m. Grande bastidor, em que os curtidores colocam as peles para se alisar o carnaz.
Romanadeira f. Instrumento constituído por um pedaço de madeira cuja face inferior é munida de caneluras ou revestida de cortiça e a superior revestida de uma tira de couro, por baixo da qual passa a mão do operário, para dar aos couros aspecto uniforme e agradável, depois de serem surrados.
Sura f. Nome dado a certas peles, ratadas ou incompletas, na indústria de curtumes.
Tafilete m. Marroquino fino que se fabricava em Marrocos.
Tagra f. Cada um dos bocados em que se divide um couro para curtir.
Tanado adj. Que tem aspecto de curtida.
Tanagem f. Acto de curtir, modo de curtir.│2. Curtimenta pelo tanino.
Tanante adj. Próprio para curtir.
Tanar v. O m. q. curtir.
Tanaria f. Ant. Fábrica de curtumes.
Tanoada f. Porção de tinta ou de peles preparada de uma só vez para curtimenta.
Tranquete m. Term. de Alcanena. Tanque pequeno para curtimento.
Vaqueta f. Couro delgado e macio, empregado principalmente em forros.

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Léxico contrastivo: «pleito»

Aqui é eleição

      «O último pleito estava marcado para o dia 22 de novembro, mas foi cancelado depois dos protestos maoístas exigindo que a monarquia fosse abolida imediatamente e que o sistema eleitoral fosse trocado para um sistema de representação plena» («Regime monárquico chega ao fim», Jornal do Brasil, 25.12.2007, p. A18). Os nossos pleitos são todos resolvidos em tribunal. Neste texto, é outra acepção de «pleito» que é usada: escolha de candidato para ocupar cargos públicos, postos ou desempenhar determinadas funções por meio de votação, ou seja, eleição. Pleito tem como étimo o particípio passado do verbo placere, placitum. Placere, de que provém igualmente o nosso «prazer», significa «agradar», «merecer a aprovação». Assim, placitum mantém a acepção de «o que foi aprovado», «o que foi determinado». Dies placitus, em latim, significa «o dia combinado». De placitum temos ainda «plácido» e «prazo».


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Léxico contrastivo: «cacimba»

Cacimba é poço

      «Uma brincadeira em uma cacimba terminou com a morte de duas crianças no início da tarde de ontem na rua Almir Lopes, 151, Eusébio. De acordo com informações do sargento Carlos Cristiano, do Corpo de Bombeiros de Horizonte, na Região Metropolitana de Fortaleza, os primos Ezequiel Rodrigues das Neves, 5 anos, e João Vitor Ribeiro da Silva, 4 anos, estavam brincando sobre a tampa da cacimba, feita de um pedaço de portão quando o material acabou caindo no buraco, levando as crianças. O sargento diz que havia pouca chance de as crianças terem sobrevivido ao acidente. “Quando chegamos, não havia mais nada a fazer para salvar as crianças. Não se sabe se elas morreram na queda ou afogadas. A cacimba tem 12 metros de profundidade, mas estava com sete metros d’água”, explica o sargento» («Primos morrem ao cair em cacimba», Marcos Cavalcante, O Povo, 24.12.2007, p. 10). Uma cacimba é um poço cavado no solo para extracção de água. O étimo é o quimbundo kixima.


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Entrevista a A. Lobo Antunes

X, o Panóptico

      Na entrevista de ontem a Mário Crespo, no Jornal das 9, na Sic Notícias, António Lobo Antunes confessou ter pena que em Portugal não haja a distinção anglo-saxónica entre publisher e editor. Este, alvitrou, ajudá-lo-ia com conselhos, «corte aqui», «desenvolva ali». A não ser que Lobo Antunes se referisse à distinção meramente semântica, a verdade é que temos publishers (dos quais, de resto, não manifestou esperar nem conforto nem conselhos) e editors — que se reúnem na mesmíssima pessoa. E isso não tem nada de estranho. Quando Lobo Antunes escrevia nas folhas de prescrição médica com o timbre do Hospital Miguel Bombarda (usando para fins privados um bem público — honra nossa…), mesmo durante as horas de serviço e estando de bata, também não seria fácil distinguir quem era o escritor e quem era o médico. É claro que se se referia ao facto de o publisher estar nas Maldivas a apanhar banhos de sol e o editor a compor-lhe a prosa, essa realidade é mais norte-americana. A minha experiência, consideravelmente menos vasta do que a de Lobo Antunes, é a de que a função do editor anglo-saxónico está nos nossos directores e responsáveis editoriais, e, por vezes, nos simples assistentes editoriais. No fundo, trata-se da mesma espécie de ignorância que revelava, há uns meses, um crítico literário com quem conversei, que mostrou não saber, nem sequer aproximadamente, qual o papel de um revisor, ainda que estivesse absolutamente convicto de o saber. A mim, como revisor e tradutor, é-me dado ver o que eles não vêem, e vice-versa. Não há, em relação a nenhuma realidade, observadores panópticos.
      Mário Crespo é inteligente. Começou por exorcizar o mal, afirmando que entrevistar António Lobo Antunes era intimidante. E isto, por vezes, resulta. Como parece ter sido o caso. Com sorrisos, meios sorrisos e silêncios, Mário Crespo soube gerir o tempo, generoso, como sempre devia ser, da entrevista. Mas houve afirmações enigmáticas ou ambíguas de Mário Crespo, como quando disse que ninguém escrevia como Lobo Antunes. Não podia deixar de dizer o mesmo, suponho, e com o mesmo grau de justeza, se o entrevistado fosse José Saramago, Mário Cláudio, José Rentes de Carvalho ou José Luís Peixoto, por exemplo. A quase louvaminha por causa da disposição gráfica da dedicatória de O Meu Nome É Legião, tantas vezes mais fruto da inspiração do paginador do que escolha ponderada do autor, foi caricata. Se a observação tivesse sido feita em relação a outras ousadias formais do autor, de que tem epígonos bastantes, e que a mim, pessoalmente, me não encantam, aí sim, entrávamos no mérito do autor.


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«Bola de Berlim»?

Imagem: http://img.olhares.com/
Mitos urbanos

      «Afinal, tudo não passava de um mito urbano. A venda de bolas de Berlim nas praias nunca foi proibida, tal como nunca houve lei alguma que proibisse o bolo-rei de ter brinde» («Bolas de Berlim voltam à praia com ok da ASAE», Ana Kotowicz, Meia Hora, 21.12.2007, p. 6). Se se deve escrever «couve-de-bruxelas» e não «couve de Bruxelas», «folha-de-flandres» e não «folha de Flandres», «água-de-colónia» e não «água de Colónia», «porco-da-índia» e não «porco da Índia», então por que diabo continuamos a escrever «bola de Berlim»? Poucos dicionários registam a locução, mas os que o fazem, como o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, é assim que a registam. Seja bola-de-berlim!

Actualização em 23.07.2009

Ora aqui temos bem grafado: «Mas quando viu o senhor que vende bolos na praia, levantou-se num ápice e dirigiu-se a ele: em poucos minutos tinha duas bolas-de-berlim na sua posse» («Norton de Matos não resiste à bola-de-berlim», Rita Bravo, Diário de Notícias, 22.07.2009, p. 53).

