Uso do itálico

Latins

      O uso do itálico também intriga. Alguém tem alguma teoria? Há latim e latim... «Assim, os seres humanos são classificados (ironicamente, segundo alguns) como a espécie Homo sapiens, do género Homo, pertencente à família Hominidae, superfamília Hominoidea, da infra-ordem Catarrhini, subordem Anthropoidea, ordem dos Primatas, subclasse Eutheria, classe dos mamíferos, superclasse dos tetrápodes, que é membro do subfilo dos vertebrados, filo dos cordados, no reino animal, domínio dos eucariontes no império dos organismos» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 16).

[Post 4753]

Tradução

Meia tradução

      Para um trabalho, tive de pesquisar informação relacionada com a evolução do Homem. Abundam, é claro, as traduções. E vê-se logo que são traduções. O original fala de «Olduvai Gorge»? Na tradução fica «Olduvai Gorge»! «Em 1962, Louis Leakey, o decano dos caçadores de fósseis de hominídeos, encontrou os restos de um hominídeo que usava instrumentos quando escavava em Olduvai Gorge, na planície Serengeti, na Tanzânia, que identificou como a nova espécie Homo habilis («homem hábil»), com cerca de 1,8 milhões de anos» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 56).
      Não é garganta, ou desfiladeiro, ou abertura, ou aberteira, ou portela — é Gorge! (E não é planície do Serengeti?) O original fala em «Gorham’s Cave»? Na tradução fica (mas não li ainda na tradução citada) «Gorham Cave»!

[Post 4752]

Como se escreve nos jornais

E por falar em triunvirato

      «O discurso de Sócrates na terça-feira sobre o acordo com o triunvirato BCE-FEEF-FMI teve um carácter absolutamente singular na história da comunicação política portuguesa, porventura mundial e até histórica» («Inovação retórica: inventar para desmentir», Eduardo Cintra Torres, «P2»/Público, 6.05.2011, p. 12).
      Sim, percebo, mas não é por estar bem escrito — porque está malissimamente escrito. Muita «história». E o triunvirato não é BCE-CE-FMI?
[Post 4751]

Léxico: «sofra»

Novíssimo triunvirato

      Com o novo triunvirato a mandar em nós, vamos sofrer mais e teremos de trabalhar, se conseguirmos, mais. Continuaremos sojigados por muitos anos. Proponho por isso que reabilitemos a palavra antiga sofra: Capacidade, ardor no trabalho. Infelizmente, foi escorraçada há muito dos dicionários. Ah, sim, «sojigados» também é arcaísmo. Vindas de tão longe, não quero que fiquem aqui sozinhas, e por isso junto soés (somente), soestro (esquerdo), soforar (tocar, ranger, fustigar, picar de espora), sofragaia (sufragânea, dependente, anexa), sofrença (sofrimento) e sotal (condição; condicionalmente; contanto, debaixo de tal). Só da letra esse.

[Post 4750]

«Troika/tróica»

Ou «tróica», melhor

      «A troika chateia. Porque havemos nós de aturar esta palavra para falar de três anónimos mandões que não conhecemos nem escolhemos de parte nenhuma, quando tem tanta hora literária? Por exemplo, na genial primeira parte das Almas Mortas de Gogol, nomeando os três cavalos que puxam a carruagem do putredinoso Chichikov?» («Qual troika», Miguel Esteves Cardoso, Público, 6.05.2011, p. 45).
      Chateia mesmo. E, tanto quanto sei, nem sequer um jornal ou revista escreveu «tróica» (ou «troica», vá, que o Acordo Ortográfico de 1990 anda por aí). É nestas pequenas coisas que se nota a força da maioria — e dos maus conselhos. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lê-se: «tróica ⇒troika». Está tudo dito.

[Post 4749]

Infinitivo pessoal

A troika

      «Muito manifestamente, os senhores a que pedimos para mandar em nós, depois de observarem a balbúrdia indígena, não têm confiança nos portugueses para tratar sem ajuda dos problemas de Portugal» («O mau aluno», Vasco Pulido Valente, Público, 6.05.2011, p. 48).
      Temos duas acções — pedir e mandar — e dois sujeitos, «os senhores» e «nós». Para distinguirmos, não devemos usar o infinitivo pessoal ou flexionado?

 [Post 4748]

Linguagem

Falar por catacreses

      «[…] e por isso mesmo seria devastadoramente mais esperto, para o seu tempo.» Um toque queirosiano? Hum... «Noutras línguas acontecem casos semelhantes. Por exemplo, em inglês awful é medonho; o que não impede, em calão (em slang), se diga — She is awfully beautiful, ou seja, à letra, é medonhamente bela..., mas com o significado de — é formidàvelmente (extraordinàriamente) bela. Ora, os tropos são admissíveis e necessários. Sem êles, nunca poderia a arte literária enriquecer-se de modos de dizer expressivos, brilhantes, ou, melhor, vivos. Tudo tem, no entanto, os seus limites e, à sombra das concessões dos tropos, não podemos abusar do sentido das palavras» (Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Edições Gama, 1945, pp. 194-95).
[Post 4747]


Léxico: «utility»

Chefe da oposição

      Então o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista tarseiro (não confundir com traseiro) e esqueceu-se de siamangue? O primeiro designa um género de mamíferos lémures de tarsos muito compridos, e o segundo é também conhecido como gibão-siamango (Symphalangus syndactylus).
      Não venho aqui apenas por isto, mas para lamentar que Pedro Passos Coelho, na entrevista de ontem, tenha usado o anglicismo utilities assim sem mais nem menos. Utilities são empresas de fornecimento de electricidade, gás e água, por norma consideradas empresas de utilidade pública e pouco sensíveis aos ciclos económicos. Só os economistas é que deviam falar assim — mas apenas quando falam para outros economistas.

[Post 4746]

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