Ortografia: «subamostra»

Estes dicionários

      Eis aqui a explicação para o sôtor, reputadíssimo1 especialista em sondagens, escrever «sub-amostra». No Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, escrevemos a palavra e a máquina acha que queremos escrever ou «subam ostra» ou «suba mostra». Diacho, não é nada disso! O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não regista o vocábulo. Registam ambos «subabdominal», por exemplo, e por analogia chegava-se à grafia correcta. O problema é que o falante médio não é muito bom em analogias, pensa pouco e mal. E agora digam-me cá: acham natural que os dicionários acolham, por exemplo, «subaéreo» (para não falar de «subalado»!) e não registem «subamostra»? Qual será mais usada?


[Post 4679]

1 O meu professor de Latim, padre, Deus lhe fale na alma, é que costumava contar o que ele tinha por pilhéria: «Eram duas senhoras muito, mas muito reputadas: eram reputíssimas...»



«Portas travessas»

É o que se diz

      «Portas travessas e por portas e travessas. “Fazer algo por portas travessas” significa fazer as coisas de forma pouco clara, às escondidas, socorrendo-se de esquemas, subterfúgios ou ainda fugindo à lei. Apesar de a expressão correcta ser “por portas travessas”, com o tempo, a frase tem vindo a ser modificada, e hoje é comum ouvir-se dizer “por portas e travessas”. O problema é que com esta alteração perde-se o sentido original da expressão, já que esta nada tem a ver com portas ou travessas enquanto vielas, ruas estreitas, mas sim com as portas travessas, ou seja, com as portas secundárias, laterais de uma casa, as chamadas portas de serviço, as entradas não principais» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 11.04.2011).
      Será mesmo assim? Hum... É o que se diz por aí, mas... Consultamos, por exemplo, o verbete do adjectivo «travesso» no Dicionário Houaiss e a primeira acepção é, como seria de esperar, «disposto transversalmente; atravessado». A segunda acepção é «disposto ao lado, em direcção paralela ou quase; lateral, colateral». A terceira e última acepção (estou a consultar a versão electrónica) é «situado defronte a; fronteiro, oposto». Ora, será mais crível que porta travessa designa uma porta das traseiras de uma casa, por ser, justamente, mais oculta, mais discreta. E porta traseira era o nome que antigamente se dava à porta falsa em certas casas, e que ficava por detrás da casa — e não ao lado. E mais: bacorejando-lhe baixeza, o P. António Vieira usou, em vez de “porta traseira”, “porta travessa”. Fica o palpite.

[Post 4678]


Sobre «pedofilia»

Tome um lenço, vá

      Por vezes, ouço o Jogo da Língua, na Antena 1, ultimamente com a participação de Sandra Duarte Tavares, professora de Língua Portuguesa no Instituto Superior de Educação e Ciências (ISEC) e consultora do Ciberdúvidas. Dirigido ao ouvinte comum, com escassos conhecimentos linguísticos, umas vezes com erros, quase sempre com inanidades, o programinha lá vai dando a conhecer um pouco melhor a língua. A emissão de hoje era sobre o elemento de composição filo-. «Vou falar só… vou terminar, fazer um remate com uma palavra que eu detesto, e que possivelmente a maiori… toda a gente detesta, que é o substantivo “pedofilia” ou “pedófilo”, são ambos substantivos, e que o seu… cujo significado original era “amigo da criança”. [...] Convém esclarecer também, acerca desta palavra, que nós não gostamos.»
      Tanta emoção e tanta confusão... Pois eu gosto das palavras «pedofilia» e «pedófilo», são eruditismos que honram a matriz da língua.

[Post 4677]

«Para além de»

Também tu

      «Acontece que a assinatura Kindle do FT, para além de não ter contrapartida impressa, em papel cor-de-rosa e bem ilustrado, só nos deixa as últimas sete edições no disco. Depois, somem. As edições do FT são-nos emprestadas. Podemos guardá-las, se quisermos, mas dá trabalho. É como assinar um jornal e entregar-lhes a chave de casa para virem buscar os exemplares antigos. Poupa árvores e reconhece que a inércia da papelada é um vício que nos prejudica mais do que nos dá prazer» («Como assinar?», Miguel Esteves Cardoso, Público, 11.04.2010, p. 31).
      Nem Miguel Esteves Cardoso evita estas perluxidades na escrita. Caro Miguel, alivie-se do para, basta escrever além de. «Acontece que a assinatura Kindle do FT, além de não ter contrapartida impressa, etc.»