Actualização em 28.07.2009

Era aqui temos mal grafado: «A freguesia, que fez do acontecimento anedota, não trocou as bolas de Berlim com creme pelos recém-chegados muffins de chocolate crocante com sementes de gergelim e espuma de baunilha, pelo que rapidamente se escoou para outras paragens» («Leite entornado», Nuno Pacheco, Público/P2, 27.07.2009, p. 3).


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Ortografia: «outrem»

Por conta de outrem

      Uma coisa irritante é, de impressos de organismos oficiais a traduções, poucas vezes o vocábulo «outrem» estar correctamente grafado, isto é, sem o acento. Se o acento tónico está na penúltima sílaba, gostava de saber como pronuncia a palavra quem a escreve com acento. A regra geral, em relação às palavras graves, sabemos, é não terem acento gráfico. Em contrapartida, poucas vezes vejo acentuada a forma verbal «contém», que precisa do acento, pois se trata de uma palavra aguda não monossilábica terminada em -em, como «além», «alguém», «armazém», «Belém», «Cacém», «catém», «cuiavém», «curtarém», «Jerusalém», «Matusalém», «ninguém», «refém», «retém», por exemplo.


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Léxico: «chaptalização»

Coisas do vinho

      Ouvi-a ontem na Antena 1. Nunca tinha ouvido a palavra antes. A chaptalização é a adição de açúcar de beterraba ao mosto, para aumentar o teor alcoólico. O termo (em francês chaptalisation) deriva do nome de quem difundiu a prática: Jean-Antoine Chaptal (1756-1832), conde de Chanteloup, médico e químico francês. Com a chamada reforma do vinho, a prática da chaptalização mantém-se, o que é contestado pelos países do Sul da Europa.

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Silabadas

Atenção

      Mário Crespo, o nosso melhor apresentador de telejornais, entrevistou ontem José António Barreiros, recém-eleito presidente do Conselho Superior da Ordem dos Advogados. A determinada altura, Mário Crespo afirmou que há «escritórios a funcionar quase em /cártel/». O entrevistado não respondeu à acusação (porque não percebeu a palavra?), e eu só quero dizer que «cartel» tem acento tónico na última sílaba e com o a fechado, como «Abel», «anel», «Babel», «granel», «papel», «Raquel»...


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Lexicografia; «repère»

Ça tire

      Nunca deixo de ficar espantado — posso? — com certas técnicas e critérios dicionarísticos. Pego, por exemplo, no Grande Dicionário Francês/Português de Domingos de Azevedo (13.ª edição, 1998) e procuro o verbete do vocábulo «repère». Leio: «Sinal ou marca que se põe nas diferentes peças de uma obra para se poderem ajustar com exactidão e facilidade.│Marcas ou sinais que se fazem em uma parede, em um terreno, etc., para se encontrar um alinhamento, um nível, uma altura, uma distância.│Point de repère, ponto de partida; ponto de referência; sinal; indicação.» Ter-me-ei enganado de dicionário? Mas não, este é mesmo um dicionário bilingue. Então, porque é que me aparece uma definição em vez de um ou vários vocábulos correspondentes na língua portuguesa? E a locução final, point de repère, não acaba por condensar as correspondências em português? Repère, afinal, pode ser muita coisa: as nossas miras de acerto, da indústria gráfica, serão repères em francês; em sentido figurado, sim, será um marco, um marco cronológico, por exemplo; um ponto de referência para encontrar uma casa, por exemplo, é um repère; o traço que serve de índice de leitura num instrumento de medida é um repère; as marcas para a posição de montagem de um instrumento são repères; as hastes pintadas de duas cores, chamadas varolas, usadas em trabalhos de topografia, são repères. Etc.


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Léxico contrastivo: «disque-droga»

Ao domicílio

      «O oficial é acusado de manter um disque-drogas em sua casa para atender a consumidores em bairros nobres das zonas Sul e Oeste. Segundo a polícia, Fragata vendia entre cinco e 10 quilos por semana. Cada grama custava em torno de R$ 100 com a droga já misturada. Fragata atendia às pessoas em casa, contactadas através de telefone e email» («PF desarticula quadrilha que fazia disque-drogas», Felipe Sáles, Jornal do Brasil, 19.12.2007, p. A13). Este vocábulo nem sequer no Aulete Digital está registado. Como se depreende, é um serviço de venda de droga em que esta é entregue em casa do cliente. Comodamente. Como se de uma piza se tratasse.


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Pronúncia de «euro»

Orgulhosamente poucos     

      A jornalista Isabel Gaspar Dias, da Antena 1, deve ser dos poucos portugueses que pronunciam a palavra «euro» com «o» a soar, dada a posição de átona final, como «u» (à semelhança de qualquer palavra grave, como «cinco», «lado»...). E nisto segue alguns dos nossos melhores especialistas da língua portuguesa. E claro que «euro» tem plural — dizer «cem euro» é tão irracional como dizer «língua banto», por exemplo.


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Pleonasmos

Enfrentar como deve ser
 
      De vez em quando, os jornalistas saem-se com estes pleonasmos risíveis: «Para grandes males, grandes remédios. Um grupo de mais de 500 autores literários britânicos — Ian Rankin, Nick Hornby, Jackie Collins ou Andrew Motion, entre outros — apelou por carta ao primeiro-ministro inglês, Gordon Brown, para enfrentar de frente o problema da iliteracia infantil» («A “leitura” do problema», Meia Hora, 19.12.2007, p. 21). Como é que o jornalista queria que se enfrentasse — pelas costas, talvez? Quanto às criancinhas britânicas, algumas serão mais tarde professores de Inglês, sobretudo no estrangeiro.


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Latinismos

Buscador de latinismos

      Não é, seguramente, o mais completo, mas tem outras potencialidades: não precisamos de introduzir a locução latina completa para fazer a busca. Tem actualmente 512 expressões. Aproveito a oportunidade para relembrar que também tenho no blogue um Glossário das coisas romanas, até ao momento com 314 entradas. Aqui.


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Próclise

Sucessos e desventuras

      Pode ler-se na edição de hoje do jornal Meia Hora: «O Presidente russo anunciou ontem que será candidato a primeiro-ministro se o candidato que apoia para o suceder no Kremlin, Dimitri Medvedev, ganhar as presidenciais» («Putin candidata-se a PM se Medvedev ganhar o Kremlin», Meia Hora, 18.12.2007, p. 9). Por coincidência, uma das consultas publicadas hoje no Ciberdúvidas — que continuo a ler, apesar de já me ter visto descaradamente plagiado por um dos consultores — incidia nesta matéria, sendo a resposta da consultora Sara Leite muito esclarecedora, propondo uma útil forma de saber se se deve usar o pronome lhe, por o complemento ser indirecto, ou o/a, por o complemento ser directo. No caso em apreço, «suceder a alguém», logo, «suceder-lhe» (ou «lhe suceder», como no caso, porque a presença da preposição «para», sem ser atractora de próclise, nos deve levar a preferir esta redacção).
      Em contrapartida, no Diário de Notícias pode ler-se: «Visto como um dos mais liberais homens de Putin, Medvedev, de 42 anos, foi a escolha do Presidente para lhe suceder no Kremlin» («Putin será primeiro-ministro se Medvedev for presidente», 18.12.2007, p. 27)


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Pronúncia: «orago»

Ora, ora…

      Acabei de ouvir, na Antena 1, o escritor, ensaísta e antigo director do Jornal de Sintra João Rodil falar sobre a história de Sintra. A determinada altura, falou no «primeiro orago de Sintra». E esdruxulizou ostensivamente a palavra «orago»: /órago/. Fez mal. A palavra «orago» é grave, paroxítona — e não esdrúxula, proparoxítona. A jornalista prometeu nova aparição, para a próxima semana, do Dr. Rodil. Estou em pulgas.

