Hiper ou «hiper»?

Sem medo

      Lia-se no Correio da Manhã: «Hiper ficou com as caixas entupidas» («PJ investiga Multibanco», Miguel Alexandre Ganhão/Raquel Oliveira, 30.4.2006, p. 5). No Diário de Notícias, por sua vez, podia ler-se: «Hiper no Norte fechado por falta de condições» (Elsa Costa e Silva, 28.06.2006, p. 17). E, no mesmo jornal, o plural: «Combustíveis até 10% mais baratos nos hipers» (Caderno Economia, 15.5.2006, p. 2). Na Visão, finalmente: «Entre compras feitas nos hipers e outras grandes superfícies e os depósitos nas instituições financeiras, esses valores acabam por ir parar aos carros blindados das grandes empresas de transporte de valores e, posteriormente, para as suas caixas fortes [sic]» (n.º 692, 8 a 14.06.2006, p. 136). Estiveram bem, para me exprimir professoralmente, os jornalistas do Diário de Notícias. De facto, não precisamos de isolar assepticamente com aspas ou itálico a redução ou abreviação substantivada «hiper». Como também não o fazemos com metro, foto, moto, manif, pneu, quilo, otorrino, zoo, etc.

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Parênteses angulares

Uma coisa, um nome

      O leitor J. Gomes pergunta-me que nome dar aos símbolos <>. Bem, já vi atribuir-se-lhes o nome de parênteses angulares ou angulosos. A juntar aos parênteses rectos — [ e ] — e aos parênteses curvos — ( e ) —, a forma ditou a designação. À mão só tenho uma abonação: «Neste capítulo, os parêntesis angulares <> são usados para representar versões ortográficas» (Língua Portuguesa, Instrumentos de Análise, Inês Duarte, Universidade Aberta, Lisboa, 2000, p. 216).

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Plural dos apelidos

O nosso nome

      Embora já há algum tempo tencionasse escrever sobre este assunto, o facto de um leitor me ter escrito a perguntar a minha opinião obrigou-me a antecipar a publicação deste texto. Ainda recentemente, podia ler-se o seguinte num jornal gratuito: «Nas antigas casas da infanta D. Maria [filha de D. Manuel I] acabaria por surgir um palácio que foi propriedade dos Almeidas, descendentes do vice-rei da Índia, D. Francisco de Almeida», «Campo de Santa Clara» (Appio Sottomayor, Jornal da Região (Lisboa), p. 14). Appio Sottomayor ajuda-nos a descobrir a cidade de Lisboa e a língua, pois os apelidos têm, de facto, plural. Por influência francesa se começou a admitir o contrário, por ignorância se continuou a fazê-lo. Afonso da Maia e Carlos da Maia, recordemos, eram os Maias. Até Eça, que tanta influência recebeu da língua francesa, respeitou a índole da língua portuguesa.
      A dificuldade com que se deparam os jornalistas, os tradutores e os revisores — aqueles que têm consciência dessa realidade, que não serão muitos — é justamente a pluralização dos apelidos estrangeiros. A regra, pois, em relação a estes, é a de que se devem pluralizar os nomes próprios e os apelidos das pessoas sempre que a terminação se preste à flexão. Lembro-me de ter lido em Camilo Castelo Branco, por exemplo, «os Monizes». No caso dos apelidos terminados em s, como o meu, é simples: fica invariável. Como já se lia, de resto, no Capítulo XLV da Grammatica da Lingoagem Portuguesa, de Fernão de Oliveira, que defendia que os nomes portugueses têm plural, «tirando Domingos, Marcos e Lucas, que não variam seus números».


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Kinshasa e Quinxasa

Imagem: http://www.emediawire.com
Quase cachaça

      J. Castro Pinto, no seu excelente Novo Prontuário Ortográfico, afirma que a grafia portuguesa de Kinshasa ― Quinxasa ― «não é de fácil aceitação, mas não é possível atribuir-lhe outra». Os jornalistas da revista VIP quiseram desmenti-lo: «Em Quixassa, Carla Matadinho encantou com a sua beleza. A modelo, vestida por Augustus, fez parar o trânsito na visita que fez à capital da República do Congo» (VIP, n.º 466, 21 a 27.06.2006). O s suplementar deixa-nos adivinhar que não andam a ler o prontuário de Castro Pinto. Devem ter ouvido mal...


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Palavras em -agem

O mundo é composto de mudança

      Apesar de alguns dicionários registarem a palavra «personagem» como tendo dois géneros, por isso reflectir a tendência dos falantes da actualidade (não importa agora discutir se essa tendência é mal informada, como parece ser em relação a toda a língua), continuo a aceitá-la e a escrevê-la somente como sendo do género feminino. Tenho, porém, consciência da evolução da língua. Para começar, sei que no português antigo, à semelhança do espanhol dos nossos dias, os nomes em -agem, de importação francesa, eram frequentemente masculinos, e a alteração nos géneros, através da analogia, não foi um fenómeno despiciendo. Boas razões, pois, para, defendendo as minhas ideias, o fazer sem dogmatismos.


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Sotavento e barlavento

Depende do vento

      Ora aqui está uma interessante hipótese etimológica para o vocábulo «barlavento». «Barlavento: nome dado à parte ocidental do Algarve; oeste. Opõe-se a sotavento. Por extensão de barlavento = lado donde sopra o vento. Do francês par le vent (?).» (Eduardo Brazão Gonçalves, Dicionário do Falar Algarvio, Região de Turismo do Algarve, 1988, p. 47). Deverão ser grafados com maiúscula quando designam as respectivas regiões.
      Em espanhol, existem os termos «sotavento» e «barlovento». Em catalão, por sua vez, há os vocábulos «sotavent», a que se opõe «sobrevent».


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Terceiro Mundo

É bom saber

      «O termo» Terceiro Mundo «foi utilizado, ao que parece, pela primeira vez, pelo demógrafo francês Alfred Sauvy, inspirando-se, para o efeito, num panfleto do político gaulês J. Sieyès (Qu’est ce que le tiers état?), datado de 1789» (José Carlos Venâncio, A Dominação Colonial, Protagonismos e Heranças, Editorial Estampa, 2005, p. 61).


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Banto e talibã

Pensemos

      Para a esmagadora maioria das pessoas, é como se o vocábulo «banto» fosse invariável. Embora intua que não há motivo, mas mimetismo, convém ter consciência de que se fôssemos respeitar a flexão dos nomes que importamos de outras línguas, não teríamos uma língua própria. Que interessa ao falante de português, a não ser como conhecimento, que em banto, uma língua prefixal, o vocábulo «banto» seja um plural? Importámo-lo, agora é nosso e temos de o afeiçoar à congenialidade da nossa língua. Vejamos uma frase em espanhol: «Los grupos de lengua bantú se transformaron en herreros y en su enigmático trayecto introdujeron alimentos importados de Asia.» Um tradutor deu-no-la assim: «Os grupos de língua banto transformaram-se em ferreiros e no seu enigmático trajecto introduziram alimentos importados da Ásia.» Assim, à semelhança deste, também se devia preferir «talibã(s)», como grafa o Diário de Notícias: «O ministro dos Negócios Estrangeiros paquistanês, Khursheed Kasuri, rejeitou ontem as acusações de que Islamabad estaria a apoiar os talibãs no Sul do Afeganistão» («Islamabad rejeita acusações de que está a ajudar os talibãs», Susana Salvador, 20.05.2006, p. 14). Ao contrário do Público: «Forças de segurança procuram 100 suspeitos taliban» («Combates no Sul do Afeganistão causam pelo menos 16 mortos», S. L., 16.05.2006, p. 17).

