«Trata-se de»

Cuidado com a língua

      «Por que razão não podemos ter a estrutura B, com o verbo tratar-se no plural? Porque, neste contexto sintáctico, o verbo tratar-se é um verbo impessoal, e sendo um verbo impessoal, nunca flexiona no plural. Aaa... com o significado de, de dizer respeito a, imagina que eu falo, que eu digo à Filomena: “Trata-se de”, estamos a falar de, de... candi... dum grupo de candidatos a determinado projecto, eu digo “trata-se de excelentes candidatos, de candidatos de alto nível”, e não “tratam-se”, porque eu estou a referir-me a eles, digo respeito a eles» (Jogo da Língua,  Sandra Duarte Tavares. Antena 1, 13.04.2011).
      «Digo respeito a eles»?! Vamos lá dormir, valha-me Deus, já chega de disparates.

[Post 4687]


Selecção vocabular

Puro, leal, franco

      «O que nem toda a gente sabe é que “sincero” tem a ver com “cera”. “Sincero” deriva do latim sincerus, que quer dizer “sem cera”. Ora, na Antiguidade clássica, quer no teatro quer em outras manifestações representativas, como cortejos ou pequenas encenações, os actores usavam máscaras feitas à base de cera» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 15.04.2011).
      Quando depara com a expressão «manifestações representativas», o ouvinte pensará em muitas outras realidades que não a da encenação, a dramatúrgica. Infeliz escolha de palavras. «Ter a ver» toda a gente agora diz e escreve, nanja eu. «À base de» melhor seria «na base de» ou «com base em». Isto para não deitar fora a «base», porque há outras formas de dizer o mesmo.

[Post 4686]



Tradução: «to question»

É só pensar

      Senhora tradutora, já é a terceira vez que traduz o verbo to question por questionar, e o contexto é sempre o mesmo: a polícia a submeter a interrogatório um suspeito. «De acordo com as leis contra o crime de terrorismo, é-nos permitida a utilização de técnicas optimizadas quando questionamos suspeitos, e isso é perfeitamente adequado.» «Questioning suspects». Então não é interrogar que se diz?

[Post 4685]

«Implantação/implementação»

Não aprendem

      Isso de tudo ter limites não se aplica à estupidez, acho eu. Todos ou quase todos os jornais têm uma secção ou mesmo um suplemento dedicado ao todo-poderoso sector do imobiliário. O meu também tem, claro. Ultimamente, os jornalistas trocam, confundem — agarrem-se bem! — «implantação» com «implementação». Um exemplo real: «A X anunciou o arranque da comercialização do Y em Cascais. O empreendimento é composto por 12 edifícios de apartamentos integrados numa área de implementação de 20 000 m2.» Ora, meus caros colegas e grandes melgas, a área de implantação de um edifício corresponde à área do solo (compreendido no lote) que é ocupada pelo volume total desse edifício. O que sobra, se sobrar, de espaço ao ar livre que não seja ocupado por esse volume denomina-se logradouro. Não me parece é que, como em tantos outros casos, os dicionários expliquem isto muito bem.

[Post 4684]

Sufixo «–(z)inho»

Mas depressa

      Em inglês: «Ar, come ’ead, Camilla, just give us a li’l blowie.»  Em português (mas com um erro): «Ah, ‘bora lá, Camilla, faz-me um brochesinho.» É óbvio que é com z, matéria comezinha mas afinal mal sabida ou ignorada mesmo por quem vive da escrita, da tradução. A questão, por ora, é diversa. Às paroxítonas terminadas em /i/ junta-se o sufixo –zinho (bulebulezinho), e mais raramente, -inho (não vamos agora discutir se se trata de dois sufixos ou de um e sua variante), como em dentedentinho. Em teoria, admitir-se-á brochinho. Falta saber se alguém usará este diminutivo. Voltarei ao tema, que já abordei aqui.