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Léxico contrastivo: «eletro»

Reduções

      «Para Barros, que tem a experiência de 25 anos no varejo de móveis e eletro, o diferencial das lojas cearenses é o atendimento, é a entrega rápida» («Concorrência acirrada, móveis e eletros mais acessíveis», Artumira Dutra, O Povo, 9.11.2007, p. 28). É esta plasticidade tão brasileira que admiro: reduzir uma palavra comprida, tornando-a curta, apelativa, incisiva. E claro: o «varejo» é o nosso «retalho».


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Blogues de 2007


Distinção

      Digo… Não digo… Digo mesmo. O Assim Mesmo foi distinguido com o Pelourinho de Bronze como blogue do ano 2007 pelo Praça da República, de João Espinho. Entre ser imodesto e ingrato, prefiro ignorar o dilema. E esperar pelas nomeações de 2008.


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Léxico: «hagi»

Vai a Meca

      Começa hoje o Hadj (ou Hajj, como grafa o Diário de Notícias, por exemplo), a peregrinação a Meca, um dos cinco pilares do Islão que qualquer muçulmano deve cumprir pelo menos uma vez na vida — a não ser que seja menor, louco ou escravo. É a oportunidade para dizer que o muçulmano que faz essa peregrinação se chama hagi, vocábulo registado nos dicionários de língua portuguesa.


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«Paper», de novo

Ainda andamos aos papers

      «Para tentar entender o fenómeno, Adele e Donna Wood, docente na mesma universidade, desenvolveram um paper dedicado à avaliação da utilização das novas fontes de informação via Internet, procurando distinguir conhecimento científico de outras fontes de comunicação» («Geração Wikipedia», Milena Melo, OJE, 17.12.2007, p. 10). Na semana passada tinha sido no Global; hoje é no Meia Hora. Porquê «paper»? Ainda por cima, estes jornais prescindem do itálico.


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Disparates jornalísticos

Língua abortada

      Ana Mesquita até pode pretender ser engraçada — e quase sempre o consegue. Essa é que é essa. Contudo, no que toca a falar correctamente, está muito longe de cumprir o que se espera de um jornalista. Ainda na emissão de hoje do programa O Amor É…, na Antena 1, a propósito de as indianas radicadas no Reino Unido irem abortar à Índia, falava em «abortagem». Terá a noção da responsabilidade de ter um microfone à sua frente? Dizer «abortagem» em vez de «aborto» ou — querendo, à viva força, ser diferente — «abortamento», ainda que com presumíveis intuitos jocosos, não contribui em nada para fazer da rádio, e rádio pública, no caso, um meio de comunicação que, além de informar e entreter, instrui.


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Meio-Oeste?

No Midwest

      Não deixa de ser desconcertante que os Brasileiros, que tão apegados são aos vocábulos mais legitimamente portugueses, por outro lado se desvaneçam com a língua inglesa. Têm, bem entendido, um atractor enorme nas proximidades, os EUA. Na verdade, acabam por usar tantos estrangeirismos desnecessários como nós, Portugueses. Mas não deixam de fazer questão de aportuguesar ou adaptar certos termos. Valha como exemplo o topónimo «Midwest». Se bem que já o tenha visto traduzido para «Meio-Oeste» em publicações portuguesas, é muito mais vulgar no Brasil. Ainda hoje, num artigo, «Acupuntura facial é moda em NY», do Jornal do Brasil, traduzido de outro publicado no The New York Times, se lia: «“Há um aumento do interesse pela técnica por todo o país”,­ diz a acupunturista Martha Lucas. Ela dá inúmeros seminários todos os anos para grupos de mais de 30 alunos. ­“Los Angeles era o maior mercado. Mas agora, recebemos ligações de pessoas do Meio-Oeste.”» (No original: “There’s a rise in interest all over the country,” said Martha Lucas, a licensed acupuncturist who helped create the Mei Zen cosmetic acupuncture system in 2003. She teaches a dozen seminars annually to rooms of more than 30 budding facialists. “L.A. used to be the biggest market. But now we get people from the Midwest calling.” «Hold the Chemicals, Bring on the Needles»)) Vejam: por um lado «Meio-Oeste», mas, por outro, «NY».


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Léxico contrastivo: «tombamento»

Niemeyer tombado

      «Como forma de homenagear o aniversário de 100 anos do arquiteto, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) anunciou este ano o tombamento de 23 obras de Niemeyer em Brasília e da Casa das Canoas no Rio de Janeiro. Obras do arquiteto em São Paulo, Paraná, Goiás e Rio Grande do Norte também foram tombadas. Na época, o superintendente do Iphan do DF, Alfredo Gastal, já afirmara que o tombamento reconheceria a importância do trabalho de Oscar Niemeyer» («Tombamento comemora os 100 anos de Niemeyer» Jornal do Brasil/Brasília, 15.12.2007, p. R6). Na definição do dicionário Aulete Digital, cujo uso recomendo vivamente, «tombamento» é a «acção pela qual se protege um património público resguardando-o, como documento histórico, da descaracterização geralmente provocada pelo homem, ou por sua acção directa ou pela falta de cuidados básicos de manutenção» (adapto a ortografia à variante europeia do português, para que almas mais sensíveis não se sintam embaraçadas).
 

Etiquetas
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Acepções do termo «fraldão»

Imagem de charrete em Sintra: http://www.sintratur.com/

Dodots gigantes

      «O fim do verão carioca será marcado por uma nova tendência entre os apaixonados por animais, pelo menos os por cavalos. O dia 4 de março será o último em que as charretes espalhadas em pontos pitorescos da cidade —­ como na Praça Xavier de Brito, na Tijuca, ou em Campo Grande — ­poderão cavalgar sem fraldões. A regra, que já existe em capitais turísticas como Nova York, passou a existir no Rio depois que o prefeito Cesar Maia sancionou, na semana passada, um projeto de lei da Câmara Municipal. Criado em 2002, o projeto ficou esquecido por quase cinco anos nos arquivos das comissões permanentes da Casa, até ser aprovada. No Rio, as charretes da ilha de Paquetá saíram à frente e, este ano, já embalaram os cavalos com os fraldões. Tecnicamente, trata-se de um tipo de saco colocado na traseira do cavalo e que tem poupado os paralelepípedos do bairro histórico do adubo natural, mas de péssimo cheiro» («Verão do Rio será de cavalos com fraldas», Jornal do Brasil, 15.12.2007, p. A15). É o exemplo mais próximo, Nova Iorque. Pois os cavalos que puxam as charretes em Sintra também usam fraldas especiais. Verdes. E é claro que os dicionários, incluindo o Aulete Digital, ignoram esta acepção do termo «fraldão». A propósito, lembro que o meu glossário do cavalo já tem 1019 entradas.