[Post 4676]



«Enformar/informar»

Dar forma a

      «É evidente que dentro de um critério estritamente formal é isto um pecado contra a economia que deve enformar qualquer sequência narrativa e a fluência do plano que esta pressupõe» (Vida e Obra de Raul Brandão, Guilherme de Castilho. Lisboa: INCM, 2006, p. 234). «Ferrerinha, primeira vinicultora do Alto Douro, dera o nome à firma, e assim se chamava desde longe e se chama ainda. A designação, pelo feminino, participava ao tempo do espírito que enformava as coisas inglesas sob o signo da rainha Vitória» (O Romance de Camilo, II, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 271).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, enformar é «dar forma a» — e só se pode, nesta acepção, escrever assim, ficando o parónimo informar reservado para outras acepções. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, esta acepção é partilhada por ambos os verbos, ou seja, «dar forma a» é indiferentemente «informar» e «enformar». Nesta acepção, sempre usei somente o verbo «enformar». E os meus leitores?

[Post 4675]



«Considerar como»

E em Camilo?

      «A humanidade, que toma cada dia consciência da unidade dos valores humanos, considera-os como um património comum e, face às gerações futuras, reconhece-se solidariamente responsável pela sua salvaguarda.» É um excerto da Carta Internacional sobre a Conservação e o Restauro dos Monumentos e dos Sítios, de 1964.
      Intuitivamente, omitiria a partícula «como». Consultemos, agora que está tão à mão, a Sintaxe Histórica Portuguesa, de Epifânio Augusto da Silva Dias. (Actualizarei sempre a ortografia.) «Imitando a sintaxe francesa, o português moderno constrói frequentemente o verbo considerar com a partícula como:
      o numeroso clero das paróquias vizinhas considerava-o como o mais venerável entre os seus irmãos no sacerdócio (Herc. Eurico, 18)» (p. 38). 
      Estará legitimado e explicado, mas pergunto-me se Camilo também usou a partícula nesta construção.

[Post 4674]

Sobre «desagarrado»

Livre, solto

      «Entretanto, o político mais “desagarrado” do poder (desculpem a palavra) ia a Matosinhos tratar da sua periclitante situação. “O PS está todo comigo?”, perguntou ele. O PS estava fervorosamente, absurdamente, histericamente com ele. Este jornal classificou a coisa como “um extraordinário momento de propaganda”; e com razão. Não me lembro de ouvir nenhum primeiro-ministro pedir com tanto descaro num congresso a confiança pessoal, que Sócrates pediu» («Uma crise de nervos», Vasco Pulido Valente, Público, 10.04.2011, p. 36).
      Homessa, pedir desculpa porquê?! Desagarrado é portuguesíssimo. Camilo usou-o a flux. Vá um exemplo colhido nas Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado: «Se eu não fosse tão desagarrado do alheio, há muito que a nossa filha estava casada com ele; mas tu embirraste com o rapaz, e fizeste aquele despautério quando íamos para Santa Ana de Oliveira... Valha-te Deus, valha-te Deus!...» Eu teria tido mais pruridos em usar «descaro». Sim, parece derivado regressivo de «descarar», mas vejo-o muito mais em obras espanholas que portuguesas. Ou será uma questão de sobrevivência: em espanhol persiste, é ainda agora usado, ao passo que em português quase o deixou de ser.

[Post 4673]


«Manilargas»?

O mãos-largas

      «Vêm aí dias sovinas. Os manilargas de outrora, dos grandes projectos e das obras do regime, vão ser substituídos (às vezes sem ser preciso mudar de pessoal) por forretas públicos, que cortam e contam todos os cêntimos que se atrevam a ser avulsos» («O futuro forreta», Miguel Esteves Cardoso, Público, 9.04.2011, p. 35)
      Miguel Esteves Cardoso também poderia ter escrito large-handed ou openhanded — mas preferiu o termo espanhol. Manilargo(a) é espanhol e significa o que tem mãos compridas. Em sentido figurado, é liberal, generoso. Também em sentido figurado, mas não registado no DRAE, é o ladrãozeco (ladronzuelo), que não o ladravaz. (E lembram-se de Artaxerxes Longímano?) Quando li a crónica, julguei recordar que José Pedro Machado registara a palavra, mas não. Regista, isso sim, manilongo, e a Real Academia Española devia copiar o verbete: «Manilongo, adj. e s. Que ou o que tem mãos longas.║Fig. Influente, poderoso.║Larápio.» Não me surpreendia que tivesse sido usado por algum autor português (e agora por dois), mas manifestamente não precisamos do vocábulo. Temos um só nosso.

[Post 4672]





(A propósito de coisas nossas: já está na barra do lado direito a hiperligação para a Sintaxe Histórica Portuguesa, de Epifânio Augusto da Silva Dias, um dos heróis de Montexto. Descarreguem e leiam-na.)


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