Sobre «líder»

Isto não é normal


      Talvez o leitor ainda não tenha dado por isso, distraído com outras magnas questões, mas a palavra «líder» está a meter o bedelho onde nunca, raios a partam!, foi chamada. Agora já se diz e escreve, imagine-se!, o «líder da Câmara de Sintra», o «líder da PGR», o «líder da AG do Sporting», e expressões quejandas. Só no primeiro caderno do Público de hoje, foi usada 13 vezes. Se considerarmos vocábulos da mesma família, incluindo o verbo, o número ascende quase a três dezenas. Agora só falta ver Miguel Esteves Cardoso a escrever que comprou umas inigualáveis tângeras, clementinas, romãs e castanhas ao líder das bancas do mercado de Colares. Algum hortelão mais vivaço.

[Post 3963]

«Bauxite/bauxita»

Um desastre nunca vem só


      «No desastre ambiental, mais de 700 mil metros cúbicos de uma lama tóxica com óxido de alumínio, composto por bauxita e utilizado no fabrico de alumínio, contaminaram casas, plantações e chegaram ao rio Danúbio» («Presidente da empresa que vazou lamas tóxicas detido», Jornal de Notícias, 12.10.2010, p. 53).
      Desde que isto aconteceu, já li em vários jornais bauxita. Contudo, os dicionários da língua portuguesa publicados em Portugal que consultei só registam bauxite. Bem, se a designação do mineral vem do topónimo Les Baux, uma povoação de Bouches-du-Rhône, França, onde foi descoberto, e se acrescenta o sufixo –ite, frequente em nomes de substâncias naturais ou artificiais, então prefiro bauxite.

[Post 3962]

Como se escreve nos jornais

Linguajar futebolístico


      Veio citado em toda a imprensa desportiva: Agostinho Oliveira, técnico nacional dos Sub-23, afirmou que aquele escalão é o «celeiro de potenciais candidatos à Selecção A». Celeiro também é um depósito de provisões, mas pergunto-me (e mandei pedir ao jornalista que fizesse outro título) se Agostinho Oliveira não quereria dizer «viveiro» ou, mais rebuscado, «alfobre». (Lembrem-se de seminário, que, muito antes de ser a instituição educacional onde se formam os eclesiásticos, era o canteiro onde se semeiam vegetais que depois serão transplantados.)
      Já que falamos de futebol, lembrei-me agora que no Record se escreve Selecção Nacional («Seleção», na realidade...), e, nos outros jornais, como no Jornal de Notícias, que tenho aqui à frente, selecção nacional. Em contrapartida (que, porém, não me satisfaz), este e outros jornais escrevem Olafur Johannesson, e o Record escreve Ólafur Jóhannesson.

[Post 3961]

«Majestade»

Imagem tirada daqui

Realmente cavalar


      É só uma anedota, mas com pretensões de ser facto. Quando Lula da Silva visitou oficialmente o Reino Unido, em Novembro do ano passado, foi com a rainha para o Palácio de Buckingham na carruagem real. Durante o percurso, um dos cavalos soltou uma ventosidade muito malcheirosa. Constrangida, Isabel II, através do intérprete, pediu desculpa. Lula, educadamente, respondeu: «Não se preocupe, Majestade. São coisas que acontecem. Eu até pensei que tinha sido o cavalo...»
      Vejam: é uma anedota, inventada sabe-se lá por quem, mas o seu anónimo autor não pôs na boca do metalúrgico semianalfabeto que é Lula da Silva um «Sua Majestade». Isto só os nossos romancistas, tradutores e revisores de pacotilha escrevem ou deixam passar.