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Léxico contrastivo: «videomonitoramento»

É para ver

      «Fortaleza entra definitivamente para o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci) com a solenidade de assinatura do termo de adesão entre o Ministério da Justiça (MJ) e a Prefeitura Municipal, na próxima terça-feira, dia 18. Entre as ações previstas no programa, está o monitoramento por meio de sistema de câmeras (videomonitoramento) do Centro histórico, em especial, o quadrilátero que compreende a Praça da Lagoinha até a Praça Coração de Jesus e o Passeio Público até a Igreja do Carmo» («Centro histórico terá videomonitoramento», Ricardo Moura, O Povo, 15.12.2007, p. 6). É a nossa videovigilância (que o jornal Públicografou, erradamente, «vídeo-vigilância»).


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Léxico contrastivo: «brinquedoteca»

É a brincar

      «A brinquedoteca é um espaço que reúne muitas possibilidades e potencialidades para desenvolver trabalhos sérios e relevantes para as crianças, através da brincadeira. Ela resgata a importância do brincar para a criança» («Kits para brinquedoteca serão entregues», Rita Célia Faheina, O Povo, 10.12.2007, p. 11). Em Portugal chamamos-lhe — o pendor clássico não é somente dos Brasileiros — ludoteca. O sufixo -teca dá para tudo.


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Redução de milhões de euros

Já temos

      Afinal, quando elogiava aqui a forma sucinta de os Brasileiros escreverem quantias, talvez já os jornais portugueses andassem a fazer o mesmo: «Portugueses pouparam 86 ME com o Multibanco», titula hoje o jornal Meia Hora (13.12.2007, p. 13).


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Matemática e ciências

Novo portal

      Sem dúvida atractivo e útil, o portal Skoool.pt, resultado de uma parceria entre a Intel Corporation e a Câmara Municipal de Castelo Branco. Para aprender ou recordar conceitos no campo das ciências e das matemáticas. Com recursos abertos e gratuitos.


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Léxico contrastivo: «13.º salário»

Realmente

      «As empresas têm até o próximo dia 30 de novembro para pagar a primeira parcela do 13.º salário aos funcionários com carteira assinada. Isso significa que aposentados, pensionistas e trabalhadores contratados formalmente que trabalharam mais de 15 dias neste ano têm direito a mais um salário, sendo 1/12 do valor para cada mês trabalhado» («O que fazer com o 13.º salário?», Wânia Caldas, O Povo, 7.11.2007, p. 27). Realmente, o salário é que é o 13.º, e não o mês, como em Portugal. Deve ser por isso que a alguns portugueses sobra sempre mês no fim do ordenado...


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Diabolus in Musica

É o Diabo

Acabei de ouvir na Antena 1 a publicidade ao espectáculo Diabolus in Musica, em cena hoje no Grande Auditório do CCB. Antes de um elemento (Giancarlo Macrí?) do grupo ter falado, a jornalista disse: «“Diabolus in Musica”, isto é, o “Diabo entra na música”.» Apesar de ser um espectáculo divertido, afinal é sobre a música clássica, integrando no repertório música de Vivaldi, Mozart, Bizet, Strauss, Bach, Offenbach, Rossini… Acreditaria piamente no arremedo de explicação, se não me recordasse deste trecho de uma obra magnífica: «A Igreja Católica baniu a música que contivesse polifonia (mais do que uma parte musical interpretada de cada vez) temendo que tal levasse as pessoas a duvidar da unidade de Deus. A Igreja também baniu o intervalo musical de uma quarta aumentada e a distância entre o dó sustenido e o fá sustenido, conhecida por trítono (no West Side Story de Leonard Bernstein, corresponde ao intervalo no qual Tony canta o nome «Maria»). Este intervalo era considerado de tal forma dissonante que só podia ser obra de Lúcifer e a Igreja passou a chamá-lo Diabolus in musica. Foi a altura sonora que deixou em grande rebuliço a Igreja medieval» (in Uma Paixão Humana — O seu Cérebro e a Música, de Daniel J. Levitin, tradução de Bárbara Pinto Coelho, Editorial Bizâncio, Novembro de 2007, pp. 21-22).

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Biblioteca Digital do Alentejo

Tesouros

      Já está em linha a Biblioteca Digital do Alentejo (BDA), desenvolvida pela Fundação Alentejo-Terra Mãe, através do Centro de Divulgação da História e da Sociedade do Alentejo. Já estive a consultar, por exemplo, as Notas Históricas acerca de Serpa e o Elemento Árabe na Linguagem dos Pastores Alentejanos, do conde de Ficalho.


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Léxico contrastivo: «disparada»

A tiro

«Cada vez mais feitos de plástico, os brinquedos do mundo inteiro vão custar mais caro por causa da disparada dos preços do petróleo, o componente de base do plástico, mas uma grande parte das altas só deve ser repassada aos consumidores depois do Natal» («Disparada do petróleo vai elevar preço de brinquedo», O Povo, 28.11.2007, p. 34). Disparada é uma corrida desenfreada; o que, metaforicamente, os preços fazem.

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Ensino do Francês

Bom sinal

«Todos os jardins-de-infância e escolas do primeiro ciclo do ensino básico da Guarda vão proporcionar aos alunos o ensino do Francês, anunciou o presidente da autarquia. Joaquim Valente assinou um protocolo entre a autarquia, a Escola Superior de Educação da Guarda e a Embaixada de França com vista à implementação de um programa do ensino precoce do francês, e disse ser “possível” que no próximo ano lectivo o Francês seja ensinado em todas as escolas do primeiro ciclo do Ensino Básico e jardins-de-infância do concelho» («Guarda ensina Francês a mais novos», Global, 12.12.2007, p. 9).

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Tradução: «paper»

Aos papéis

      Na edição de hoje do jornal Global, podia ler-se: «As instituições académicas portuguesas “não são o número 1”, sublinhou o professor, apesar de as considerar “muito boas e com uma sólida base científica”, embora marcadas por “conservadorismo, demasiada concentração na publicação dos papers e pouca predisposição para a mudança”» («Universidade alheada do meio industrial», Global, 11.12.2007, p. 9). A afirmação é de Yossi Sheffi, um director do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Claro que o Global escreve, é uma fatalidade, «Massachussetts». Todavia, é dos «papers» que quero falar. Por acaso não se esqueceram de traduzir esta palavrinha? Ou reputam-na intraduzível? Num dicionário comezinho, que tenho aqui à mão, leio: «Paper: ensaio, dissertação, conferência, comunicação de carácter científico, literário, etc.» Serve?

