Glossário de artes gráficas

Boas artes

      Será certamente útil este pequeno glossário, com 563 entradas, de artes gráficas e matérias afins (óptica, jornalismo, tipografia, etc.). Além de uma lista alfabética, inclui igualmente um directório de empresas relacionadas com as artes gráficas e um índice temático que permite consultar termos por grupos de interesse (PDF, óptica, tipografia, pré-impressão, etc.). Em espanhol, sim, mas, para algumas entradas, com os equivalentes em alemão, francês, inglês, italiano e português.


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Tuscany = Toscana

Mas não

      «[Helene] Schjerfbeck estudou em Paris, depois seguiu para Pont-Aven, na Bretanha, onde pintou durante um ano, depois para a Toscânia, Cornualha e S. Petersburgo» («Glória póstuma para uma estrela finlandesa», OJE, 30.11.2007, p. 17). Mal traduzido da revista The Economist: «Schjerfbeck studied in Paris, went on to Pont-Aven, Brittany, where she painted for a year, then to Tuscany, Cornwall and St Petersburg.»


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Erros e erratas

O corrector incorrecto (PE)

      Explicação na página 2 do semanário OJE, edição de hoje: «Um arreliador problema com o corretor automático dos textos, levou a que, na nota de ontem, o nome de Paulo Morgado fosse trocado com o de Paulo Macedo. Razão mais do que suficiente para a repetição da nota, na edição de hoje.» Dois erros numa explicação? Na próxima edição os leitores merecem uma explicação da explicação. Ah, claro: os jornais não têm a secção «erros da edição anterior», errata. Gramaticais, não.

O corretor incorreto (PB)

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Léxico contrastivo: «propinoduto»

Mãos untadas

«Uma quadrilha de empresários, contadores e fiscais de renda foi presa ontem na Operação Propina S. A., desencadeada pelo governo estadual e pelo Ministério Público (MP) do Estado. Estima-se que a lavagem de dinheiro patrocinada pelo grupo tenha provocado um rombo de R$ 1 bilhão na arrecadação tributária. A verba é três vezes maior do que a movimentada até 2003 pelo fiscal Rodrigo Silveirinha no escândalo do propinoduto. Os investigadores, que ainda ignoram quando o novo bando começou a atuar, suspeitam da ligação entre os dois episódios» («De Rodrigo Silveirinha ao Propinoduto II», Renato Grandelle, Jornal do Brasil, 29.11.2007, p. A8). Na definição do dicionário Aulete Digital, é termo jocoso que se refere a um «possível canal de transferência de propinas de fontes corruptoras para destinatários, geralmente políticos. [Termo criado no decorrer de um escândalo político-administrativo surgido no Brasil no final de 2005, quando foi revelada a suposta compra dos votos de alguns deputados por meio de propinas oriundas de fontes não identificadas, como, p. ex., contas bancárias de certas empresas].» No contexto, «propina» designa, como está bem de ver, as nossas «luvas», «suborno».

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Léxico contrastivo: «decolar»

Cola da gravidade

«Um avião bimotor com quatro pessoas a bordo caiu ontem, cinco minutos depois de decolar, sobre uma área residencial de Manaus, destruindo seis casas» («Bimotor cai sobre seis casas depois de decolar», Jornal do Brasil, 23.11.2007, p. A6). Do francês décoller*. Os nossos aviões descolam.

* Língua em que se registou pela primeira vez em 1931, na obra Vol de nuit, de Saint-Exupéry: «Les secrétaires, convoqués pour une heure du matin, avaient regagné leurs bureaux. Ils apprenaient là, mystérieusement, que, peut-être, on suspendrait les vols de nuit, et que le courrier d’Europe lui-même ne décollerait plus qu’au jour.»

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Pronome porque


Aleluia!

Conheço relativamente bem as gramáticas escolares dos últimos dez anos, o que me permite afirmar que, no que toca às formas do pronome interrogativo, a maioria destas obras prefere, prudentemente, omitir o «porque», prestando assim um mau serviço à língua e ao ensino. Agora, a Gramática da Língua Portuguesa, da autoria de Clara Amorim e Catarina Sousa, publicada pela Areal Editores, na página 190, regista na secção relativa aos pronomes interrogativos: «Porque não tiraste a fotografia?» Algo pode estar a mudar.

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Léxico contrastivo: «surtar»

Surtos

«Começou ontem o julgamento de Juarez José de Souza, acusado de matar e esquartejar, em agosto do ano passado, a empresária Edna Tosta Gadelha, 52, em uma clínica veterinária em Botafogo. Se condenado pelo homicídio triplamente qualificado com ocultação de cadáver, ele pode pegar até 33 anos de prisão. […] Alegou ter “surtado” na hora do assassinato e disse ter dividido o corpo de Edna em apenas dois sacos, e não em seis como constava na denúncia do Ministério Público» («Ao júri, esquartejador de Botafogo diz que “surtou”», Jornal do Brasil, 28.11.2007, p. A12). Surtar é termo familiar recente (foi registado na língua já na década de 1990) e significa entrar em surto psicótico ou em crise psicológica. Tem como étimo o substantivo «surto», na acepção médica de «crise psicótica caracterizada por maior ou menor grau de desintegração da personalidade e incapacidade de avaliar a realidade externa», na definição do Dicionário Houaiss.

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O moral e a moral

Outra triste vez


      Estive tentado a não referir este erro, tanto mais que já falei dele aqui. Contudo, o facto de ter sido, mais uma vez, uma jornalista a dá-lo e ser, vendo bem, imperdoável persuadiram-me do contrário. A cobrir o jogo Boavista-V. Guimarães, na segunda, dia 26, a jornalista da Antena 1 Cláudia Martins, no noticiário, às 20.12, disse que uma das equipas estava a «levantar a moral». Na acepção de «estado de espírito, ânimo», deviam sabê-lo, este substantivo é do género masculino: o moral.

Etiquetas
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Responsabilidade social

Aprender a dizer não

Depois de ter encontrado o jogo Aprender a Lêr, nova incursão a um hipermercado Feira Nova revelou mais jogos com erros da mesma empresa. Desta vez, o jogo — todos, num excesso imaginativo, são da marca «Toi» — chama-se Apanha Côcos. Dois erros: não apenas o vocábulo «coco» não tem acento circunflexo, como faz falta um hífen a ligar as duas palavras: apanha-cocos. Agora, a reclamação deve seguir não somente para a provedora do hipermercado Feira Nova, mas também para a própria empresa, a Pinto Guimarães & Barros, Lda.: jogostoipintogb@mail.telepac.pt. Queremos dar aos nossos filhos jogos, vendidos como didácticos, com erros?

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Responsabilidade social

Aprender a denunciar

Na secção de brinquedos de um hipermercado, e concretamente nas prateleiras dos jogos didácticos, encontrei, oh horror!, um jogo com o nome, escrito em várias partes da caixa, Aprender a Lêr. A empresa fabricante do jogo é a Pinto Guimarães & Barros, Lda., que não se envergonha de comercializar um produto com tão grave defeito. Como também não se envergonha o hipermercado, o Feira Nova. Ainda têm a pretensão de nos ensinarem a ler. É, não tenho dúvidas em dizê-lo, um caso de grave irresponsabilidade social. É pena que entre as atribuições da ASAE não esteja a fiscalização destes casos. Denunciemo-lo, ao menos, à provedora deste hipermercado, pedindo que mande retirar das prateleiras aquele produto.

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Léxico contrastivo: «malsucedido»

Tristes sucessos

Cá, temos muito receio de escrever «bem-sucedido», sentindo-nos, e com razão, à deriva, pois os dicionários ou são omissos em relação a este termo ou indiciam ter adoptado critérios crípticos. Já no Brasil, escrever «bem-sucedido» e «malsucedido» é corrente, já que ambos os adjectivos estão sancionados pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras. «Um criminoso tentou roubar um carro onde estava uma família, obrigou o pai a sair do veículo, tentou fugir, perdeu o controle, capotou e caiu em um canal no Recife. O ladrão acabou sendo preso em flagrante após a fuga malsucedida» («Roubou carro e capotou», Jornal do Brasil, 23.11.2007, p. A6).

