«Sofrer melhoramentos»

Cuidado com as analogias

      «O canil interior, de onde ecoam os latidos estridentes dos animais em boxes exíguas — onde dormem, comem e fazem as necessidades, acorrentados — vai sofrer obras que permitirão ampliar o espaço disponível» («Obras no canil e gatil de Monsanto prontas até Fevereiro de 2012», Marisa Soares, Público, 26.05.2011, p. 26).
      Boxe, seja para cavalos seja para cães, parece-me anglicismo desnecessário. Melhor: desnecessário no primeiro caso, pois temos o termo «baia», e inadequado no segundo. Sofrer obras ou reparações é correcto, mas repare-se como muitas vezes, decerto por analogia, se diz também «sofrer benefícios», «sofrer melhoramentos», que são impropriedades de expressão que se devem evitar.

[Texto 67]

«Ter» e «possuir»

E «haver» e «existir»

      «O autor do vídeo, com 18 anos, por já possuir antecedentes criminais, poderá ser confrontado com uma pena de prisão efectiva» («Jovem agredida com violência já foi submetida a exames», Ana Rita Duarte, Público, 27.05.2011, p. 11).
      Só as poucas leituras e o escasso conhecimento da língua poderão explicar que os jornalistas não sintam diferenças de sentido entre possuir e ter, haver e existir.
[Texto 66]

«Terno» e «fato»

Até em Cuba!

      «— Consegui dar-lhe uma medalhinha de S. Bento e disse-lhe para a usar de cada vez que mudar de terno e ele disse ‘Não me vou esquecer’, e deu-me dois beijinhos» («José Sócrates foi a Cuba e mesmo sem cantar ganhou uma medalhinha de S. Bento», Maria José Oliveira e Rita Siza, Público, 27.05.2011, p. 6).
      É o influxo das telenovelas brasileiras a fazer-se sentir. O falar alentejano já não é o do tempo de Manuel da Fonseca.
[Texto 65]

Ortografia

Ne varietur, Deo gratias

      A propósito do lançamento da 2.ª edição da Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen, lembra Eduardo Pitta na última Ípsilon: «Em mais do que uma entrevista, Sophia reiterou esse seu modo de escrever: “A única palavra portuguesa cuja ortografia precisa de ser mudada é dança, que se deve escrever com ‘s’, como era antes, porque o ‘ç’ é uma letra sentada, uma letra pesada. Escrevo com ‘s’, mas há sempre o desastre de os tipógrafos ou as pessoas que me passam os textos à máquina acharem que é um erro e emendarem para ‘ç’...” (“Diário de Notícias”, 24-11-94.) Isso mesmo é verificável na exposição “Uma Vida de Poeta”, recentemente organizada por Teresa Amado e Paula Morão na Biblioteca Nacional. Sousa discorda: “Não tendo a autora determinado que tal singularidade passasse a ser regra na sua obra, seria abusivo considerar que Sophia pretendeu instaurar um preceito de uso ortográfico próprio” (p. 8) Assim desapareceu essa marca textual.»
      Eduardo Pitta parece ter pena que esta idiossincrasia ortográfica tenha desaparecido da obra de Sophia de Mello Breyner Andresen. A verdade, porém, é que tais idiossincrasias só trazem uma inútil e indecifrável carga de subjectividade. Se alguém ganha, não será o leitor.
[Texto 64]

Artigo definido

Muito lá de casa

      No programa Hoje, na RTP 2, que acabou agora mesmo (ou acabou de acabar, se quiserem), a jornalista Sandra Felgueiras mostrou uma familiaridade que não pode passar em claro: ele é «o Sócrates» para aqui, «o Paulo Portas» para ali. Sandra Felgueiras é suficientemente nova para ter tido professores que falavam «do Camões», «do Vasco da Gama» e de outras personagens históricas. Aprendeu bem a lição... Que leia, pelo menos, a Estilística da Língua Portuguesa, de Rodrigues Lapa.

[Texto 63]

 

«Apelar»: regência

Mais uma oportunidade

      «O vereador José Sá Fernandes diz que a câmara está a cumprir um “serviço público” e apela às pessoas para não abandonarem os animais» («Obras no canil e gatil de Monsanto prontas até Fevereiro de 2012», Marisa Soares, Público, 26.05.2011, p. 26).
      Senhora jornalista, não é essa a regência do verbo «apelar». Se não quiser aprender connosco, aprenda com Eça de Queirós: «E então o marquês, de pé e bracejando, apelou para Carlos, e quis saber o que é que Craft em princípio entendia por senso moral» (Os Maias, Eça de Queirós).
[Texto 62] 

«Invocar/evocar»

E os revisores, senhores?

      «Quem defende a extinção do MC [Ministério da Cultura] evoca muitas vezes o argumento da transversalidade» («Um ministério ou uma secretaria de Estado é só uma questão de palavras?», Lucinda Canelas, Público, 26.05.2011, p. 7).
      Se os jornalistas consultassem mais os dicionários, as gramáticas e fossem estudando a língua, sua ferramenta de trabalho, não erravam tanto, ou pelo menos em aspectos tão básicos. Sim, alguns sabem e acertam: «O argumento da falta de um “relatório social” e de uma “perícia sobre a personalidade” do arguido já tinha sido invocado na Relação e no Supremo Tribunal de Justiça (STJ)» («Isaltino alega nulidade por falta de perícia sobre a personalidade», José António Cerejo, Público, 26.05.2011, p. 13).

[Texto 61]

«Extra», «recorde», «ultravioleta»

A (quase) anómala invariância

      Primeiro: toda a língua portuguesa tende para a concordância. Segundo: excepções são casos anómalos que não deverão servir de paradigma. Terceiro: os adjectivos «extra», «recorde» e «ultravioleta» não são usados da mesma forma pelos falantes. Quarto: quando verifico que há hesitações, propendo sempre para a defesa dos princípios gerais da língua. Quinto: assim, defendo inequivocamente que «extra» e «ultravioleta» pluralizam em «extras» e «ultravioletas». «Recorde» é visto pela quase generalidade dos falantes como sendo invariável. «Dívidas recorde? Mas a que classe gramatical pertence “recorde”? Hum... talvez à dos advérbios...», tripudiava o leitor Montexto no Assim Mesmo. Bem, por muito que nos repugne, há adjectivos invariáveis quanto ao género e quanto ao número. Só não estranhamos se o próprio singular termina em s, como «pires» (que revela mau gosto; ridículo; vulgar; pretensioso). O que revela incompreensão da língua é grafá-lo como se fosse um determinante específico, o que de vez em quando no Público têm a infeliz ideia de fazer: «No final de 2009, mais de 563 mil pessoas estavam sem trabalho. Mas este número-recorde, que elevou para 10,1 por cento a taxa de desemprego, depressa foi ultrapassado» («Taxas-recorde de desemprego marcaram esta legislatura do PS», Raquel Martins, Público, 22.04.2011, p. 12).
[Texto 60]

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