Léxico: «incuso»

Imagem do Papa Pio XII (1876-1958)

Uma só face lavrada


      Um leitor pergunta-me que nome se dá às moedas ou medalhas cunhadas de um só lado. Usa-se habitualmente o adjectivo incuso. Logo, moeda incusa, medalha incusa.

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Regência: consistir em

Senhores tradutores


      «Pegue-se numa folha inglesa. Telegrama que lá venha com a sintaxe “consisted of” é vertido pelos tradutores de agências portuguesas por “consistia de”. Se, pois, em Portugal sempre se disse “consistir em”, “constar de”, agora a notícia jornalística ou radiofónica impõe a sintaxe espúria — “consistir de”!
      A decência sintáctica anda quase sempre ausente, inclusivamente das notícias de coisas que pediriam exemplar correcção.»



Vasco Botelho de Amaral,
Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa,edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, pp.125-6.
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Absolto?

Avô rico, neto pobre


      Cara Graça Pinto: deixe o seu avô dizer «absolto» à vontade. Afinal, está correctíssimo, ao contrário do que a leitora afirma. Quer um exemplo? Sirva este de Camilo: «Este não riu, quando lhe disseram que estava absolto do crime imputado em Portugal» (A Filha do Doutor Negro). E para que se não suspeite que o autor estava a guindar-se a cânones clássicos, lê-se na mesma obra: «Foram os réus absolvidos.» Se lhe pudesse dar um conselho (gosto muito desta figura de retórica…), dir-lhe-ia que devia falar mais com o seu avô.

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Glossário: palavras japonesas

Algumas palavras japonesas no português

Andone m. Ant. Lâmpada japonesa.
Biombo m. Tapume ou tabique móvel, quase sempre de madeira, forrado de papel, couro ou lençarias pintadas; consta de várias peças unidas por bisagras ou dobradiças; sustém-se de pé e serve para dividir um quarto em dois, para evitar uma corrente de ar, encobrir uma cama, um lavatório, etc.
Bom m. Festa japonesa.
Butô m. Dança contemporânea japonesa que combina teatro e mímica.
Caiquio m. Juiz supremo, no Japão.
Caru m. No Japão antigo, alta individualidade, como ministro.
Catabira f. Espécie de cabaia de linho usada de Verão pelos Japoneses.
Catana f. Alfange ou terçado de origem japonesa e usado antigamente.
Cateringoto m. Ágape que alternadamente faziam em suas casas os primitivos cristãos japoneses.
Chanoiú m. No Japão, acto de preparar o chá.│Casa, no Japão, em que se toma o chá.
Chicandono m. Bonzo de elevada categoria, no Japão.
Cobu m. Erva marinha, comestível, do Japão.
Coco m. Medida japonesa para cereais equivalente a seis alqueires.
Congui m. Fidalgo japonês, que se atribui origem divina.
Conomom m. Árvore do Japão, cujo fruto serve para fazer cerveja.
Coqui m. Árvore frutífera do Japão, que produz o ébano do comércio.
Coto m. Espécie de saltério usado pelos Japoneses.
Coxoxu m. Pajem ou moço fidalgo, no Japão.
Cubo ou cubó m. Nome que, no Japão, depois da revolução de 1585, se deu ao imperador temporal, dando-se o de dairo ao espiritual.
Cungué m. Ministro ou secretário de Estado do Japão, no antigo regime.
Cura m. No Japão, armazém, celeiro.
Daico m. O nabo do Japão, vulgarizado em Portugal e na Galiza, e proveitoso principalmente para forragem.
Dáimio ou daimió m. Nome dado aos príncipes ou senhores feudais japoneses, que perderam os seus privilégios na revolução de 1868.
Dáiri ou dairo m. Nome que, depois da revolução de 1585, se deu no Japão ao imperador espiritual, por oposição ao de cubo, que se deu ao temporal.
Dárnua m. Fidalgo de primeira categoria, no Japão.
Decasségui ou decassêgui m. Que ou aquele que se fixa, mas apenas temporariamente, no Japão, para trabalhar.
Dongo m. Utensílio de serviço de chá no Japão.
Fachi m. ou fachis m. pl. Os dois pauzinhos com que os Orientais levam a comida à boca.
Faifema f. Galera do Japão, ordinariamente de vinte remos.
Faxeque m. Ant. Ministro da justiça, no Japão.
Forém m. No Japão, palanquim do micado.
Fotoques m. pl. Nome genérico de uma categoria de deuses no Japão.
Fucussa f. Tecido de seda japonês.
Futamono f. Lança de duas pontas no Japão.
Gabara f. Armazém ou adega, no Japão.
Geta f. Calçado de madeira, muito comum no Japão, composto por uma tabuinha horizontal pousando sobre duas outras verticais.
m. Medida japonesa, que corresponde a dois decilitros.
Goxo m. O m. q. micado.
Gromenare m. Saudação, cumprimento japonês muito respeitoso; zumbaia.
Groxo m. Vogal do Conselho de Estado, no Japão.
Gueixa f. Japonesa treinada desde jovem nas artes da dança, do canto e da conversação para entreter os fregueses de casas de chá, banquetes, etc., especialmente os do sexo masculino.
Guenroim m. Casa do senado japonês.
Guinai m. Ant. Designação antiga de bairro japonês.
Guisso ou guiço m. Conselheiro de Estado, no Japão.
Guisso m. Conselheiro de Estado, no Japão.
Guri m. Autoridade japonesa.
Haicai m. Pequena composição poética japonesa de dezassete sílabas, em que o poeta canta exclusivamente, de maneira suave e delicada, as variações da natureza e a sua influência na alma do autor.
Haraquiri m. Forma de suicídio ritual praticado no Japão, especialmente pelos guerreiros e pelos nobres, que consiste em rasgar o ventre à faca ou a sabre.
Iba f. Planta japonesa de que se extrai um suco escuro com que as mulheres pintam os dentes.
Ichibi m. Planta japonesa, cujas folhas se aproveitam nas cerimónias fúnebres.
Ichibu m. Antiga moeda de prata do Japão.
Ichimai m. No Japão, antiga moeda de prata.
Ieboxi m. Barrete japonês, usado pelos nobres.
Iene m. Unidade monetária do Japão.
Jiquiró m. Caixa em que se transportam comidas, no Japão.
Judo m. Método milenário de luta japonesa, universalmente considerado excelente exercício e dos mais eficazes processos de ataque e defesa pessoal.
Maquié m. Verniz de ouro ou de prata, no Japão.
Micado m. Soberano espiritual do Japão que exerce, actualmente, também, o poder temporal; deixou de ser omnipotente e hierático depois da guerra de 1939-1945.
Mixo m. Espécie de molho japonês.
Moche m. No Japão, bolo de arroz.
Nagi m. Bot. Árvore japonesa, de fruto semelhante à cereja.
Nanguinata f. Arma japonesa, espécie de montante ou terçado.
Nigáqui m. Bot. Árvore do Japão da família das Simarubáceas, cuja madeira se utiliza no fabrico de instrumentos agrícolas e cuja casca tem propriedades insecticidas.
Ninsia m. Sacerdote japonês, a que servem de guarda numerosos nobres.
Nio m. Deus inferior a quem está confiada a guarda dos templos, de acordo com o budismo japonês.
Nissei m. e adj. Que ou aquele que é filho de pais japoneses nascido na América.
Obã m. Pequena barra de ouro usada como moeda entre os Japoneses.
Origami m. (de ori, dobrar, e kami, papel). Arte de dobrar papel, de origem japonesa.
Quimono m. Roupão japonês. O m. q. quimão.
Ri m. Medida itinerária japonesa equivalente a cerca de 4 quilómetros.
Ronim m. Vagabundo, larápio, no Japão.
Samurai m. Antes do século XII, este termo designava apenas os funcionários da 5.ª e 6.ª ordens da corte imperial; a partir do século XII, designava os guerreiros ao serviço dos dáimios ou do xógum; gozavam de certos privilégios, como receber uma pensão, usar dois sabres, etc., que foram suprimidos em 1876.
Sansei m. e adj. Que ou aquele que é neto de japoneses nascido na América.
Saquê m. Vinho de arroz, transparente e capitoso, usado no Japão.
Sintó m. O m. q. sintoísmo ou xintoísmo.
Sotoba f. Tabuleta de madeira em que no Japão se inscreve, em caracteres sânscritos, uma sentença búdica e que, colocada junto de um túmulo, facilita a entrada do defunto no Paraíso.
Sui m. Espécie de molho japonês muito apimentado.
Sumo m. Luta popularíssima no Japão, que data dos mais remotos tempos feudais, em que era utilizada como exercício de preparação militar e treino para o combate.
Suqué f. Vice-governador de uma província, no antigo Japão.
Tachi m. Grande sabre japonês que se trazia com a armadura no período feudal.
Tanca m. Curto poema japonês que compreende cinco versos, sendo o primeiro e o terceiro de cinco sílabas, e o segundo, quarto e quinto de sete sílabas.
Tatami m. Tapete de palha de arroz com que se cobre o chão nas casas japonesas.
Taté m. Grande escudo de madeira, por vezes guarnecido de couro, antigamente em uso no Japão, e que o archeiro colocava diante de si antes de atirar.
Tio m. Medida itinerária do Japão.
To m. Medida de capacidade em uso no Japão, equivalente a 18,039 litros.│Relicário ou cofre dos Japoneses.
Tono m. Título honorífico no Japão.
Tori m. Portão típico japonês, geralmente colocado à entrada dos templos.
Toro m. Grande lanterna de bronze, de pedra ou de porcelana que serve para a ornamentação dos templos búdicos do Japão.
Tosso m. Beberagem japonesa cuja base é a canela.
Uchimono m. Denominação japonesa da alabarda usada outrora pelos soldados da escolta do dáimio (príncipe ou senhor feudal), e cuja lâmina era encaixada em bainha de pau lacado e esta por vezes metida em saco de seda.
Uchiva m. Designação japonesa do leque de bambu e papel.
Uruxi m. Espécie de verniz do Japão.
Xaca m. Ídolo principal dos Japoneses.
Xógum m. Título governativo do Japão medieval, que o imperador nipónico, conhecido por Micado e vulgarmente por Tenno, conferia a qualquer áulico valoroso, incumbindo-o de governar a nação em seu lugar.
Xogunato m. Dignidade ou cargo de xógum.
Zazo m. Ant. Supremo sacerdote entre os Japoneses.
Zarugante m. Vaso sonoro, de bronze, que substitui o sino em certos templos budistas do Japão.
Zenji m. No Japão, significa «nome privilegiado»; deu-se, em princípio, aos bonzos que se distinguiam pela sua sabedoria, mas depois veio a ser um título oficialmente outorgado àqueles que eram considerados como mais virtuosos.
Zori m. Sandália de palha usada nas varandas das casas japonesas para passar de um aposento para outro.
Zui-jin m. pl. Nome dado no Japão a duas estátuas colocadas uma em cima da outra em cada lado da porta principal dos templos sintoístas.
Zui-xin m. pl. No antigo Japão, guardas de corpo, armados de um arco e de um sabre, que certos funcionários de alta hierarquia eram autorizados a recrutar para sua escolta pessoal.