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Léxico contrastivo: «Bálcãs»

Pois é

«Ao mesmo tempo em que a conflituosa província do Kosovo nunca esteve tão perto de conquistar a independência, a tensão na região dos Bálcãs cresce e a possibilidade de mais guerras é iminente. Com a vitória do ex-líder guerrilheiro albano-kosovar Hashem Thaci, pelo Partido Democrático do Kosovo (PDK), como primeiro-ministro no dia 17 ­ apesar da abstenção sérvia ­ o Kosovo anunciou que não aceitará nada menos do que independência» («Independência amedronta os Bálcãs», Marsílea Gombata, Jornal do Brasil, 25.11.2007, p. A28). Para os Brasileiros, o vocábulo é grave. Para nós, isso é grave, pois Rebelo Gonçalves, no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista-o como agudo. A grafia brasileira autoriza uma pronúncia que se aproxima da de um anglo-saxónico. Da forma como, erroneamente, Nuno Rogeiro o pronuncia.

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Léxico contrastivo: «gangorra»

Imagem: http://www.aqioestou.blogger.com.br/

Agora já sabem

«E que, como Poder Moderador, teve habilidade para imperar sobre a gangorra entre liberais e conservadores, dos gabinetes parlamentaristas. Durante quase cinco décadas de ambicionadas paixões políticas, ele manteve sempre um distanciamento que não estimulava intimidades ou camaradagens. Foi muito criticado pelo excesso de liberdade que garantia aos jornalistas. Era um sedento de afeição, solitário e introvertido, que se escondia atrás do cetro e das pompas» («Pedro II, monarca republicano», Murilo Melo Filho, Jornal do Brasil, 23.11.2007, p. B3). Uma gangorra é, na definição do dicionário Aulete Digital, um «brinquedo constituído de uma prancha firmada numa base central de ajustamento oscilante, de modo que duas pessoas, geralmente crianças, podem sentar-se em cada uma das extremidades e lhe imprimir movimentos alternados de baixo para cima e vice-versa». Claro que no texto citado o vocábulo é usado em sentido figurado. Entre nós, chama-se sobe-e-desce ou cavalinho. Estranhamente, algumas pessoas a quem perguntei apenas conheciam o nome em inglês: see-saw ou teeter-totter.

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Léxico contrastivo: «fumacê»

Ah, é isso?

      «Idolatrado pela população, o fumacê enfrenta resistência cada vez maior de especialistas e da prefeitura. A Secretaria Municipal de Saúde já transferiu 18 veículos com inseticidas ao Estado. Agora, os carros, que haviam sido doados pelo Ministério da Saúde, só entram em ação nos bairros em que a doença registra índices mais críticos. E, mesmo tendo mudado de mãos, agem apenas depois que os casos são notificados pelo município. […] O fumacê é uma bomba ambiental, porque agride idosos, alérgicos e crianças com asma, além de não combater os criadouros do mosquito. […] Os órfãos dos fumacês freqüentemente recorrem a dedetizadoras, mas a iniciativa privada também condena o impacto ambiental causado pelos veículos com inseticida» («Eficácia do fumacê no centro de polêmica», Jornal do Brasil, 23.11.2007, p. A7). Na definição do Aulete Digital, «fumacê» é o vocábulo, redução de «fumaceira», da gíria para o «veículo dotado de aparelho que lança no ar fumaça de substância que mata mosquitos, especialmente os da dengue». Quanto a «dedetizadoras», é óbvio: de DDT.

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Uso do itálico e das aspas

Cracatoa, seja

«A mais violenta das erupções do vulcão indonésio Krakatoa, ocorrida em 1883, faz parte das lendas dos velhos marinheiros, pois foi escutada a sul da Austrália e, mais longe ainda, em pleno oceano Pacífico» («Filho do ‘Krakatoa’», Visão, n.º 767, 15 de Novembro de 2007, p. 27). Já que ninguém pergunta, pergunto eu: porque é que «Krakatoa» está em itálico? Pior só mesmo Maria Filomena Mónica grafar o nome de estabelecimentos comerciais entre aspas. Para quê? «Finalmente, convidou-me para tomar chá, no dia seguinte, no “Covered Market”. […] Foi assim que me encontrei no que viria a ser o meu local preferido, o café “Brown’s”, não o restaurante que, no final dos anos 70, surgiu em Woodstock Road, mas o local esquálido, situado no Mercado Coberto, onde se cruzavam camionistas, estudantes e mendigos» (p. 261 de Bilhete de Identidade, Alêtheia Editores, 4.ª ed., Lisboa, 2006). E para quem, impensadamente, já objectava, dedinho em riste, que, pensando bem, eram palavras inglesas, replico aduzindo o exemplo de duas páginas adiante: «Para quem considerava que a “Sá da Costa”, a “Buchholz” e a “Bertrand” eram boas, a “Blackwell’s” constituía um choque cultural.» Tirou-me a palavra da boca: choque, sim.

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Africano ou negro?

Equívocos cromáticos

Passava pela Estrada de Benfica, a Baixa da freguesia, quando vi um ajuntamento perto da Igreja de Nossa Senhora do Amparo. Aproximei-me, movido pela curiosidade e pelos pés, que se encaminhavam para a padaria. «Ah, foram dois africanos que…», dizia uma senhora idosa. Claro que esta testemunha não tinha falado com os «africanos» nem ninguém lhe tinha dado qualquer informação, e os indivíduos, para ela como para mim, tanto podiam ser africanos como asiáticos ou americanos. Por algum desvio semântico, «africano» é — imprópria e equivocamente — sinónimo de «negro». Mais estranho ainda é ver-se o equívoco em obras literárias. A autobiografia de Maria Filomena Mónica, que é socióloga, Bilhete de Identidade, para quem admita o exemplo como de obra literária, acolhe o equívoco: «A uma mesa, vi um africano, mais velho do que eu, ao lado de dois ingleses, que pareciam ter dez anos, e um egípcio, de idade indefinida» (p. 257). Claro que a autora está a adiantar-se na narração: não viu logo tanto. Viu, mais precisamente, um negro, dois brancos e um indivíduo menos negro que o negro (graças à miscigenação da população do Egipto, de origem semítica ou berbere, com os Núbios, que, aliás, eram na Antiguidade vistos pelos Egípcios como inferiores, precisamente devido à cor da pele), que se veio a revelar egípcio. O negro, que por acaso era africano, era um ex-embaixador do Gana nas Nações Unidas. Os negros da Estrada de Benfica não eram, desconfio, africanos. A senhora era branca, sim, mas podia ser, não lhe perguntei, africana.

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Léxico contrastivo: «carceragem»


Prisões


      «Mais três casos de mulheres convivendo com homens na mesma cela foram revelados ontem, em Belém (PA). As histórias começaram a surgir depois da denúncia de L., que foi recolhida pelo Conselho Tutelar de Abaetetuba. Ela passou 15 dias com 20 homens na cadeia da cidade. O caso mais grave, depois do da menor L., é o de Parauapebas, no Sudeste paraense. Na cadeia da cidade, Enailde Brito Santos, de 25 anos, dividiu a mesma cela com 70 homens durante 45 dias» («Pará tem 4 casos de carceragens mistas», O Povo, 23.11.2007, p. 16). É termo, é verdade, tanto de Portugal como do Brasil, mas somente usado no outro lado do Atlântico. Na definição do Dicionário Houaiss: «carceragem s.f. 1 ant. imposto que os presos eram obrigados a pagar ao carcereiro 2 acto ou efeito de carcerar, de prender; prisão 3 despesa com a manutenção dos presos.»
      E por cárceres: ainda ontem, a propósito da explosão de um prédio em Setúbal, ouvi na Antena 1, no noticiário das 20 horas, que, àquela hora, ainda estava uma vítima «encarcerada» no prédio. Agora, a propósito de tudo e de nada, «encarcerado» é a palavra mágica. Já não bastava as vítimas de acidentes de viação ficarem «encarceradas» nos automóveis. Segundo o Diário Digital, os feridos foram «enviados para o Hospital Garcia D’Horta». Ignorância.

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Ortografia: ibero-americano


É parecido

«Ao que parece, o encontro já estava agendado antes do famoso “Por qué no te callas?!” (que, entretanto, passou a ser toque de telemóvel e já leva 500 mil downloads), dirigido pelo Rei de Espanha ao Presidente venezuelano, na recente Cimeira Iberoamericana» («Ninguém cala Chávez», Joana Fillol, Visão, n.º 768, 22 de Novembro de 2007, p. 50). Já temos sorte que a jornalista não tenha escrito «Cumbre Iberoamericana».

