Léxico: «ponto»

Centésima parte do quilate

Alugue um balde por 2,25 dólares e uma pá desdobrável do Exército por outro tanto e ponha-se a procurar diamantes, brancos, castanhos, amarelos. A proposta é do jornal Sexta, e pode fazê-lo no Crater of Diamonds National Park, no Arkansas, EUA. «Mas para cima de sete centenas tinham mais de um quilate (unidade de medida destas pedras preciosas e que corresponde a 200 mg). E, destes, alguns são realmente pedras de grande valor (ver caixa). De forma muito resumida, calcula-se que um diamante em bruto possa valer entre um e dez dólares por ponto (a centésima parte do quilate)» («Garimpeiros por um dia», Luís Francisco, Sexta, 1.2.2008, p. 11).
O quilate ou carate (cujo símbolo é ct) era uma unidade natural de peso, como tantas outras: era o peso de uma semente de alfarrobeira. No decurso da História, naturalmente, o sistema aperfeiçoou-se, tendo o peso sido padronizado em 0,2 gramas, um quinto do grama. O ponto é, assim, o submúltiplo do quilate, equivalendo a 0,01 ct. Sobre diamantes conheço mais alguns termos:

Baco m. Espécie de canoa ou caixa instalada na margem dos cursos de água para trabalho de mineração de diamantes.
Biguar v. intr. Procurar diamantes na areia dos rios, mergulhando.
Carimbés f. pl. Gamelas cascalho diamantífero.
Cuiaca f. Nome de um utensílio usado pelos mineradores de diamantes.
Culastra f. Resíduo da lapidação dos diamantes.
Grupiara f. Bras. Lavra de diamantes. O m. q. gopiara.
Janela f. Cada uma das primeiras facetas feitas nas pedras preciosas em bruto, tais como o diamante, para averiguar do seu grau de pureza e, assim, melhor escolher o ângulo de corte e marcação da mesa.
Listário m. Bras. Feitor encarregado de registar o número e o peso dos diamantes encontrados.
Manjelim m. Peso com que, na Índia, se avaliavam os diamantes.
Monchão m. Veio de terra firme onde se encontram depósitos de diamantes.
Pucheiro m. Gír. Roubo de brilhantes à porta do teatro.
Senal adj. Diz-se do diamante inlapidado e muito pequeno.
Tabla adj. Diz-se do diamante que fica chato, depois de lapidado.

Ortografia: «rodoferroviário»

Pontes


      O semanário gratuito Sexta falava ontem das pontes sobre o Tejo. Uma curiosidade do texto: a ponte que liga Constância a Praia do Ribatejo «chegou a tomar o nome de Ponte de Punhete (de Pugna Tage, de “combate no Tejo”), o nome da vila de Constância até 1836». («Mais de metade das pontes sobre o Tejo são centenárias», Maria Lopes, Sexta, 1.2.2008, p. 3). Este combate, esta luta, refere-se ao encontro das águas do Zêzere e do Tejo, e não, como poderia imaginar-se, a memorável recontro de Lusitanos contra Romanos. Nesta mesma página, pode ler-se que a «ponte rodo-ferroviária de Alvega» é de finais do século XIX. Erro, ortográfico que não de cronologia, da jornalista: escreve-se «rodoferroviário».

Tradução


Estamos tantalizados


      Ontem, Matt James, dos Jardins por Medida (The City Gardener, no original), na Sic Mulher, concebeu e construiu um jardim em Glasgow. Lindo. Para delimitar as bordas dos caminhos (de Highland pebbles e Scottish cobbles) que se vêem na imagem acima, usou… Bem, usou o que se vê, e que na legenda se podia ler: «barrotes tantalizados»! A tradução é de Cristina Diamantino, da PSB. Primeiro: o que se vê ali não são barrotes*, mas postes. Um barrote é uma peça de madeira de secção reduzida, para soalhos, tectos, etc. «Tantalizados»? Experimentem ir ao Aki perguntar por «barrotes tantalizados». Na Postes Carmo, decerto a maior empresa de produção e comercialização de produtos similares, este material tem o nome de postes torneados. Como os postes para vinhas. Claro, «tantalizado» existe: vem de Tântalo, o da mitologia grega. Tantalizar é atormentar, fazer sofrer com o desejo de coisas impossíveis — como a tradução e a legendagem das séries e filmes serem decentes.