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Dicionário de relojoaria

Novo dicionário

Com 625 entradas, ilustrado, o novo Dicionário de Relojoaria — O Universo do Tempo e dos seus Medidores, da autoria do jornalista e investigador Fernando Correia de Oliveira, acaba de ser publicado pela Âncora Editora. É sempre de saudar um trabalho desta natureza, especialmente num país em que tão pouco se faz nesta área.

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Léxico contrastivo: «tubulação»

Rede

«A rede de esgoto do Hospital Souza Aguiar voltou a apresentar problemas ontem. A denúncia foi feita pelo presidente do Sindicato dos Médicos do Rio (Sinmed), Jorge Darze. Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde informou que houve um entupimento na caixa de gordura, no estacionamento, nos fundos da unidade. Segundo o órgão, a limpeza da caixa, feita pela manhã, provocou o refluxo do esgoto em alguns pontos do subsolo» («Souza Aguiar volta a sofrer com tubulação de esgoto», Denise de Almeida, Jornal do Brasil, 11.12.2007, p. A16). Parece muito técnico. Em Portugal diríamos, em circunstâncias semelhantes, «Souza Aguiar volta a sofrer com rede de esgotos» ou «Souza Aguiar volta a sofrer com sistema de esgotos», como na própria notícia se escreve. Antigamente, dir-se-ia encanamento.

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Léxico: «alcaixa»


What one learns will depend on what one asks to begin with.


À marinheiro

      O leitor, e tradutor, A. M. L. pergunta-me se sei o nome que tem a gola postiça da blusa dos marinheiros. Como ainda ontem li, o que uma pessoa aprende depende do que pergunta. Também eu, por causa de uma dúvida, já uma vez fui ter com um alfaiate para me explicar um termo para uma tradução. A gola postiça, com listas em volta, que sai do decote da blusa dos marinheiros e abre sobre o peito, formando cabeção de cantos nas costas, designa-se alcaxa. Variantes: alcaixa e alcachaz.

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Tradução: «massive»

Maciças são as portas

Nas traduções do inglês, não deixa de ser irritante que o massive seja quase sempre e só traduzido por — maciço. Ou, pior — massivo. Que raio, então e se fosse «grande», «imponente», «imenso», «poderoso», «enérgico», «gigantesco», «esmagador», «pesadíssimo», «enorme», «tremendo», «grosso»… Claro que o metus reverentialis, também ele maciço, dos revisores tem o seu peso.

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Léxico: bruxismo

Imagem: http://www.ha-channel-88.com/

Santo Ofício


Pânico no dentista. «O nosso filho tem bruxismo!», bradam os pais à saída. Os outros pacientes, saindo de uma modorra receosa, alarmam-se. Ficam alerta. Escarafuncham os neurónios em demanda da palavra. Só ocorre «bruxa». Uma senhora, ainda jovem, levanta os olhos da Evasões e diz: «Isso não é nada. O meu filho sofre de restlesslegs

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Léxico contrastivo: «orelhão»

Imagem: http://www.novomilenio.inf.br/

Escuta


«A depredação de telefones públicos atingiu no Estado do Rio a marca de 72 mil aparelhos somente no ano passado, informa a Oi, empresa de telefonia que substituiu a Telemar. Nas contas da companhia, todos os meses 6% das unidades são danificados. Ao todo, estão espalhados pelo Estado 100 mil orelhões» («A cada ano, 72 mil orelhões são depredados no Estado», Jornal do Brasil, 9.12.2007, p. A15). Mais uma vez, um objecto ficou conhecido pelo nome que lhe foi atribuído popularmente. No Brasil, os telefones públicos só surgiram nos passeios em finais de 1971. Em Portugal, os telefones públicos que estão no exterior, nas ruas, apenas têm a designação de cabinas telefónicas.

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Léxico contrastivo: «gari»

Almeidas e garis

«Parte da mão-de-obra que poderia ser usada para varrer a cidade ou reforçar a coleta de lixo é hoje desviada para desgrudar de postes e parques papéis de propaganda colados ilegalmente. Os anúncios irregulares vão desde prostituição a professores particulares e são insistentemente retirados com espátulas e tinta pelos garis que trabalham na Comlurb» («Praga do papel colado tira garis da limpeza urbana», Jornal do Brasil, 9.12.2007, p. A15). Gari é o varredor de rua, e é mais um exemplo de derivação imprópria: o étimo é o antropónimo (Pedro Aleixo) Gary, antigo responsável pela limpeza das ruas do Rio de Janeiro. Francês de origem, Aleixo Gary estabelecera-se no Rio de Janeiro em 1859, com armazéns de drogas e produtos farmacêuticos, importação e exportação, assinando em 11 de Outubro de 1876 um contrato com o Ministério dos Negócios do Império para execução dos serviços de limpeza e irrigação da cidade, por um período de 10 anos, mas que se prorrogou até 1891. Temos um caso paralelo com o nome que ainda algumas pessoas dão aos varredores na cidade de Lisboa: almeidas. Deriva do antropónimo Almeida, apelido de um responsável da limpeza urbana da capital.

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Má tradução?

Pensemos

«O Tribunal de Apelações da Justiça de Mônaco voltou a adiar o julgamento do pedido de extradição do Brasil do ex-banqueiro Salvatore Cacciola. Foragido do Brasil desde 2000, Cacciola foi preso pela Interpol em Mônaco em setembro. Desde então, o governo vem tentando seu retorno ao país. De acordo com o Ministério da Justiça, o novo julgamento deve ocorrer até 31 de janeiro de 2008. O adiamento, segundo a Justiça, foi motivado por “discrepâncias” de termos jurídicos traduzidos do português para o francês no parecer que pede a extradição. Entre os termos divergentes, por exemplo, estaria o crime de peculato» («Má tradução mantém Cacciola em Mónaco», Jornal do Brasil, 7.12.2007, p. A4). O Jornal do Brasil quis saber a opinião de Delber Andrade, advogado e professor de pós-graduação do Centro de Direito Internacional (Cedin), em Belo Horizonte. Segundo Delber Andrade, «peculato é uma palavra muito própria da nossa língua e não existe um correspondente em francês». Não é verdade. «Péculat: soustraction ou détournement des fonds publics ou des biens de l’État par un dépositaire ou comptable public.» O que sucede é que o tipo penal designado como peculato no Código Penal brasileiro não corresponde a um tipo legal designado como «péculat» no direito penal francês. Não sou especialista em Direito Comparado, mas diria que corresponderá ao crime de «escroquerie»: «L’escroquerie est le fait, soit par l’usage d’un faux nom ou d’une fausse qualité, soit par l’abus d’une qualité vraie, soit par l’emploi de manoeuvres frauduleuses, de tromper une personne physique ou morale et de la déterminer ainsi, à son préjudice ou au préjudice d’un tiers, à remettre des fonds, des valeurs ou un bien quelconque, à fournir un service ou à consentir un acte opérant obligation ou décharge» (Art. 313-1 do Código Penal francês). É, evidentemente, um problema, um erro, de tradução, mas não, paradoxalmente, um erro do tradutor, ainda que tradutor juramentado.
Só conheço um tradutor juramentado, frequentemente solicitado pelos tribunais, e garanto que poderá perceber de tudo menos de Direito. Em questões tão melindrosas, impunha-se o recurso — nem que fosse somente para uma revisão científica — a especialistas de Direito Comparado.