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Símbolo de hertz

Sistema Internacional de Unidades
      O leitor V. Mendonça pergunta-me porque é que o símbolo da unidade hertz aparece muitas vezes com inicial maiúscula. O erro, caro leitor, é justamente aparecer apenas muitas vezes e não todas. Os símbolos das unidades são, em geral, escritos com minúscula inicial, excepto — como é o caso — se o nome da unidade derivar de um nome próprio. Logo, o símbolo de hertz é Hz, tal como o de kelvin é K, o de joule J, o de ampere A, o de pascal Pa… Assim o determina o Sistema Internacional de Unidades.
      Num livro recente, publicado já em Novembro, sobre Cosmologia, pode ler-se: «A temperatura pode ser expressa em graus Kelvin.» Está errado. Se estivesse correcto, poder-se-ia escrever, por exemplo, 300 ºK, e não pode. Desde 1967 (!) que não pode, pois a unidade passou a ter a designação de kelvin (com o símbolo K), e não grau kelvin. Na mesma obra também se pode ler «50 quilómetros por segundo por Megaparsec». Está errado: «megaparsec» se deveria ter escrito. Finalmente, também nesta obra se vê escrito «arco-segundo», quando o mais correcto é «segundo de arco» (confronte resposta em Consultório Científico).

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Léxico contrastivo: «cepa»

Mas percebe-se

«Cientistas americanos e sul-africanos decifraram o mapa genético de uma cepa da tuberculose resistente à maioria dos remédios, informou o Instituto Broad do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. Os cientistas disseram que a cepa do Mycobacterium tuberculosis está vinculada a um surto da doença que matou mais de 50 pessoas na província sul-africana de Kwazulu-Natal» («Mapeado DNA de bactéria resistente», Jornal do Brasil, 22.11.2007, p. A24). Entre nós, diríamos «estirpe». «Os cientistas disseram que a estirpe da Mycobacterium tuberculosis está ligada a um surto da doença que causou a morte a mais de 50 pessoas na província sul-africana de KwaZulu, em Natal» («Tuberculose: Decifrado genoma de estirpe resistente», Diário Digital/Lusa, 21.11.2007).

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Rómulo e Remo


Apetece acreditar

«O ministro da Cultura italiano, Francesco Rutelli, anunciou ontem a descoberta do lugar onde, segundo a lenda de fundação de Roma, uma loba amamentou os irmãos Rômulo e Remo. Rutelli, que não assumiu a responsabilidade da teoria sobre a gruta mas a atribuiu aos arqueólogos, classificando como uma “maravilhosa descoberta arqueológica”, contou os detalhes do achado, depois divulgado em comunicado de seu Ministério. Finalmente encontramos um local mitológico que virou um local real afirmou Rutelli. O descobrimento de um covil recoberto de mosaico e conchas aconteceu meses atrás, no curso das obras que a Superintendência Arqueológica de Roma promove para acondicionar a colina do Palatino. Na página do Ministério de Cultura italiano na internet, podem ser vistas as imagens da gruta, obtidas através de uma câmera que foi colocada no seu interior no mês de agosto passado. A gruta está a 16 metros de profundidade entre o Circo Máximo e a casa de Augusto, tem o diâmetro de 6,53m e altura de 7,13m, e dataria da Idade do Bronze. No entanto, o ministro não revelou os detalhes sobre como fez a vinculação entre a caverna e a toca da lendária loba. Conta a lenda que os gêmeos Rômulo e Remo, cujo pai era o deus Marte, foram abandonados no rio Tiber por ordem do rei Amulio, cuja filha tinha descumprido o mandato de virgindade que ele tinha imposto a ela quando a obrigou a se dedicar ao culto de Vesta. Os irmãos foram depois adotados e amamentados pela loba Luperca junto com suas crias, o que garantiu a sobrevivência de ambos. Quando cresceram fundaram Roma, de acordo com o mito. Conta-se também que, após a fundação da cidade, houve um conflito entre os irmãos para decidir quem seria o rei e Rômulo acabou matando Remo, tornando-se o primeiro rei de Roma. As interpretações da lenda foram múltiplas e entre elas está a do ensaísta e escritor Corrado Augias, que em seu livro I segreti di Roma sustenta que é possível que Luperca tenha sido uma prostituta, já que na Roma antiga estas recebiam o nome de lupa (loba). Esse mesmo escritor adverte do perigo que se corre quando se dão por verdadeiras as lendas ao lembrar em seu livro que o fascismo elegeu o nome de filhos da loba para as crianças italianas que queria educar em sua ideologia. Conhecida como Lupercal, a caverna é o local onde acredita-se que os romanos antigos realizavam cultos pagãos em honra ao deus Faunus Lupercus, que protege os rebanhos de lobos» («Gruta onde loba amamentou Rômulo e Remo é encontrada», Jornal do Brasil, 22.11.2007, p. A24).


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Léxico contrastivo: «galpão»

Barracão

      «O modelo Fox-2 que caiu ontem matando Paulo Gonçalves e Ericsson Brígido é o mesmo utilizado pelo empresário Maurocélio Rocha Pontes, 42, que caiu no dia 21 de abril, em Sobral, matando-o na hora. Na época, a esposa de Maurocélio, que também estava no aparelho, teve de ficar internada. Segundo informações dos bombeiros, uma forte chuva atingiu o aparelho, fazendo com que o empresário perdesse o controle e batesse contra um galpão» («Acidente com ultraleve mata piloto e passageiro», Marcos Cavalcante, O Povo, 21.11.2007, p. 7).
      De acordo com o dicionário Aulete Digital, é a «construção de grande tamanho, geralmente sem parede num dos lados, e empregada tanto na cidade como no campo para armazenamento de material, de máquinas e apetrechos». O étimo é o espanhol galpón: «Casa grande de una planta», «departamento que se destinaba a los esclavos en las haciendas de América» e, na América do Sul e nas Honduras, «cobertizo grande con paredes o sin ellas». Galpón, por sua vez, provém, provavelmente, do vocábulo nauatle calpúlli, «casa grande». No Brasil usam-se ainda os derivados «galponear» e «galponeiro».

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Léxico contrastivo: «deslanchar»

Os deslizes de García Marquez

Interrogado sobre como é o seu processo de tradução, Eric Nepomuceno (que traduziu sobretudo obras de Julio Cortázar, Juan Carlos Onetti e Gabriel García Marquez) afirma: «Leio enquanto traduzo. Antes, não. O processo é exatamente o mesmo de quando escrevo meus contos. Começo à mão, até o texto ganhar fluidez. As palavras ganham mais peso, demoram mais para chegar. Quando chegam e começo a deslanchar, então posso ir para o computador. Na primeira versão, jamais vou ao dicionário. Imprimo tudo ­ correções na tela, jamais ­ e começo a revisão. E aí sim, na segunda versão, recorro aos dicionários. Uso o da Real Academia Espanhola, e principalmente a enciclopédia Larousse. Não conheço nenhum bom dicionário espanhol-português. Então, fico mesmo nos espanhóis. Os de sinônimos costumam ser úteis. Ah, sim: uso muito o Aurélio. Em alguns autores, como Rulfo ou o próprio García Márquez, muitas vezes a solução está lá. Eles usam um castelhano muito castiço, com muitas palavras que também estão no português arcaico» («Até García Márquez comete ‘gazapos’», Vivian Rangel e Alvaro Costa e Silva, Jornal do Brasil, 17.11.2007, p. 4). «Deslanchar»? Adaptado do francês déclencher, significa dar impulso ou ganhar impulso. Ah, sim: o gazapo* de García Marquez: a da primeira e célebre frase de Cem Anos de Solidão: «Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.» Habría deveria ter escrito, o que foi agora corrigido na edição comemorativa do 40.º aniversário da publicação.


* Vocábulo espanhol derivado por regressão de gazapatón, e este do grego κακέμφατον, através do latim cacemphăton, «dito malsoante».

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«Ticker» e rodapé

Rodapé serve

«Os ticker — rodapés que passam informação complementar por escrito — vão desaparecer da SIC, no dia 19, anuncia Alcides Vieira», que acrescenta: «É um risco assumido, mas achamos que a sua existência só traz ruído à imagem. Fomos a primeira estação, em Portugal, a adoptá-los, seremos a primeira a acabar com eles» («Opção. Adeus [,] rodapés», Luísa Oliveira, Visão, n.º 767, 15 de Novembro de 1997, p. 114). «Rodapés», dizem bem. Sobretudo agora que acabaram, a designação inglesa é mera excrescência. Ruído.

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Léxico contrastivo: «zerar»

Reduzir a zero

«O setor da construção civil apresentou ao governo um projeto para estimular a construção e financiamento de moradias populares e zerar o déficit brasileiro de 7,9 milhões de habitações em 12 anos» («Projeto prevê zerar déficit habitacional em 12 anos», O Povo, 17.11.2007, p. 23). Em Portugal, seríamos menos económicos a escrevê-lo: «Projecto prevê reduzir a zero o défice habitacional em 12 anos». Segundo o dicionário Aulete Digital, são as seguintes as acepções do verbo zerar: «Quitar (conta, dívida, etc.).│Reduzir a zero.│Compensar.│Dar ou receber nota zero.»

