Falsos cognatos

Mal precatados

      «Confesso que o meu pobre latim tropeçava até mesmo na tradução de “auri sacra fames”, pois me inclinava por traduzir “sacra” como “sagrada”, até descobrir, com a ajuda do dicionário latino, que Virgílio usou a palavra com o sentido de abominável, execrável, infame. Convertida a “sagrada fome de ouro” em “execrável fome de ouro”, munia-se o articulista de uma epígrafe honrosa para fustigar a corrupção pretérita e presente» («A eterna corrupção», Sérgio da Costa Franco, Zero Hora, 13.12.2009). Mesmo que seja somente para brincar, o que Sérgio da Costa Franco, historiador, advogado, promotor público, jornalista, professor brasileiro, afirma leva-nos aos falsos cognatos ou falsos amigos, contra os quais nem todos os tradutores se precatam. O verso em causa pertence à Eneida, de Virgílio. Na epígrafe, o autor cita dois versos deste poema épico e a respectiva tradução:

«... Quid non mortalia pectora cogis
Auri sacra fames!
A que não obrigas os corações humanos,
Ó execranda fome de ouro!»
(Virgílio, Eneida. Livro III)


[Post 2900]

Sobre «entorno»

Extravagâncias

      Pedro Sinde assina hoje no blogue Cadernos de Filosofia Extravagante um texto sobre ortografia. Um excerto: «Nem de propósito e a propósito do artigo mais recente de António Carlos Carvalho, ia eu hoje a passar numa livraria na baixa do Porto quando vejo um livro intitulado: “Casas em entornos naturais”. Voltei a olhar, pensando que lera mal o “em” por “en”, um erro de simpatia com a língua portuguesa perfeitamente justificável. Não. Era mesmo português porque estava escrito depois “naturais” e não “naturales”, como deveria ser se fosse castelhano.
      Na dúvida, perplexo, cheguei a casa e procurei nos meus dicionários: No Lello, o meu amado Lello, não existe nada a não ser derivados de “entornar”; no Dicionário da Academia (ouço já os apupos… não, eu não gastei um tostão com este “dicionário” — é assim que se auto-intitula esta coisa — foi uma generosa oferta): nada, a não ser o mesmo “entornar”. Em desespero, consulto um dicionário prestigiado de português do Brasil, o “Novo Dicionário Aurélio”: aí está! Num dicionário de português do Brasil existe a palavra “entorno”. Afinal não é castelhano, é “português”! Talvez seja apenas uma coincidência e se trate de um “castelhanismo” que existe no português do Brasil, mas não no de Portugal. O que é perfeitamente aceitável, naturalmente.»
      Se procurarmos nos corpora, «entorno», nesta acepção, tem uma presença pouquíssimo expressiva. Também o Dicionário Houaiss o regista, dando-o como «regressivo de entornar, por influência do espanhol entorno ‘território ou conjunto de acidentes ou paragens que rodeiam um lugar’». No caso, julgo estarmos perante uma extensão de sentido: todo o espaço, a área, que rodeia uma edificação. Os castelhanismos passaram, em diversas épocas, para o português — e poucas vezes temos perdido alguma coisa com o facto. Este é apenas um dos mais recentes, mas o que interessa é saber se nos faz falta. A minha opinião é que sim, e os Brasileiros apenas se nos anteciparam neste entendimento, como sempre. Pedro Sinde não diz isto, mas afirma que é «perfeitamente aceitável». No parágrafo que se segue é que nos desentendemos logo, pois faz uma afirmação que só posso qualificar como um disparate (e que apenas tem a atenuante de ser repetida por outros): «Esta palavra [«entorno»] não foi definida pelo acordo, mas muitas outras foram e, isso sim, é de todo inaceitável.» Mas que palavras é que foram «definidas» pelo Acordo Ortográfico de 1990? E o que é que é inaceitável: esta não ter sido ou o acordo ter «definido» outras? Desde quando um acordo ortográfico serve para esse fim?

[Post 2899]

Regência do verbo «cumprir»

Maus exemplos

      A propósito do acidente de ontem em Santa Maria da Feira, dizia o jornalista da Antena 1 Nuno Rodrigues no noticiário das 11: «Paulo Sérgio Pais, responsável pela produção do espectáculo [Terra dos Sonhos] enquanto administrador da empresa municipal Feira Viva, dizia ontem não compreender os motivos do acidente, até porque o local cumpria com todos os requisitos de segurança.» Nos meios de comunicação, o verbo cumprir vai sendo usado apenas regido de preposição. A autora do blogue Em Bom Português escreve que este verbo não rege preposição, mas essa é uma afirmação incorrecta. Em nota ao verbete deste verbo, Francisco Fernandes cita Laudelino Freire e a sua obra Verbos Portugueses: «Tanto é correto dizer-se cumprir com quanto dizer-se cumprir o: Cumpri com o dever, ou cumpri o dever» (Dicionário de Verbos e Regimes. São Paulo: Editora Globo, 36. ed.ª, 1989, p. 176). A distinção que muitos autores fazem é a de o verbo se usar sem preposição quando se trata de algo que é imposto, como se vê aqui: «Quando se trata, porém, de algo que é imposto, então se usa o verbo cumprir sem a preposição. Aí o sentido é de “sujeitar-se a”, “submeter-se a”. Então dizemos “cumprir os prazos”, “cumprir uma pena”, “cumprir mera formalidade”, “o time joga apenas para cumprir a tabela”.»