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Léxico: caracoleta

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Boa pergunta

      «Caracoleta moura: nome que se dá à espécie de moluscos gastrópodes terrestres, cujo nome científico é Helix aspersa, Lineu. É de dimensão maior que as outras caracoletas e, em geral, os algarvios não as comem. A palavra caracoleta não vem nos dicionários. Porquê?» (Eduardo Brazão Gonçalves, Dicionário do Falar Algarvio, Região de Turismo do Algarve, 1988, p. 66). Passados quase vinte anos, ainda não temos o vocábulo «caracoleta» registado nos dicionários. Comem-nas, mas não as respeitam.


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Tradução de «chilaba»

Dicionários

      A personagem, um judeu, na Idade Média, «vestía una sencilla chilaba negra con capucha y portaba la rodela». Como traduzir «chilaba»? Os dicionários bilingues espanhol-português, como o da Porto Editora, por exemplo, que aponta como tradução de «chilaba»… «chilaba», deixam muito a desejar. O tradutor optou por «balandrau». Vejamos o que registam os dicionários sobre este vocábulo.

«Balandrau, s. m. Vestidura antiga, com capuz e mangas largas, usada pelos Mouros» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. por José Pedro Machado).
«balandrau. s. m. (Talvez do lat. medieval *balandra, pelo provenç. balandrán). 1. Antiga peça de vestuário semelhante a um capote, com capuz e mangas largas. 2. Capa larga e comprida, sem mangas mas com aberturas para enfiar os braços, usada por certas irmandades em cerimónias religiosas» (Dicionário Houaiss).
«balandrau, s. m. capote largo e comprido; opa usada por certas irmandades religiosas; (fig.) qualquer vestimenta comprida, larga e desajeitada; redingote. (Do ant. al. wallender, «peregrino»)» (Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 6.ª ed.).
«balandrau. [Do lat. medieval balandrana.] S. m. 1. Opa usada por algumas irmandades em cerimônias religiosas. 2. Capa ou casaco largo e comprido. 3. Antiga vestimenta de capuz e mangas largas» (Novo Dicionário da Língua Portuguesa Aurélio, 2.ª ed.).
«balandrau (Lat. *balandra), s. m. capote largo, comprido e de mangas largas; opa usada por certas irmandades» (Dicionário Universal da Língua Portuguesa, ed. 1995).
É preciso ver, contudo, que em espanhol* também há a palavra «balandrán». Vejamos o respectivo verbete no Diccionario de la Real Academia Española: «balandrán. (Del prov. balandran, de balandrà, balancear). m. Vestidura talar ancha y con esclavina que suelen usar los eclesiásticos.
Voltemos ao espanhol. «Chilaba. (Del ár. marroquí žellaba, y este del ár. clás. ğilbāb). f. Pieza de vestir con capucha que usan los moros.» O Grande Dicionário da Língua Portuguesa (edição actualizada em 2002 do Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa de António de Morais Silva, regista a forma gelaba. «Gelaba s. f. Veste comprida dos mouros.»

* E em catalão, balandram («Vesta llarga, ampla i oberta del davant, que hom duia a la baixa edat mitjana al damunt de l’altra roba» e «Vestit talar, amb esclavina o valona, que usaven els eclesiàstics»). Em inglês: «balandran. n. A wide wrap worn in the Middle Ages. Also balandrana» (Webster’s Comprehensive Dictionary).


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Judeu e judaico

O judeu errante

      Na revista Elle de Julho encontrei um erro (encontrei demasiados…) muito comum entre os jornalistas e tradutores. Podia dar muitos exemplos. Vejamos a citação. «Com 18 anos, Sophie [Auster] herdou do pai o tom de pele, as raízes judias e aqueles olhos — grandes, intrigantes, misteriosos» (João Tordo, Elle, n.º 214, Julho de 2006, p. 48). «Judia» é o feminino de «judeu», e este designa o natural da Judeia, logo, as raízes serão «judaicas». Universidade Judaica, Museu Judaico de Berlim, cemitério judaico, colonato judaico, comunidade judaica, diáspora judaica, nação judaica, questão judaica… Mas povo judeu, pois claro.


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AVC e cerebrovascular

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Ainda acertam…

      É comum vermos, e assim está dicionarizado, «acidente vascular cerebral» (AVC). A revista Elle engendrou outra forma: «De acordo com um estudo efectuado em Londres, comer mais do que o recomendado [fruta] — cinco doses por dia — diminui o risco de ter um acidente vascular-cerebral em 26%» («Abuse», Elle, n.º 213, Junho de 2006, p. 159). E o hífen para que serve? É verdade que existe a palavra aglutinada — e até mais correcta —, mas ao contrário, como se prefere no Brasil, onde se diz «acidente cerebrovascular». Noutras línguas é também a forma preferida: «accidente cerebrovascular», em espanhol; «accident cérébrovasculaire», em francês; «accidente cerebrovascolare», em italiano; «cerebrovascular accident», em inglês. Em catalão usam-se as duas formas: «accident cerebrovascular» e «accident vascular cerebral».

Cerebrovascular adj. 2g. MED relativo à ou próprio da rede vascular do cérebro. (Dicionário Houaiss)


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De «formulaic» a «formulaico»

Então é assim…

      Nenhum dicionário de língua portuguesa, que eu saiba, regista o adjectivo «formulaico». Este facto não impede ninguém, naturalmente, de o usar, e é o que acontece com Vasco Pulido Valente, que escreveu na sua habitual crónica no Público: «Nenhum político responsável desceu antes dela de um “liberalismo” formulaico e abstracto para a dureza e a impopularidade do concreto», «O “líder da transição”?» (26.05.2006, p. 60). Vindo do latim formula, o inglês formulaic estava mesmo a pedir, dir-se-á, bastou acrescentar um o, ser nacionalizado. Vejamos a definição num qualquer dicionário de inglês: «Formulaic: characterized by or in accordance with some formula.» Em contexto: «A considerable proportion of our everyday language is ‘formulaic’. It is predictable in form, idiomatic, and seems to be stored in fixed, or semi-fixed, chunks. This book explores the nature and purposes of formulaic language, and looks for patterns across the research findings from the fields of discourse analysis, first language acquisition, language pathology and applied linguistics.»
      Uma questão se impõe, porém: era necessário aportuguesar esta palavra, ou mesmo adoptar o vocábulo inglês? Nem uma coisa nem outra, parece-me. Já temos o adjectivo «formular» (que também existe no espanhol*), que significa rigorosamente o mesmo. Tanto é assim que o Dicionário Houaiss regista a locução «estilo formular».
      Retomo as definições do inglês. No Oxford Advanced Learner’s Dictionary, pode ler-se: «formulaic adj. (formal) made up of fixed patterns of words or ideas: Traditional stories make use of formulaic expressions like ‘Once upon a time…’» Neste caso, não hesitaria em usar o adjectivo «sacramental», há muito dessacralizado para estas necessidades expressivas. Também já vi bons tradutores verterem o formulaic como «formal». Deve atender-se, é evidente, ao contexto.
      Para acabar, vejo que formulaic também significa «lacking in creativity», o que não se aplica a Vasco Pulido Valente e, espero, a mim também não.