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Ortografia: «flexissegurança»

Suavérgico


      Caro J. A. Dias: também considero mais correcta a ortografia «flexissegurança», precisamente por manter intacta a palavra «segurança», pois ao optar-se por «flexigurança» perdemos a noção de qualquer das duas palavras que compõem o neologismo. Certo que é o que acontece com quase todas as amálgamas*, mas fazê-lo também é copiar servilmente o inglês flexicurity. Parece, no entanto, ser já a opção de alguns meios de comunicação, como o Diário de Notícias: «O presidente da Confederação da Indústria Portuguesa considera “teórica” a discussão sobre a flexigurança, que facilita os despedimentos e aumenta o apoio no desemprego, afirmando duvidar da sua aplicação a países como Portugal. “Tudo é teoria. Só há dois países que o têm — Dinamarca e Holanda”» («Flexigurança. CIP não acredita na aplicação em Portugal», 17.1.2007, p. 8).



* Também conhecidas por palavras-portmanteau (ver E-Dicionário de Termos Literários) ou, no Brasil, palavras-valise (do francês mot-valise), como, por exemplo, portunhol, estagflação, etc. O inglês é muito mais produtivo em amálgamas, como pode ver aqui. Com esta acepção, a palavra «portmanteau» foi cunhada por Lewis Carroll na obra Alice do Outro Lado do Espelho (1872), na seguinte passagem: «Well ‘slithy’ means ‘lithe and slimy’ ... you see it’s like a portmanteau — there are two meanings packed up into one word.» Na tradução de Maria José Figueiredo: «Bem, “suavérgico” significa “suave e enérgico”. “Enérgico” é o mesmo que “activo”. É um “portmanteau” — são dois significados reunidos numa só palavra» (in Alice no País da Linguagem, de Marina Yaguello, 1997, Lisboa Editorial Estampa, p. 96).

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Léxico: indilgar


Ventos de Espanha


Conhecem alguma coisa do Escalhão? Ah, não sabem sequer o que é o Escalhão? É uma aldeia, e dela, até há pouco, só conhecia o bom pão. Hoje, fiquei a saber que as suas gentes julgam ter inventado uma palavra: indilgar. É um verbo que significa trabalhar com desembaraço, actividade e diligência. À mulher que assim trabalha chamam indilgadeira. Dos homens nada se diz.
Em castelhano também existe o verbo indilgar (ou endilgar), que significa «encaminhar, dirigir, acomodar, facilitar». A proximidade geográfica explicará a semelhança.

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Informação

Sobre blogues

Se quiser ler a entrevista que dei a João Ferreira Dias, autor do blogue KØNTRÅŠTËS 2.0, veja aqui.

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Léxico: guimató e indona

Imagem: http://www.cigv.it/gallery/album02

Enciclopédia visual


E se um desconhecido lhe perguntasse que nome têm as arruelas (ou botoques, daí o nome dado pelos Portugueses) de madeira que os Botocudos introduziam em buracos abertos nas orelhas, o que faria? Podia mandá-lo dar uma volta ao bilhar grande ou dedicar-se a ler um dicionário de língua portuguesa. Não podia é, como já sabemos, ser um dicionário qualquer. São os guimatós.
Sim, bem lembrado, os elementos de algumas tribos africanas também faziam um orifício no lábio superior para prender e usar uma rodela — chamada indona.

