Como se fala na rádio

Muito me contas

      No Hotel Babilónia, João Gobern, que, ao que confessou, acordara com sangue quente e resposta pronta, inventou hoje uma nova forma de nos referirmos aos que estão informados: «documentados». Já estávamos familiarizados com os imigrantes indocumentados, agora temos as «pessoas documentadas», não como antónimo, mas antes como nova categoria.

[Texto 581]

Linguagem

Chegou à casa de banho

      «Ir à casa de banho pode tornar-se uma experiência de outro mundo para os ricos deste mundo. O Numi, nova sanita lançada pela empresa norte-americana Kohl, vem equipado com um telecomando de ecrã táctil, “parecido com um iPod”, escreve Sam Grobart no New York Times. “Também lava e seca o utilizador [com água e jacto de ar quentes, configuráveis conforme o sexo]”, acrescenta. O autor teve o privilégio de ter um em casa durante um mês para “tentar perceber por que é que alguém gastaria 6400 dólares (cerca de 4600 euros) numa sanita high tech, ou seja, “81 vezes mais cara do que um trono de base”» («Sanita para rabos de luxo», Ana Gerschenfeld, «P2»/Público, 15.10.2011, p. 3).
      Talvez só o Aulete registe o vocábulo «trono» como sinónimo jocoso e popular de vaso sanitário — mais do que propriamente de sanita. A empresa norte-americana não se chama Kohl, como o antigo chanceler alemão, mas Kohler. Ah, e porque há-de ser «o Numi» e não «a Numi»?

[Texto 580]

Uso das aspas

Não valia a pena

      «Desavenças relacionadas com um divórcio levaram dois homens a envolver-se numa luta corpo a corpo. Um deles, que está separado da mulher que agora vive com o outro, serviu-se de um chicote de couro e “alma de alumínio” de 60 centímetros. Mas foi ele quem apanhou mais. O segundo conseguiu tirar-lhe o objecto e acabou por lhe dar uma sova» («Um chicote de couro é uma arma cuja posse é proibida ou é um objecto decorativo?», José António Cerejo, Público, 14.10.2011, p. 14).
      É mais uma catacrese — e as aspas mostram o receio do jornalista (e dos juízes?) de que se confunda o interior do chicote com a parte imaterial do ser humano.
      Quanto à substância da questão jurídica: podeis chicotear quem vos aprouver (há sempre quem mereça), porque, segundo os desembargadores, se trata de um «objecto cujo “uso foi desviado” da sua finalidade originária de “fustigar cavalos”». Pelo menos do crime de detenção de arma proibida ficam absolvidos. Quanto ao resto, logo se verá.
[Texto 579]

Como se escreve nas revistas

Ai, Jasus!

      Montexto, veja esta: na página 3 da edição desta semana da revista Sábado, ficamos a saber por uma legenda que Marta Ortega, filha do dono da Zara, vai casar-se — «com um cavaleiro hípico»! Com os ricos é tudo assim, redundante, excessivo, perdulário.

[Texto 578]

Métrica

Actualização ortográfica

      Na edição da poesia dos clássicos, há ou pode haver actualizações ortográficas desde que a métrica não saia prejudicada. Por exemplo, a célebre canção camoniana «Junto de um seco, fero e estéril monte». Ou será «Junto de hum seco» ou «Junto dum seco»? Estou a pensar em voz alta... (E, embora sem consequência para a métrica, o aborrecido — «Da Natureza em tudo aborrecido» — não seria, e já aqui falámos de tais alterações ortográficas — aborrescido»? Que acha, Fernando?)

[Texto 577]

«Falir»

Falências linguísticas

      «Mas enquanto o antigo secretário de Estado das Obras Públicas, o inimitável Paulo Campos, o homem do Aeroporto de Beja, se passeia por aí com a sua conhecida displicência, seria bom que tudo isto fosse muito bem escrutinado e investigado, desde logo na sede própria que é o Parlamento, visto que não é porque o homem saiu do governo que não tem de prestar contas sobre a forma como negociou a revisão das concessões de auto-estrada. Esta gente inconcebível andou a brincar com o nosso dinheiro. E assim se faliu um país» («A factura», Pedro Lomba, Público, 13.10.2011, p. 32).
      «E assim se faliu um país»? Não há melhores formas de dizer o mesmo? Se não nos falir a vontade, sim: «E assim se levou um país à falência.»

[Texto 576]

Léxico: «puxanço»

Não deixaremos

      Está aqui um leitor muito preocupado porque a palavra «puxanço» está a desaparecer de todos os lados. Puxanço, «aquele golpe de raqueta violento e quase indefensável que se dava no pingue-pongue», explica-me. Teme, e com razão, que seja substituído por «um anglicismo despudorado, como smash». O Aulete regista-o, referindo-o embora apenas ao bilhar. A MorDebe regista-o. A nossa memória regista-o.

[Texto 575]

«Ventre à terre»

Não me parece

      «Hommes, mammifères ventre à terre, serpents rampants s’enfuient.»
      Estava aqui a pensar se não teremos, mas creio que não, uma expressão idiomática semelhante. Há muitas expressões iguais em várias línguas, holismos, já o temos visto. Deixar as calças, por exemplo, um sinónimo de morrer, em francês diz-se laisser ses grègues. Mas tirer ses grègues, pôr-se a milhas, não tem uma correspondência exacta.
[Texto 574]

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