* O Diccionario de la Real Academia Española não regista «formulaico». O Oxford Spanish Dictionary, que os meus leitores já conhecem de outras andanças, regista-o na entrada do adjectivo «formulaic», o que é causa ou efeito, vá-se lá saber, de o ver usado em muitos textos espanhóis.


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Tradução de «adicción»

Contas mal feitas

      Apesar de o Dicionário da Academia, entre outros, registar o vocábulo «adição» no sentido de dependência («Adição. Psiq. Compulsão apresentada por determinados indivíduos para repetir os mesmos comportamentos gratificantes, consumindo quantidades crescentes de drogas como tabaco, álcool, cocaína...»), não me parece a forma mais acertada de traduzir o vocábulo espanhol «adicción», em especial se não estivermos perante uma obra técnica. A citação que se segue, da recensão crítica de Paulo Nogueira ao livro Autobiografia de Marilyn Monroe, de Rafael Reig (Bico de Pena, 2006, trad. Afonso Leonardo), dá conta dessa estranheza:
      «Oxalá a Bico de Pena edite outro livro dele, Sangre a Borbotones — mas com mais cuidado na tradução. “O casamento causa adição”, como vem na página 29, é um disparate. O correcto será “o casamento vicia” (a não ser que a “adição” fosse a de um pimpolho, o que não é o caso)» (Expresso/Actual, 17.06.2006, p. 67).


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Português antigo

A voz do povo

      A minha sogra, uma pequena proprietária rural brasonada que de vez em quando chama provinciano ao meu sogro (o que é, a par de um insulto leve, de uma notável intuição etimológica, pois que Proença, que é o apelido dele, deriva do provençal «Provincia-»), usa o muito popular e arcaico adjectivo «rudo». Se o arroz não está ainda cozido, por exemplo, ela diz que «o arroz está rudo». Na evolução da língua, «rude» chegou, de facto, a ser biforme.


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Mas e vírgula

Gaudium certaminis

      Para quem gosta de classificações. Nesta questão, dividimo-nos em quatro grupos: os que sabemos que, por vezes, antes de «mas» deve estar uma vírgula; os que, ignorando-o, nunca a usam; os que têm a certeza de que antes de um «mas» deve haver sempre uma vírgula e, por fim, os que sabem que, ou antes ou depois, deve haver uma vírgula. Tal como algumas das nossas criancinhas, astuciosas, que escrevem os acentos gráficos na vertical, para que o professor decida para que lado devem cair. Vejamos um exemplo da imprensa.
      «Os vikings querem saber voar mas, quem voa mais alto é o amor e é a filha do grande líder bárbaro que vai, no fundo, ganhar asas e sair do ninho», «Os vikings que querem voar», Sofia C. de Castro, Correio da Manhã, 8.06.2006, p. 55.
      Neste caso, a oração coordenada adversativa deve ser separada da anterior por meio de vírgula, que fica antes da conjunção. Só assim não seria se, em vez de ligar orações, ligasse elementos de uma frase (O “leito” era uma estranha mas convidativa combinação entre o futon e uma cama ocidental.) ou desempenhasse uma função enfático-contrastiva (Vai mas é dar uma volta ao bilhar grande, palonço!).


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Tradução: «gavilán»

Gavilanes e gaviões

      O leitor João Lopes pergunta-me se conheço a palavra portuguesa correspondente ao vocábulo espanhol gavilán*, referida a espada. Não conheço nem encontro em lado nenhum. Contudo, não me parece que se possa traduzir por «copos», como sugere, pois, sendo embora certo que este vocábulo designa a parte da espada que defende a mão, na espada celta que me descreve não há propriamente copos. Vejamos. Diz-se «copos» (e em espanhol, «conchas») por catacrese, pois que essa parte por vezes é semelhante a uma calota, ou pelo menos circular e convexa, se aberta. Sei é que alguns agricultores até há pouco tempo designavam a orelha, peta ou bico do sacho por gavião. Sugiro que traduza por extremidades ou pontas da guarnição, tanto mais que se trata de uma legenda que irá explicar a imagem da espada.

* Em francês sei que é quillon («Chacune des deux tiges formant la croix dans la garde de l’épée»), vocábulo que o inglês importou.


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Estrangeirismo: «faisandée»

Imagem: http://www.wga.hu/
As palavras dos outros

      Temos a família completa: o faisão, a faisoa (ou faisã) e o pequeno faisanoto (1). Uma família feliz, dir-se-ia, não fosse os Franceses terem inventado, para gáudio papilar de alguns, o faisandée — que é isto tudo mas morto e quase podre. E é esta palavra, faisandée, que nos (faz) falta. Uma peça de caça faisandée — oxidada ao ar livre, quase pútrida — era, antigamente, iguaria apenas apreciada na mesa opípara dos reis.
      E a palavra é muito usada em Portugal? Talvez não entre os frequentadores do McDonald’s, suponho, mas em certos restaurantes, sim. E na imprensa? Ainda na edição do dia 13 do corrente do Diário do Sul (também leio o Saigon News) li num texto da autoria do escanção João Marques o verbo correspondente: faisander. Na literatura? Sim, n’Os Maias, mas não referido a caça… «Entre os Amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se às vezes Raquel, e as opiniões discordavam. Taveira achava-a “deliciosa!” — e dizia-o rilhando o dente: ao marquês não deixava de parecer apetitosa, para uma vez, aquela carnezinha faisandée de mulher de trinta anos: Cruges chamava-lhe uma “lambisgóia relambória”.»

      (1) Também os Franceses têm as correspondentes palavras: faisan, faisanne (ou faisande) e faisandeau. Os Espanhóis não se podem gabar do mesmo, pois só têm faisán e faisana. O étimo é grego, embora nos tenha chegado através do latino phasianu-, provavelmente intermediado pelo provençal. Conta-se que esta ave existia somente na Cólquida, junto ao rio Fásis, donde tomou o nome. (Sim, Camões refere n’Os Lusíadas este rio: «Ó famoso Pompeio, não te pene/De teus feitos ilustres a ruína,/ Nem ver que a justa Némesis ordene/Ter teu sogro de ti vitória Dina,/Posto que o frio Fásis, ou Siene,/ Que para nenhum cabo a sombra inclina,/O Bootes gelado e a linha ardente,/Temessem o teu nome geralmente.») Ao menos o faisão, seja qual for a sua origem, pode ver-se e, o que é melhor, comer-se, o mesmo não se podendo afirmar do fabuloso τραγέλαφος, como é referido por Aristóteles, e entre os autores latinos hircocervus, ou tragélafo (como se lê na História Natural de Plínio), que é a mera transcrição do grego, que teria existido também junto do mesmo rio, actualmente com o nome de Rion, no Cáucaso, perto do desfiladeiro de Mamisson.

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Imprensa estrangeira

Ignorância sem fronteiras

      As leis nazis proibiam, escrevia recentemente o respeitabilíssimo The Guardian, o casamento de judeus com aliens. Este e outros desconchavos, que nos fazem voltar retemperados e gratos ao seio da imprensa indígena, podem ler-se no magnífico Regret the Error. Recomendável.