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Etimologia: «recruta»

Recruta Zero




      O vocábulo «recruta», formado por derivação regressiva do verbo recrutar, tem três significados principais: refere-se ao acto de recrutar, ao soldado novo que ainda não está pronto na instrução militar e à própria instrução militar ministrada aos recrutas. Terá entrado na língua portuguesa no dealbar do século XVIII.
      O verbo recrutar provém do francês recruter, com o mesmo significado, registado pela primeira vez nesta língua num texto de Racine (Lettre à son fils, Œuvres), datado de 1691: «Vous y pourriez apprendre (dans les gazettes de Hollande) certains termes qui ne valent rien, comme celui de recruter, dont vous vous servez, au lieu de quoi il faut dire faire des recrues.» O verbo francês formou-se a partir de récroître, formado pelo verbo croître (crescer) precedido do prefixo re-. Por sua vez, croître derivou do latim crescere (crescer), com base na ideia de que o exército «crescia» com os novos recrutas. (A alteração do e latino em oi é bastante comum em francês e repete-se em palavras como, por exemplo, croire, formada a partir do latim credere.) Já em relação ao vocábulo «exército», dizia Varrão: «Exercitus dicitur, quia exercendo fit melior», ou seja, diz-se exército porque exercitando-se se aperfeiçoa.


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Uso das preposições

Exageros consentidos

A pergunta

Uma leitora pergunta-me se, na tradução da frase em inglês que se segue, deve «usar a preposição simples ou a locução prepositiva»: «A soft breeze blew a wisp of sand over the top of the dune.» Será, pergunta, «uma brisa suave soprou um punhado de areia sobre o topo da duna» ou «uma brisa suave soprou um punhado de areia por sobre o topo da duna»?

A resposta

Antes de tudo, deixe-me dizer-lhe que não se trata de uma locução prepositiva, pois que o que está em causa é uma acumulação de preposições. O Prof. Evanildo Bechara, que o designa como «acúmulo de preposições», refere explicitamente o uso simultâneo destas duas preposições, afirmando que «não raro duas preposições se juntam para dar maior efeito expressivo às idéias, guardando cada uma seu sentido primitivo: Andou por sobre o mar» (Moderna Gramática Portuguesa, Rio de Janeiro, Editora Lucerna, 37.ª edição, 2002, pp. 301-302). Não raramente, Camilo fez uso desta acumulação expressiva das preposições.

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Alcorão e alcorânico

Haja coerência

Estranhamente, nem sequer aqueles que já se convenceram de que se deve dizer «Alcorão» e não «Corão» repararam que, por coerência, também devem dizer «alcorânico» e não «corânico». Vejamos uma frase de uma obra francesa: «Je passe donc toutes les matinées à la Madrassa, l´école coranique, à apprendre par coeur les prières et les sourates.» «Passei então», verteu o tradutor português, «a ir todas as manhãs à madrassa, à escola corânica, para aprender de cor as orações e as suras.» No inglês: «Quranic interpretation said that the body was like a garment for the soul; it was good and pure, endowed with gorgeous flaws.» O tradutor deu-no-lo assim: «A interpretação corânica dizia que o corpo era como uma peça de roupa para a alma: era bom e puro, dotado de esplêndidas falhas.»

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Substantivos: abstractos/concretos

Concreto como a música

A pergunta

«[…] Eu considero (porque li algures) que os nomes concretos são todos aqueles que designam realidades que podem ser percebidas pelos sentidos (o que inclui, por exemplo, o vento e a música); outras colegas consideram concretos só os nomes que designam realidades palpáveis ou com forma visível, o que exclui o vento e a música...»

A resposta

Partindo do conceito de substantivo abstracto como o que designa uma pessoa, um objecto, uma coisa, um animal, algo detectável pelos sentidos, chegamos à compreensão de que «música» e «vento» são substantivos concretos comuns. De facto, a música ou o vento não são algo de conceptual ou subjectivo: existem na realidade, independentemente da forma como cada um os entende ou percepciona. A TLEBS (subdomínio classe de palavras, B3.1.2.2.) conclui que não existe uma oposição clara entre concreto/abstracto, antes valores diferentes numa escala concreto-abstracto, o que, a ser verdade, não ajuda muito numa classificação.

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Fiama esteve aqui

EM GALAFURA

Os povoadores da beira Douro
conhecem o pó e as pedras.
E sabem que o Universo
concebe cerejais e parras.
Vivem como vermes magníficos,
iluminados por dias soalheiros,
obscurecidos pelas invernias.
Fiama Hasse Pais Brandão
As Fábulas
Famalicão, Quasi Edições, 2002

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Tradução

Imagem: http://www.fox.com/bones/

Qualquer coisa -logia

É a segunda vez em muito pouco tempo — e eu quase nunca vejo televisão, já sabem — que vejo este erro. Uma personagem da série Ossos (episódio n.º 7, «A Man on Death Row», transmitido anteontem pela 2:) perguntava a outra em que é que trabalhava, ao que o inquirido respondeu «entomology». O tradutor, José Manuel Fiuza, achou que devia traduzir por «etimologia», apesar de no contexto se falar de insectos, e, naturalmente, a própria temática da série ajudar a perceber que se tratava de entomologia, e concretamente de entomologia forense, que é o estudo de insectos e outros artrópodes num contexto legal. Afinal, a própria RTP apresenta a série como «um emocionante drama policial inspirado na vida real dos antropólogos forenses e da escritora de best-sellers Kathy Reichs».

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Segredos de alcova

Imagem: http://dinaladina.blogspot.com/

Trocar os vv pelos ff

Enquanto espero pela minha vez numa clínica, folheio a edição de Fevereiro (estas revistas são todas temporãs…) da revista Elle. Leio num título, na página 27: «Segredos de alcofa». Penso: olha que inesperado trocadilho, que criatividade. Passo a ler o texto correspondente: «Não perca a colecção Sexy Little Things, de Victoria’s Secret. Destacamos as jóias autocolantes Adore Me, Adore Me Body Bling, para colocar onde quiser e revelar [cá está o segredo] a quem quiser. www.victoriassecrets.com.» Onde está, afinal, a alcofa? Qual trocadilho, qual criatividade! Burrice, isso sim. Só agora me apercebi como a expressão anda assim deturpada pelo mundo. Diz-se «segredos de alcova»: intimidades que não se revelam. Pois que uma alcova é um pequeno quarto interior de dormir. Uma alcofa é um cesto flexível, de vime, esparto ou folhas de palma, geralmente com asa e fundo redondo.
A propósito do uso, neste texto, do verbo colocar, é caso para dizer que qualquer dia nem já as galinhas põem — colocam ovos!

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Nomeadamente

Desmancha-prazeres

O falante médio (o equivalente do jurídico bonus pater familias, digamos…) português está a perder rapidamente a noção exacta do significado do advérbio «nomeadamente». Embora não devesse ser assim, a comunicação social reflecte esse facto. Vejamos um exemplo tirado da tão decantada revista Epicur: «Esta Adega Cooperativa encontra-se implantada na bela e fértil região da Cova da Beira, nomeadamente, na cidade do Fundão» («Aldeias do xisto», Eduardo Miragaia, edição n.º 61, p. 58). Porquê «nomeadamente»? Este vocábulo significa «sobretudo, em especial, referindo o nome, mormente». Nenhum dos sinónimos se adequa ao que o jornalista pretendia exprimir.