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Acordo Ortográfico

As contas de Bechara

As contas de Evanildo Bechara sobre o Acordo Ortográfico são outras. Em entrevista ao jornal O Globo (caderno «Prosa e Verso», 1.9.2007), começa por lamentar que não haja grandes revoluções (tinha de haver?) nas alterações que se vão fazer. Pior ainda: «O outro [ponto] é que as modificações no sistema brasileiro são em maior número do que as que os portugueses vão ter que fazer.» Em rigor, afirma, Portugal «só vai ter duas modificações: vão deixar de usar as consoantes mudas e eliminar o “h” inicial em palavras como “úmido”. O Brasil fez mais cedências». Está dado o mote. Deixa, contudo, conselhos sábios: «Seria bom que se economizasse mais na acentuação.» E explica: «Se você pegar um livro escrito antes da reforma de 1911, e esse mesmo texto na ortografia atual, portuguesa ou brasileira, vai ver que o texto tinha muito menos acentos antigamente.» Os acentos, afirma, surgiram numa «época em que a rede escolar era muito mais frágil do que hoje. Era necessária uma reforma em que a maneira de grafar as palavras ajudasse as pessoas a pronunciá-las corretamente». O que o novo acordo estabelece em relação ao hífen também não lhe parece satisfatório: «A reforma estabelece 13 regras para utilização do hífen. É um avanço, já que hoje Portugal tem mais de quarenta regras e sub-regras. Mas isso ainda poderia ser resolvido com quatro ou cinco regrinhas muito simples, que tivessem como critério básico impedir pronúncias erradas.»

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Conjugador

Acabaram-se as desculpas

      Eis o LX Conjugator. Pese embora o nome, é um serviço em linha gratuito para a conjugação completa de verbos portugueses com características invulgares, como a opção de conjugação pronominal.


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Júri e jurado

Não aprendem

«Durante 25 anos, foi [Moisés Bensabat Amzalak] júri dos concursos para a carreira diplomática do Ministério dos Negócios Estrangeiros e, em 1959, é o delegado do Governo, num congresso da NATO» («O fantasma de Amzalak», Miguel Carvalho, Visão, n.º 767, 15 de Novembro de 2007, p. 51). É um erro muito frequente e absolutamente lamentável numa revista como a Visão.

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Léxico contrastivo: «mutirão»

Outros encontros

«O Banco do Brasil promove, quinta e sexta-feira, o Mutirão da Cidadania Empresarial em Campos. O evento, que acontece no Sesi/Guarus, das 14h às 20h, tem o objetivo de orientar empreendedores informais sobre a melhor maneira de regularizar o seu negócio. O encontro conta com a parceria e o apoio da Secretaria de Fazenda de Campos, da Inspetoria de Fazenda do Estado do Rio, da Receita Federal e do INSS. A expectativa dos organizadores é levar esse mutirão a 1.000 municípios do país, contemplando todos os estados brasileiros» («Mutirão para sanear contas empresariais», Carolina Bittencourt, Jornal do Brasil/Niterói, 17.11.2007, p. 2). Segundo o Aulete Digital, trata-se, no contexto, de mobilização de pessoas, colectiva e gratuita, para executar um trabalho. Num jornal português, utilizar-se-ia, provavelmente, a palavra «encontro» para dizer o mesmo.

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Léxico contrastivo: «manzuá»

Caçoeiras e manzuás

«No palco improvisado sobre a jangada, com vista para o mar da Caponga (Cascavel 60 quilômetros de Fortaleza, litoral leste), o ministro da Aqüicultura e Pesca, Altemir Gregolin anunciou para uma platéia atenta de pescadores: o Ceará é o estado que mais contribuiu com a política de combate à pesca predatória da lagosta, em prática desde julho passado. A política da Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca (Seap) é desenvolvida em duas frentes: a compra de caçoeiras (redes de pesca) e compressores (material usado no mergulho) e a capacitação de pescadores para a manufatura de manzuás (armadilha reconhecida legalmente)» («Governo compra 1.300 km de caçoeira», Ana Mary C. Cavalcante, O Povo, 8.11.2007, p. 27). Não, não: caçoeiras temos nós. Vem, como parece óbvio, de «cação». Não temos é manzuás (que tem a variante munzuá e étimo quimbundo), que é um artefacto semifixo de pesca, uma espécie de covo, que não exige a permanência do pescador, usando-se para a pesca de várias espécies de siris e para caranguejos e lagostas. É confeccionado com palhetas de cana-brava e tem uma entrada. No seu interior são colocadas duas trouxas de isco, feitas de folhas de cacaueiro e atadas com fibras de bananeira ou de imbiruçu. E é só esperar.

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Léxico contrastivo: «pardal»

Pardais ou abutres?

«Amparada na multiplicação de pardais e da área em que atua a Guarda Municipal, a prefeitura aposta pesado na arrecadação de multas para equilibrar suas contas no ano que vem. Quase metade do orçamento da Secretaria de Transportes vem de infrações que devem ser aplicadas aos motoristas cariocas em 2008» «O milagre da multiplicação de pardais nas ruas do Rio», Renato Grandelle, Jornal do Brasil/Cidade, 14.11.2007, p. A8). Na linguagem popular, que chegou aos jornais e neles se instalou, é o equipamento — radares electrónicos — instalado nas vias públicas para fotografar infracções de trânsito.

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O ou a diabetes?

O… a… hum… diabetes



      «Entre as principais complicações ocasionadas pelo diabetes, cita Inês, estão problemas renais, neuropatia diabética (alteração da sensibilidade), retinopatia diabética (alteração da retina que pode levar a cegueira). A principal dica da médica para evitar diabetes é manter o “peso adequado”. “O foco está na mudança de estilo de vida para prevenção, não só do diabetes, como de outras doenças. A principal dica é manter o peso adequado. As pessoas gordas têm maior tendência a desenvolver a doença”, ressalta Inês» («Prevenindo o diabetes», O Povo, 11.11.2007, p. 9). Pode haver razões ponderosas para a considerarmos do género feminino, e em especial o facto de nos ter vindo do francês, língua em que também é deste género, mas não podemos ser fundamentalistas: alguns dicionários registam ambos os géneros, e temos de admiti-lo quando a vemos escrita, como neste artigo do jornal brasileiro O Povo, como sendo do género masculino.
      Mais uma citação, desta vez do respeitável Jornal do Brasil, não vão os meus leitores pensar que escolhi mal o jornal. «O que era uma doença simples de tratar passou a ser comum e hoje é uma pandemia. O diabetes atinge 10 milhões de brasileiros e 246 milhões de pessoas no mundo. Estima-se que até 2025, 15 milhões tenham a doença aqui. No exterior, o número ultrapassará 330 milhões. Hoje, no Dia Mundial do Diabetes, especialistas ressaltam os números alarmantes e afirmam que a conscientização para a mudança de hábito é a maior arma para a redução das estatísticas» («Diabetes atinge 10 milhões de brasileiros», Marsílea Gombata, Jornal do Brasil/Vida, 14.11.2007, A24).
      Maria Filomena Mónica, na obra Bilhete de Identidade, escreve: «Sentia agora o peso da idade. Os diabetes tinham-se agravado. Ouvia cada vez pior.» Como cito a 4.ª edição (mas será reimpressão, como sabemos), é de supor que não seja lapso.


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Léxico contrastivo: «muda»

De mudança

«Governantes presentes, incluindo o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, plantaram ontem árvores nativas de cada país em Santiago. Lula colocou uma muda de pau-brasil. Os exemplares encontram-se no novo parque Ibero-Americano, inaugurado na colina de San Cristóbal, de onde se pode ver toda a cidade» («Previdência é tema de Cúpula no Chile», O Povo, 10.11.2007, p. 34). Uma muda é uma planta tirada do viveiro para plantação definitiva. Embora não se trate, em rigor, de um brasileirismo, o seu uso está difundido no Brasil, ao passo que em Portugal o vocábulo é usado, e pouco, noutras acepções. Entre nós, fala-se em muda de roupa, em muda de pêlo (ou penas, ou pele, ou cornos) nos animais. Antigamente, também se falava em muda de animais: o lugar (estação de muda) onde descansavam os animais que haviam de substituir outros que chegavam cansados de qualquer jornada. Essa substituição em si também era chamada muda.
Esperemos que agora, no Parque Ibero-Americano, usem um cabanil.