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Léxico: cambão

Dr. Moscambilha

      Embora a acepção do vocábulo «cambão» mais conhecida seja, porventura, a de «conluio prévio entre marchantes, em leilão de gado ou compradores em quaisquer leilões, com o fim de rebaixar ou altear preços, açambarcando a praça e dividindo depois entre si os lucros», a verdade é que, entre muitas outras acepções, também se encontra a de «reunião de indivíduos abusivamente instalados nos corredores e dependências dos tribunais e aí exercendo corretagem de serviços forenses ludibriando os pleiteantes». Para esta última, temos uma abonação do Público:
      «José António Barreiros, causídico experiente, confirma as suspeitas do “agenciamento de clientela”, vulgarmente conhecido por cambão praticado naquele tribunal [da Boa-Hora]. Resumindo o esquema, os advogados pagam generosas gratificações aos funcionários que lhes arranjem clientes», «Os advogados “com a devida vénia…”», Paula Torres de Carvalho, 15.06.2006, p. 10.


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Estrangeirismo: «blink»

Lampejos

      Inauguro com este post um outro tipo de olhar sobre a imprensa: o de recensear, dentro do meu horizonte de observação, os termos estrangeiros que vão sendo propostos para designar novas realidades. Se é verdade que muita da inovação da nossa língua passa pela adaptação dos estrangeirismos que vão surgindo, não deixa de se lamentar as escassas propostas de criação de vocábulos ou a adopção de vocábulos equivalentes. Isto deve-se também, ao que suponho, às abstrusas criações do passado e ao escárnio a que foram sujeitas.
      «A Clear Channel, a maior rede de rádios dos Estados Unidos, está a estudar, com markteers e anunciantes, a possibilidade de vir a lançar spots publicitários de um segundo. Os chamados blinks, que significa algo como “clarão” ou “piscadela de olho”, podem ser usados entre as músicas e até já há quem arrisque a ideia de os colocar entre as notícias» («Rádio americana estuda spots de um segundo», Público, 15.06.2006, p. 47).


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Léxico: salangana

Imagem: http://www.kiushun.com/
Andorinha?

      Há quem pense que a sopa de ninho de andorinha dos restaurantes chineses é só um nome, como bacalhau à Brás ou amêijoas à Bulhão Pato. A andorinha, ave tão simpática, estaria ali apenas para atrair os clientes. Há quem, por outro lado, à simples evocação do nome pense logo em canja de galinha ou de pombo. Bem, na verdade não é exactamente de uma andorinha que se trata, mas da salangana (Collocalia esculenta), palavra que provém do malaio. Quanto ao conteúdo — desiludam-se os poucos portugueses que ainda não foram a um restaurante chinês —, é debalde que se procurará naquele caldo espesso uma coxa rotunda ou o peito carnudo da referida ave. O que nós comemos é mesmo o ninho, isto é, uma amálgama de algas, que serve para construir o ninho, normalmente em zonas alcantiladas na costa, com a saliva da salangana. Não é uma maravilha? Os devoradores de caracóis e caracoletas que se abstenham de comentários.


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Léxico de época

Estas palavras que nos couberam…

Na recensão crítica do romance Camilo Broca, de Mário Cláudio, escreve Eduardo Pitta: «Do mesmo passo, certo pendor [de Mário Cláudio] para o léxico “de época” (quantas vezes actual, simplesmente omisso do português corrente pela cada vez maior rarefacção da fala e da literatura) empresta adequada tonalidade à intriga» (Mil Folhas/Público, 10.06.2006, p. 5). O melhor de tudo — e apenas surpreendente na medida em que os críticos nos habituaram a esperar outra coisa — é que o léxico do próprio crítico é rico, multiforme, adequado ao que pretende descrever, e a própria escrita é clara. Mesmo quando tem de usar um termo técnico, Eduardo Pitta é pedagógico: «[…] controlo da narrativa autodiegética, aquela em que o narrador se coloca num tempo ulterior ao da história que conta […]». Alguns exemplos de vocábulos e locuções usados pelo crítico, que também é escritor e co-autor de um blogue: inconcluso, «defensores estrénuos», querela, «autor consumado», avoengos, «de viés», interstícios, estúrdia, corrécio, truculência, lampejo, etc. Palavras, algumas, que já estamos desacostumados de ler na nossa imprensa. Um exemplo a seguir pelos críticos.

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Português antigo

A língua à mesa

      Nessa altura eu não media 1,81, como agora. Ela sim, era a mais alta da turma; fazia, parecia-me então, duas de mim. Mas tinha um problema notório: até à 2.ª classe, foi incapaz, quer sob o efeito de blandícias quer sob a ameaça de sevícias, de pronunciar a palavra «mesa». Só muito depois é que eu soube que até ao século XVI o povo nasalava a palavra: mensa. Tal como ela. Nunca mais tive notícias da Amélia, mas quem sabe se não é agora professora de Linguística?


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Tradução

Mais equívocos

      Sempre houve e sempre haverá erros de tradução. Recuemos um pouco. O uso do vocábulo «testamento» para designar o Antigo e o Novo Testamentos provém de um erro monumental dos tradutores latinos, que traduziram por testamentum o grego diatheké, que na realidade significa «convénio», acordo», «vontade». Refere-se ao antigo e ao novo «convénios» de Deus com os homens e não a um qualquer testamento. Quantos equívocos destes não farão parte da nossa cultura? Quem se importa com isso?


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Maçã: fonética e tradução

Una manzana en La Gran Manzana

      O vocábulo português «maçã» e o espanhol «manzana» provêm do mesmo étimo latino: mattiana, que era inicialmente um adjectivo. Na passagem do latim para o português, o grupo -ci- ou -ti- transformou-se ora em z ora em ç, e mesmo em -ch-, quando o -ti- é precedido de s, pelo que tivemos primeiro, no português arcaico, o vocábulo mançãa. Para infelicidade dos tradutores portugueses, porém, o espanhol «manzana» é polissémico, e não é raro ver a palavra, usada na sua acepção de «quarteirão» («Espacio urbano, edificado o destinado a la edificación, generalmente cuadrangular, delimitado por calles por todos sus lados.»), traduzida como maçã. O que dá que pensar: então o contexto não ajuda a perceber que não se trata do fruto? A ignorância tem razões que a própria razão desconhece.


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Terras entre rios

Como um rio

      Por vezes, à região entre Douro e Minho dá-se o nome de interamnense, do latim «entre rios». A História mostra-nos a importância de outras zonas entre rios, como é o caso, mais conhecido, da fertilíssima Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates. Menos conhecido é o caso da região do Doab (do persa do (dois) e ab (rios), «terra entre dois rios»), na Índia. O termo «doab» é usado para descrever a planície aluvial entre dois rios convergentes, e mais especificamente a zona entre os rios Ganges e Yamuna, em Uttar Pradesh. Ainda no subcontinente indiano (e não esqueçamos que foi o rio Indo a dar nome ao país), temos o Punjab (ou Punjabe, como prefiro e forma para a qual há muitas abonações), etimologicamente «terra dos cinco (punj) rios (ab)».


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Tradução

Tiro na água

      Tratava-se de uma tradução do espanhol. A locução, recorrente, «animales de tiro» julgou o tradutor adequado vertê-la como «animais de arrasto». Talvez não fosse demasiado exigir do tradutor que se esforçasse para achar algo como «animais de tracção», isto na falta de cultura e de dicionário da língua portuguesa. Na verdade, aqui não há qualquer falso cognato: «animais de tiro» pode e deve ser usado com o mesmo significado.