«Esta Adega Cooperativa encontra-se implantada na bela e fértil região da Cova da Beira, concretamente, na cidade do Fundão.»

«Esta Adega Cooperativa encontra-se implantada na bela e fértil região da Cova da Beira, mais concretamente, na cidade do Fundão.»

«Esta Adega Cooperativa encontra-se implantada na bela e fértil região da Cova da Beira, mais precisamente, na cidade do Fundão.»


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Pronúncia de «paisagem»

Nem pai nem mãe



      José Hermano Saraiva deve ser já dos poucos portugueses a saber que na palavra «paisagem» não há nenhum ditongo, pelo que a sua pronúncia é feita em quatro sílabas e com o primeiro a fechado: /pâ-i-sagem/. (A minha professora da escola primária também sabia, mas de então para cá tem sido sempre a piorar.)




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Locução adjectiva

O adjectivo disfarçado

Uma leitora pergunta-me como classificar a locução «de hoje» na frase que se segue: «Os jovens de hoje são mais informados.» Trata-se de uma locução adjectiva, que se forma com o auxílio de uma preposição («de») e de um substantivo. E porquê adjectiva, antecipo-me à hipotética pergunta da leitora, se contém um substantivo? Pois simplesmente porque «de hoje» equivale, como é fácil de ver, ao mero adjectivo «actual», ainda que não nos soe tão bem: «Os jovens actuais estão mais informados.» Como podemos ler na Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, que já aqui citei diversas vezes e que recomendo por ser, a meu ver, a melhor da língua portuguesa, «nem sempre encontramos um adjetivo de significado perfeitamente idêntico ao de locução adjetiva: colega de turma» (p. 144). O mesmo autor acrescenta ainda, e refiro-o por estar relacionado com uma questão já aqui abordada: «A língua poética é mais receptiva ao emprego do adjetivo que exprime matéria em lugar da locução adjetiva:
áureas estátuas — estátuas de ouro
nuvens plúmbeas — nuvens de chumbo
colunas marmóreas — colunas de mármore
».

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Informação


Informação

Já existe há algum tempo, mas só agora tenho oportunidade de o divulgar: o jornal Público tem um consultório linguístico, que pode ver aqui.

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Chapelinho


Não apostes

      Uma amiga, professora (eu não disse já que conheço muitos professores?), apostou comigo, imprudente, em como não existe a palavra «chapelinho», mas «chapeuzinho».
      Há quem se recorde que durante o Estado Novo a história do Capuchinho Vermelho andava publicada com o título A Menina do Chapelinho Encarnado. Não apenas «vermelho» era palavra expungida, aspada, obliterada do vocabulário do regime e, à força, dos cidadãos, como o muito mais interessante «capuchinho» não tinha ainda sido inventado. Isto é o que se lê por aí, porque de facto o regime apenas manteve o que já existia. Muito antes, na verdade, em 1877, foi publicada uma compilação — Contos para a Infância —, da autoria de Guerra Junqueiro, em que se pode comprovar que a personagem já se chamava Chapelinho Encarnado.
      Ao lado de chapeuzinho, temos chapelinho, como também temos chapeirão (o infante D. Henrique, ensinaram-nos, usava chapeirão), chapelaço, chapelão, chapeleirão, chapeleta, chapelete e chapelório. A forma «chapelinho» explicar-se-á, creio, pelo facto de existir o vocábulo «chapel», a partir do qual se formou, de forma absolutamente regular, o diminutivo «chapelinho».

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Pontuação

Deixem-me pontuar o mundo!


Este texto já faz parte do anedotário nacional. Contudo, quando o pretendemos contar, como já me aconteceu, nunca sabemos onde encontrá-lo, razão que me levou a publicá-lo agora.



Um homem muito rico e avarento estava em agonia. Sentindo a morte chegar, pediu papel, caneta e escreveu assim:
«Deixo os meus bens a minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres.»
Como morreu antes de fazer a pontuação, a quem deixava ele a fortuna? Eram quatro os pretendentes.
O sobrinho fez a seguinte pontuação:
«Deixo os meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.»
A irmã chegou em seguida. Pontuou assim o escrito:
«Deixo os meus bens à minha irmã. Não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.»
O padeiro pediu cópia do original. Puxou a brasa para a sardinha dele:
«Deixo os meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.»
Por fim, chegaram os sem-abrigo da região. Um deles, bastante expedito, fez esta interpretação:
«Deixo os meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro? Nada! Dou aos pobres.»


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Taoísmo ou Daoísmo?

A pergunta



      O pinyin, cuja tradução (à letra) para Português é «soletração de sons», é o método usado oficialmente na República Popular da China para a transcrição do idioma Chinês (Mandarim, ou falar de Pequim) através do alfabeto latino.
      Aprovado em 1958 e adoptado em 1979, o pinyin depressa se impôs a todos os outros sistemas de transliteração, cerca de 40, deficientes e enganosos na medida em que ficam dependentes da fonética da língua do transcritor ([Alexandre] Li Ching — A Estrutura da Língua Chinesa, Lisboa, Fundação Oriente, 1994, p. 19.).
      Sem se conhecer o pinyin, a procura de uma palavra no dicionário era uma tarefa demorada, exigente e nem sempre coroada de êxito: primeiro tinha de se identificar o radical do carácter (de entre um universo de 214); seguidamente, contava-se o número de traços sobrante; por fim consultava-se uma lista de todos os caracteres com aquele radical e aquele número de traços, o que nos deveria remeter para uma determinada página do dicionário. Se não estivesse lá o carácter procurado, ou o radical tinha sido mal escolhido, ou o número de traços tinha sido mal contado. Havia então de encetar nova busca. Parece que estou a ouvir o saudoso Professor Li Ching a dizer com orgulho que todos os seus alunos, no final do primeiro ano, já sabiam consultar um dicionário.
      O pinyin facilitou imenso a vida daqueles que se dedicam ao estudo do Chinês sobretudo pela normalização que se faz sentir, por exemplo, na escrita em computador, tarefa anteriormente muito complicada. Agora, pelo contrário, basta escrever (num processador de texto adequado, é claro) aquilo que se pretende, em pinyin, e os caracteres chineses vão aparecendo no monitor.
O pinyin também tem os seus detractores, principalmente pela conotação que lhe é feita com a Revolução Cultural e com o regime chinês.
       Antes da adopção deste método de transliteração havia palavras de origem chinesa que já pertenciam ao nosso léxico, como por exemplo Xangai, Pequim e Mao Tse Tung. As alterações, entretanto, fizeram-se sentir: Xangai passou a escrever-se Shanghai, Pequim, Beijing e Mao Tse Tung, Mao Zedong. As mudanças criam sempre resistências, mesmo inconscientes: no primeiro parágrafo deste texto, por exemplo, «fugiu-me a tecla» para Pequim e não para Beijing. Enfim, estamos a falar de modificações cujo sentido se entende e que, com maior ou menor facilidade, vão entrando nos nossos hábitos, embora desencadeiem, por vezes, episódios quase anedóticos como o daquele aluno que perguntava à professora de Chinês se as cidades de Pequim e Beijing estavam ou não muito próximas uma da outra. Segundo a sua percepção, estavam mesmo.
       Neste panorama há, no entanto, uma alteração que me parece profundamente forçada: Caminho, em Chinês, diz-se tao, mas porque o som “t”, quando não é expirado, se representa por “d”, em pinyin, escreve-se dao.
       Há um pensamento filosófico que surgiu no tempo do mítico imperador Amarelo e alimentado pelo Tao Te Ching (em pinyin: Dao De Jing), Livro do Caminho e da Virtude, da autoria do também mítico filósofo Lao Tsé (em pinyin: Laozi).
       A esse pensamento chamou-se Taoísmo, termo perfeitamente consagrado na nossa língua. Entendendo o fenómeno, vou ter enorme dificuldade em passar a escrever Daoísmo, como já vai aparecendo abundantemente.
      Devo continuar a escrever Taoísmo, ou devo adaptar-me, embora contrariado, a Daoísmo?