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Léxico contrastivo: «prisão domiciliar»

Tudo em casa

«Em menos de quatro dias, autoridades paquistanesas deram a segunda ordem de prisão domiciliar à ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, numa tentativa de prevenir maiores manifestações de opositores contra o estado de emergência, que vigora no Paquistão há 10 dias. A ordem de detenção de sete dias foi decretada pelo governo da província de Punjab, onde Benazir está. A ex-premier está proibida de sair da casa de Aftab Cheema, legislador de seu Partido Popular do Paquistão (PPP), em Lahore» («Governo volta a colocar Benazir em prisão domiciliar», Jornal do Brasil, 13.11.2007, p. A22). Entre nós, nos meios de comunicação social, é a chamada «prisão domiciliária», mas, em rigor, trata-se da «obrigação de permanência na habitação». Os jornalistas, que gostam muito de usar termos técnico-jurídicos, e em especial o vocábulo «arguido», aqui deixaram-se ultrapassar pelas alterações legislativas. Mas está bem: percebe-se.

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Acordo Ortográfico

É agora?

Segundo a agência Lusa, num texto cheio de gralhas e erros, Portugal anunciou que ratificará até ao final do ano um protocolo que abre caminho à aplicação do Acordo Ortográfico de 1990. Ainda segundo a Lusa, «pela aplicação das novas normas ortográficas, 1,6 por cento do vocabulário usado em Portugal (e nos países que seguem a norma portuguesa) deverá sofrer alterações. No Brasil, onde essas mudanças abrangem apenas 0,45 %, o Governo não tem poupado esforços na defesa da aplicação do acordo».

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Francisco Rebelo Gonçalves


E o Vocabulário?

No centenário do filólogo e lexicólogo Francisco Rebelo Gonçalves, vale a pena ouvir esta emissão em pós-difusão do programa Páginas de Português do passado domingo, dia 11.

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Léxico contrastivo: «esquete»

Cenas

      «Nossa idéia inicial era escolher nossas melhores esquetes e textos e, a partir daí, convidar atores que a gente gosta para interpretar estes personagens. Assim, acreditávamos não haver erro —­ conta o diretor Leandro Goulart» («Humor, crítica e sarcasmo: os ingredientes de ‘Pout-PourRir’», Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil/Barra, 2.11.2007, p. 4). Irreconhecível, mas sim: o sketch inglês: encenação curta de peça teatral, de programa de rádio ou de televisão, geralmente de carácter cómico.
      Quando chegaremos a esta simplicidade no aportuguesamento de palavras estrangeiras? Ainda ontem tive de rever um texto em que aparecia a seguinte frase: «É também comum ouvirem-se músicas e canções de Natal por todos os lados, com a ajuda dos rádios e karaoques.» O autor não teve coragem de ir mais além: expungir os dois kk (capas ou cás)* — uma letra que, estupidamente, se proscreveu, pela reforma ortográfica de Gonçalves Viana, do nosso abecedário, continuando, contudo e contraditoriamente, a usar-se, que remédio, nos vocábulos derivados de nomes próprios estrangeiros, em símbolos e em unidades de medida — afigurou-se-lhe demasiado arrojado, um desafio aos deuses. Como revisor, impunha-se intervir no sentido de uniformizar, e fi-lo puxando para o português a palavra, emendando para «caraoque». De resto, registado pelo Dicionário Houaiss e usado (no Brasil escreve-se «caraoquê»).

* Cás, sim, senhores. Claro que o Word, esta inteligência artificial primária, acha que me enganei, alterando para «cãs». A propósito de outra letra proscrita, o w, escreveu Vasco Botelho de Amaral na obra Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português: «W. Poderia apostar em como 90 % dos Portugueses não sabem que o nome “português” da letra w é… éu. (Cf. Viana, Ortografia Nacional, 28,197).
Embora seja esta a forma “portuguesa”, não hesito em pô-la de parte, pois… não pega. Sou contrário à filologia que não tem em conta as realidades da repulsão colectiva.
Mas, se éu nos faz talvez sorrir, o dâbliu e o “double” VÊ não menos se tornam provocadores de sorriso» (p. 578).


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Léxico contrastivo: «carro-forte»

Imagem: http://www.portalaftermarket.com.br/

Casa, cofre e carro-forte

«Uma mulher foi atropelada ontem pela manhã, por volta das 11h45min, no Centro de Fortaleza, por um carro-forte da empresa de segurança Corpvs» («Carro-forte sobe em calçada e mata mulher», O Povo, 7.11.2007, p. 7). Nós só temos «casas-fortes» e «cofres-fortes». Para nós, é uma carrinha blindada.

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Léxico contrastivo: «esprivitado»

Quase espevitada

«Enquanto seus colegas se contentam em decalcar Bukowski e Rubem Fonseca, enquanto as clarissinhas cultuam sua musa esprivitada, como se não houvesse nada além no horizonte literário, Cuenca, por sua vez, brinca com a herança que nos assombra e limita. Ele pode não escapar aos clichês, mas ao menos se debate entre eles. E se diverte. E questiona, não como um moralista ­ no sentido de apontar a decadência moral de determinada sociedade ­ mas como uma testemunha jocosa. Estamos todos no mesmo barco, cobertos pela mesma bruma, sofremos da mesma miopia, e não há, de fato, como tirar respostas definitivas» («Enfim, o romance da não-geração», Bolívar Torres Corrêa, Jornal do Brasil/Idéias&Livros, p. 7). Não, não, «esprivitado» não está registado no Aulete nem no Houaiss. Mas está aqui neste dicionário pernambuquês e significa «agitado, atrevido».

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Léxico contrastivo: «racha»

Ou vai ou...

«As testemunhas de acusação do processo contra o professor de Educação Física Paulo César Timponi, 49 anos, e o músico Marcelo Costa, 23, prestaram depoimento hoje no Tribunal de Justiça do DF. Os dois são acusados de provocar o acidente que matou três mulheres na Ponte JK, no início deste mês. Ao todo, sete pessoas foram ouvidas pelo juiz João Egmont Lopes. Todas afirmaram que os veículos dirigidos por eles estavam em alta velocidade, realizando ultrapassagens na pista» («Testemunhas confirmam que motoristas disputavam racha», Carolina Vicentin, Jornal do Brasil/Brasília, 10.11.2007, p. D4). Racha é termo popular e significa corrida ilegal de carros. Um jornalista português escreveria... deixem-me adivinhar... street racing.
Curiosamente, na mesma página a palavra é ainda usada noutra acepção: discordância num grupo de pessoas com ideias comuns, que causa a formação de dois novos grupos a partir do primeiro; ou seja, cisão, cisma. «A população mais pobre do Distrito Federal é lulista, mas não é petista. Isso se deve à falta de compreensão política de dirigentes petistas, que demonstra a desconexão entre o partido e o que quer a sociedade. Essa posição não é de nenhum cientista político hostil ao PT, mas de um dos principais candidatos a presidente regional do partido, Lenildo Machado. Tem o apoio do deputado federal Geraldo Magela, cuja corrente política integra. É até chefe de gabinete de Magela na Câmara dos Deputados. Pretende destronar o atual presidente, Chico Vigilante, candidato à reeleição. O tom duro das críticas de Lenildo dá uma dimensão do racha existente hoje na seção regional do partido» («Guerra para valer»).

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Tradução: «drawbar»

Órgãos de tubos

O leitor V. Mendonça pergunta-me como se pode traduzir, referido a um órgão de tubos, o termo inglês drawbar. Traduz-se por «puxador» ou «manúbrio». É o dispositivo que permite ligar, puxando, e desligar, empurrando, determinado registo. Como «puxador» é muito mais polissémico, eu optaria por «manúbrio», do latim manubrĭum,ii, «manípulo», «cabo de qualquer instrumento». Curiosamente, em espanhol o órgano de manubrio não é o nosso órgão de tubos, mas sim o realejo, que em inglês tem a designação de hurdy-gurdy street organ. No glossário da Meloteca, sítio de músicas e artes, encontrará a definição da palavra.

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O preço da ortografia

Bons polícias

«Um erro de português levou a polícia a prender oito integrantes de uma quadrilha de assaltantes, suspeita de roubar R$ 15 milhões da sede da transportadora de valores Protege, na Água Branca (zona oeste), em setembro. O grupo se preparava para invadir um condomínio de luxo na Lapa ontem e foi descoberto porque, do lado de fora do Fiat Dobló que seria usado para entrar no local, os bandidos usaram adesivos com a inscrição “Impório Santa Maria”, em referência a um conhecido empório da cidade. Sob o nome da empresa havia ainda um endereço eletrônico falso: www.isantamaria.com.br. […] Do ponto de vista operacional, são muito bons. Mas, do ponto de vista gramatical, são péssimos —­ ironizou Fontes [delegado Ruy Ferraz Fontes, do Departamento de Investigação Sobre Crime Organizado]» («A má ortografia não compensa», Jornal do Brasil, 10.11.2007, p. A7). Cá é ao contrário: os carros-patrulha ostentam — em itálico, porque com a velocidade levamos a cabeça inclinada — o erro de falta de acentuação da palavra «polícia». Em contrapartida, o endereço electrónico é autêntico.

