30.6.06
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Imagem: http://www.kiushun.com/Tiro na água
Tratava-se de uma tradução do espanhol. A locução, recorrente, «animales de tiro» julgou o tradutor adequado vertê-la como «animais de arrasto». Talvez não fosse demasiado exigir do tradutor que se esforçasse para achar algo como «animais de tracção», isto na falta de cultura e de dicionário da língua portuguesa. Na verdade, aqui não há qualquer falso cognato: «animais de tiro» pode e deve ser usado com o mesmo significado.
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De passagem por Portalegre, vejo que um dos monumentos é a Porta da Devesa. O nome, aliás, repete-se pelo País. Ora tentem lá adivinhar donde vem aquele «Devesa»… Já aqui abordei, a propósito do vocábulo «ourives», o fenómeno fonético que consiste na passagem das fricativas surdas a sonoras. É o que acontece com «devesa». O étimo é o latino defensa-, e o mais provável é que, ou por influência culta ou por importação do romanço (ou romance) moçarábico-meridional, como sugere Leite de Vasconcelos, tenhamos passado a ter também «defesa».
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Imagem: http://www.cm-vinhais.pt/freguesias/freg_nunes.htmlOurives e pratives
Para um leigo, o vocábulo «ourives» parece ter origem árabe, não é? Mas não: vem do latim «aurifice-». A primeira alteração fonética ocorrida, e que é comum na passagem do latim para o português, foi a fricativa surda (f) passar a sonora (v), e depois o c converter-se em z, com queda do e final, o que deu ourivez. E assim se escreveu durante muito tempo, até que a ortografia oficial instituiu o actual «ourives». Mais tarde, entrou na língua o culto «aurífice» (a par de aurificia, aurificina, aurifício, etc.). Alguns dicionários registam a locução «ourives de prata», no que ficaríamos em desvantagem, poderia parecer, em relação ao espanhol, que tem o «platero». Contudo, a nossa língua regista também o vocábulo «pratives», que há poucas semanas sugeri a alguém que usasse numa tradução. Se temos as palavras, para quê tê-las a ganhar pó e caruncho nos vetustos dicionários?
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Amélia Pais escreveu-me: «Amigo: oiço sistematicamente falar de igualdade de géneros (homem-mulher) quando se discute a lei de paridade. Ora, parece-me que o que está em causa é a igualdade de sexos ou a não discriminação de sexos... Ainda agora ouvi Manuel Alegre falar de igualdade de géneros... Que me diz?» Pois digo que devíamos deixar os géneros para a gramática e para a mercearia. Sempre se disse e escreveu «igualdade entre homem e mulher», para quê complicar agora? Ainda ontem li no jornal Público: «“Como é que um Presidente há seis meses não tinha nada a dizer [sobre questões de género] e agora tem uma doutrina inteira?”» («BE acusa Cavaco de insultar as mulheres», 8.06.2006, p. 9). Repare que o acrescento parentético é da autoria do jornalista. Que também há-de ser um ser humano, bem entendido, e como tal permeável aos modos de dizer da sociedade em que se insere — mas devia policiar mais a escrita. O sermo vulgaris para a plebe e os chavões políticos para os políticos.
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Imagem: http://www.erlacher.it/O poder letal das palavras
O Diário de Notícias de ontem mostrou-nos bem como uma tradução incorrecta pode ter consequências desagradáveis. Leiamos:
«A declaração que Xanana Gusmão fez, na terça-feira à noite, diz que o Presidente tem a “responsabilidade principal” pela condução da defesa e da segurança no país, indiciando a sua partilha. Mas a versão inglesa aponta noutro sentido, aludindo à “responsabilidade exclusiva” (sole responsability). O que explica que os media de língua inglesa retirassem conclusões erradas do discurso» («Declarações de Xanana com traduções distintas», p. 18).
Este episódio lembra-me a némesis que os jornais espanhóis têm no autor do site Malaprensa, que denuncia em especial os disparates jornalísticos que envolvem percentagens, verbas e más traduções.
Imagem: http://alentejanando.weblog.com.pt/arquivo/chambaril.jpgEu, noctâmbulo da Dor e da Saudade*
A língua portuguesa tem poucas palavras terminadas em -âmbulo. Tanto quanto sei, apenas «anteâmbulo», «funâmbulo», «noctâmbulo», «preâmbulo», «sonâmbulo» e «vigilâmbulo». «Anteâmbulo», que é um sinónimo de preâmbulo, ninguém a usa, nem eu; «funâmbulo» é usada com alguma frequência, no âmbito das artes circenses; «preâmbulo» é muito usada, sobretudo nas faculdades de Direito; «sonâmbulo» é a mais usada e conhecida; «vigilâmbulo» ninguém, a não ser poetas, a usam — com a ressalva de que há um grupo teatral com esse nome, Vigilâmbulo Caolho. Parecia que me tinha esquecido de «noctâmbulo», mas não. Na verdade é a que, de momento, mais me interessa. Constou-me que recentemente um leitor enviou uma carta (terá sido email, decerto) a um editor que tinha publicado um livro em que aparecia o vocábulo «noctâmbulo». E a mensagem era, ao contrário do que se poderia supor, de protesto por se ter usado tal vocábulo. A obra, em prosa poética, era, repare-se, uma tradução do francês, e o original dizia «noctambule». «Les trottoirs sont envahis de noctambules.» José Saramago tem razão: ler sempre será uma coisa de minoria. Pelo menos ler bem. Não há Plano Nacional de Leitura que nos valha.
* Verso do poema «Plenilúnio», da autoria do poeta brasileiro Augusto dos Anjos (1884-1914).
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