Disparates: «força anémica»

Doutor horroris causa

      TSF, notícias da meia-noite e meia, 3.12.2006, Jaime Pacheco, treinador do Boavista: «Sabe que aquilo também pretendia que aqueles quinze, vinte minutos iniciais da segunda parte nós pudéssemos aguentar, digamos, aquele ímpeto atacante do Porto para poder aqui e acolá, digamos, moralizar, ganhar alguma força anémica para depois atacarmos o Porto. Porque aquele golo, digamos, deitou por terra aquilo que nós até aí tínhamos vindo a fazer muito bem feito.» Lapso, dizem? Continuemos: «E depois, se calhar, pelos resultados menos conseguidos nos últimos tempos e pela classificação, digamos, nós caímos um bocadinho anemicamente e o Porto cresceu, e depois foi o golo.»


Francesismo: «pâtisserie»

Pâtisseries?!...

      Há por aí pâtisseries. Para a coisa ficar lógica, deviam essas pastelarias anunciar que vendem pâtés, e não pastéis… Com os pâtés ficava a patetice das pâtisseries mais completa.
      Quando acabará a calinada pública nesta Lisboa das sete colinas e dos sete pecados da linguagem?

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 3, 1950.

Escrita e oralidade

Falar claro

      Jornal 2:, 1.12.2006, enviado da RTP às cerimónias do 1.º de Dezembro em Vila Real: «Estas cerimónias em Vila Real não quiseram servir de protesto nem tão-pouco de reivindicação, mas não deixaram de deixar transparecer as preocupações do momento.»
      Na escrita, esta frase não ofereceria dificuldades de compreensão. Ou, se oferecesse, facilmente o leitor voltaria atrás. Na oralidade, esta possibilidade não existe. Tendo em conta que os jornalistas escrevem as peças, o lema de que o que soa mal provavelmente está mal deveria nortear o trabalho de todos. Em vez de «mas não deixaram de deixar transparecer», o jornalista poderia ter dito, por exemplo, «mas não deixaram de mostrar», evitando assim a repetição do verbo, o que é sempre causa de alguma incompreensão. Falta de sensibilidade ou de formação adequada?

TLEBS

A TLEBS, de novo

      Nunca estive tão de acordo com Eduardo Prado Coelho, que afirma: «A mim parece-me mais importante que se ensine os usos da língua, e por exemplo a sua dimensão argumentativa (que Ducrot considera a sua essência)» («TLEBS», Público, 17.11.2006). Se a anterior Terminologia Linguística, de 1967, tinha falhas, e tinha, deveriam ser estudadas formas de as suprir. Substituí-la inteiramente, e da forma como foi feito, com a criação de uma terminologia tão complexa e diferente da que a gramática consigna há séculos, parece-me um absurdo. É como se pretendêssemos deixar de usar o léxico que enforma a língua portuguesa por ter lacunas e quiséssemos trocá-lo, à força, por outro inteiramente novo.
      Mesmo supondo — e já é supor muito — que a TLEBS é um sistema coerente, a repercussão que terá (com sorte, não terá) na sociedade obriga todos os interessados a ter uma palavra. Esta questão é, como muito bem frisou a Prof.ª Maria Alzira Seixo no texto da Visão, de interesse público, «não é minudência de especialistas». Ora, não é isso que se vê.
      Não acredito na inépcia dos professores enquanto classe (caso a caso já tenho muitas reticências, é claro), mas tenho fundadas dúvidas sobre a sua capacidade para dominar os conceitos operativos, e mesmo a lógica interna, da TLEBS a breve prazo. Afinal, não nos esqueçamos de que a TLEBS só deveria entrar em vigor depois de três anos de experiência pedagógica, o que não vai acontecer. Mesmo que os professores tenham muita vontade de cumprir, falta-lhes materiais de apoio e mesmo manuais que acolham já a nova terminologia. E, perante esta situação, como é natural, alguns professores receiam as inspecções que, diz-se, se farão para averiguar se estão a cumprir. Receios, creio, infundados, pois não acredito que o Ministério da Educação tenha pessoal preparado, a dominar os conceitos, suficiente para fazer essas inspecções.
      Para acabar, pergunto-me e pergunto aos que defendem denodadamente a TLEBS: em que pressupostos se baseiam para acreditarem, e afirmarem, que a nova Terminologia Linguística poderá melhorar a competência linguística dos alunos? A avaliar pela própria incapacidade e perplexidade dos professores perante a TLEBS, diria que só se pode esperar o contrário. Depois de várias gerações a justificar a aversão aos clássicos, quando não a toda a literatura, pela análise sintáctica a que foram forçadas, dentro de alguns anos teremos muitos portugueses a justificar a incompetência linguística com a TLEBS. Nessa altura, os «15 000 professores de Português» («Está aberta a caça à TLEBS», Helena Soares, Público, 17.11.2006, p. 4) envolvidos na elaboração da TLEBS já cá não estarão.