José Manuel Pedroso da Silva


A resposta



      A propósito de Beijing e de outros topónimos, já aqui tive oportunidade de expor a minha opinião, a opinião de quem lida todos os dias com a língua e se vê confrontado com novas opções. Em particular no que diz respeito a topónimos e a antropónimos, não cedo a essas novas transliterações. Neste aspecto, o peso da tradição (por vezes não muito longa…) impõe-se e, francamente, não vejo que vantagens nos traria fazer de modo diverso. No que respeita ao vocábulo «taoísmo», tenho vindo a comprovar essa evolução de que fala e a reflectir que não há, mais uma vez, qualquer vantagem em preterirmos a forma que adoptámos há muito, opinião que me parece coincidente com a do leitor. À semelhança do miúdo da anedota, eu perguntaria se a cidade de Pequim foi arrasada ou se a China mudou de capital. Acresce que «Beijing» não é tão eufónico. Fica registado o facto, não despiciendo, de o pinyin ter vindo facilitar a escrita dos que se dedicam ao estudo do chinês.


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Selvagemmente ou selvagemente?

A pergunta


      Olá!
      Sou uma estudante de português da Galiza, acho que tenho deixado comentários no blogue. Moro com duas filólog@s mais e hoje no jantar tivemos uma dúvida linguística que eu achei ser «básica» mas que parece que nom o é. A questão, tenho um crachá que diz «Selvagemmente feminista» e as minhas colegas estranharam-se pelo duplo m da formação do advérbio em -mente. Eu quero saber se existe uma regra para esta formação segundo a qual as palavras acabadas em -m que se formam com -mente mantém o m ou se é que varia segundo a palavra (ex. comummente).
      Muito obrigada,
      Sabela

A resposta

      Cara leitora, a sua dúvida não é básica. Não há, aparentemente, excepções à regra de que a consoante m dobra nos advérbios de modo formados a partir de adjectivos terminados em m (comummente, ruimmente, etc.). Assim, o vocábulo «selvagemmente» estaria, salvo melhor opinião, bem formado. Contudo, não parece ser opinião consensual. Vejamos. Numa consulta ao Ciberdúvidas sobre a mesma questão, o consultor Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca afirma que «o advérbio correcto para selvagem é selvaticamente, formado a partir do adjectivo selvático». José Pedro Machado, porém, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, regista expressamente: «Selvagemente, adv. De modo selvagem; como os selvagens.│Só, isoladamente.» A única explicação para esta variante sem duplo eme só a encontro no facto de a forma antiga, e também popular, do adjectivo ser «selvage». Há até um monumento arqueológico na freguesia de Samil, concelho de Bragança, em cujo nome se usa esta forma do adjectivo: Fraga do Selvage. Logo, admitiria ambas as formas: selvagemente e selvagemmente.

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Léxico: chapatesta

Imagem: http://perso.orange.fr/

Enciclopédia visual

«Desculpe, queria uma daquelas chapas em que entra a lingueta da fechadura sob o impulso da chave. Está a ver? Fixa-se no aro da porta ou na outra folha…» «Ah, sim, estou a ver: o senhor quer uma chapatesta.» Na imagem, aparece uma chapatesta embutida no aro da porta, mas também são vulgares as chapatestas exteriores. Em espanhol diz-se cerradero; em francês, gâche.

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TLEBS

A TLEBS vista por Bandeira

A TLEBS explicada aos pequeninos


Uma leitora anónima fez-me, a propósito do meu segundo post sobre a matéria, a pergunta definitiva: afinal, o que é a TLEBS? Para lá do significado da sigla, pede explicitamente.
Em primeiro lugar, deixe-me felicitá-la por escrever «a TLEBS». Numa pesquisa exaustiva que fiz na Internet, fiquei impressionado com o número de vezes que vi escrito «o TLEBS», o que não deixa de demonstrar o grau de conhecimento com que se fala da matéria. Mesmo para quem, como eu, já escreveu e defende que uma matéria desta natureza e com as repercussões que tem na língua como um todo tem ser discutida por toda a sociedade, aperceber-me que todos querem ficar na fotografia deixa-me de pé atrás. Não sou especialista, isso já todos saberão a esta hora, mas reflicto continuamente sobre os factos da língua e, pelo menos no âmbito deste blogue, só isso me interessa.
A TLEBS é uma nova nomenclatura gramatical que vem substituir outra que estava em vigor desde 1967 — sem ninguém dar por isso, dizem altaneiramente os defensores da TLEBS. O primeiro entendimento, nosso e reforçado sempre, de alguma maneira, pelos defensores, é o de que uma terminologia, nova ou velha, só interessa aos mestres do ofício: os professores. Que não é assim salta aos olhos do mais distraído dos nossos concidadãos. Imaginemos que, por decisão política, atendendo à evolução dos conhecimentos, se legislava no sentido de se utilizar uma nova — e até prescindo de acrescentar, para a comparação ser mais fiel, complexa e algo abstrusa e inconsequente — nomenclatura da anatomia. Teria isso tão-somente implicações no trabalho dos médicos e, desde logo e antes, no ensino da Medicina, ou interessava e envolvia toda a sociedade? Uma nomenclatura, qualquer que seja, é um léxico específico para falar de determinada ciência. A TLEBS é, assim, como que uma metalinguagem, isto é, um léxico para designar os fenómenos gramaticais. Se a própria portaria, de 2004, que introduz a TLEBS, afirma que esta se destina «a constituir referência para as práticas pedagógicas dos professores das disciplinas de Língua Portuguesa e de Português, bem como para a produção de documentos pelo Ministério da Educação em matéria de ensino e divulgação da língua portuguesa», como se pode afirmar que só interessa aos professores? Ex ore tuo te judico: interessa aos professores de todas as disciplinas e à própria sociedade. Aliás, só interessa aos professores na medida em que se destina (ora reflicta-se no desdobramento da sigla: Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário) aos alunos. E se se destina aos alunos*, então diz respeito a toda a sociedade.
Se o progresso do conhecimento dita que se façam ajustes na nomenclatura, não vejo porque não se devem fazer — mas sem demolir, caprichosamente, todo um edifício teórico relativamente conhecido e sólido, elo cultural entre várias gerações. Foi precisamente isto que disse num dos textos sobre a matéria aqui publicados. Com a continuação do debate, vim a perceber que alguns dos autores da nova terminologia ultrapassaram claramente os limites das suas competências específicas, o que veio a constituir mais um argumento para ser contra a TLEBS. Simplificando: se tem de ser novo, que seja o melhor, feito com o contributo dos melhores.