[Post 2898]

«Pandam»


Tcharam!


      «É mesmo “pandam” em português?», pergunta-me um leitor, que tece seguidamentre algumas considerações. «A palavra “parelha” (do francês pendant) não encaixa muito bem, por exemplo, neste anúncio que tem surgido na imprensa. Também não gostava de ver: “Faz pendant!”A alternativa “Alinha cores connosco!” não era má... mas estes publicitários gostam de palavras sonantes...» Ainda não está dicionarizado assim, pandam, mas nada impede que venha a estar. Por outro lado, a verdade é que não precisamos da expressão francesa, adaptada ou não, faire pendant, consideração que, todavia, não impedirá que os falantes a usem. No caso, embora a palavra remeta claramente (pela semelhança da cor do cabelo do rapaz e da garrafa) para esse conceito de conjunto, a minha interpretação é a de que se pretendeu criar, ao mesmo tempo, uma onomatopeia.


[Post 2897]

Dissimilação

Escrever como se fala

      «Por outras palavras, não se deixe obcecar por bactérias nem vírus, nem, por favor, se encante com aqueles anúncios a produtos de limpeza doméstica que agora se multiplicam e, invariavelmente, usam a mais vergonhosa das armas para vender: ameaçam-na com a saúde do seu filho, como se a vida dele estivesse dependente de um pano encharcado de uma lexívia qualquer. Ou no teste do algodão. Prefira antes, e mil vezes, aqueles que garantem lavar a roupa que ele suja enquanto brinca lá fora!» («Pela sua saúde deixe-o sujar-se», Isabel Stilwell, Destak, 11.12.2009, p. 4). Devido à dissimilação (como em «ministro» e «vizinho», por exemplo), o i pré-tónico transforma-se em e, mas continua a escrever-se com i: lixívia. Quanto ao preferir antes, já vimos aqui.

[Post 2896]

Ascendência/descendência II

Sem abdicar de raciocinar

      Se se diz que alguém nasceu numa «prosperous, emancipated Jewish family of German descent», quem traduz não se pode deixar levar pelas palavras, abdicando de reflectir, e escrever «com descendência alemã», quando é precisamente o contrário — de ascendência alemã. Now we can descend to particulars (agora podemos tratar de pormenores): na frase, descent é substantivo e pode traduzir-se por «origens; raízes; ascendência». Se sabem, porque é que erram tanto, hã?
[Post 2895]

«Severo», anglicismo semântico II

E com disenteria?


      Uma estudante, Mariana Ferreira, perguntou ao Ciberdúvidas «se é errado traduzir a palavra inglesa severe para severo, como termo médico. Disseram-me que a tradução correcta é grave, e não severo». O consultor, Carlos Rocha, depois de citar dois dicionários que registam a palavra «grave» como tradução, ainda acrescentou: «Parece-me que a consulente tem de estar atenta à própria expressão em português. A tradução correcta não depende apenas da correspondência palavra a palavra; também decorre da sensibilidade de encontrar as compatibilidades lexicais mais correntes na língua de chegada, aqui, o português. Assim, o que se lê em inglês, sem o adjectivo em questão, verte-se em português como “com mais sinais clínicos, incluindo desidratação”. Em seguida, escolhe-se o adjectivo mais adequado, que, neste caso, se me afigura ser grave: “com mais sinais clínicos graves, incluindo desidratação grave”.» Quase perfeito, mas o remate do texto é desconcertante: «Com desidratação, não é impossível usar severa: “desidratação severa”.» Ora essa! «Com desidratação não é impossível»! E se for com disenteria, já é? Deve ser avaliado casuisticamente, imagino que me dirá. A disenteria é uma doença grave. Numa viagem à Europa, o físico Oppenheimer adoeceu com disenteria, tendo ficado a convalescer durante um ano inteiro, o que o terá impedido, segundo alguns estudiosos, de ter tido um papel ainda maior no campo da Física. Talvez não, porque a disenteria é «an infection of the intestines marked by severe diarrhea». E se a disenteria não for severa, é-o a diarreia. Algo ou alguém tem de ser severo aqui. Posso ser eu: não diga disparates, senhor consultor. Mesmo de forma críptica.

[Post 2894]

Tradução: «postdoctoral fellow»


Traduzir até ao fim


      E um certo físico veio depois para a Europa como «postdoctoral fellow». Tradução? O nosso tradutor acha que é «fellow de pós-doutoramento». É como o caso do dean of science, o tradutor acha que é intraduzível. Mas não. Postdoctoral fellow é bolseiro de pós-doutoramento, ou não? Ou será melhor vender os livros juntamente com um dicionário de inglês-português?


[Post 2893]

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