«Valência»: uma nova acepção

Outros sentidos

      Desde os últimos dicionários de língua portuguesa, uma nova acepção do vocábulo «valência» tem-se vindo a afirmar. Recentemente, começou a ver-se aplicada esta palavra em assuntos relacionados com os serviços de saúde hospitalares. Vejamos uma notícia de O Primeiro de Janeiro: «Outro projecto que o hospital está a planear executar a breve trecho refere-se à remodelação do Ambulatório em Clínicas de Patologia. No próximo ano já deverá ser possível realizar a Clínica da Mama e nos próximos reestruturar as restantes. Esta valência vai ficar localizada no espaço onde actualmente está o edifício dos Serviços Administrativos. Laranja Pontes adiantou que “a nova unidade de raiz será feita já com base nos pressupostos das clínicas de atendimento”» («Radioterapia perto da ruptura», Eduarda Vasconcelos). Ou esta, do boletim da Ordem dos Médicos: «O Serviço de Pediatria conta com uma Unidade de Neonatologia e com uma consulta de urgência diária sem agendamento. Tudo isto com o mesmo número de médicos de 1990, confessou o pediatra, que afirmou que o futuro desta valência no hospital está assegurado nos próximos 20 anos, graças em grande medida ao poder de atracção de internos, que são já nove. O mesmo serviço que em 1995 não tinha ainda idoneidade formativa.»
      Nestes dois casos, que exprimem exactamente esta tendência, o vocábulo parece significar «especialidade médica organizada como serviço hospitalar; a própria especialidade». E, sem que nenhum dicionário o registe, vai singrando. Na notícia que cito de seguida, contudo, a mesma palavra parece ter outro significado. «O Museu do Louvre pretende abrir uma extensão em Abu Dhabi. Segundo revelou o ministro francês da educação [sic], Gilles de Robien, de visita ao Médio Oriente, uma delegação francesa vai apresentar esta semana às autoridades dos emirado um anteprojecto de acordo para a criação ali de uma valência do museu com sede em Paris» («Museu do Louvre vai ter valência em Abu Dhabi», Diário de Notícias, 20.11.2006, p. 34). Como se conclui pelo próprio texto da notícia, «valência» significa aqui «extensão», «filial».
      Será sempre muito difícil acompanhar os novos usos de vocábulos existentes e a criação de vocábulos por parte dos falantes, isso já sabemos. Com os novos meios de que dispomos, porém, é inconcebível que uma entidade vocacionada para tal e à qual fossem atribuídas competências — seria, em princípio, a Academia das Ciências de Lisboa — não acompanhe a própria realidade. Sem remeter, naturalmente, a sua posição e o resultado do seu estudo para a edição em papel de um dicionário, sempre muito demorada e onerosa. Havendo dinheiros públicos para tantas coisas menos importantes, como é que o Governo não se interessa pela defesa da língua portuguesa?