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Léxico contrastivo: «asfalto»

Asfalto

«A polícia ainda não sabe qual seria a origem do ecstasy vendido pela quadrilha, embora a delegada Patrícia Aguiar cogite que os jovens tenham contato com laboratórios fabricantes da droga dentro de comunidades. Outra hipótese seria que o ecstasy fosse importado da Holanda. ­ Esse caso segue uma lógica oposta à que estamos acostumados: o asfalto era o fornecedor da favela, porque o ecstasy é uma droga elitizada ­ explica o inspetor Ricardo Di Donato, do Dcod [Delegacia de Combate às Drogas]» («Asfalto seria fornecedor da favela», Renato Grandelle, Jornal do Brasil/Cidade, 9.11.2007, p. A8). Em sentido figurado e segundo o Aulete Digital, é, «nas metrópoles, as zonas urbanas socialmente mais favorecidas, em oposição às favelas ou à periferia».

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Léxico contrastivo: «laudêmio»

No Brasil ainda existe

«Mas esta história teve início bem antes, quando Dom Pedro I era imperador do Brasil. Segundo a Secretaria Nacional de Patrimônio, 50% do território do Rio sofrem com as taxações. Os encargos beneficiam não só a União, mas a prefeitura e famílias que receberam o direito pelo sistema de sesmarias, quando a cidade foi dividida em lotes na época do Primeiro Reinado, em 1831. Quem mora na orla, ilhas e em terrenos próximos a lagoas e manguezais pode ser surpreendido por este imposto arcaico, recolhido pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU) sobre alguns imóveis da região. A justificativa do decreto explica que a área deve pertencer ao país, caso ocorra uma invasão. Foro (ou enfiteuse) é a taxa anual a ser paga para a União sobre um determinado terreno por quem detém a propriedade do imóvel. A taxa é de 0,6% do valor da fração do terreno. Já o laudêmio é uma taxa que deve ser paga à União na hora em que o proprietário efetua a venda do imóvel, variando entre 2% a 5%. O Código Civil Brasileiro de 2002 proíbe a criação de novas enfiteuses, mas não trata das pré-existentes. De acordo com a SPU, há mais de 100 mil imóveis cadastrados no Estado como foreiros à União, pagando 0,6% do valor do terreno ao ano e laudêmio de 5%, a cada transação» («Luta contra laudêmio perto do fim», Pat Zinger, Jornal do Brasil/Barra, 9.11.2007, p. 3). Segundo o Aulete Digital, o «laudémio» é a «compensação que o enfiteuta alienante pagava ao senhorio direto por sua renúncia ao direito de opção na transferência do domínio útil da coisa aforada (laudêmio de quarentena; laudêmio de vintema)». Vem do italiano laudemio e já* o tivemos no nosso ordenamento jurídico. Na definição do De Mauro, «nel Medioevo, somma di denaro che l’enfiteuta doveva pagare al signore al momento del trasferimento del diritto di enfiteusi│estens., tassa che in occasione dell’alienazione di un feudo il vassallo doveva pagare al feudatario».



* No ponto n.º 175 da relação de bens de Domingos António, avô paterno de Alfredo da Silva (13 de Julho de 1841), podemos ler: «Humas Casas Terrias com seus sobrados, para cinco moradores, com oito Janelas de peitos e huma de Sacada, sitas no lugar de Carnide, Freguezia de São Lourenço, Quinta Vara da Comarca Judicial de Lisboa, a primeira consta de huma loje, cozinha com seu sobrado, a segunda com duas lojas, e dois quartos em sima — quarta huma loja terria, Quinta consta de cinco sobrados, e por baixo tem a sua Adega com sua lagarica de Pedra, e o rustico conta de duas Courellas, de Vinha com seus Pes de Oliveiras, e Arvores de Fructo, morada pella parte do Sul, com seu Poço, o que tudo consta ser foreiro ao Illustrissimo Hermano Joze Bramcampe em mil reis e duas gallinhas, e a quantia de quatro centos reis por ellas com o laudemio Quarenteno digo com o competente laudemio de quarentena no cazo de haver digo cazo de venda, parte pelo Norte com Fazenda de Donna Marianna Deniz, Sul com chão do Inventariado, entrada Dabeja, Nascente Fazendas de Donna Antonia, e Donna Marianna Deniz da Costa, Poente com Corella de Vinha do Inventariado, o qual sendo bem visto examinado pelos respectivos louvados, tendo em atenção ao lucal, e estado do predio Urbano, e penção do Foro, lhe derão o valor em quanto ao rendimento annual a quantia de oitenta e seis mil reis (86$000), com que se saie e pelo seu valor, Real a quantia de setecentos e trinta e seis mil reis, com cuja quantia se saie. (736$000)» (ver mais aqui).

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Léxico contrastivo: «cesta de compras»

Cestas e cabazes

«O trabalhador fortalezense gastou 79 centavos de real a menos em outubro para comprar a cesta básica, na comparação com setembro. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o conjunto dos 12 produtos que compõem a cesta básica de Fortaleza registrou redução nos preços de 0,53% de setembro para o mês passado. Com isso, o preço ficou em R$ 146,96. Segundo Reginaldo Aguiar, assessor técnico do Dieese na Capital, a cesta de Fortaleza é a terceira mais barata do Brasil. “As seis cestas mais baratas estão no Nordeste porque elas não incluem a batata, conforme reza a Lei do salário mínimo. Para o resto do País a cesta possui 13 produtos”, afirma» («Cesta básica está R$ 0,79 mais barata em Fortaleza», O Povo, 6.11.2007, p. 24). É o nosso «cabaz de compras». E até temos cabazes de compras sectoriais: Lia-se no Diário de Notícias de 2 de Setembro deste ano: «Num hipermercado Feira Nova, a factura do cabaz de compras de material escolar pode facilmente chegar aos 34 euros» («(Bom) regresso às aulas com o DN», Roberto Dores).

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Léxico contrastivo: «bilhetagem»

Mais português


      «Os usuários de ônibus do DF não precisarão mais usar dinheiro ou vale transporte para pagar as passagens: começou a funcionar ontem o sistema de bilhetagem eletrônica. Com isso, o passageiro precisa apenas aproximar o cartão eletrônico do aparelho validador, instalado em todos os 2.337 ônibus do DF, para que a catraca seja liberada» («Transporte público entra na era da bilhetagem eletrônica», Priscila Machado, Jornal do Brasil/Brasília, 2.11.2007, p. D5). Cá andamos às voltas com o rebarbativo «bilhética», e nem sabemos explicar bem do que se trata, como já aqui demonstrei.
 


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Pontos cardeais

Oriente-se

O leitor J. J. L. chama-me a atenção para uma suposta gralha na crónica de hoje de Baptista-Bastos no Diário de Notícias. Eis o trecho em questão: «A melodia dos desinteressados toca os corações desprevenidos. Quando se soube que o Governo pendia para a Ota, indiscutível e inexoravelmente, a especulação imobiliária foi desencadeada. Mário Lino*, dramático e seguro, levemente irado, abertamente decisivo, transformou o jamais francês no estandarte de todas as vitórias. Quando foi apresentada a proposta de Alcochete, argumentativamente muito mais económica, os protestos e os apupos chegaram de alguns pontos cardiais» («A santidade dos patriotas», Diário de Notícias, 7.11.2007). «Pontos cardiais»? J. J. L. supõe — ou receia — poder haver ali algum jogo linguístico subtil — ou subtilíssimo, pois o não entende. Especula: «Será isto uma gralha, ou pretendeu o jornalista-escritor sugerir que “os protestos e os apupos chegaram de alguns corações”? Que é o mesmo que voltar a uma não-discussão — em que fui esquecido — sobre se as virtudes seriam «cardeais» (as principais, ou fundamentais) ou «cardiais» (vindas do coração?).» Os pontos são e só podem ser cardeais, isto é, principais. Ambos adjectivos de dois géneros, «cardeal» vem do latim cardinalis,e; «cardial», por sua vez, é relativo à cárdia, que é o orifício que faz a comunicação entre o esófago e o estômago. E o que tem isto que ver com o coração?, perguntarão. «Cárdia» vem indirectamente do grego ĸαρδια, que significou, inicialmente, «coração». Posteriormente, por analogia de forma, passou também a ter o significado de «orifício superior do estômago», e, depois, «estômago».


