«Mogataz/mogataces»

Substantivo masculino plural?

      Boa questão, caro C. L., mas, tanto quanto sei, em português o vocábulo só está dicionarizado no plural, mogataces. José Pedro Machado redigiu assim o verbete: «Soldados indígenas de cavalaria, que constituíam guarnição dos antigos presídios espanhóis, no Norte de África.» Em espanhol, contudo, regista-se o uso do singular, mogataz. A meu ver, pode usar-se legitimamente o singular.

[Post 4592]

Léxico: «mauriciano»

Outra lacuna

      Consultamos o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, e só encontramos «mauritano». É mais uma lacuna de quase todos os dicionários: a designação dada ao habitante ou natural da ilha Maurícia (ou Maurícias ou Maurício) não tem aqui acolhimento. É mauriciano, claro, mas também já vi ser usado «maurício».

[Post 4591]

Ortografia: «Álbion»

O acento da pérfida

      Cara Maria Luísa: há-de ser porque o termo já vem dos Romanos, e por isso sem acento, e um espanhol, Augustin Louis Marie de Ximénèz, que lhe acrescentou o qualificativo «pérfida», escreveu com outro acento. Em português, porém, só pode ser Álbion, esdrúxulo como outros vocábulos terminados em –ion: astérion, córion, obélion... (Sim, porque terminados em –on temos também vocábulos graves.) Por isso a vacilação Albion, Albión, Álbion.


[Post 4590]

Gentílico: «laurentino»

Agora Maputo

      Relativo a Maputo: maputense. E relativo a Lourenço Marques? Temos dois: lourenço-marquino e laurentino. Parece que este foi forjado por Humberto Avelar, professor do Liceu 5 de Outubro, agora Escola Secundária Josina Machel. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista o gentílico «laurentino».

[Post 4589]


Tradução: «accent»

Pronúncia peculiar

      «— Agradeço-lhe sinceramente, minha senhora — disse com um acento estrangeiro» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 19). «Passaram dois homens, que falavam com o peculiar sotaque dos naturais daquela região. Um deles era o que tinha informado Filipe acerca dos texugos. Cumprimentou-o, acenando com um braço» (idem, ibidem, p. 77). No primeiro caso, lemos no original «foreign accent»; no segundo, «broad accent of the countryside».
      Já tenho lido e ouvido a prevenção de que se não deve traduzir o inglês accent por «acento». Contudo, se é apenas para evitar que pareça má tradução, não é de seguir. Accent é «acento» e é «sotaque», e «acento» é «sotaque».

[Post 4588]


Como se escreve nos jornais

Ciudad cuna

      «Os primeiros disparos da maior intervenção internacional militar no mundo árabe desde a invasão do Iraque foram feitos por aviões franceses e destruíram tanques líbios na região de Bengasi, cidade-berço da rebelião contra o regime de Muammar Khadafi. Horas depois, navios e submarinos de guerra norte-americanos e britânicos disparavam 110 mísseis Tomahawk contra “20 alvos”, incluindo defesas aéreas e centros de comunicação, todos ao longo da costa» («Começou a Odisseia para derrotar Khadafi», Sofia Lorena, Público, 20.03.2011, p. 3).
      Decerto que haverá mais de uma opinião sobre o assunto, mas, para mim, aquela «cidade-berço» é algo completamente tolo e escusado.

[Post 4587]

«Se não/senão»

Os maiores e os menores

      Ora digam-me lá quem sabe escrever.
      «Quando o regimento mudou, e os deputados (da oposição, claro) adquiriram alguma iniciativa, Sócrates adoptou a regra de não responder às perguntas que não lhe convinham (dezenas, se não centenas delas). Quanto à populaça, como se sabe, nem se deu ao trabalho de revelar o estado do país, nem de explicar o que andava a fazer» («Agarrado ao poder?», Vasco Pulido Valente, Público, 19.03.2011, p. 48).
«Se a previsão não falhar, virão aí algumas dezenas, senão centenas de milhares de portugueses — os franceses de torna-viagem» (Os Apontamentos: Crónicas Políticas, José Saramago. Lisboa: Editorial Caminho, 1998, p. 24).
«Os totalmente convertidos que se baptizaram e fizeram cristãos, não só se contaram a milhares, senão a milhões» (Sermões, P. António Vieira. Lisboa: Lello & Irmão, 1959, p. 391).


[Post 4586]

Dize, faze, traze...

Então, gramatize-se!

      «— João! Vê se consegues arranjar carne — um bom pedaço dela — e traze-ma cá!» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 188).
      «Se o uso natural insiste no diz, guardem os gramáticos o dize para a ênfase ou para o... artificialismo. Gramatize-se definitivamente o “diz lá isso”, e não se esqueçam os filólogos de que já no latim a forma dic era vivedoira ao par de dice. O precedente exemplo do latim mostra ser caturrice anacrónica o rigor de só admitir o janota do dize. E quanto ao faz, ao lado de faze, e traz, ao par de traze, requeiro a mesma hospitalidade. O latim também aqui nos ensina a ser razoáveis (fac, face, trac, trace)» (Vasco Botelho de Amaral, Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 366)


[Post 4585]

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