«Ser necessário»: concordância

Estilos e manias

      É outro estilo, em que só interessa o erro, não o infractor. Estilos. «Há dias, na televisão (não interessa o canal), um entrevistado (pouco importa quem) disse uma frase que fixei e que aqui reformulo, com ligeiras alterações, porque me parece boa para um pequeno desafio: Há uma série de medidas importantes que são precisas tomar o mais depressa possível» (in Língua à Portuguesa, 31.03.2011).
      A frase exacta foi esta, tão boa de analisar como a reformulada: «Há uma série de medidas importantes que serão necessárias adoptar o mais depressa possível.» Foi proferida pelo director do Diário de Notícias, João Marcelino, na RTP1 no dia 23 de Março passado, dia em que o primeiro-ministro se demitiu.
      Já aqui vimos esta questão gramatical. É necessário apenas ver se o sujeito é uma oração, infinita ou finita, ou se é um nome, e como é este representado. No primeiro caso, o verbo fica no singular; no segundo, é feita a concordância. Voltaremos a esta questão.

[Post 4654]



Verbo «colocar»

Duas na ferradura

      «A expressão tem uma explicação bastante simples e prende-se com o trabalho de ferragem dos cavalos, sendo que aos pregos com que se ferram os cavalos, ou seja, com que se coloca a ferradura no cavalo, se chamam cravos e que, ao ferrar o cavalo, os ferradores martelavam o cravo, ou seja, o prego, e a ferradura num movimento alternado, que terá dado de forma irónica origem à expressão dar uma no cravo, outra na ferradura» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 4.04.2011).
      Sabe que está sob escrutínio, mas escreve assim: «sendo que aos pregos […] se chamam cravos». E lá está uma das maleitas da actualidade: o verbo «pôr» escorraçado. «Colocar ferraduras»! Não era mister tal autoridade («Infalíveis neste baixo mundo, só o Papa e a Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, mas aquele é mais contestado», comentou aqui certa vez Montexto), mas aqui vai: «Ferrador, s. m. Indivíduo que tem o ofício de pôr ferraduras nos animais […].» O ferrador (ou, em linguagem fina, o siderotécnico) não aplica, nem mete, nem coloca, nem implementa ferraduras — põe-nas!

[Post 4653]


«Estrato socioprofissional»

Já vimos isto

      Olá, o que é que aqui temos?! Um professor universitário a escrever «extractos socioprofissionais»?! Como podem estas luminárias fumegantes ensinar os alunos se não sabem para si próprios? Mas não venho aqui apenas por isto. Uma pergunta: será que os tradutores pensam que não se pode verter esta construção de outra forma? «One used to be a stoner...» «Um costumava ser pedreiro…»


[Post 4652]

Variedades de azeitona

Só conhecem a galega

      Alguém (espero que inglês) escreveu isto num motor de busca: «Variedades de maçans portuguesas». E lá veio ter ao Assim Mesmo. E hoje perguntaram-me se as variedades de azeitona se grafam com maiúscula inicial. «O azeite x é produzido com azeitonas Galega, Cobrançosa e Picual […].» Bem, se pudermos comparar (podemos?) com as castas de uvas, então grafar-se-ão com maiúscula inicial. Quanto ao título: os dicionários só registam o termo «galega» nesta acepção. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «nome comum a algumas variedades de plantas (ou os seus frutos) cultivadas em Portugal, como a oliveira, a couve, a videira, etc.».

[Post 4651]

Linguagem

Qualidade de

      Não podemos esperar que os dicionários registem todas as palavras, mesmo que a sua frequência de uso e boa formação o justifiquem e o recomendem mesmo. Contudo, destas quatro palavras — atlanticidade, edificabilidade, maritimidade, perificidade — que os dicionários não acolhem, somente a ausência de «edificabilidade» me causa estranheza (e não sou arquitecto). Se não podemos comparar, por exemplo, «atlanticidade» com «casualidade», podemos pô-la a par de «ocidentalidade» — e esta figura nos dicionários.


[Post 4650]

Tradução: «escort girl»

Acompanhe-me

      Podemos traduzir escort girl por «acompanhante», não é assim? E em que dicionário é que a acepção do vocábulo está registada? Para os nossos dicionários, acompanhante é só a pessoa que acompanha ou auxilia outra. (É o caso, senhores dicionaristas, mas explicitem-no.) Os Brasileiros souberam forjar uma expressão deliciosa: garota de programa. Senhores dicionaristas, vamos lá registar a acepção — até para os nossos escribas não pensarem que a não podem usar.

[Post 4649]

Linguagem

Há esperança

      Não sei se sou lido no Olimpo ou não, mas na sua crónica de hoje no Público Vasco Pulido Valente usa — santíssimo Senhor! — o mesmo número de aspas que eu usaria para escrever o mesmo. Temos homem. Temos génio. Para quem está afeito a zurzir em todos, muitas vezes por causa da linguagem, é, porém, um feito menor. Hoje desanca Pedro Passos Coelho e, a propósito dos «pilares», como no islão, escreve: «E, para ir abrindo o apetite à populaça, aprovou por unanimidade no PSD um documento em que definia “pilares” (“pilares”?) num calão indigno do 12.º ano, que não houve português que percebesse ou levasse a sério. De qualquer maneira, a unanimidade agradou a Passos Coelho, que desde pequeno não gosta de conflitos» («Retrato de um chefe», Vasco Pulido Valente, Público, 3.04.2010, p. 36).

[Post 4648]

Léxico: «tirolesa»

Deslizemos

      Corro o risco de alguém em Chimoio se rir, mas eu sou corajoso: até ontem, não conhecia a palavra «tirolesa» na acepção de técnica usada para transpor equipamentos ou pessoas entre um ponto e outro. Confesso. Apareceu-me aqui numa tradução do inglês para verter o termo zip line («a cable suspended above an incline to which a pulley and harness are attached for a rider», lê-se no Merriam-Webster). Não estava só nem mal acompanhado: nenhum dicionário regista o vocábulo nesta acepção. Para todos, «tirolesa» só pode ser uma de três coisas: feminino de «tirolês», canção do Tirol ou dança do Tirol. Não vou rejeitar esta forma tão expressiva de traduzir zip line.
[Post 4647]

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