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Taipa e adobe

Imagem: http://centros.edu.aytolacoruna.es/
Confusões ibéricas

      Num texto, alguém traduziu o espanhol tapia por adobe. Ora, a verdade é que adobe é uma coisa e taipa, outra, diferente. Ambas técnicas de construção de terra, até à década de 1950, a taipa era sobretudo usada no Sul. Parede feita de barro amassado e calcado com um pisão ou pilão, em geral entre enxaiméis atravessados por fasquias ou entre dois tabuões, como se fosse uma cofragem. Na freguesia de Lanheses, concelho de Viana do Castelo, esta técnica é designada por tapia, talvez por influência da Galiza, pois é também esta a palavra usada em galego. O étimo é o árabe tabíya. Em francês diz-se pisé ou pisé de terre. Em inglês, rammed-earth. No Brasil, para onde levámos esta técnica de construção, é designada por taipa de pilão. No adobe, palavra com étimo igualmente árabe, por sua vez, utilizam-se tijolos cozidos ao sol, às vezes acrescidos de palha ou erva, para o tornar mais resistente, e pedra da região. A pedra mais miúda, para preencher os vãos entre as maiores, designa-se por rípio. Na imagem, vê-se uma parede espanhola de taipa.

Pisé, n. m. (1562; du mot lyonnais piser, « broyer », xvie; lat. pinsare). Maçonnerie faite de terre argileuse, délayée avec de cailloux, de la paille, et comprimée (in Petit Robert).

Rammed earth
is a method of wall construction using moistened subsoil that is dynamically compacted inside removable formwork. It is essentially a precisely controlled mixture of gravel, sand, silt and clay, sometimes with sometimes with added lime, sugar paste, magnesium chloride (which is the mineral rich liquid left over when sea salt is extracted from sea water) vegetable oil, or chemical admixtures such as cement. When dynamically compacted this material yields a monolithic wall that is dense, hard, and stone-like.


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Léxico: «flange»

Imagem tirada daqui
Engenheiro Alicate

      Uma das bombas do poço da cave avariou. Veio um técnico, num fato-macaco imaculado. Não é só a bomba que está avariada, avisa-me. Está a ver ali aquele esguicho, no tubo da esquerda? Precisa também de uma «falange». Com o Primo de Rivera morto, pensei, onde diabo vamos nós buscar uma «falange»? Ou, pior ainda, será que é uma falange dos dedos? Vão-se os anéis e fiquem os dedos, lá diz o povo. E o povo é sábio, dizem os intelectuais.
      Afinal, a coisa não era tão grave nem cruenta: era apenas uma flange, como a da imagem, um aro desbordante de tubo, rebordo, roda, cilindro, etc. Acessório metálico em forma de coroa circular ou oval, cuja abertura se adapta nas extremidades dos tubos.
      Incompetência, só linguística: tecnicamente o homem era competente e nem sujou muito o fato-macaco.
 


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Feminino e masculino

Tamanhos

      Recentemente, dizia a uma pessoa que, em regra, nos pares de palavras portuguesas como saco/saca, pipo/pipa, bolso/bolsa, cesto/cesta, janelo/janela e outras semelhantes o feminino designava um objecto maior. Talvez por ser mulher, a minha interlocutora pensou que eu estivesse a brincar. Mas não estava: é mesmo assim. E isto faz-me lembrar o texto que corre na Internet, e que me fizeram chegar, sobre o «machismo» linguístico: vagabundo e vagabunda; touro e vaca; aventureiro e aventureira; menino de rua e menina de rua; homem da vida e mulher da vida; puto e… Bem, já sabem. Nestas oposições, o masculino, referido ao homem, designa sempre realidades positivas, ao passo que o feminino remete sempre para comportamentos censuráveis.


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Topónimo: Devesa

Defesas

      De passagem por Portalegre, vejo que um dos monumentos é a Porta da Devesa. O nome, aliás, repete-se pelo País. Ora tentem lá adivinhar donde vem aquele «Devesa»… Já aqui abordei, a propósito do vocábulo «ourives», o fenómeno fonético que consiste na passagem das fricativas surdas a sonoras. É o que acontece com «devesa». O étimo é o latino defensa-, e o mais provável é que, ou por influência culta ou por importação do romanço (ou romance) moçarábico-meridional, como sugere Leite de Vasconcelos, tenhamos passado a ter também «defesa».



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Léxico: amnésia anterógrada

Imagem: http://www.h33.dk/
Memórias

      Há poucas semanas, a mãe de uma amiga minha desmaiou subitamente. Transportada para um hospital, quando voltou a si não sabia onde estava, o que era natural, nem o que tinha acontecido. Com receio de problemas mais graves, a filha fazia-lhe perguntas sobre factos da vida dela. A memória parecia estar em perfeitas condições. Eis que, a determinada altura, perguntou à filha que dia era. A filha disse-lhe. Passados uns minutos de uma conversa que se revelara coerente, eis que voltou a perguntar onde estava, porquê e que dia era. Informada, a conversa prosseguiu normalmente — até que voltou a fazer a mesma pergunta: onde estou, porquê e que dia é? É o que em medicina se designa por amnésia anterógrada, que é uma inibição dos mecanismos de consolidação da memória recente.


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Léxico: acaburro

Imagem: http://www.cm-vinhais.pt/freguesias/freg_nunes.html
Para ser mais preciso…

      Amanhã, os produtores de cereja de Nunes e Romariz, no sopé da serra de Nogueira, no concelho de Vinhais, vão até Bragança acaburro, numa recriação da Rota da Cereja, como se fazia antigamente. Sim, porque se os animais são asininos, como o competente repórter da Antena 1 salientou, não vão a cavalo. Estou a brincar.


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Fonética: ourives

Ourives e pratives
 
      Para um leigo, o vocábulo «ourives» parece ter origem árabe, não é? Mas não: vem do latim «aurifice-». A primeira alteração fonética ocorrida, e que é comum na passagem do latim para o português, foi a fricativa surda (f) passar a sonora (v), e depois o c converter-se em z, com queda do e final, o que deu ourivez. E assim se escreveu durante muito tempo, até que a ortografia oficial instituiu o actual «ourives». Mais tarde, entrou na língua o culto «aurífice» (a par de aurificia, aurificina, aurifício, etc.). Alguns dicionários registam a locução «ourives de prata», no que ficaríamos em desvantagem, poderia parecer, em relação ao espanhol, que tem o «platero». Contudo, a nossa língua regista também o vocábulo «pratives», que há poucas semanas sugeri a alguém que usasse numa tradução. Se temos as palavras, para quê tê-las a ganhar pó e caruncho nos vetustos dicionários?



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Léxico: faloa

Imagem: http://pr.indymedia.org/
Vai falando

      A criatividade no campo linguístico é espantosa. José Pedro Machado registou no concelho da Maia o vocábulo «faloa» para designar o instrumento de latão, em feitio de corneta, para se falar por ele. Claro que foi formado a partir do verbo falar, nada mais simples.