[Post 3960]

Recursos

Uma nicada de nada


      Mafalda Lopes da Costa prossegue, no seu recomendável programa Lugares Comuns, na Antena 1, o labor de divulgação de expressões da nossa língua. Hoje foi a vez da expressão ser o pião das nicas. «Ser um pião das nicas e o jogo do pião. Ser um pião das nicas quer dizer ser um bode expiatório, ou seja, o desgraçado sobre o qual recaem todas as culpas, a vítima de todos os malogros e maldades, o sacrificado por excelência. Pião das nicas. A expressão nasce do antigo jogo do pião, em que se escolhia um pião velho, ou de pior qualidade, parcialmente partido ou lascado, pião este que servia de alvo para os outros piões. Ou seja, o objectivo do jogo era acertar com o seu pião neste pião das nicas e ganhava quem mais ferroadas desse no pião das nicas. A razão pela qual se chama a este pião o pião das nicas é porque “nicas” quer dizer “pequeno, insignificante”. A palavra é também usada para designar as crianças, as nicas. Pião das nicas, a vítima do costume.»
      Será como saber o que nasceu primeiro, se a galinha se o ovo, mas o certo é que nicar significa «picar com o bico, dar bicadas», e, no âmbito do jogo do pião, «arranhar ou rachar um pião com o bico de outro pião», pelo que se chamará pião das nicas porque é nicado, picado por outro pião.

[Post 3959]

Léxico: «espirometria»

Fico à espera


      «Conhecida por bronquite crónica, a doença resulta de uma obstrução das vias respiratórias, instala-se progressivamente e os sintomas demoram a manifestar-se, pelo que quando o doente vai ao médico já está avançada, alerta a organização [Sociedade Portuguesa de Pneumologia], destacando a importância de um exame regular simples (espirometria)» («Rastreio em 14 cidades para detectar bronquite», Jornal de Notícias, 11.10.2010, p. 18).
      Muito gostaria eu de ouvir a explicação de quem acolhe nos dicionários, e quase todos o fazem, o nome do aparelho que permite medir a capacidade da caixa torácica, o espirómetro, e rejeita o nome do método que permite avaliar essa capacidade, a espirometria.

[Post 3958]

Topónimos

No mesmo país?


      «Cerca de duas dezenas de adeptos portugueses — nalguns casos casais das duas nacionalidades — receberam ontem a selecção nacional no hotel onde a comitiva ficou instalada em Reiquiavique» («Passadeira à chegada», António Pereira, Correio da Manhã, 11.10.2010, p. 52). 
      Bem, antigamente, era Reykjavik que se escrevia no Diário de Notícias. Nunca ouvi um islandês a pronunciar a palavra (mas ali o Freitas, ao fundo da redacção, tem lá estado e terá ouvido) para saber o valor daquele j. Magnus Bergström e Neves Reis, na sebentíssima 30.ª edição que aqui temos do Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, registam apenas Reiquejavique. Deveriam registar também Reiquiavique? Rebelo Gonçalves regista: «Reiquiavique, top. Equiv. vern. do din. Reykjavik. Outro equiv.: Reiquejavique» (p. 870). «Ontem, na chegada a Reiquejavique, os internacionais lusos sentiram na pele o frio que se faz sentir naquele país junto ao Círculo Polar Árctico, tendo sido recebidos por uma temperatura a rondar os cinco graus» («Cinco graus à chegada», Arnaldo Martins, «Desporto»/Jornal de Notícias, 11.10.2010, p. 2).

[Post 3957]

Léxico: «hilético»

Pouco filosófico


      Se eu fosse filósofo, ia zangar-me muito que o melhor dicionário da língua portuguesa não registasse os termos hilético e hilé. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o adjectivo «hilético» é o referente à «hilé», e esta é, em filosofia, e na obra husserliana, concretamente, a «matéria da sensação como dado puro, antes da intervenção da actividade intencional do espírito, que lhe confere um sentido». Sim, prosaicamente, matéria. Contudo, a matriz semântica do étimo da nossa «matéria» é o grego ὕλη, «madeira, a matéria de que algo é feito». Concreto, material como um tronco. (Espero que o meu amigo Marcos Cóias e Silva, consultor filosófico, não me desminta.) Esperem: o Dicionário Houaiss regista, entre outras, hílico: «pertencente à matéria; corpóreo, material». Ah, sim, e regista husserliano.

[Post 3956]

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