* Não é inocentemente (como podia ser?) que incluo na citação a referência a Mário Lino. Ao meu texto «Eu sabia que era árabe», um leitor deixou-me um comentário (que decidi, por estar escrito com grande desleixo, recusar) em que afirma que erro grosseiro era o meu, pois o «rapaz» (não seria ele o «rapaz»?) queria mesmo escrever «alforge», já que — atentem na lógica, por favor — «alforge», além de ser o que já sabemos, «era até nome do blog do actual ministro Mário Lino e nem sei como é que me lembrei disto agora....». Eu também não, caro anónimo, mas a ingestão pós-prandial, ainda que moderada, de espíritos explica muita coisa. Se é anónimo, caro, não é ofensa.

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Terminologia médica espanhola

Bisturi virtual

Magnífica, plena de recursos, esta Biblioteca Virtual de TradMed, da autoria de um grupo de investigação em tradução médica. Em espanhol, é certo, mas será sempre uma ajuda na tradução.

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Léxico: salazar


Homenagem ao salazar

Em que dicionário de língua portuguesa é que se encontra o termo «salazar» para designar o raspador ou espátula usada na cozinha, e sobretudo na confecção de bolos, como o da imagem? Em nenhum, que eu saiba. Por ser um termo familiar? Decerto que não, pois os dicionários acolhem muitos termos familiares. Por estar politicamente conotado? Claro que não, pois todos os dicionários abrigam termos com conotações de diversa natureza e devem ser neutros quanto a conotações morais, políticas ou outras. Então, porquê? Como a tendência é os dicionaristas copiarem-se uns aos outros — e copiam-se mal, como se poderá comprovar consultando dicionários de épocas diferentes —, a explicação para todos recusarem acolher o vocábulo é simples. Insondável parece ser a razão de nenhum, dos mais recentes, o fazer. A etimologia — e a explicação, que é coisa diversa e muitas vezes obscura — estão estabelecidas, o uso é quotidiano e alargado. O que esperam os dicionaristas? Curiosamente, foi um estrangeiro que me perguntou o que era «um salazar». Ele escreveu assim mesmo, «um salazar», e não, como se vê escrito por portugueses neste grande repositório de coisas magníficas e de lixo execrável que é a Internet, «um Salazar». Nos hipermercados, se não encontrarem nenhum, perguntem por «raspadores de massa». Com sorte, não os mandam para o Aki, pois «aqui não vendemos produtos para vidraceiros».

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Léxico contrastivo: «queda-de-braço»

O fito

«Depois de 19 meses à frente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Milton Zuanazzi deve seguir o caminho de outros quatro diretores e entregar hoje sua carta de demissão da presidência da agência. Foram três meses de resistência desde que Nelson Jobim assumiu o Ministério da Defesa, em julho» («Jobim vence a queda-de-braço e Zuanazzi decide deixar Anac», Alexandra Bicca, Jornal do Brasil, 31.10.2007, p. A7). É o nosso «braço-de-ferro», mas mais centrado no objectivo do que no meio.

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A concordância de «extra»

Extraordinário

      «Ele alegou que a operação-padrão causaria prejuízos à população às vésperas do feriado de Finados, período de grande movimentação nos aeroportos. Francisco Lemos, diretor do sindicato, alegou que o real motivo da suspensão da operação ­ na qual os trabalhadores pararam de cumprir horas extras ­ foi a promessa de Gaudenzi em receber uma comissão do Sina em reunião na segunda-feira» («Gaudenzi entra no circuito e operação-padrão é suspensa», Jornal do Brasil, 2.11.2007, p. A6). Pois claro, e não — como a maioria dos jornalistas portugueses escreve, atentando contra a gramática e a nossa paciência — «horas extra».

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Léxico contrastivo: «pedágio»

Portagens brasileiras

«As tarifas básicas dos consórcios vencedores variaram de R$ 0,997 a R$ 2,940, dependendo do trecho, muito inferiores às tarifas nos primeiros trechos privatizados, entre R$ 3,50 e R$ 7,80. O pedágio mais caro é o da Nova Dutra (São Paulo-Rio). No leilão, a espanhola OHL apresentou preços até 65,42% abaixo da tarifa máxima fixada pelo governo. Foi o caso da Fernão Dias (BR-381, entre Belo Horizonte e São Paulo). A rodovia terá o menor pedágio entre as estradas privatizadas brasileiras» («ANTT aprova pedágios mais baixos, mas será questionada», Jornal do Brasil, 2.11.2007, p. A18). De acordo com o Aulete Digital, é a «taxa que se paga para transitar numa rodovia: O pedágio tem-se tornado escandalosamente caro» e o próprio «posto onde se paga essa taxa: O ônibus quase não pára no pedágio». Vem do italiano pedaggio. É a nossa «portagem». «Nel Medioevo», regista o dicionário De Mauro, «tributo versato per il transito di persone e merci su strade e ponti» e a «tassa da corrispondere per il transito di veicoli su talune strade private o, talvolta, ponti: pagare il p. in autostrada la somma stessa da pagare». Em sentido figurado, pedaggio também é a «somma di denaro pagata o pretesa, talora in modo illecito, per ottenere favori: per avere aiuto da lui bisogna pagare il pedaggio». É o suborno, as luvas. Este sentido figurado também é usado no Brasil, embora os dicionários o não acolham.

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Tradução de «Welfare state»

Prover ou prever?

Pergunta-me o leitor J. J. L.: «Gostava de lhe perguntar a sua opinião sobre a tradução de “Welfare State” — que vi ainda agora vertido como “Estado de bem-estar” no Público e que insisto em mudar para “Estado-previdência” (e não “providência”, como se diz e tanto escreve, o que poderia motivar um interessante debate sobre as duas concepções: tem o Estado de prevenir apenas ou de garantir sempre?).»
Em termos comparados, devo começar por dizer que em espanhol se diz «Estado de bienestar» ao que tão incertamente entre nós se diz ora «Estado-previdência» ora «Estado-providência» (e, para complicar ainda mais, alguns preferem dizer «Estado social»). A definição do Diccionario de la Real Academia é a seguinte: «Sistema social de organización en el que se procura compensar las deficiencias e injusticias de la economía de mercado con redistribuciones de renta y prestaciones sociales otorgadas a los menos favorecidos.» Atendendo ao fim deste tipo de organização política, dizê-la de «bem-estar» parece-me correcto. E «providência» ou «previdência»? Se «providência» (do latim providentia,ae) é a disposição antecipada ou prevenção que almeja ou conduz ao conseguimento de um fim e «previdência» (do latim praevidentia, «ver com antecipação, prever») a capacidade de prever ou adivinhar alguma coisa, parece que deva ser — e sempre assim escrevi — «Estado-providência». Mais uma vez em termos comparados, em francês diz-se «État-providence» e «État de bien-être». O Dicionário Houaiss regista «Estado-Providência»; o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, numa daquelas abonações inanes que oxalá não façam escola, cita precisamente o Público: «estado-providência». O mundo é pequeno. E perigoso.
Vasco Pulido Valente, sabe isso melhor do que eu, escreve «Estado-Previdência». Tem assim, caro J. J. L., muito por onde acertar ou errar.

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Léxico contrastivo: «saidão»

Saído da casca

«Policiais da Delegacia de Repressão a Roubos (DRR) prenderam, ontem, um homem que praticava seqüestros relâmpagos na Asa Norte. Hermegildo Aires Mendes, 41 anos, conhecido como Magrão, estava preso no Centro de Progressão Penitenciária e fez sua vítimas durante os finais de semana e nos saidões do Dia dos Pais e do Dia das Crianças» («Detido presidiário que, durante ‘saidões’, fazia seqüestros relâmpagos», Carolina Vicentin, Jornal do Brasil/Brasília, 1.11.2007, p. D6). É o denominado, no Brasil, «livramento temporário», a nossa «saída precária».