* Uma vez que os barrotes também se usam na construção de um telhado tradicional, recordo-me de, ainda recentemente, ter visto traduzida a expressão inglesa roof struts como «escoras da cobertura». Ora, nem todos os tradutores podem perceber de carpintaria como eu percebo, mas ainda há dicionários. Roof struts são as asnas do telhado.

Ortografia: «higiossanitário»

Ginjinha do Rossio

      Do Diário da República ao Diário Digital, passando pelo Público, pelo Jornal de Notícias e muitos outros jornais, lemos que a ASAE fiscaliza e fecha estabelecimentos por falta de condições «higio-sanitárias». O Diário de Notícias, pelo contrário, fala em «condições higiossanitárias». O Ministério da Agricultura fez mesmo publicar, certa vez, uma declaração de rectificação (a n.º 16-I/2000) só para dizer que em determinada portaria, onde se lia «higiossanitárias», devia ler-se «hígio-sanitárias». Não uma mas duas alterações. Para pior. Da autoria, parece, de algum adepto da grafia sónica, de má memória. Outro grupo de publicações segue uma quarta mas aproximada via: grafa «higio-sanitárias». Pois bem, desta vez o Diário de Notícias tem razão. Não vamos regatear-lha. Ah, sim: é assim, higiossanitário, porque higio é um antepositivo.

Tradução: «Aldis lamp»

Imagem: http://www.faradic.net/

Pestaneja


Caro A. M. L.: a «Aldis lamp» não é a lâmpada de Aladino. É um aparelho de sinalização visual, usado a bordo de navios e em aeroportos, para enviar mensagens em código Morse. É, basicamente, uma lâmpada portátil, como a imagem mostra, que certamente já viu em filmes. Tradução? Pois lâmpada Aldis. Ou lâmpada de sinalização diurna. O nome provém do inventor, o inglês A. C. W. Aldis (1878-1953). Em inglês tem também o nome de blinker, «que pestaneja», e o seu operador, signalman. E blinker porque o aparelho tem shutters, «persianas» (que na imagem se vêem abertas), assemelhando-se o todo a um olho gigante que pisca, pestaneja.

Qualquer-coisa-chave (i)

Oh donkey’s years. Long ago…

Quando tiver idade para fazer um Je me souviens à Georges Perec apenas relativo à língua (vejam como desbarato ideias!), uma das primeiras recordações será esta: lembro-me de, ainda há pouco tempo, só termos um ou dois vocábulos compostos com «chave». Nesses tempos, lembro-me bem, mesmo só «palavra-chave» destoava um pouco, aos meus olhos de adolescente. Mas agora? É um fartote. Tudo é qualquer-coisa-chave. Culpados: os jornalistas e os tradutores. «Olha», exulta um tradutor, «está aqui uma chave: “One of the key discoveries…” It’s easy as pie: Uma das descobertas-chave…» «Eh lá», exaspera-se um revisor, «outra porra de chave: “Uma das descobertas-chave…” É canja: Uma das principais descobertas…»

Verbo «obstruir»

É lá consigo

Bem podem algumas gramáticas consignar taxativamente que o verbo «obstruir» se conjuga como «construir» — ninguém me apanhará a dizer «obstrói». Eu é que acabei de apanhar o psicólogo Eduardo Sá, nos Dias do Avesso, em conversa com Isabel Stiwell, com a sua voz sumidíssimaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, a pronunciar «obstrói».

Tradução: «principiel»

Pois é

A língua portuguesa tem algum adjectivo relativo ao substantivo «princípio(s)»? Desconheço — mas fazia falta. Assim, como devemos traduzir a frase «Mais les liens entre nombres, choses et affects semblent ici principiels»? Estão aqui a propor-me que traduza principiels por «axiológicos». Mas «axiológico», objecto, diz respeito aos valores e não aos princípios. E princípios não são valores, nem a ema é um pássaro. Três vias se nos apresentam: deixar o estrangeirismo; adaptar para o português; encontrar uma expressão. Temos assim, por ordem:

1. «Mas as ligações entre nomes, coisas e afectos parecem aqui principiels
2. «Mas as ligações entre nomes, coisas e afectos parecem aqui principiais
3. «Mas as ligações entre nomes, coisas e afectos parecem aqui dizer respeito aos princípios

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