«Ódio de estimação»

Controversos, pois

      «Controversos dá nome à novidade que irá girar em torno de “figuras que são mais polémicas, não tão lineares como as anteriores”. “São figuras de que eu gosto, mas são figuras polémicas que suscitam paixões e alguns ódios nem que sejam de estimação”, reconhece Goucha, admitindo que desconfia sempre “daquelas pessoas de que toda a agente gosta”» («“Quero entrevistar o Pinto da Costa”», Sara Oliveira, «Notícias TV»/Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 80).
      Saberá o “grande comunicador” o que são ódios de estimação? Pergunta retórica, claro. É muito interessante o sentido que o vocábulo «estimação» tem numa frase como esta: «Não posso, a minha hérnia de estimação não me deixa.» Como é que se passou de algo positivo, agradável, para algo negativo, desagradável? Mistérios da língua.

[Post 4705]


Maiúscula

Senhor engenheiro

      «Por outro, a força e magnetismo da sua música eram tais que muitos reagiram por antinomia, indo buscar elementos a universos exteriores à tradição erudita e, inclusivé, europeia, ou então recuperando elementos caídos em desuso, inaugurando as várias tendências que lançaram um olhar retrospectivo e selectivo sobre a música de épocas prévias ao Romantismo» («As seis décadas que mudaram a face e a geografia da música», Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 51).
      Sem acento, senhores jornalistas: inclusive. E o romantismo não precisa de aparecer assim grelado, já que os nomes de movimentos artísticos, literários, políticos, etc., terminados em –ismo se escrevem com minúscula inicial: romantismo. Uma empresa de engenharia (posso dizer o nome?) anda aqui no prédio e, numa das reuniões (gostam muito de reuniões, estes tipos), o chefe disse que faltavam /aitens/ no caderno de encargos. Ri-me, mas disfarcei bem.

[Post 4704]

Sobre «workshop»

Uârkchopes

      Outra coisa irritante: escrever-se, a torto e a direito, workshop. Não há edição de jornal que não traga pelo menos um workshop. E como o País tem muito que ensinar e que aprender, é todos os dias. Agora, porém, vai-se insinuando, ainda a medo, claro, um termo português: oficina. «Prática de primeira hora é a programação de oficinas dirigidas aos mais novos (desde bebés até aos 11 anos), que decorrerão na Fábrica das Artes, frente ao Jardim das Oliveiras [no Centro Cultural de Belém]» («Oficinas, concertos narrados e mais», Bernardo Mariano, Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 51). Diz rigorosamente o mesmo, reparem, e é nosso, não precisa nem de aspas nem de itálico. E toda a gente percebe. Entretanto, deixemos que discutam e queiram saber o género do anglicismo.

[Post 4703]

Miscelânea

Três coisinhas

      1. Lusitania, Ok! teleseguros, Açoreana… São nomes próprios, sim, mas forjados, inventados. Logo, porque não Lusitânia, Telesseguros, Açoriana? Seria menos rendoso.
      2. O chefe, muito reputado, mandou dizer que era mesmo «abóbora Hokkaido bebé» que queria escrever, e não «abóbora-menina». (Nem potimarron, supomos.) Seria menos saborosa.
      3. Num espaço aberto (open space, como agora se acha inevitável dizer e escrever), até o paginador se intromete na conversa do director. Este falava em CDS (credit default swaps, uma espécie de seguro que os credores contratam para se protegerem de perdas no caso de os Estados não cumprirem as suas obrigações de reembolso dos títulos) e do valor que dantes tinham. «O Partido do Táxi», comenta o paginador. Espaço compartimentado seria menos democrático.

 [Post 4702]



Verbo «sobressair»

Sem o filtro...

      Até os jornalistas já mordem nos heróis dos tempos modernos: «No filme que promove as novas chuteiras Mercurial Vapor Superfly, o jogador do Real Madrid [Cristiano Ronaldo] ao auto-elogiar-se comete um erro gramatical quando diz: “Este jogador sobressai-se muito”. E também na velha tradição de o bom jogador falar na 3.ª pessoa do singular...» («O protagonista», Paula Brito, «Notícias TV»/Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 75).
      Mas é verdade: o verbo sobressair é erroneamente empregado como pronominal. A culpa também é do Dicionário Houaiss, que o regista como pronominal. É como diz Sacconi: o verbo «sobressair» não é pronominal desde o século XII...


Actualização no mesmo dia


      A pronominalização deste verbo pode ser resultado de cruzamento com outros com o mesmo significado, como salientar-se ou destacar-se.


[Post 4701]

«Sede de poder»

Corta!

      «Em geral», escreveu aqui uma vez Montexto, «na fala só a repetição torna a irregularidade ou o deslize realmente censurável.» Estamos de acordo. Nada disso, porém, se aplica ao programa Lugares Comuns (Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 18.04.2011), cujo guião é escrito antecipadamente e pode ser revisto e, ao que julgo, não sendo em directo, pode ser regravado. A emissão de hoje era sobre a expressão «jovem turco». Mafalda Lopes da Costa explicava então que é aquele que tem «sède de poder». Assim mesmo, /sède/local onde funciona um tribunal, uma administração ou um governo, local onde uma instituição tem a sua direcção ou administração... Não, não, não, cara Mafalda Lopes da Costa: /sêde/, desejo vivo, ardente, imoderado — de poder, de cultura, de vingança...

[Post 4700]

Como se escreve nos jornais

Estamos bem, estamos

      «“Há ali muitas mulheres solteiras e sozinhas, rodeadas de homens atraentes. Eles exercitam, são giros e criminais, o que é também apelativo”, disse Yolanda [Dickinson], que publicou agora um livro sobre estas histórias, intitulado Taboo» («Ex-guarda relata noites de sexo na prisão», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 58).
      E porque não completamente em inglês? «They’re working out. They’re attractive...They’re criminals, so they have a cunning way of approaching you.»

[Post 4699]

Linguagem

A proverbial insensatez

      Era de esperar: «A linguagem utilizada era, em alguns pontos, “demasiado complexa”: expressões como ‘propriedade resolúvel’ e ‘fluxómetro’ não são compreendidas pela maioria dos utilizadores, alertou [Filipe Plácido, responsável da Tangível — Usabilidade e Design de Interacção]» Linguagem prejudicou Censos na Internet», P. S. T., Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 19). «Fluxómetro»! Nem tudo, porém, está perdido: «Ao DN, Paulo Feytor Pinto, ex-presidente da Associação de Professores de Português (APP), disse “não ter sentido dificuldades” a preencher o formulário, mas admitiu que muitos poderão não ter compreendido bem todas as questões» (idem, ibidem).

[Post 4698]

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