Tradução: «gnocca»

Por aí

      «Povo da Liberdade, o nome do partido de Silvio Berlusconi, já não satisfaz. “Vamos mudar o nome, as pessoas não gostam. Aceitamos sugestões”, disse o primeiro-ministro de Itália. Depois acrescentou: “Dizem-me que teríamos sucesso com ‘Forza Gnocca’”, termo coloquial que pode ser traduzido como “Força, boas”» («Mais uma piada sexista de Silvio Berlusconi», Público, 7.10.2011, p. 38).
      Estes apontamentos linguísticos têm sempre a sua utilidade. «Boas» parece-me fraco. Gnocca é uma «bella ragazza, sensuale e procace». E também é — preparem-se! — «cona». (Aos 110 leitores em simultâneo das 23h24 de ontem já lhes cheirava...)
[Texto 556]

«Linguagem criminal»

Eh lá

      «O culpado tem um rosto e uma voz, pois deu logo a cara e reclamou logo, com irrepremível orgulho, que era ele. Alegou até, usando linguagem criminal, ter actuado em “legítima defesa”, pois “eles ainda nos tiravam mais dinheiro se andássemos a mostrar o jogo”» («O carnaval madeirense», Carlos Fiolhais, Público, 7.10.2011, p. 38).
      «Linguagem criminal?» Valha-o Deus, homem! Isto é, senhor professor doutor.

[Texto 555]

Pontos cardeais

Quando empregados absolutamente

      A revista Lux já usa a nova ortografia e fá-lo, pois claro, como sabe e pode. Mas não chega. Título da capa da edição desta semana: «Toda a história da relação do ‘conde’ com empresário do norte envolvido em orgias». Rapaziada, vejam lá de novo as regras, não sejam tão alegremente incompetentes.

[Texto 554]

Anglicismo: «incumbente»

Por terra

      «A morte de Steve Jobs proporcionou uma excelente oportunidade para revisitar a sua vida e legado e, também, para ver ou rever muitos dos seus vídeos hoje disponíveis na Internet. Entre os que revi ontem quero destacar um: é do final de 1983 e mostra um jovem de menos de 30 anos a anunciar não o novo, e revolucionário, Macintosh, mas o spot publicitário de lançamento. Trata-se do memorável filme que glosa o conceito do 1984 de Orwell para destacar a coragem dos que desafiam a hegemonia dos incumbentes. No caso, a poderosa IBM, como Steve sublinha» («Notas soltas: Steve Jobs, ERC e Alberto João Jardim», José Manuel Fernandes, Público, 7.10.2011, p. 39).
      Ultimamente não se pode falar de estrangeirismos — mas eu arrisco mais uma vez. Incumbente não é, na frase, um anglicismo semântico? Para nós, «incumbente» é quase só o que está inclinado para baixo. Adjectivo. Em inglês, é «one that occupies a particular position or place». O leitor pode sentir-se um tudo-nada atrapalhado, mas não faz mal — passa à frente.
[Texto 553]

«Entra por uma orelha, etc.»

Disparates oficiais

      «O discurso oficial da direita e da esquerda, à força de se repetir, deixou de ser ouvido. Entra por uma orelha e sai por outra. E nem o acordo piedoso dos partidos ditos “democráticos” aumenta a confiança no Governo ou no futuro» («O realejo»,Vasco Pulido Valente, Público, 7.10.2011, p. 44).
      É mais vulgar entra por um ouvido e sai pelo outro. Vasco Pulido Valente começa por falar de outro discurso, o do Presidente da República no 5 de Outubro, em que S. Exa. disse — leu — «pese os avisos que foram feitos». A Presidência da República não tem dinheiro para contratar os serviços de um revisor.

[Texto 552]

«Imputado/arguido»

E tem consagração legal?

      Num ensaio breve, o autor compara o tratamento dado ao segredo de justiça em vários ordenamentos jurídicos. Nunca usa outros termos que não imputado e indagato. Para os sistemas inglês, norte-americano, alemão e francês não usa os termos destas línguas. Num assomo de bom senso, os tradutores não verteram indagato. Em relação a imputado, não sei com que critério, verteram menos de metade por «arguido» e as restantes ocorrências por... «imputado»! Nunca da leitura se percebe que o mesmo termo espanhol deva corresponder a dois termos — e conceitos — diferentes na tradução. Claro que são figuras diferentes, e não é por acaso que até há obras que as comparam, como Arguido e Imputado no Processo Penal Português, de José Lobo Moutinho. No sítio da Almedina, lê-se a propósito desta obra: «O autor começa por traçar uma panorâmica geral do modo de surgimento e evolução da imputação no processo. Em seguida, analisa a figura do arguido formalmente constituído. Finalmente, trata da questão da situação processual do imputado não formalmente constituído.» A meu ver, ao imputado do original corresponderá sempre e só «arguido» na tradução.

[Texto 551]

Tradução: «quinquies»

E outro

      «De forma muy especial, el art. 391-quinquies cpp, etc.», lia-se no original. E os tradutores, agora aos pares, verteram assim: «De forma muito especial, o art. 391.º -quinque CPP, etc.» Há quem afirme, mas eu nunca vi, que também entre nós se usam os numerais (bis, ter, quater, quinquies, sexies...) latinos para as alíneas, mas vulgares são estas. Logo, «art. 391.º, e), do CPP».
[Texto 550]

Tradução: «piezas de convicción»

Mais um exemplo

      O original (e a tradução, porque estou a fazer apenas a revisão) apresenta ainda a expressão piezas de convicción. Peças de convicção, verteram os tradutores. Nunca tinha lido ou ouvido tal. Uma pesquisa perfunctória mostrou-me que a jurisprudência espanhola identifica as piezas de convicción com todos os objectos inanimados que possam servir para representar a realidade de um facto e que tenham sido carreados para a acção, unindo-se materialmente a esta ou conservando-se à disposição do tribunal, englobando, desta maneira, os «documentos». Curiosamente, a expressão é usada também no Brasil. Mais uma vez, o problema nem sequer é, em termos estritos, de tradução — que foi literal —, mas de correspondência entre os diferentes ordenamentos jurídicos.
[Texto 549]

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