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Género e sexo

O que se diz

      Amélia Pais escreveu-me: «Amigo: oiço sistematicamente falar de igualdade de géneros (homem-mulher) quando se discute a lei de paridade. Ora, parece-me que o que está em causa é a igualdade de sexos ou a não discriminação de sexos... Ainda agora ouvi Manuel Alegre falar de igualdade de géneros... Que me diz?» Pois digo que devíamos deixar os géneros para a gramática e para a mercearia. Sempre se disse e escreveu «igualdade entre homem e mulher», para quê complicar agora? Ainda ontem li no jornal Público: «“Como é que um Presidente há seis meses não tinha nada a dizer [sobre questões de género] e agora tem uma doutrina inteira?”» («BE acusa Cavaco de insultar as mulheres», 8.06.2006, p. 9). Repare que o acrescento parentético é da autoria do jornalista. Que também há-de ser um ser humano, bem entendido, e como tal permeável aos modos de dizer da sociedade em que se insere — mas devia policiar mais a escrita. O sermo vulgaris para a plebe e os chavões políticos para os políticos.



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Léxico: «arça»

Imagem: http://i.s8.com.br
Brinco a sério


      Também eu queria, como Bocage disse de si, afamar-me por mais alta empresa. Pode ser que tenha criado um hápax com o termo «enfarna», mas não queria ficar por aqui. A palavra que abordo hoje não a vejo registada em muitos dicionários. Designa a parte do brinco que o prende à orelha — a arça.

      Hápax s.m. 2g. palavra ou expressão de que só existe uma única abonação nos registos da língua.


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Léxico: cadava

Só para lembrar

      A parte das plantas lenhosas que fica de pé depois de uma queimada ou incêndio tem o nome de «cadava» (origem do nome do topónimo Cadaval, ao que parece.) A palavra veio-nos do espanhol cádava, que o dicionário da Real Academia Española diz ser um «tronco seco o chamuscado de árgoma o tojo», ou seja, dois arbustos.


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Utilidades: glossário de enxadrismo

Saber mais

      Lembram-se do texto que aqui publiquei sobre o escaque («Léxico: escaque; figura: catacrese»), o nome dado a cada uma das casas do tabuleiro de xadrez? Está agora disponível na Internet uma Terminologia dels escacs que contém 133 denominações em catalão próprias do jogo de xadrez, definidas e com as suas equivalências em castelhano, francês, inglês e alemão. Toda a informação procede do Diccionari general de l’esport que o TERMCAT está a elaborar e que prevê editar no próximo ano.


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Estrangeirismo: «media»

Algum dia

      Aguardo com expectativa benévola o momento em que o Diário de Notícias se decida a escrever o estrangeirismo media como deve ser: como estrangeirismo que é, devendo destacá-lo como tal. O uso do itálico é de regra, parece-me. O jornal Público, pelo contrário, tem uma prática consistente de o grafar em itálico: media. O Expresso, por sua vez, grafa-o entre aspas: «media». Como alternativa, o Diário de Notícias pode aportuguesá-lo, como eu já faço: «os média».
      Um dia, no programa Acontece, Carlos Pinto Coelho, politicamente incorrecto, corrigiu um entrevistado: «Ó senhor professor, não diga “mídia”, diga “média”!» Esse é um dos problemas: como recebemos a palavra do inglês, há quem não veja nela um latinismo, tão puro como «curriculum» o é. Ora, sendo um plural, não podemos — mas ouvimos, meus senhores! — dizer «um media», sob pena de nos julgarem uns grunhos pouco lidos. Devemos dizer e escrever «um medium» (exactamente: como se estivéssemos a falar do professor Karamba), como o Público também faz: «Os blogues surgiram em massa, como um “medium rebelde”, sem regras e ao alcance de qualquer um» (Público, «Criada agência de blogues para fornecer conteúdos para jornais», Catarina Homem Marques, 11.4.2006, p. 47.) Tal como curriculacurriculum. Logo, o curriculum, os curricula; o currículo, os currículos; o medium, os media; o médium; os média. Claro, já sei: o português não tem plurais terminados em -a. Por outro lado, temos um plural de «médium»: «médiuns». Tudo visto, creio que é claro para todos que não podemos alterar o latim, isso é puro disparate, mas podemos e devemos moldar o termo em português.


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Traduções

Imagem: http://recursos.cnice.mec.es
A calzón quitado

      Por uma qualquer razão misteriosa, mas que decerto fará parte dos arcanos do ministro Mário Lino, em Portugal toda a gente se acha habilitada para traduzir do espanhol. De vez em quando, vou, modestamente, aconselhando alguma prudência e muito estudo, mas ninguém me ouve. Ontem mesmo, chegou-me uma tradução em que se lia o seguinte:
      «Los científicos dudan sobre la existencia de una especie de transición, Homo habilis, antes del Homo erectus de la cultura pebble de Olduvai, olduviense o de cantos rodados.» O tradutor não conhecia as palavras de lado nenhum, é claro, e desconhece a existência dos chamados falsos cognatos. A polissemia passou-lhe também, em anos mais tenros, ao lado. Traduziu, pois, assim: «Os cientistas duvidam sobre a existência de uma espécie de transição, Homo habilis, antes do Homo erectus da cultura pebble de Olduvai, olduviense ou de cantos rodados

«Cantos rodados: Los ríos en su curso alto tiene una pendiente elevada por lo que el agua circula a gran velocidad empujando a las piedras y haciéndolas deplazarse rodando sobre sí mismas. Esto hace que se vayan redondeando las aristas con los golpes que reciben al rodar, de manera que todas terminan por tener una forma redondeada de donde les viene el nombre de cantos rodados.»


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Orações coordenadas

Dependência ou igualdade?

      Uma leitora pergunta-me se se pode designar como «coordenante» a primeira oração nas frases coordenadas. Começo por dizer que não é a primeira vez que alguém me faz esta pergunta, pelo que já reflecti algumas vezes na matéria. Quando me perguntaram da primeira vez, o argumento de quem perguntou era o de que não há orações coordenantes porque o termo nem sequer existe, do que discordei parcialmente. O termo «coordenante» existe (o Dicionário Houaiss, v.g., regista-o), o que não me parece que exista são orações coordenantes. Pois se justamente se trata de orações coordenadas, de natureza e funções idênticas, não há nem pode haver uma relação de dependência. Poderá haver relações que qualificarei, à falta de melhor designação, de precedência, como, por exemplo, na frase «Vai depressa e volta», cujos termos, em determinados contextos, não são intermutáveis. Não ignoro, contudo, que há quem defenda que existem orações coordenantes, como a Prof.ª Helena Mateus Montenegro, da Universidade dos Açores, na obra Glossário de Termos Gramaticais, em que se pode ler: «A caracterização das frases coordenadas como frases que não desempenham uma função de dependência entre si leva a que, geralmente, não se distingam em termos de nomenclatura uma da outra. Isto é, a maioria das gramáticas fala de frases coordenadas sem atribuir uma distinção entre coordenante e coordenada. A identificação de uma frase coordenante e de uma coordenada torna-se pertinente, se analisarmos a sua estrutura.»
      É verdade que aprendemos que numa frase como «O João vê televisão e a Luísa lê o jornal» a primeira oração é a principal e a segunda, coordenada à principal. Creio, porém, que se trata de um problema de nomenclatura e não tanto de compreensão. Talvez a confusão, se confusão é, advenha do facto de também à oração subordinante se chamar principal, pelo que se terá entendido que designar como «coordenante» a «principal» no período coordenado seria o mais correcto, para evitar equívocos. Do que discordo, como afirmei, porque se pretende ver dependência onde a não há.


