Acordo Ortográfico

Pontos cardeais


      «Para os leitores devotos de Nabokov, O Original de Laura oferece os seus próprios êxtases. Surge-nos como um prolongamento, uma aparição final de um velho amigo que pensávamos ter partido para sempre. Avança aos solavancos, é um monte de cacos, mas são cacos de Nabokov e de mais ninguém: a “malévola compaixão” que os presentes na festa dedicam a uma Flora embriagada; os “cremes alheios” que Flora encontra na casa de banho de alguém (recordando a solene poça de urina alheia” depositada pelo Sr. Taxovich noutra casa de banho, em Lolita); a divertida meia rima de belie e belly [engano e barriga]; a inclusão talvez desajeitada de um pedófilo chamado Hubert H. Hubert; e uma frase perdida, evocativa, na margem do cabeçalho de uma ficha, sem qualquer contexto: “Os toldos laranja dos verões do sul.”» («O epílogo de Vladimir Nabokov», Lev Grossman, Visão n.º 904, p. 115).
      Já vi, mas não li, O Original de Laura. Não sei se já é grafado segundo as novas regras ortográficas. Se o não for, o erro é só de quem traduziu o artigo de Lev Grossman. Erro que é a prova, se é que era necessária, de que uma mera «máquina de tirar consoantes» não é suficiente para nos pôr a escrever segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Na citação, o ponto cardeal designa uma região e — vejam se aprendem de uma vez — foi empregado absolutamente. Logo, grafa-se com maiúscula. «Nos pontos cardeais ou equivalentes, quando empregados absolutamente: Nordeste, por nordeste do Brasil, Norte, por norte de Portugal, Meio-Dia, pelo sul da França ou de outros países, Ocidente, por ocidente europeu, Oriente, por oriente asiático» (Base XIX, «Das minúsculas e maiúsculas», 2.º, g)).

[Post 3681]

Sobre «gabela»

O sal da língua


      «A tributação com base em impostos indirectos que atingiam produtos básicos de consumo como o sal (gabelle), e que em França eram atribuídos a um concessionário (fermier-générale), constituiu o sinónimo histórico dos excessos e injustiças da Administração tributária.»
      Também nós temos o vocábulo gabela, mas que eu apenas conhecia (ou apenas me lembrava) na sua acepção de «feixe de espigas ceifadas», «molho de palha ou feno» (e, neste caso, mais usado na variante «gavela»). Gabela é, no contexto da frase citada, o imposto sobre o sal e, por extensão de sentido, qualquer imposto. E, se o Dicionário Houaiss assegura que a origem é controversa, os dicionários de língua francesa não hesitam em fazer derivar gabelle do provençal gabela, e este do árabe qabāla, «imposto». Ou seja, a acepção principal passou a extensão de sentido.
      (A propósito, se quiserem descarregar um Glossário da Revolução Francesa, ei-lo aqui.)

[Post 3680]

«Supertaxa» e «sobretaxa»

E então?


      «A sustentabilidade teórica das taxas progressivas não conduziu, contudo, à sua aplicação imediata. No Reino Unido, apenas no orçamento Lloyd George (1910/1911) as taxas progressivas, sob a forma de uma supertaxa e depois de uma sobretaxa, foram introduzidas, acabando com as taxas proporcionais até então vigentes.»
      Em termos linguísticos, os prefixos super- e sobre- equivalem-se, este deriva daquele. Do que pude apurar, Lloyd George introduziu a supertax no orçamento de 1909. Em 1929 (já o político galês tinha sido obrigado a demitir-se sete anos antes, na sequência do escândalo que foi ter-se descoberto que vendera títulos honoríficos aos benfeitores do seu Partido Liberal), esta supertax foi renomeada surtax. Os dicionários, naturalmente, não registam «supertaxa», precisamente pela mesma razão por que não registam, por exemplo, «superbom». Registam, sim, porque se autonomizou enquanto conceito, sobretaxa, a taxa adicional ou suplementar sobre algo já tributado. No texto que cito, será correcto falar-se de «supertaxa» e «sobretaxa»? Não dará a entender que são conceitos diferentes?

