Irritações: o arenito das traduções

Pois, muita areia


      Eu só queria notas de 500 euros (pois, também não posso contentar-me com notas de 10 ou 20) como as vezes que já li, em traduções do inglês americano, referências a casas, degraus ou qualquer outro elemento arquitectónico de arenito. O brownstone transforma-se invariavelmente em «arenito castanho», quando não «arenito amarelo», como se a cor da pedra fosse mais importante do que o edifício inteiro. E, no entanto, nem é castanho nem amarelo: o brownstone original tem uma tonalidade indefinida, entre o avermelhado e o terroso (reddish-brown, como dizem os dicionários) e o que importa, verdadeiramente, não é a cor, mas o tipo de edifício que esse termo designa. Brownstone não é a pedra nem a cor: é o nome dado a um tipo de prédio urbano nova-iorquino, típico do século XIX, com fachadas revestidas de arenito (sempre aparece!) e uma escadaria frontal, o stoop, que conduz ao andar principal, elevado em relação à rua. Traduzir isso por «degraus de arenito castanho» é não perceber nem a arquitectura, nem a língua, nem o efeito pretendido na narrativa. Mas retomo o início e reformulo-o: não era notas que eu queria, mas anos com saúde. Enquanto fui imortal, não pensava assim, mas agora a história é outra.

[Texto 22 337]

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P. S.: Lá te esqueceste, Porto Editora, de dicionarizar «grafémico» e «grafofonémico», que aqui propus no passado dia 29. Só neste blogue andam vai para quinze anos. Já merecem ascender ao Olimpo.


Definição: «camião-grua»

É claro que não é isso


      «Ao que o JN apurou, o homem estaria a mudar um pneu de um camião-grua quando este rebentou, atingindo-o e projetando-o. A GNR tomou conta da ocorrência» («Homem morre após rebentamento de pneu», M. F., Jornal de Notícias, 30.01.2026, p. 44).

      A Porto Editora está convencida, e di-lo no Dicionário da Língua Portuguesa, de que tal veículo é um «camião que transporta uma grua». Está enganada: eu, e decerto a maioria dos leitores, já vi gruas em cima de camiões, e o conjunto não é um camião-grua. Evidentemente. É isto um ➜ camião-grua camião dotado de uma grua hidráulica incorporada, geralmente articulada, destinado ao içamento e movimentação de cargas pesadas, sendo utilizado em operações de carga e descarga, montagem ou apoio a trabalhos de construção, manutenção e instalação.

[Texto 22 336]

Confusões: «undercut/uppercut»

Só ao murro


      Claro que os desconchavos se encontram em jornais de outros países e línguas: «Con el cadáver aún caliente de la ciudadana Renee Nicole Good, acribillada a tiros por uno de sus agentes, Bovino irrumpió en las calles de Mineápolis con su corte de pelo uppercut a la moda de los años 30 y esa prenda, de verde oliva, charreteras y doble fila de botones dorados, retrotrae a las fotografías de los militares nazis de las SS llevando su offiziersmantel, de un corte similar pero en cuero negro» («Bovino: el abrigo como símbolo de autoritarismo», Alberto Rojas, El Mundo, 27.01.2026, p. 27).

      A confusão aqui é com undercut, que é um estilo de corte de cabelo associado ao período entreguerras e bastante popular nos anos 1930, até entre os militares (tanto nazis como soviéticos), caracterizado pelos lados rapados e no cimo da cabeça mais comprido. Esta acepção não estar nos dicionários bilingues só contribui para haver mais gente a dizer disparates como este, que já encontrei mais de uma vez. Bastava dizer ➜ undercut corte em que o cabelo é deixado comprido no topo da cabeça, enquanto os lados e a nuca são rapados ou cortados rentes.