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Prender e deter

É pouco mais ou menos isso

      É impressão minha ou de vez em quando há, na Ordem dos Advogados, cursos sobre matérias jurídicas para jornalistas? Não os frequentam, garantidamente, todos os jornalistas que deles precisam. Vejamos esta frase, da autoria do jornalista Armando Rafael, no Diário de Notícias: «As tropas australianas renegociaram os termos da sua intervenção em Timor-Leste, de forma a poderem prender e interrogar todos os timorenses que forem apanhados em distúrbios, confrontos ou saques» («Australianos já podem prender timorenses», 30.05.2006, p. 12).
     Prender, os militares? Nem em Timor-Leste nem cá, graças a Deus. O poder que eles têm é — o jornalista chega a usar a palavra, mas as duas anteriores referências a «prender» inquinam o texto — de procederem a detenções. Deter, interrogar, julgar, prender e, nos casos aplicáveis, executar, são poderes que têm de pertencer a instâncias diferentes, não é? Mesmo nos tempos que correm, quando se encontram reunidos nunca é para poupar dinheiro.


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Semântica: sabotagem

Sabot: http://valledaosta.starnetwork.it
Tamancos

      Há dias tive de emendar um texto em que a palavra «sabotador» aparecia mal escrita: «saboteador» (que, na verdade, é como se escreve em espanhol). O termo «sabotagem» vem-nos do francês sabotage, e este de sabot («Chaussure de bois faite touted’une pièce et creusée de manière à contenir le pied. Sabot de bois d’aulne, de hêtre, de noyer. Une paire de sabots»). Conta-se, e esta é apenas uma das versões, que, no século XIX, os operários franceses grevistas atiravam, como forma de protesto, os seus tamancos para o interior das máquinas, provocando assim avarias que obrigavam a suspender a laboração das fábricas. Depois, por extensão de sentido, passou a aplicar-se o termo «sabotagem» a todo e qualquer acto de terrorismo ou acção ofensiva em situações de guerra ou guerrilha.


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Neologismo: «brifar»

Não me diga

      No último Câmara Clara, programa semanal de Paula Moura Pinheiro na 2:, que começo a apreciar, um dos convidados, Paulo Varela Gomes, disse que não tinha dúvidas de que o presidente dos EUA, George W. Bush, «tem historiadores que o brifam sobre as guerras dos Romanos». «Brifam», meu Deus! É o abstruso e completamente desnecessário aportuguesamento do inglês «to brief». Mesmo para quem chispa estrangeirismos por todo o lado, num cosmopolitismo muito à frente de tudo e de todos, custa a acompanhar, tanto mais que não é inglês nem português.


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Língua-mãe

Olha que não

      Os estudantes portugueses, cerca de mil, que pretendem frequentar o ensino superior espanhol fizeram exame na sexta-feira e ontem, tendo a RTP1 feito uma reportagem, que passou no Telejornal. O repórter entrevistou uma jovem que quer frequentar Medicina. Em Espanha, há 40 faculdades de Medicina e muitas vagas, esclarece uma voz off. As razões para a jovem entrevistada querer ir para Espanha são também claras: lá, as notas de acesso são mais baixas e, com a presença espanhola no mundo, será vantajoso dominar uma segunda língua-mãe. Quanto às notas, parece não haver dúvidas; já quanto à língua-mãe, receio não ser possível. Com cerca de 20 anos, como pretende dominar uma segunda língua-mãe? Segundo o Dicionário Houaiss e o bom senso, língua-mãe ou língua materna é a primeira língua aprendida por uma pessoa na infância. Já não vai a tempo. Suponho que não era a estas ilusões que H. Stein se referia quando escrevia que «devemos ter esperanças elevadas, expectativas moderadas e necessidades reduzidas».


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Léxico: zesto

Imagem: http://www.erlacher.it/
As coisas e os nomes

      Se alguém quisesse saber como se chama a membrana que divide interiormente a noz, o que poderia fazer? Deitar-se a adivinhar, talvez. O problema, já aqui o disse mais do que uma vez, é que não temos em português dicionários e vocabulários específicos que nos levem de um conceito aos conceitos correlacionados. Aliás, temos um, mas é claramente insuficiente, um mero subsídio para um dicionário completo que tarda a aparecer no mercado editorial. Talvez também falte autor que esteja à altura da empresa, que demorará anos*. Quase tudo tem nome — ou devia ter. A membrana ou película dura que divide o interior da noz em quatro partes chama-se zesto, palavra que vem do francês zeste.

* É caso para dizer, com os Romanos: «Frangat nucleum qui vult nucem» (Quem quiser comer noz que parta a casca). Claro que por vezes também diziam «Nucleum qui esse vult, frangit nucem» ou «Qui e nuce nucleum esse vult, frangit nucem» ou «Qui vult esse nucleum, frangat nucem» ou «Qui vult nucleum, frangat nucem». Foi Plauto (Titus Maccius Plautus, 245–184 a. C.) quem nos legou este provérbio (Curculio, I, 1, 55).


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Plebeísmos

Peregrinatio ad loca infecta

      Nunca aqui abordei a questão dos plebeísmos na linguagem (sim, porque há plebeísmos no comportamento, que para aqui não interessam): frases ou palavras que só usa a plebe*. Parece ser uma coisa má — e é mesmo. Sinónimos de plebe: gentalha, populacho, arraia-miúda, ralé… O que se pretende dizer é que não se espera que alguém, em determinadas circunstâncias, diga ou escreva certas palavras, os plebeísmos. Pois anteontem mesmo Pedro Mexia usou, numa recensão a livros de crítica literária de Jorge de Sena, reeditados recentemente, o termo «plebeísmo». Leiamo-lo:
«E comparecem também os habituais excessos de plebeísmo: termos como “pessegada” ou “esterco” não são exactamente exemplos de subtileza crítica», «Contra a imortalidade», Pedro Mexia, DN/6.ª, 2.06.2006, p. 29.

* A definição do Dicionário Houaiss parece-me a mais completa: «vocábulo, locução ou expressão típicos do dialecto das classes populares ou dos registos distensos da fala culta, e tidos freq. pela comunidade falante como grosseiros, vulgares ou triviais, mas que não chegam a ser tabuizados [São plebeísmos, em Portugal, p.ex., avacalhar, porra, e no Brasil, de saco cheio, bunda-suja]».


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Ortografia: mais-valia

Mais valia estar calado

      O vocábulo «mais-valia» leva, como acabei de escrever, hífen, e é pena que ainda não tenha entrado nos hábitos de todos, e em especial dos jornalistas, que assim é. O plural é «mais-valias», como é de regra em compostos formados por uma palavra invariável e outra variável. Naturalmente, só esta última irá para o plural:
abaixo-assinado/abaixo-assinados;
auto-elogio/auto-elogios;
ave-maria/ave-marias;
ex-governador/ex-governadores;
infra-estrutura/infra-estruturas;
grão-mestre/grão-mestres, etc.

      Há menos de dois meses ouvi a jornalista Conceição Lino, no Jornal da Noite, da SIC, dizer «abaixos-assinados».
      «O presidente da Câmara de Mirandela acredita que “a carta pode ser uma mais valia na comercialização das marcas” que existem no concelho transmontano, podendo os produtores tirar daqui dividendos através das características de qualidade do azeite», «Mirandela lança lista de azeites», Sandra Bento, Diário de Notícias, 2.06.2006, p. 31.