[Post 3679]

Léxico: «anverso»

Diferente mas errado


      «Contudo, o grau de complexidade da justiça na distribuição dos encargos tributários obriga-nos a proceder a uma separação, que sabemos ser discutível, entre o verso e o inverso da mesma moeda.» Nunca tinha lido tal: «verso e inverso da mesma moeda». Habitualmente, escreve-se «verso e reverso» ― mas (também) incorrectamente. Vejamos: verso é o lado oposto ao principal, e reverso também, são sinónimos. E inverso também é o lado oposto ao principal. Assim, tanto «verso e reverso» como em «verso e inverso», onde está a face principal? Não tem, querem ver. Ao verso opõe-se o anverso.

[Post 3678]

Acordo Ortográfico


Há quem discorde


      Alguns leitores da Visão insurgiram-se com a decisão de a revista adoptar as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Nada de especial, isto acontece muitas vezes. Na nota da redacção, argumentam: «A norma ortográfica até há pouco tempo em vigor, e que vários leitores pensam ser um património porque a confundem com a língua, contava só 99 anos, e teve ainda pontualmente alguns ajustes.» Só 99 anos... E a ortografia não é um património? (Só nas línguas ágrafas...) Quem está contra o AO90 discorda: «O Acordo Ortográfico de 1990 — que não pedimos, não queremos, e de que não precisamos — é, objectivamente, um atentado contra o nosso património, contra o nosso povo e contra o nosso desenvolvimento» («Acordo ortográfico: pareceres ignorados, deveres do Estado e direitos dos cidadãos», António Emiliano). E porque é que se afirma que as novas regras ortográficas aproximam a língua escrita da língua falada?

[Post 3677]

Sobre «tecto»

Vão acertando


      «Trata-se da fixação de tectos a algumas prestações sociais, como o rendimento social de inserção, marcada já para o próximo Orçamento do Estado, em Outubro» («Tectos para prestações sociais abrem ruptura no PS», Rui Pedro Antunes, Diário de Notícias, 6.07.2010, p. 2).
      Perfeito: esqueceram-se do inconcebível plafond e já não caem na redundância do «tecto máximo». Só é pena que ainda não tenha entrado na cabeça de toda a gente.

[Post 3676]

Léxico: «estanteirola»

Não será fácil


      Foi expungido de todos os dicionários o termo estanteirola. Só numa edição de 1831 do velho Dicionário da Língua Portuguesa de António Morais o encontro: «Coluna de pau ao princípio da coxia, a qual sustinha o tendal, e junto a ele assistia o capitão mandando.» E abona com uma citação de Diogo do Couto. Mas a definição devia dizer mais: que era um posto elevado coberto de um toldo. Se estivermos a ler uma tradução do Dom Quixote e não houver uma nota a explicar o vocábulo (em espanhol é estanterol), não saberemos de que se trata.

[Post 3675]

Sobre «ethos»

É pena


      Habitualmente, em obras de filosofia, pelo menos as editadas em Portugal, só se usa ethos. Que ethos é este? É, ou pode ser, o vocábulo grego ἔθος, que os Romanos transliteraram por ĕthos, «hábito, costume, tradição», e raiz de «ética». Já ἦθος foi transliterado para o latim como ēthos, e é habitualmente traduzido por «morada, residência, domicílio», e, por extensão de sentido, «carácter, natureza habitual». O Dicionário Houaiss menciona-os, respectivamente, como éthos e êthos, dois grecismos. Mas, no aportuguesamento, é apenas etos que consta neste mesmo dicionário para os dois vocábulos. Lá se evolou a univocidade, ideal e necessidade de toda a ciência.

[Post 3674]


Actualização em 5.10.2010

      «Os seres humanos são constitutivamente abertos à questão ética, porque nascem por fazer, devido à neotenia, e devem fazer-se bem moralmente, porque a sua lei é a lei da liberdade e da dignidade. Devemos habitar o mundo eticamente (o étimo de ética é êthos, morada)» («Quem guardará o guarda?», Anselmo Borges, Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 62).


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