Verbo rever. Erros

Da Rússia, com ruído

      Antena 1, noticiário das 15 horas, José Milhazes: «Moscovo ‘tá, claro, a seguir atentamente todas as investigações que serão feitas pelas autoridades inglesas. E as autoridades russas ‘tão-se a dizer abertas a colaborar de todas as formas para que se deixe de pensar que a morte de Litvinenko [Александра Литвиненко] tenha sido obra dos serviços secretos russos ou por ordem das autoridades russas.» Nem quero falar da deselegância do «’tá-se» e «’tão-se», vou directamente ao rebuscado «[es]tão a dizer abertas». Uma forma menos tortuosa e mais elegante seria, por exemplo, «dizem-se abertas» ou «declaram-se abertas».
      Embora fale demasiado depressa, a dicção de José Milhazes não é das piores, convenho, mas desta vez, com o frio que está na Rússia, talvez tivesse a língua entaramelada. Por exemplo, a forma verbal «serão» é, mesmo depois de ter ouvido dez vezes a gravação, meramente hipotética. Se se tratasse de Evgueny Mouravitch, não tínhamos de nos mostrar tão exigentes, mas sendo um português, jornalista, não podemos — e o elidido «nós» não é um plural majestático, somos mesmo todos nós, ouvintes — fingir que está tudo bem. Com tudo o que de lábil a oralidade tem, é claro que o grau de exigência é diferente do que teríamos em relação à escrita, mas ainda assim há limites. E, a propósito, acabei de saber que, no início desta semana, um escritor, no lançamento de mais um livro, agradeceu enfaticamente a alguém que «reveu o texto». Este sim é um erro grave, imperdoável num escritor. Não é um lapsus linguae, é ignorância.

Desfiar e desfilar

Outro rosário

      Jornal 2:, 28.11.2006, Alberta Marques Fernandes: «Outra obra sobre a história recente de Portugal é assinada por Almeida Santos. Em dois volumes, o ex-presidente da Assembleia da República desfila as memórias do processo de colonização e descolonização das antigas províncias ultramarinas. O autor diz que já é possível essa abordagem porque o tempo ajudou a arrefecer a História.»
      Deveria ter dito «desfia as memórias», isto é, narra, expõe em sequência, conta, pois que o verbo desfiar, em sentido figurado, significa isso mesmo. Se quisesse mesmo usar o verbo desfilar, em acepção semelhante seria intransitivo, e então diria, por exemplo: «Nesta obra de Almeida Santos, as memórias desfilam, apresentando um quadro do que tem sido a política portuguesa dos últimos trinta anos.» É parecido, sim, mas somente assim estaria correcto.
      Alberta Marques Fernandes tem uma óptima dicção e o timbre de voz é muito agradável. Contudo, na pausa gráfica, obrigatória, que antecede a frase «Em dois volumes…», não se deteve, dificultando a compreensão da frase. Por outro lado, é comum respirar ruidosamente antes de começar cada notícia, o que é desagradável. Vejamos o que diz João Paulo Meneses a propósito da respiração: «Resta dizer que são conhecidos vários exercícios práticos de relaxamento, a começar pela necessidade de estar bem sentado — falar ao microfone de pernas cruzadas ou com a cadeira desnivelada relativamente à mesa é caminho certo para respirações turbulentas» (Tudo o que se passa na TSF — … para um «livro de estilo», p. 114). Antes, escreve o autor: «Como se não bastasse, o microfone é cruel, porque amplia os ruídos…»

Rua do Ouro

Rua Áurea!!!

      A concentração de misteres, lojas, estabelecimentos, etc. de feição comum por certas ruas na Lisboa antiga chegou até nossos, como se vê da rua dos Bacalhoeiros, dos Fanqueiros, da Prata, do Ouro, etc.
Rua do Ouro é, pois, nome tradicional, bem de Lisboa. Artificializou-se, porém, o chamadoiro toponímico em rua Áurea, preciosismo que nada justifica. Já houve quem notasse que, assim como se dizia em latim a Via Appia, assim também nós podemos dizer Rua Áurea.
      Argumento descabido, pois Appia ligava o seu nome a Ápio Cláudio, a Appius Claudius, que a mandou construir.
      Ora, o nome de rua do Ouro não se pode substituir em Áurea, porque nenhum Aurus a mandou fazer.
      Áurea é atributo: do Ouro é determinativo, com base histórica.
      Os novos-ricos da linguagem lisboeta que chamam Áurea à rua do Ouro podiam fazer o favor de chamar rua Argêntea à da Prata, rua Fanqueiral à dos Fanqueiros, rua Bacalhoeira à dos Bacalhoeiros, etc.


Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 3, 1950.

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