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Disparates jornalísticos

Eu sabia que era árabe


      «Tal como para Morais Sarmento, a PLMJ sempre funcionou como alforge ou berço político para vários dos seus advogados, a começar pelos líderes: António Maria Pereira foi deputado “laranja”, de 1985 a 97, e o ex-bastonário José Miguel Júdice foi líder da distrital de Lisboa do PSD» (A lei do mais forte», Tiago Fernandes, Visão, n.º 765, p. 37). Como é que um jornalista escreve um disparate destes? Alfobre deveria ter escrito, que é, em sentido figurado, um lugar que produz grande quantidade de qualquer coisa. Como o vocábulo tem várias variantes e uma delas é «alforbe» (a par de «alfofre» e «alfovre»), podia admitir-se que o jornalista a tivesse usado, tendo sido um revisor, por ignorar a palavra, a alvitrar erro ali onde havia somente desvio ao conhecido — mas de qualquer modo é erro, e erro grosseiro, a induzir em erro leitores menos preparados.
      Este texto jornalístico enferma de outros males, e um deles é o uso inadequado das aspas. Um exemplo: «[…] liderados por cada um dos 20 sócios de “capital” (o patamar mais alto, estando os de “indústria”, casos de Vítor Neves e José Jácome, um degrau abaixo.» Para que servem as aspas nas palavras «capital» e «indústria»? Tanto mais que umas linhas depois o jornalista escreve: «Em Novembro de 2006, a assembleia de sócios da PLMJ — 20 de capital e outros tantos de indústria — vota favoravelmente a redução dos 20 departamentos […].» Outro tipo de erro: «Na PLMJ, há, porém, quem garanta que o rombo provocado pela cisão e o efeito de arrastamento de clientes será mínimo. “A credibilidade e a força da instituição ainda são os valores mais seguros.” Alguns duvidam, e muito, deste auto-de-fé.» O jornalista queria dizer «profissão de fé», algo diverso e menos cruento. Assim vai a imprensa portuguesa.

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Léxico contrastivo: «baderna»

«Lá em cima daquela serra, passa boi, passa boiada,
passa gente ruim e boa, passa a minha namorada.»

Herança italiana


«A Barra, com sua orla privilegiada, recebe durante todo ano um contingente de visitantes que busca usufruir da beleza natural que compõe sua paisagem. Mas esta procura não ocorre de forma organizada e consciente. A invasão acontece de maneira predatória e sem limites, principalmente no verão. Para coibir a ocupação desordenada e os abusos no trânsito, uma megaoperação comandada pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-Rio) terá início amanhã, na Barra» («Operação combate baderna na orla», Eduardo Tavares, Jornal do Brasil/Barra, 1.11.2007, p. 3). Regista o Aulete Digital: «Desordem barulhenta; confusão, bagunça, bulício: “...você vai preparar as armas, para enfrentar o Targino amanhã, na hora da baderna, não vai?” (Guimarães Rosa, Sagarana*).» O étimo é o antropónimo Baderna, bailarina italiana que se radicou no Brasil em 1849.


* Para uma competente análise estilística desta obra, ver aqui.

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Léxico contrastivo: «bandalha»

Bandalheira

«Para pôr fim às cenas de desordem no trânsito que se repetem nos fins de semana nas vias próximas à orla, na Barra da Tijuca e no Recreio, a CET-Rio dará início, neste feriado de Dia de Finados, à Operação Verão. Mudanças nos tempos dos sinais, inversões de mão, bloqueios de trechos e atuação efetiva do policiamento, rebocando e multando infratores, são algumas das ações prometidas» («Repressão às bandalhas na orla terá início amanhã», Jornal do Brasil/Barra, 1.11.2007, p. 1). É um vocábulo regressivo de «bandalheira»: «Manobra ilegal no trânsito: Fez uma bandalha, cruzando o canteiro central» (in Aulete Digital).

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Léxico contrastivo: «legenda»

Oposição mítica

«Em busca de apoio para a aprovação da CPMF no Senado, o governo apresentou ontem a líderes do PSDB um conjunto de nove medidas envolvendo promessas de desoneração de investimentos e de aumento para os recursos destinados à Saúde a partir do próximo ano. Na tentativa de convencer a legenda oposicionista, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ofereceu a isenção da CPMF para pessoas físicas com salário até R$ 1.642» («Governo aumenta o pacote de bondades», Karla Correia e Juliana Rocha, Jornal do Brasil, 1.11.2007, p. A4). Segundo o Aulete Digital, no âmbito político, legenda é o «partido ou grupamento político, ou sua sigla: O presidente elegeu-se pela legenda do Partido dos Trabalhadores (PT)».

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Léxico contrastivo: «despencar»

Lá do alto

«Como em outras capitais brasileiras, o consumidor de Fortaleza também ficou desconfiado com o leite UHT, chamado longa vida ou de caixa, após a fraude ocorrida em duas cooperativas mineiras e denunciada na semana passada» («Preço do leite longa vida despenca», Artumira Dutra, O Povo, p. 24). Despencar é, referido a preços, diminuir muito e rapidamente. Em Portugal, poder-se-ia escrever algo como: «Preço do leite UHT desce a pique».

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Palestino/palestiniano

Eles sabem


      «Na Faixa de Gaza, a lei da oferta e da procura vem fazendo estragos. Bloqueados pelos israelenses, os encarregados das passagens fronteiriças permitem somente a circulação de produtos de consumo diário a conta-gotas, disparando assim os preços e desanimando os palestinos» («Preços disparam em Gaza e ânimo dos palestinos desaba», O Povo, 31.10.2007, p. 29). Palestinos, pois claro.
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Léxico contrastivo: «pau-de-arara»

Como disse?

«“Eu vejo todos os dias os meus colegas entrarem na escola sujos, cansaços e até machucados porque são transportados num caminhão, sentam em bancos improvisados de madeira e até correm o risco de acidentes. Graças a Deus, eu não soube de nenhum acidente nessa região, mas já tive notícias em outros locais.” Dessa forma, a estudante Mallena Nogueira Lira, 13, justifica a defesa do projeto, de sua autoria, que trata da substituição dos paus-de-arara (caminhões abertos com bancos improvisados) como transporte escolar. Mallena cursa a 7.ª série do ensino fundamental na Escola de Ensino Fundamental e Médio (EEFM) Deputado Joaquim de Figueiredo Corrêa, em Iracema, a 283 quilômetros de Fortaleza. Eleita na cidade “deputada-mirim”, Mallena disse que teve a idéia da proposta e pediu a ajuda da comunidade escolar para redigir o projeto que foi um dos três vencedores, no País, entre 211 apresentados à Câmara Mirim» («Deputada-mirim de Iracema quer fim de pau-de-arara», Rita Célia Faheina, O Povo, 31.10.2007, p. 12).

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Léxico contrastivo: «mesário»

Da mesa

«A Justiça Nacional Eleitoral declarou aberta a votação às 8h, embora algumas das 73.771 mesas de votação registrassem problemas, devido à falta de mesários. O diretor nacional eleitoral, Alejandro Tullio, disse, no entanto, que a situação foi “normalizada” em todo o país antes das 11h» («Falta de mesários atrasa abertura de urnas», Jornal do Brasil, 29.10.2007, p. A21). Do latim mensarius,ii, é o membro das mesas das assembleias ou secções de voto. É esta locução, «membro da mesa», que usamos em Portugal para dizer o mesmo que os Brasileiros exprimem com a palavra «mesário». Na verdade, também os nossos dicionários registam o vocábulo, apenas não o usamos: «Mesário, s. m. Cada uma das pessoas que constituem a mesa de uma assembleia» (in Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado). Ricos mas avaros, entesouramos mas não usamos.

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Léxico contrastivo: «boca-de-urna»

Sempre a perder

«A primeira-dama da Argentina, a senadora Cristina Fernández de Kirchner, de 54 anos, vai ser a primeira mulher eleita para a Presidência do país, segundo resultados das pesquisas boca-de-urna divulgadas em Buenos Aires, depois das eleições de ontem» («Cristina Kirchner vence segundo boca-de-urna», O Povo, 29.10.2007, p. 26). Era, é óbvio, demasiado arrojo para a nossa mentalidade conservadora passar das sondagens ou de qualquer circunstância relativa ao dia de eleições para «boca-de-urna». Esta inflexibilidade ancilosa o português europeu, subtraindo-o a uma plasticidade que parece — é — congenial ao português do Brasil. Mais perdemos.

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Léxico contrastivo: «Cingapura»

_ ingapura

«Lucas Salatta conquistou neste domingo a medalha de prata na final dos 200 metros medley na etapa de Cingapura da Copa do Mundo de natação em piscina curta (25 metros). O nadador do Pinheiros obteve o tempo de 1min59s54, cerca de cinco segundos mais rápido em relação ao seu desempenho na prova classificatória (2min04s15)» («Brasil ganha medalha em Cingapura», O Povo, 29.10.2007, p. 3). O português do Brasil manteve a grafia tradicional portuguesa: Cingapura. Nós passámos a escrever Singapura. A propósito, o natural ou morador de Singapura é o singapuriano ou singapurense.

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