* Embora a Prof.ª Maria Helena Mira Mateus, uma das autoras da TLEBS, tenha afirmado o contrário na entrevista que concedeu a Luís Caetano, no programa Um Certo Olhar (Antena 2, 3.12.2006, ouvir aqui): «Há uma terminologia linguística que é, no fundo, uma nomenclatura gramatical, tanto antiga como moderna pode ter esse nome. A gramática tem aspectos que são nomeados com termos. Havia uma nomenclatura gramatical de 1967 que não tinha sido nunca actualizada mesmo tendo havido alterações na concepção da gramática e na explicação do funcionamento da língua. Essa falta de actualização, e o desconhecimento também que muitas vezes havia da mesma, da terminologia que era suposta ser conhecida por todas as pessoas, por todos os professores, o facto de não ser conhecida e o facto de não ser actualizada fazia com que muitos professores utilizassem termos diversos, conforme a época em que tinham cursado a faculdade, tinham estado na faculdade, e isso não era bom para o ensino. Sendo assim, o Ministério pensou pedir a especialistas das várias áreas que dessem uma informação sobre os termos das suas respectivas áreas de acordo com o que se sabia hoje, e o que se sabe hoje, sobre o funcionamento da língua nessas várias áreas. […] Eu penso que os especialistas não tiveram tão presente quanto seria necessário a utilização de uma terminologia no ensino. Porque para as pessoas que falam, enfim, no caso da Linguística, mas podia ser Física, podia ser Matemática, podia ser qualquer ciência, mas no caso da Linguística, os termos que integram essa terminologia não são necessariamente para serem obrigatoriamente aprendidos pelos alunos. E isso está dito em todos os lados. Portanto, embora haja até termos com os quais eu não concorde muito, mas isso, enfim, está a ser revisto na revisão que se está a fazer, para além disso não é necessário que os alunos conheçam e nomeiem aquilo que lhes é explicado da gramática do português com os termos que fazem parte dessa terminologia.» (Destaques meus.)

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Trácios, mirmilões e retiários

Imagem de mirmilões: http://www.colorado.edu/

Na arena, com o tradutor

Não anotei quem fez a tradução da minissérie Pompeia, que passou na 2:, na semana passada, mas fiz mal. Que critério pode ter levado o tradutor a escrever «trácio», «mirmillus» e «retiarius»? Suspeito que o tradutor terá percebido vagamente que o primeiro vocábulo estaria relacionado com a nacionalidade do gladiador, até porque, afinal, «trácio» (que já não recordo se não apareceria escrito com maiúscula…) é bem conhecido e está em qualquer dicionário. Mas mirmillus e retiarius, onde encontrá-los? Na verdade, qualquer dos três termos se refere a categorias de gladiadores (para as conhecer a todas, ver aqui, em francês). Qualquer dicionário, e até mesmo este blogue, regista os vocábulos. Darius, uma das personagens principais, era um trácio (thrax), isto é, um gladiador que habitualmente combatia com os mirmilões (mirmillones) e os retiários (retiarii). Os trácios, os gladiadores, não eram da Trácia; julga-se, isso sim, que eram da Gália. Combatiam armados com um escudo, espada curta, caneleiras e uma peça protectora do braço direito. Os mirmilões combatiam equipados com um capacete com a forma de um peixe (mormulos), um escudo gálico rectangular muito grande e uma espada larga e direita. Apenas no braço direito e na perna esquerda traziam protecções. Os retiários ou reciários, por sua vez, como o nome indica, usavam como arma uma rede, com que tentavam enredar, envolver, imobilizar os adversários.

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Etarra e aquelarre

País Basco

Kaixo! Que me lembre, só temos em português uma palavra de origem basca: aquelarre, que é a reunião nocturna de bruxas e bruxos, com a suposta intervenção do Demónio ordinariamente na figura de bode (aker, em basco), para a prática das artes desta superstição. Reunião também conhecida, em português, por conventículo. Ultimamente, podemos ler nos jornais e ouvir na televisão o vocábulo «etarra» para designar o membro da organização ETA, que, sendo igualmente uma palavra basca, tem etimologia desconhecida. (Claro que a sigla ETA parece estar contida em «etarra», mas isso não é tudo: qual o significado do sufixo?) Sendo, além disso, tão semelhante a outras palavras portuguesas, rapidamente os jornalistas a adoptaram como portuguesa: «Enquanto no País Basco espanhol afirma-se [sic] que a acção dos etarras era previsível e teima-se em acreditar que a paz ainda é possível» («Atentado da ETA era ‘previsível’», Diário de Notícias, 2.1.2007, p. 5). Boa ou má prática, esta de fazer nosso tudo quanto a mão — neste caso, e salvo seja, a língua — alcança? Estamos a ficar muito anglo-saxónicos.

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TLEBS, mais uma vez

Pela importância de que se reveste, entendi ser um bom contributo para a discussão da TLEBS divulgar o artigo que o Prof. Jorge Morais Barbosa publicou no Diário de Notícias no dia 23 de Dezembro, o que faço com a expressa autorização do autor.