[Post 4683]


Só hoje descobri que a TVG, televisão galega, tem um programa diário (!) de cinco minutos, Ben Falado!, dedicado à língua, que já vai quase em 500 emissões. Já está aqui na barra ao lado.

«Tipo sarna»

Ovelha ronhosa

      Sem som, parecia mesmo bom. «Os 10 maiores mitos da Língua Portuguesa». Não faz a coisa por menos. Foi pena ter acabado o espectáculo com uma fífia das grandes: «Porque “ronhoso” deriva do substantivo “ronha”, é uma doença que os animais têm tipo sarna.» Como bordão, é dos mais irritantes da língua dos nossos dias. Onde posso reaver o preço do bilhete?

[Post 4682]

Anglicismo

Estamos apresentados

      «O termo “cicerone”, enquanto guia, virá de este introduzir ao mundo latino o pensamento dos Gregos e ainda também pelo facto de no fim da vida Cícero ter escrito uma série de obras sobre eloquência e a arte da oratória, livros esses que serviram de autênticos guias para os políticos da Roma antiga» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 12.04.2011).
      «Introduzir ao mundo», cara Mafalda Lopes da Costa? Está mesmo a ver-se que em português decente é impossível expressar a mesma ideia do anglicismo semântico.
      A propósito de anglicismo: hoje o revisor antibrasileiro telefonou-me porque queria saber se há forma de evitar o anglicismo «não governamental». Hã?! Como disse? «A expressão mostra a confusão que vai nessas cabecinhas entre Estado e governo.» Sabiam disto?   

[Post 4681]


URL e ponto final

De Nuiorca a Bosta

      Lembram-se de ter aqui perguntado porque é que Miguel Esteves Cardoso, à semelhança de muitos outros, não tinha posto ponto final depois de um URL que encerrava frase? Pois bem, homem inteligente, agora já sabe, e na crónica de hoje, quase toda à volta da proverbial ineptidão dos Espanhóis para as línguas estrangeiras, pode ler-se isto: «A prova que1 não há em Espanha quem leia a Nuiorca2 é que hoje, segunda, sete dias depois, o site da Rail Europe ainda não corrigiu a indesejada alusão ao Santo Ofício. É provável que nem sequer leia o PÚBLICO e que hoje até possa apanhar a espectacularmente insensível tradução aqui: http://bit.ly/ihj6X9.» («Um pouco de Inquisição», Miguel Esteves Cardoso, Público, 12.04.2010, p. 35). Leio o Público em PDF, e facilmente segui a hiperligação. Mas ainda na semana passada, numas provas, o paginador, em relação à minha emenda para que se pusesse o ponto final numa frase que acabava com um URL, deixou a nota marginal peremptória3: «Não funciona.» Não funciona? Em papel?


[Post 4680]

      1 Mas não se exige aqui a preposição? «O primeiro foral de Melgaço de 1181 mostra-nos evidentemente que era concedido a uma povoação de jugadeiros, e, posto que o de 1258 pertença ao typo de Salamanca, a prova de que a villa ficou sendo um gremio de peões está nas disposições que o restringem ou modificam» (História de Portugal, tomo quarto, Alexandre Herculano. Lisboa: em casa da viúva Bertrand e Filhos, 1853, p. 168).

      2 Suponho que Miguel Esteves Cardoso esteja aqui a usar o nome aportuguesado de New York (que faz parte do título da publicação) no discurso do emigrante nos EUA, como se lê na obra de Eduardo Mayone Dias Falares Emigreses: Uma Abordagem ao Seu Estudo (Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1989, p. 61). New York é Nuiorca; Providence é Providência; Newark é Nuarca; Boston é Bosta; Rhode Island é Roda Além; Pawtucket é Pataca...

      3 Que, na nova ortografia, será «perentória». A propósito, ainda hoje recebi uma mensagem de correio electrónico, que circula sobretudo entre professores, em que se dizia que está a decorrer uma iniciativa legislativa de cidadãos para impedir que o Acordo Ortográfico de 1990 seja aplicado. Ei-la aqui.

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