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Sob e sobre/pregador

A confusão continua

      No noticiário da meia-noite de ontem, na TSF, o locutor afirmou que os militares da GNR recusam estar sobre o comando dos militares australianos. Sem hesitar nem corrigir, disse-o claramente. Não tem conta, já aqui o escrevi, o número de vezes que já li e corrigi «sobre a égide», «sobre escolta» e «sobre os auspícios» para «sob a égide», «sob escolta» e «sob os auspícios». O Público (edição de 31.12.2005) inventou mesmo uma «ponte pedonal sob o rio Clark Fork»! Questões comezinhas da língua, pois claro, mas em que os profissionais escorregam como se fossem meninos do 1.º Ciclo.
      No mesmo bloco informativo, outro jornalista pronunciou a palavra «pregador», no sentido de orador, daquele que anuncia, proclama, propala qualquer doutrina ou ideia, com um «e» mudo, como o da palavra «de», por exemplo. Ora, a palavra «pregador», nesta acepção, deve ser pronunciada com um «e» aberto. Também existe, é verdade, a palavra «pregador» com a pronúncia do «e» fechado, como o jornalista fez, mas que significa «aquilo que abotoa». Há quem, em vez de alfinete de peito, colchete ou broche, prefira usar a palavra «pregador».

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Estrangeirismos

Boas práticas

      A boa prática de explicar, no corpo de um artigo, estrangeirismos menos conhecidos, assim como neologismos e termos técnicos não a vemos todos os dias e em todos os jornais. É uma questão, quanto a mim, não apenas de clareza na comunicação, mas também de respeito pelo leitor. Constitui, com muitos outros, um aspecto que distingue o bom jornalismo do mau jornalismo.
      Numa notícia sobre o clipping, no quarto parágrafo o Diário de Notícias explicava o conceito: «O clipping ou recortes de imprensa consistem na selecção, em jornais e revistas, de artigos que são depois disponibilizados a clientes» («”Obra jornalística” tem direitos», Marina Almeida, 1.06.2006, p. 40).


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Hábitos de leitura

Nação valente

      O Correio da Manhã divulgou ontem os resultados de um estudo anual sobre os hábitos de leitura dos Portugueses. Ao que parece, «95,5 % dos portugueses lê jornais e revistas, publicações às quais cerca de 40 % dos inquiridos dedica entre 30 minutos a uma hora por semana» (CM, 2.06.2006, p. 27). Enfim, leitores infatigáveis durante meia hora. Por semana. Claro, para fazer humor isto não podia ser melhor, mas uma reflexão se impõe: que credibilidade têm estes inquéritos? Pretendem ser lidos por quem? Quem só dedica meia hora por semana à leitura não pode esbanjar o tempo com estas tontices. Donde vêm estes 95,5 %? Se se tratasse de eleições, eu até compreendia que pusessem os mortos a votar.


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TLEBS

Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS)

      Ainda hoje não compreendo a necessidade de se ter concebido uma nova terminologia linguística para o ensino. Passados meses, ainda nem sequer compreendo a nova terminologia. Como não sou professor, posso viver bem sem isso até ao fim dos meus dias, podem contrapor-me. Pois, mas vejo muitos professores que nem querem pensar que existe uma nova terminologia. Prosaicamente, diria que se estão a borrifar. Não foi — lembrar-se-ão estes professores e todos nós — Sócrates que afirmou que inaugurava uma nova prática política, não desprezando iniciativas de governos anteriores, antes aproveitando o que era de aproveitar? Se chegaram à conclusão de que a terminologia anterior precisava de ser revista, melhorada, adaptada, era isso que faziam. Faz lembrar os casais de novos-ricos que deitam para o lixo as mobílias de carvalho que herdaram e as substituem por móveis da Ikea. Há muitos professores que já não vão assimilar a nova terminologia, porque, afinal, não nos deixemos enganar, não se trata de palavras, mas de conceitos. Só uma nova geração de professores irá dominar este novo instrumento, mas com um custo considerável: o corte com o passado e com o que este tinha de bom. Por outro lado, os 48 % de jovens com 15 anos cuja competência de leitura é mínima não vão beneficiar nada com esta medida — eles serão os futuros professores. Como escreve Vasco Graça Moura, faz falta uma varredela.


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Más traduções

O poder letal das palavras


      O Diário de Notícias de ontem mostrou-nos bem como uma tradução incorrecta pode ter consequências desagradáveis. Leiamos:

      «A declaração que Xanana Gusmão fez, na terça-feira à noite, diz que o Presidente tem a “responsabilidade principal” pela condução da defesa e da segurança no país, indiciando a sua partilha. Mas a versão inglesa aponta noutro sentido, aludindo à “responsabilidade exclusiva” (sole responsability). O que explica que os media de língua inglesa retirassem conclusões erradas do discurso» («Declarações de Xanana com traduções distintas», p. 18).

      Este episódio lembra-me a némesis que os jornais espanhóis têm no autor do site Malaprensa, que denuncia em especial os disparates jornalísticos que envolvem percentagens, verbas e más traduções.


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Léxico: chambaril

Imagem: http://alentejanando.weblog.com.pt/arquivo/chambaril.jpg

Porcos (com sua licença…)

      Um leitor pergunta-me se sei o nome do pau curvo que se enfia nos jarretes do porco morto, quando se pendura para o abrir. Talvez saiba que ao pernil também se dá o nome de chambão. Pois o pau chama-se chambaril.


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Tradução

Eu, noctâmbulo da Dor e da Saudade*

      A língua portuguesa tem poucas palavras terminadas em -âmbulo. Tanto quanto sei, apenas «anteâmbulo», «funâmbulo», «noctâmbulo», «preâmbulo», «sonâmbulo» e «vigilâmbulo». «Anteâmbulo», que é um sinónimo de preâmbulo, ninguém a usa, nem eu; «funâmbulo» é usada com alguma frequência, no âmbito das artes circenses; «preâmbulo» é muito usada, sobretudo nas faculdades de Direito; «sonâmbulo» é a mais usada e conhecida; «vigilâmbulo» ninguém, a não ser poetas, a usam — com a ressalva de que há um grupo teatral com esse nome, Vigilâmbulo Caolho. Parecia que me tinha esquecido de «noctâmbulo», mas não. Na verdade é a que, de momento, mais me interessa. Constou-me que recentemente um leitor enviou uma carta (terá sido email, decerto) a um editor que tinha publicado um livro em que aparecia o vocábulo «noctâmbulo». E a mensagem era, ao contrário do que se poderia supor, de protesto por se ter usado tal vocábulo. A obra, em prosa poética, era, repare-se, uma tradução do francês, e o original dizia «noctambule». «Les trottoirs sont envahis de noctambules.» José Saramago tem razão: ler sempre será uma coisa de minoria. Pelo menos ler bem. Não há Plano Nacional de Leitura que nos valha.


* Verso do poema «Plenilúnio», da autoria do poeta brasileiro Augusto dos Anjos (1884-1914).



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Léxico: poterna

Imagem: http://www.grodzisko.pl/
No castelo

      Uma leitora pergunta-me qual a designação que se dava às portas secretas dos castelos e fortalezas. Essa porta tinha o nome de poterna*, e a imagem mostra uma, de um castelo algures na Polónia. Era uma porta traseira, habitualmente elevada e de difícil acesso, muitas vezes bastante afastada, por uma galeria, da fortificação. Era através da poterna que, em caso de assédio, se entrava e saía da praça fortificada.

* Do latim posterala, «porta posterior».


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