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Léxico contrastivo: «caveirão»

Imagem: http://www.diariodeumpm.net/

Percebe-se porquê

«Depois do fracasso da operação de quarta-feira na Vila Cruzeiro, na Penha, onde quatro carros blindados quebraram e frustraram o planejamento dos 650 policiais que foram ao morro, a Secretaria de Segurança informou que, até fevereiro, mais oito caveirões chegarão à cidade. Ao todo, o Rio contará com uma frota de 19 blindados, sendo que os novos modelos podem vir do exterior. No dia 19, o Estado lançará a licitação para adquirir os oito caveirões. Já demonstraram interesse empresas do Iraque, Rússia, França, África do Sul e Brasil» («Rio terá oito novos caveirões», Felipe Sáles, Jornal do Brasil, 7.12.2007, p. A15). É um termo da gíria do Rio de Janeiro. Como se depreende da notícia, é o nome dado aos veículos blindados da polícia.

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Partogénese, engástrio e Cristianismo


ADN


      Lembram-se de ter aqui falado de uma mulher chinesa que, na sequência de uma consulta médica, soube que tinha dentro de si o seu irmão gémeo? Vá lá, não mintam: está aqui. Mal sabia eu que um cientista, Leoncio Garza-Valdés, avançara com essa hipótese para o nascimento virginal (designado partenogénese na literatura científica) de Jesus Cristo. De facto, há várias hipóteses científicas para um nascimento virginal, e, concretamente, para o nascimento virginal de Jesus Cristo. Na obra A Física do Cristianismo, do físico norte-americano Frank J. Tipler, publicada agora pela Editorial Bizâncio (tradução de Jorge Lima e revisão científica de José Félix Costa, professor no Departamento de Matemática do Instituto Superior Técnico), podemos ler: «Em alternativa, a hipótese do próprio Garza-Valdés, a terceira hipótese, é a seguinte. Um tumor com a forma de um embrião masculino não desenvolvido encontrar-se-ia no útero de Maria desde o nascimento. Como observa Garza-Valdés, tais embriões (pelo menos na variedade XX) têm sido relatados na literatura médica, tendo ele próprio tido um paciente que sofria desta anormalidade. O embrião, no caso de Maria, teria fertilizado um dos óvulos dela, do que resultaria o Nascimento Imaculado de Jesus» (p. 214). Frank J. Tipler, contudo, um católico, acha a teoria de Garza-Valdés «moralmente repulsiva», acrescentando que «a acusação de incesto irmão-irmã foi, segundo parece, lançada sobre Maria, em Alexandria, nos inícios da era cristã». Prudente, porém, realça: «Não devemos, no entanto, esquecer que achar uma teoria repulsiva não significa que não seja verdadeira.»
      A tese de Frank J. Tipler é outra: «Um Nascimento Virginal bem mais provável ocorreria caso apenas o gene SRY fosse inserido num cromossoma X de Maria, resultando o nascimento ou de uma célula haplóide [célula que possui apenas um exemplar de cada um dos cromossomas próprios da espécie] na qual se desse duplicação de cromossomas ou de uma célula diplóide [célula que possui uma série dupla de cromossomas homólogos]. No caso haplóide, haveria um gene SRY inserido em cada cromossoma X normal. No caso diplóide, haveria um gene SRY por cada dois cromossomas X normais. Ambos os genomas são distinguíveis dos indivíduos normais do sexo masculino através da realização de testes de ADN convencionais. Um indivíduo do sexo masculino normal disporia do lote normal de genes Y suplementares, enquanto a um indivíduo do sexo masculino XX apenas com o SRY faltariam tais genes. O actual teste-padrão de ADN procura muitos genes Y. (O teste de determinação do sexo que era corrente em meados da década de 1990, inventado por Lucia Casarino e outros, procurava unicamente os genes AMEL-X e AMEL-Y.) Deste modo, o teste-padrão de determinação do sexo permitiria distinguir as diversas maneiras através das quais um indivíduo XX do sexo masculino poderia vir à luz por via de um nascimento virginal» (pp. 203-4).

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Léxico contrastivo: «retrato falado»

Apanhado

      Depois do escrachado, eis que surge o «retrato falado»: «A polícia divulgou ontem o retrato falado do suspeito de ter atirado na professora de religião Vitória Lúcia Marques Kurrik, 55 anos, e no padre Frank Luiz Franciscatto, 41 anos» («Polícia já tem retrato falado do assassino», Denise de Almeida, Jornal do Brasil, 6.12.2007, p. A12). Segundo o Aulete Digital, é um termo popular: «Suposto retrato de um suspeito, montado por técnicas e equipamentos especiais, ou por simples desenho, a partir da descrição de testemunhas, usado pela polícia na tentativa de identificá-lo e localizá-lo.» É o nosso retrato-robô. E mais: «Na terça-feira, foi preso o motoboy Magno de Oliveira Paiva, acusado de transportar o bando em um Tempra.» Exactamente: o nosso estafeta.


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Léxico contrastivo: «caça-níqueis»

Imagem: http://wizardofodds.com/

Moedas


«Cerca de 300 máquinas caça-níqueis foram destruídas na tarde de ontem, no estacionamento do Complexo da Polícia Civil, no Sudoeste. A ação foi resultado de uma parceria entre a Justiça, a polícia e Ministério Público. Antes da destruição, os monitores de parte dos equipamentos foram doados a instituições públicas de ensino» («Justiça manda destruir caça-níqueis», Carolina Vicentin, Jornal do Brasil/Brasília, 4.12.2007, p. D6). Em Portugal são, mais prosaicamente, «máquinas de moedas»: «Só após o escândalo — do jogo ilegal, operação de máquinas de moedas, proibidas pela justiça — é que a embaixada se apressou a esclarecer que o cargo de cônsul honorário de Licínio não foi concretizado junto ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil» («Operação Furacão ganha contornos políticos», Sérgio Barreto Motta, Diário de Notícias, 6.5.2007). Não se está a ver o Casino Lisboa anunciar, na sua página na Internet, máquinas caça-níqueis em vez de: «No Casino Lisboa pode testar a sua sorte em cerca de 1000 das mais modernas slot machines disponíveis no mercado.» «Caça-níqueis» também é substantivo, como em espanhol «máquinas tragaperras» se pode também dizer apenas «tragaperras».

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Léxico contrastivo: «estoque»

Reservas

      «Especialistas estimam que a indústria e os revendedores autorizados fecharam outubro com estoque de 165 mil veículos» («Estoque só cobre 20 dias», Sonia Moraes, Jornal do Brasil, 5.11.2007, p. A17). É o stock dos Ingleses… e o nosso, pois alguns portugueses julgam que a palavra é insubstituível. Os Brasileiros têm o «estoque» (e nós também, mas diferente), mas também têm «escore» (score), «escrete» (scratch), «eslaque» (slack), «eslógão» (slogan), «esquete» (sketch), «esqui» (ski), «esnobe» (snob), «esnúquer» (snooker), «esplim» (spleen), «esporte» (sport), «estafe» (staff), «estande» (stand), «estêncil» (stencil), «esterline» (sterling), «estresse» (stress)… Destes, só adoptámos «esqui» e, quando estamos para aí virados, «estêncil». O «estafe», pomo-lo nos tectos.