A linguística da TLEBS

Já quase tudo se disse sobre os inconvenientes, pedagógicos, sociais e outros, da aplicação da TLEBS nos níveis de ensino para os quais foi concebida, pelo que os não repetirei. Limitar-me-ei a recordar, a respeito, que a multiplicação desde 1997 de «acções de formação» de professores indicia ou que estes são incompetentes a ponto de necessitarem delas e de livros explicativos, no que não creio, ou que a terminologia é, mesmo para eles, tão abstrusa e inconsequente que se não dispensam formação específica e cábula — e nisto já acredito. Se assim é para os professores, que dificuldades não se depararão a crianças e adolescentes? Passo a comentar opções e desacertos em que abunda a TLEBS.
Do adjectivo diz ser «palavra pertencente à categoria sintáctica dos adjectivos», que se «flexionam em número» e cujos «constituintes imediatos são o tema adjectival e o sufixo de flexão». Onde estão os sufixos de flexão, em género e número, presumo, de simples, o de género de leve e os temas de ambos? Ou deveremos conformar-nos com a aberração (penso no «sujeito nulo») da nulidade dos determinantes de areia e flores em Quero areia, Quero flores bonitas, por não estarem lá a, estas, minha ou algo assim? Do adjectivo diz-se mais pertencer «a uma classe aberta de palavras, que permite variação em género, número e grau» e ser «o núcleo do grupo adjectival». Será, provavelmente, a última característica que o distingue do «nome», na medida que este também «permite variação em género, número e, em alguns casos [quais? fica por saber], em grau», mas «é o núcleo do grupo nominal».
O nome, sim, porque a TLEBS evacuou do seu seio o termo substantivo. Ora, na tradição gramatical, substantivo e adjectivo, que começam por adjectivar nome, tornam-se eles próprios substantivos e assim aparecem, pelo menos já em 1823, no Dicionário de Moraes. Que proveito, a não ser mera concessão ao inglês noun, traz a substituição de um termo comummente acolhido no discurso metagramatical português por um que se deixou de usar e nada diferente vem designar? Tão enraizada está entre nós, aliás, a noção de «substantivo» que, apesar de erradicar o termo, a própria TLEBS fala de «frase subordinada substantiva» e dos homógrafos canto, forma verbal, e canto «substantivo» (sublinhados meus). Não será seguramente caso de dizer que no melhor pano cai a nódoa... De idênticas concessões constitui exemplo, citando apenas mais um, no lugar da proscrita oração a frase, definida como sendo «ela própria um elemento constitutivo da frase» (porque não pensaram em phrase, clause, sentence, utterance?): não ensina a lógica, a menos que necessite de revisão, que o definido não pode entrar na definição? Mas é o que sucede também com modificador, «função sintáctica desempenhada por constituintes não seleccionados pelo núcleo do grupo sintáctico que modificam»: e não seria normal explicar o sentido gramatical de modificar? Outra originalidade: a redução da classe dos determinantes a artigos, possessivos e demonstrativos, com a curiosidade de apresentar como equivalentes do português determinante o fr. déterminant, o ing. determiner e o esp. determinante, quando em nenhuma das gramáticas de referência consultadas destas línguas coincidem com o da TLEBS os valores do respectivo termo.
Seja qual for a teoria seguida, ninguém deixará de estranhar a inclusão das noções de homografia, homofonia e homonímia no domínio da semântica. Que propriedades semânticas se encontram comuns aos dois canto ou a passo/paço, sem/cem, sede «vontade de beber» e sede «local»? E se os dois canto são a um tempo homónimos e homógrafos, porque o não são igualmente os dois sede, que só se distinguem por não serem homófonos? E porque não se apresentam exemplos de sinonímia, nem «total» nem «parcial»? Porque professores e alunos já sabem, ou porque nem uns nem outros necessitam de saber o que isso é? Ainda no mesmo domínio, identifica-se «significado» com «conceito» e significante com «imagem acústica», na infeliz repetição do que primeiro aparece no Cours de linguistique générale de Saussure, que, contudo, se corrigiu ele próprio em aula semanas depois. Se o significado é conceito, será o significado de partir «sair» ou «morrer»? Como nos domínios da semântica, lexical ou frásica, os sentidos parecem não lhe interessar, nem sequer poderia a TLEBS arguir que «morrer» é partir em «sentido figurado». E quais são, fora de qualquer terminologia científica, as unidades lexicais que «possuem apenas um único significado» (note-se a redundância), conforme a TLEBS define a monossemia? Para quantos consideram polissémica qualquer unidade o significado é um e actualiza-se em sentidos variáveis com o contexto e a situação de enunciação.
Vários outros problemas, como o do «aspecto», mereceriam comentários, todavia, demasiado largos para caberem aqui. Concluo, portanto. Diz-se que a TLEBS resultou da necessidade de se rever a Nomenclatura Gramatical Portuguesa de 1967. Não havia, contudo, vantagem em substituir o que era gramatical pelo que se pretende linguístico. Se há que actualizar a Nomenclatura, actualizemo-la, mas contemplando o que for científica e pedagogicamente ponderado e não criando sabedorias dentro do que, felizmente, nem sequer chega a constituir uma escola linguística.
Até lá, suspenda-se, pois, o disparate.

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Caça grossa e caça miúda


Pólvora seca

      Gostei muito de ouvir o nutricionista João Breda no programa Couto & Coutadas, na 2:, na emissão de ontem. O pior foi quando se referiu à «caça maior» e à «caça menor». Chasse majeure et chasse mineure, c’est ça? Pronto, lá vamos ter mais uma geração de caçadores a falar francês. Em português diz-se «caça grossa» e «caça miúda». Menos tiros na língua, se faz favor.

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Jeropiga ou geropiga?

Responde Camilo

      O Dicionário Houaiss lembra que Antenor Nascentes aventou a hipótese de o vocábulo «jeropiga» provir de «xaropiga» (de «xarope»), por ser uma bebida adocicada. Camilo Castelo Branco detém-se na ortografia do vocábulo na preciosidade que é a obra O Vinho do Porto, Processo de Uma Bestialidade Ingleza, Exposição a Thomaz Ribeiro, publicado em 1884. Atente-se no facto de actualmente os dicionários apenas registarem a variante «jeropiga», conforme consigna o Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves.


«Para corroborar o Forrester e açular as iras contra o vinho do Porto, o outro pamphletista, Whittaker, invoca a opinião unanime dos medicos inglezes que reputam o vinho procedente de Portugal uma peste para o estomago e para o figado; por quanto o summo de uva é quasi uma idea abstracta na moxinifada de agua-ardente, baga, melaço e jeropiga. Elle não escreve sem desculpavel horror a palavra JEROPIGA.
Porquê? Vaes agora entrar no segredo da bestialidade ingleza, meu amigo.
Foi assim.
James Forrester, tão respeitador dos vinhos portuguezes como da nossa ortographia, tinha escripto «Jeropiga» com J. Parece que d’esta bagatella não devia surdir grande equivoco na percepção do pensamento; porém, succede que a palavra com G ou com J dá duas significações de coisas e serventias, e entradas e sahidas muito diversas. Whittaker, para saber radicalmente o que era Jeropiga, abriu o Diccionario portuguez de Constancio, e encontrou: JEROPIGA, Ajuda, clyster, bebida medicinal.
Tremulo de indignação e livido de nôjo, brada o inglez: «Esta ultima expressão (bebida medicinal) é o mesmo que mézinha; quanto ás duas primeiras (ajuda, clyster) são a mesma coisa, tem o mesmo sentido, e dispensome de as traduzir. Que bellas coisas a gente bebe!»
Ó Thomaz Ribeiro, quem não sentiria vontade de mandar o inglez beber outras? Mas o peor da passagem foi que a droga do clyster diluida no vinho do Porto fez abalo intestinal no mercado de Londres. Raro seria o consummidor de vinhos portuguezes que não levasse as mãos convulsas á região hypogastrica, com ptyalismo e vomitos. O artigo foi logo trasladado a francez, em Bruxelles, na Revue Britannique ou choix d’artistes traduits des meilleurs écrits périodiques de la Grande-Bretagne (1849). Em Paris foi commentada desabridamente, com chalaças, a porca e pelintra fraude lusitana em um artigo da Revue Œnologique. Portugal, á conta do execravel jota de Sir James Forrester, foi considerado um paíz de immunda selvageria que, ministrando clysteres pela bocca, tornava communs de duas entradas as suas mézinhas. Triste!»

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Ortografia: gratuito


Não têm dicionário

«Gratuíto»? Hum, pois, porque, pela amostra, não dou mesmo nada por ele…

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Receita: bolo de chocolate


Mudança de ramo?


      Não se enganou no blogue, caro leitor. Depois de algumas pessoas remotamente conhecidas me terem feito saber que o meu blogue (mandei-lhes, claro, o recado de que já sabia isto…) aborda questões relacionadas com a língua — seu maior defeito, na opinião dessas pessoas —, decidi divulgar hoje a minha receita de um bolo de rápida confecção. Entre preparar e cozer — no microondas —, demora 20 minutos. Ideal para festas de crianças, pois além da rapidez com que se faz, permite uma ampla gama de decorações: com chantilly, confeitos, nozes, pinhões, etc.
      Espero agora que os convites para fazer crítica gastronómica chovam de todas as publicações, acolitados por amplas amostras de produtos regionais.