[Texto 22 335]

Etimologia: «classe»

Aprofunde-se mais


      «La SNCF a récemment lancé une classe de TGV où les enfants ne sont pas admis. Le mot vient de classis, qui signifie “appel” (d’une génération pour servir dans l’armée). Il a ensuite désigné une catégorie» («Classe», Étienne de Montety, Le Figaro, 28.01.2026, p. 37). Só isto já é mais do que dizem os nossos dicionários sobre a etimologia do vocábulo «classe», mas podemos aprofundar ainda mais assim ➜ do latim classis, -is, originalmente «chamada (para o serviço militar)», passando a designar cada uma das categorias censitárias em que se dividiam os cidadãos romanos, e por extensão «divisão; categoria; grupo», incluindo também o sentido de «esquadra naval».

[Texto 22 334]

Léxico: «língua balística»

Tratemos do caso


      «Uma nova espécie de anfíbio do Jurássico foi identificada em Portugal, na Lourinhã, em fósseis com 150 milhões de anos, numa investigação do paleontólogo Alexandre Guillaume. Como o material usado para descrever a nova espécie foi encontrado com a ajuda de um projeto de Ciência Cidadã, no Parque dos Dinossauros de Lourinhã e no museu, os investigadores escolheram o nome de ‘Nabia civiscientrix’. Tinha menos cinco centímetros e um sistema de alimentação com língua balística semelhante ao dos camaleões modernos» («Nova espécie de anfíbio do Jurássico na Lourinhã», Correio da Manhã, 27.01.2026, p. 23).

      Pelos dicionários, o falante não chega à compreensão de ➜ língua balística ZOOLOGIA tipo de língua protráctil que, graças a uma rápida acumulação e libertação de energia elástica, pode ser projectada com grande velocidade e precisão para capturar presas, como ocorre em camaleões e certas espécies de anfíbios.

[Texto 22 333]


Definição: «vórtice polar»

E eles têm razão

      

      Não posso esconder que estou estupefacto que a Porto Editora continue a definir «vórtice polar» como «ciclone (centro de baixa pressão atmosférica) persistente localizado junto a um dos pólos de um planeta» quando no Meteored, por exemplo, o definem como «uma vasta zona de baixa pressão, cheia de ar frio, que gira no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio em torno do pólo norte, tanto na troposfera (a atmosfera inferior) como na estratosfera (a altitudes mais elevadas, entre 10 e 50 km). Em condições normais, durante o inverno boreal, este vórtice mantém-se compacto e confina o ar frio do Ártico às latitudes polares, favorecendo um clima mais temperado nas latitudes médias, como a Europa». Ainda assim, proponho esta definição ➜ vórtice polar METEOROLOGIA zona ciclónica de grande escala e baixa pressão atmosférica, centrada sobre o Árctico ou a Antárctida, caracterizada por ventos intensos em circulação retrógrada que confinam o ar frio às regiões polares; quando enfraquece, permite a deslocação de massas de ar muito frio para latitudes mais baixas.

[Texto 22 332]

Léxico: «suavizar-se»

Também pronominal


      «Fácil coisa é dominar a imaginação de uma noviça. Bastam a comovê-la vivamente a poesia e majestade do culto católico; depois a religião suaviza-se-lhe, rodeando-a de poderosos atractivos; uma cândida vaidade, certas porfias piedosas, prefiguram-lhe nas perspectivas do Céu um trono a conquistar» (A Freira no Subterrâneo, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Marujo Editora, 1986, p. 58). O verbo suavizar, Porto Editora, não é apenas transitivo, sabes isso. Sabes? Tens de o dizer.

[Texto 22 331]

Irritações: «soar»

Porque não é tradutor

      «“You are?” Bob’s voice sounded surprised.» Se não é tradutor, caro leitor, de certeza que não verteu aquele «sounded» por «soou». Parabéns, é menos uma criatura, que me parecem, e são, demasiadas, que me enfurece com essa maneira tolinha de traduzir. Sim, tem razão, há alternativas, e entre elas estão, no contexto, «mostrar-se» ou «parecer».
[Texto 22 330]

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