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Verbo «haver»

Continuemos

      Daqui a vinte e cinco dias fará dois anos que comecei este blogue. Por vezes, quando me sinto mais pessimista, pergunto-me para que continuo aqui a escrever. Há textos que certos pretensiosos acharão comezinhos, porventura inúteis. Um antologiador, sobretudo um antologiador pretensioso, recusaria incluí-los numa colectânea. Sobre o verbo «haver», por exemplo, e a sua regência, sentenciaria que já todos sabem o que há para saber. Todavia, textos como o que acompanha a imagem (publicado na página 4 da edição de ontem do Meia Hora) despersuadem-me da inutilidade do que escrevo. Talvez, penso, um dia o inepto escrevente por aqui passe.


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Léxico contrastivo: «enfermaria-xadrez»

Aos quadradinhos

      «O assaltante e estelionatário Eduardo Genner Vieira da Silva, 24 anos, fugiu da enfermaria-xadrez do Instituto Dr. José Frota (IJF), na madrugada de ontem, após serrar uma grade da janela e saltar do 2.º andar. Ele estava no hospital há cerca de uma semana, procedente do Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS), quando se queixava de fortes dores nas costas. Um outro detento do presídio, Vanderli Pereira de Paiva, o Fofão, ficou entalado no espaço da grade serrada e foi flagrado pelo policial militar que fazia a guarda do setor» («Preso serra grade e foge de enfermaria-xadrez do IJF», Nicolau Araújo, O Povo, 3.12.2007, p. 3). Em Portugal dizemos «enfermaria-prisão» ou, tratando-se de um local destacado e específico, «hospital-prisão». O Hospital-Prisão de São João de Deus, em Caxias, por exemplo.


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A praga do «confortável»

Inventem outra, por favor

      O adjectivo «comfortable», perdão, «confortável», é uma praga nas traduções e na escrita do dia-a-dia, mesmo nos textos mais banais. Agora, todos querem é conforto. «As interacções nos ambientes virtuais assentam, em grande parte, na comunicação escrita, sendo fundamental que os formandos se sintam confortáveis a expressar as suas ideias através desta forma de comunicação» (Oje, «O perfil ideal do e-formando», Filipa Viegas Abreu, 3.12.2007, p. VII). Alternativas? Recorrendo ao Compara, apresento seis exemplos literários.


«Bernard said he was too comfortable to move.»
«Bernard disse que que se sentia demasiado bem para se mexer.»

Excerto da obra Cães Pretos, de Ian McEwan, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Gradiva, 1993.


«Luis had waited until she was comfortable and then he had said he would go down to the hotel’s dining room and bar, just for an hour, and give José a bit of a fright.»
«Luis esperara até ela estar bem instalada e depois dissera que ia até à sala de jantar e ao bar do hotel, só durante uma hora, meter um susto a José.»

Excerto da obra Um Amante Espanhol, de Joanna Trollope, tradução de Ana Falcão Bastos. Lisboa: Gradiva, 1999.


«The photograph had been taken on a sunny day from the opposite side of the valley, providing the kind of comfortable composition suitable for a postcard or calendar.»
«A fotografia fora tirada num dia cheio de sol, do lado oposto do vale, e constituía uma composição agradável e apropriada para um postal ilustrado ou um calendário.»

Excerto da obra Os Inconsolados, de Kazuo Ishiguro, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Gradiva, 1995.


«I was only too aware of the possibility that if any guest were to find his stay at Darlington Hall less than comfortable, this might have repercussions of unimaginable largeness.»
«Tinha a consciência absoluta de que a possibilidade de algum convidado considerar a estada em Darlington Hall menos do que satisfatória poderia ter repercussões de inimaginável amplidão.»

Excerto da obra Os Despojos do Dia, de Kazuo Ishiguro, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Gradiva, 1991.

«To make him comfortable, she gave an aside half-smile, half-grimace.»
«Para o pôr à vontade, ela dirigiu-lhe de viés qualquer coisa que era metade sorriso, metade careta.»

Excerto da obra A filha de Burger, de Nadine Gordimer, tradução de J. Teixeira de Aguilar. Porto: Asa, 1992.

«Nothing,´ I replied; `I am as comfortable as can be; when will the brig sail?´»
«— Não preciso de nada — respondi — e estou tão bem quanto é possível. Quando é que o barco larga?»

Excerto da obra Aventuras de Arthur Gordon Pym, de Edgar Allan Poe, tradução de Eduardo Guerra Carneiro. Lisboa: Estampa, 1988.


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Léxico: escrachado

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Casos de polícia

      E se os porta-vozes da polícia começassem a dizer que fulano tal, agora detido em flagrante delito, já estava «escrachado»* em vez de «referenciado»? E se os jornalistas, em vez de companhias de «low cost», dissessem companhias de «baixo custo»? Seria perigoso, pois ia pensar, por mim falo, que tinha acordado noutro país, e sentir-me-ia mal.

* Atenção, irmãos Brasileiros: o nosso «escrachado», também da gíria, não é o vosso, que significa «depravado, pervertido». O nosso refere-se ao indivíduo identificado criminalmente; fichado na polícia.


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Ano litúrgico


O ano litúrgico de 2007-2008 começa hoje, dia 2 de Dezembro, que é o primeiro domingo do Advento. Ocasião, pois, para divulgar um texto, a vários títulos interessante, do padre Fernando Félix, missionário comboniano, publicado na revista Audácia, a melhor revista infanto-juvenil portuguesa, fundada em 1966.

O ano da fé


O ano civil começa a 1 de Janeiro e termina a 31 de Dezembro. Para os estudantes, a abertura das escolas em Setembro e a publicação das notas finais em Junho determina o ano escolar. Há o ano agrícola, o ano judicial... Também a Igreja tem o ano litúrgico: é o tempo em que os cristãos celebram a vida e mensagem de Jesus Cristo.

No ano 33 da nossa era, um grupo de homens e mulheres viveu uma experiência superdolorosa. Nos três anos anteriores tinham seguido um homem, chamado Jesus, que se apresentou como Filho de Deus. Ele seduziu multidões, fez discursos, contou histórias, curou doentes, ressuscitou mortos, defendeu os pobres e os marginalizados, condenou a injustiça e a hipocrisia. Quem o seguia acreditava n’Ele: era o Messias que Deus prometeu. Mas mataram Jesus numa cruz! Os discípulos, os 12 apóstolos e as mulheres que acompanhavam Cristo, fugiram ou esconderam-se.
Porém, Deus, que se revelou na criação do mundo, e Jesus Cristo, que venceu a morte, ressuscitando, enviaram a terceira pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo, para esclarecer a fé dos discípulos.
O Espírito Santo fez-lhes ver que Jesus era Deus e que Ele estava vivo. Mostrou-lhes que a Sua vida e mensagem tinham como missão salvar o mundo da maldade, conforme o Seu mandamento: «Como o Pai me amou, e Eu vos amei, amai-vos uns aos outros. Se vos amardes, todos compreenderão que sois meus discípulos. Ide pelo mundo, anunciai o Evangelho, fazei discípulos.»
E aqueles homens e aquelas mulheres foram testemunhas audazes. Reuniam-se cada semana para ler e rezar as Escrituras; anunciavam o Evangelho, celebravam a Eucaristia; eram solidários com os mais pobres; e baptizavam os que aderiam à Boa-Nova de Jesus. E a Igreja crescia.