Ingredientes: duas chávenas de açúcar; cinco ovos inteiros; uma chávena de chocolate instantâneo do tipo Nesquik, uma chávena de óleo; duas chávenas de farinha com fermento; uma chávena de água morna.

Preparação: Os ingredientes que referi devem ser misturados, pela ordem em que aparecem, numa tigela, a mesma que serve de forma para ir ao microondas. Num microondas com a potência de 800 W, o tempo de cozedura é de 10 minutos. Deve, contudo, retirar-se antes de todo o chocolate solidificar, para que ao desenformar, imediatamente após sair do microondas, para um prato escorra para os lados, como se vê na fotografia.



Agradeço a colaboração da minha prima Luísa Cristina Leal Monteiro Pereira Ferreira.


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Léxico: cotonifício

Além-mar

Os nossos irmãos Brasileiros são, na verdade, simultaneamente mais e menos conservadores do que nós no que respeita à língua. Por um lado, mantêm, mesmo na oralidade, termos e expressões que em Portugal já esquecemos, o que redundou sempre em prejuízo nosso. Por outro, são muito menos conservadores, permitindo a entrada generosa de estrangeirismos e afeiçoando-os ao português. Já aqui um dia referi o vocábulo «pastifício», de etimologia italiana. Hoje, divulgo outro, também com étimo italiano, de uso corrente no Brasil: «cotonifício». Cotonifício m. Manufactura de tecidos de algodão. Vem de cotonificio: «industria della filatura e tessitura del cotone; fabbrica per la produzione di tessuti di cotone».
E já que falo de têxteis, lembro que sobretudo no Alentejo se usa o termo «rouparia» para designar as indústrias, quase sempre pequenas e familiares, de lacticínios ou queijarias. E em que dicionário se encontra registado tal termo? Em poucos, valha a verdade. O nome deve-se ao facto de o soro ou almece (almécere, almeice, almícere, almiça, almice, almiço…) se filtrar, tradicionalmente, com roupas ou panos sobrepostos, os coadeiros.


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Léxico: «testigo»

Imagem: http://www.ceramicanorio.com/
Gatafunhos com significado

      A lembrar um pouco o que já aqui escrevi sobre a siglária (Léxico: ornamentista) nas grandes igrejas e noutros monumentos, hoje quero falar dos sinais que os operários, especialmente artesãos como os oleiros e os ceramistas, mas também os que fazem objectos de cortiça (como tarros, corchos, etc.), usam nos objectos que produzem. Há — como quase sempre, não se esqueçam, existe para cada objecto ou realidade — um termo para designar esses sinais: testigos. É a assinatura do autor, o seu testemunho de que fez aquela peça. Por vezes uma sigla, um sinal, um desenho, mesmo um nome, que identifica o respectivo autor. No início, provavelmente, como acontecia com a siglária das igrejas, serviria somente para efeitos de atribuição a cada operário das peças produzidas, para avaliar o salário correspondente. A propósito, para um bom glossário da cerâmica, ver aqui.


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Léxico: «dorsal»

Imagem: http://www.akirasan.net/

Do atleta, não do peixe


      Nem todos os vocábulos em uso, já o sabemos, se encontram dicionarizados — que tal facto não sirva de desculpa para se afirmar que não existem, como por vezes estultamente se faz. No campo da linguagem desportiva, por exemplo, apercebi-me há pouco que o substantivo «dorsal» não está em nenhum dicionário que eu conheça. Dorsal na acepção de pedaço de tecido, plástico ou papel que os participantes de algumas provas desportivas trazem nas costas (e repetido, por vezes, à frente), com o respectivo número, nome, equipa ou selecção.

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Dacar e não Dakar

Escolham, meus senhores!

      Fiquei todo contente por ver que o Diário de Notícias estava finalmente a seguir o bom exemplo do Expresso ao grafar «Dacar» («Lisboa-Dacar 2007 arranca mais tarde», Expresso, 6.5.2006, p. 16) e não «Dakar», mas foi só um fogacho. Afinal, ainda tergiversa: «Um gelado algarvio em honra do Dacar», era um dos títulos da página 32, edição de 28 de Dezembro. No corpo da notícia, contudo, ora usa uma, ora outra forma. Está mal: o Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, regista este topónimo com a grafia «Dacar».


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Soalheiro e solarengo

Manhãs so _ _ _ _ _ as


      Há erros que, apesar de tudo, são mais desculpáveis na oralidade. Na escrita, denotam sempre pelo menos falta de atenção, quando não ignorância. «No Jardim da Parada, em Campo de Ourique, a manhã solarenga contrastava com o triste espectáculo a que se assistia no ecoponto do jardim, caixas de brinquedos e de chocolates, despojos do Natal, espalhavam-se pelo chão, não cabendo mais no pequeno ecoponto» («Lixo nas ruas por falta de civismo», Francisco Reis, Diário de Notícias, 28.12.2006, p. 26). Claro que é lamentável que um jornalista, um profissional que trabalha com as palavras, desconheça desta forma a língua, mas também não deixa de ser lamentável que os revisores não façam nada. É a segunda vez que aqui refiro este erro, e apenas insisto porque não chegou a toda a gente. Quem conhecer Francisco Reis, por favor, dê-lhe o recado.


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Superlativo absoluto sintético

Propriíssimo

Uma leitora, professora que prefere manter o anonimato (quão longe daqueles que exibem a sua indigência cultural em programas televisivos), pergunta-me como se escreve o superlativo absoluto sintético do adjectivo «próprio». À semelhança de todos os adjectivos terminados em -io, dá-se a queda do -o final e acrescenta-se um i:

cheio → cheiíssimo
feio → feiíssimo
frio → friíssimo
necessário → necessariíssimo
precário → precariíssimo
próprio → propriíssimo
sério → seriíssimo
sumário → sumariíssimo
vário → variíssimo


Por vezes, como ensina Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa, Rio de Janeiro, Editora Lucerna, 37.ª edição, 2002, pp. 150-51), autor a quem fui buscar os exemplos acima, ocorre fusão dos dois iis, o que demonstra a tendência da língua à fuga ao hiato. Quanto ainda ao superlativo de próprio, Evanildo Bechara lembra que o escritor setecentista Dias Gomes escrevia propríssimo.

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Serra: nome das peças


Enciclopédia visual

      Também um violino parece uma coisa simples e afinal é constituído por 85 peças. Afinador, alma, botão, braço, cavalete, cordas, cravelhas, estandarte, ilhargas, ouvidos, pestana, ponto, queixeira, tampos, voluta… e 30 camadas de verniz. Uma serra é, obviamente, menos complexa, mas ainda assim tem várias peças, todas com designação específica: paralelamente à folha está a peça maior, o alfeizar*; nas extremidades deste encontram-se as armas, testeiras ou testicos; a dar tensão a toda a serra está o cairo ou corda. Cada uma das extremidades das testeiras é atravessada por uma peça móvel de madeira, chamada tornel, na qual se fixa a lâmina. A peça de madeira que, de um lado, prende ao meio do cairo e dá a volta obrigando-o a torcer, enquanto, do outro, assenta sobre o alfeizar, é o trabelho.


* [Não confundir com o espanhol alféizar (plano que delimita el hueco inferior de una puerta o ventana. Generalmente sólo se dice del horizontal que sirve de coronación del antepecho), a nossa soleira das janelas.]

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