O COMEÇO DAS FESTAS CRISTÃS

Naqueles primeiros tempos da Igreja havia uma única festa cristã: a Páscoa, que celebrava a ressurreição de Jesus, a Sua ascensão ao Céu e o envio do Espírito Santo. Celebrava-se uma vez por semana, no primeiro dia, a que os cristãos chamaram domingo, isto é, «Dia do Senhor», e, de modo mais solene, uma vez por ano, no domingo a seguir à primeira lua cheia da Primavera.
Mas a Igreja sentiu necessidade de ter mais tempo para saborear o significado da Páscoa. Criou, então, uma vigília, a que chamamos Tríduo Pascal, que vai de Quinta-Feira Santa ao Domingo de Páscoa. E acrescentou 50 dias festivos: o Tempo Pascal, que decorrem até à festa do envio do Espírito Santo, no Pentecostes.
Só na primeira metade do século IV a Igreja estabeleceu um período de preparação para a Páscoa: a Quaresma. E na segunda metade deste mesmo século surgiu o ciclo do Natal. Tinha um certo paralelismo com o ciclo pascal. O Natal tinha um tempo de preparação de quatro semanas, a que chamaram Advento (deriva o latim adventus, e significa «vinda, chegada»), e um tempo posterior, a Epifania (do grego epiphneía, cujo significado é manifestação), de duas semanas.
No século v, a Igreja já tinha um calendário para o ano litúrgico como o conhecemos hoje: além do Advento e Natal, da Quaresma e Páscoa, surgiu o Tempo Comum, que ocupa as restantes 33 ou 34 semanas do ano. Neste tempo a Igreja celebra a vida quotidiana de Jesus e faz memória dos santos.

O COMEÇO

O ano litúrgico 2007-2008 começa no próximo dia 2 de Dezembro, o primeiro domingo do Advento. Este calendário religioso não inicia no mesmo dia todos os anos. Porque é o Natal que determina o começo do ano da Igreja. O Natal tem data fixa — 25 de Dezembro —, mas percorre ciclicamente os dias da semana (em 2006 calhou a uma segunda-feira; este ano será numa terça). Como o Advento principia sempre no quarto domingo anterior, aquele factor faz que o ano litúrgico comece entre 27 de Novembro e 3 de Dezembro.
Até dia 24 de Dezembro, as vestes litúrgicas (paramentos) dos sacerdotes são roxos, com excepção do terceiro domingo de Advento, em que são rosa. O roxo é símbolo da penitência e do arrependimento — porque é necessário preparar o caminho do Senhor —, mas também da espera serena, através da oração, da leitura da Palavra de Deus, do jejum e da partilha dos bens. O rosa simboliza o entusiasmo de quem já está a cruzar a metade do percurso para a meta.
No Natal e nas duas semanas seguintes a cor das vestes é o branco. É sinal da perfeição (no branco estão presentes todas as cores), da pureza e da alegria plena. No primeiro domingo após o Natal comemora-se a família de Jesus (a Sagrada Família). No seguinte (dia 6 de Janeiro de 2008), lembra-se a visita dos magos a Jesus e a apresentação d’Este no Templo de Jerusalém.
O ciclo do Natal encerra com a celebração do Baptismo do Senhor (a 13 de Janeiro de 2008). Começa, então, o primeiro período do Tempo Comum, que decorre até à Quaresma.

O CENTRO

A comemoração da Páscoa é móvel e pode ocorrer entre 23 de Março e 24 de Abril. No novo ano litúrgico teremos o que se chama Páscoa baixa, pois vai ocorrer precisamente no dia 23 de Março. A Quarta-Feira de Cinzas, que marca o começo da Quaresma, retrocede na mesma proporção, e será a 6 de Fevereiro de 2008. E é igual a condição da festa de Pentecostes, com que culmina o tempo pascal a 11 de Maio.
As cores da Quaresma e da Páscoa voltam a ser o roxo e o branco. A excepção é a Sexta-Feira Santa e o Pentecostes, em que as vestes são vermelhas, símbolo do sangue mártir e do fogo.

O DESENVOLVIMENTO

Depois do Pentecostes retoma-se o Tempo Comum. Seguem-se 28 semanas. A solenidade de Cristo-Rei, a 23 de Novembro de 2008, encerra o calendário da Igreja. Neste tempo os paramentos são verdes, como sinal de esperança e da vida a crescer.

ESTRUTURA

Dia a dia, a Igreja medita textos retirados da Bíblia. Nos dias da semana há dois ciclos: um para anos pares e outro para os ímpares. Para os domingos existem três ciclos. No A proclama-se o Evangelho de S. Mateus; o B é dedicado a S. Marcos, e no C lê-se sobretudo S. Lucas, mas também há textos de S. João.
O ano litúrgico de 2007/2008 é o ciclo A.

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Léxico contrastivo: «bacana»

Charadas

Comecemos, por uma vez, ao contrário. Primeiro o título da notícia: «Comida vencida em endereço de bacana». Poucos serão os leitores portugueses que a compreenderão. Agora as primeiras linhas: «O restaurante Garcia & Rodrigues, localizado em um dos metros quadrados mais caros do Rio, o Leblon, e freqüentado por figuras como Chico Buarque e o governador do Rio, Sérgio Cabral, teve que arcar com uma multa de R$ 25 mil por colocar à venda produtos impróprios para o consumo. A vigilância sanitária esteve no local ontem, depois de uma denúncia de que havia alimentos estragados no estabelecimento» (Anna Luiza Guimarães, Jornal do Brasil, 29.11.2007, p. A12). Ou seja, comida fora de prazo encontrada em ponto de encontro de gente rica.
Como adjectivo, «bacana» é o que os Brasileiros designam «palavra-ônibus» (de omnibus, para todos), a palavra, quase sempre de uso coloquial, cujas acepções são tão diversas que não comportam uma clara delimitação semântica, como, por exemplo, «coisar», «legal», «troço», entre outras. Como substantivo, como é usada na notícia, significa pessoa rica, que é a acepção que tem no lunfardo, de onde terá — o que é controverso — vindo.

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Léxico contrastivo: «hidrômetro»

Medidor, contador…

      «A Agência Reguladora de Água e Saneamento (Adasa) realizou ontem audiência pública para discutir a implantação de hidrômetros individuais no DF. […] A polêmica sobre os hidrômetros começou em 2005, quando uma lei determinou que os prédios antigos teriam cinco anos para se adaptar à individualização» («Hidrômetro individual ainda causa divergências», Carolina Vicentin, Jornal do Brasil/Brasília, 29.11.2007, p. D6). É isso mesmo: o hidrômetro dos Brasileiros é o nosso contador da água.


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