«Acesso/acessibilidade»

Fala o autarca

      Seja este exemplo: «[…] bastando para tal que estivesse servido de uma boa rede de acessibilidades.» Escreveu o já extinto Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca: «Quanto a acessibilidade, “qualidade do que é acessível”, não é o mesmo que acesso, que não possui tal significado, pelo que estas duas palavras têm empregos distintos.» O Dicionário Houaiss (versão electrónica) regista para «acessibilidade»: «qualidade ou carácter do que é acessível; facilidade na aproximação, no tratamento ou na aquisição». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acrescenta esta acepção: «conjunto das condições de acesso a serviços, equipamentos ou edifícios destinadas a pessoas com mobilidade reduzida ou com necessidades especiais».
      O exemplo acima é claríssimo: não há «redes de acessibilidades», isso é tolice. Há redes de acessos. Há, contudo, casos de fronteira em que é difícil afirmar categoricamente se se deve usar «acessibilidade» ou «acesso». Lembro-me de Montexto ter aqui condenado o uso de «acessibilidade», mas suponho que o fez tendo em mente o seu uso indevido em vez de «acesso», e não o termo em si.

[Post 4646]

Hífen ou travessão?

O Doutor explica

      Na redacção. Na secção de desporto (ficam assim a saber que não é um desportivo), um jornalista escreveu isto na programação televisiva: «Beira-Mar—Sporting de Braga, 20.h15m. (SportTV1).» Começando pelo fim: há espaço, sim: Sport TV1. As horas já aqui vimos: escrevi (apesar de a minha opção no blogue ser outra) 20h15. E agora o princípio e o principal: «Beira-Mar—Sporting de Braga»?
      Aqui ao lado, Cláudio Moreno pontifica: «O travessão já é vinho de outra pipa; ele serve (1) para indicar, num diálogo, o início da fala de um personagem; (2) para, exatamente como os parênteses, indicar a intercalação de um elemento na frase (como eu próprio fiz, no último período do parágrafo anterior); (3) para introduzir, ao final de um argumento ou de uma enumeração, uma síntese ou conclusão (“Imagine um entardecer de domingo, escuro e frio, debaixo de uma chuva fina, numa estaçãozinha de trens do interior do estado — uma verdadeira desolação!”; (4) para indicar o ponto inicial e final de um percurso ou de um espaço de tempo: a ponte Rio — Niterói; a obra de Tobias Barreto (1839—1869).»
      Será assim (?) no Brasil, não em Portugal. Base XXXII do Acordo Ortográfico de 1945 (e o mesmo se encontra estabelecido no último acordo): «É o hífen que se emprega, e não o travessão, para ligar duas ou mais palavras que ocasionalmente se combinam, formando, não propriamente vocábulos compostos, mas encadeamentos vocabulares: a divisa Liberdade-Igualdade-Fraternidade; a estrada Rio de Janeiro-Petrópolis; o desafio de xadrez Inglaterra-França; o percurso Lisboa-Coimbra-Porto.»
      Quanto às datas, faço, e nem sempre, o mesmo (ou quase: uso meia-risca), mas, como os acordos ortográficos não focam essa questão, fica, por ora, de fora. Mas a ela voltaremos.
      Resumindo: «Beira-Mar-Sporting de Braga, 20h15 (Sport TV1). O Doutor esqueceu-se dos encontros desportivos. Mas qualquer dia chega lá.

[Post 4645]



Revisão

Uma brincadeira

      Desde o início de Janeiro, o Assim Mesmo já teve mais de 80 mil visualizações. Não ando, afinal, a trabalhar para o boneco. Bem, mas isso agora não interessa. Obra de não ficção, pouco mais de 200 páginas, 616 advérbios em –mente. Vamos lá expungir metade. É um dos objectivos.
      (Esta parece uma mensagem tuitesca, mas não. Alguma associação de ideias, que não quero reconstituir, trouxe-me à mente as four letter words de MEC — boa noite, Miguel — e pensei como seria bom termos algo semelhante a isto em português.)

[Post 4644]


Acordo Ortográfico

Fahrenheit 451

      Só hoje vi o novo livreco da Porto Editora sobre o Acordo Ortográfico de 1990. Já tinha lido isto no sítio da editora: «Entretanto, a Porto Editora anuncia a publicação de Acordo Ortográfico — As Novas Regras, Todas as Palavras que Mudam, um livro prático que promete constituir-se numa edição de referência para todos os portugueses.»
      Ora vejamos só um exemplo de como a publicaçãozinha não merece que se depositem nela tais esperanças. Página 29: «cor-de-rosacor-de-rosa ou cor de rosa». A sério?! Mas no n.º 6 da Base XV («Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares») do AOLP pode ler-se: «Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa).» Não queria ler mais, mas ainda li na mesma página isto: «cor-de-laranjacor de laranja». Chega: isto não é gato por lebre, é papel por livro. Desembrulhe, se faz favor.

[Post 4643]

Símbolo do euro

Esquerda, direita

      O símbolo do euro deve figurar à esquerda ou à direita dos valores numéricos a que diga respeito? Voltei ontem a reflectir sobre este assunto lá na redacção (algures). Em 1999, um tal D, consultor do Ciberdúvidas, respondia assim: «Segundo o Sistema Internacional de Unidades (que Portugal também respeita), os símbolos das unidades colocam-se “após um pequeno espaço, no mesmo alinhamento e à direita do valor numérico a que se referem”.» Em 2001, D’ Silvas Filho concluía assim uma consulta: «Quanto ao símbolo, penso que se deverá escrever € 40.» D e D’ Silvas Filho são uma e a mesma pessoa? Não é por nada: eu também mudo de opinião, sempre na esperança de acertar. Julgo que esta mudança de opinião, se o foi por se tratar do mesmo consultor, não foi no bom caminho. Para mim, o que faz sentido é que se grafem à direita do valor numérico a que se referem, justamente por se proceder do mesmo modo com os restantes símbolos de unidades. Está aberta a antena.


[Post 4642]

Como se fala na rádio

Vão falando

      Na Antena Aberta, o comentador de assuntos políticos da Antena 1 Raul Vaz estava agora mesmo a falar do «day after após 5 de Junho». Isto é que é falar.
      Mas venho aqui por outro motivo. Vejam este título de hoje no Público: «Ajuda está a chegar mas é um castigo trabalhar em Fukushima» (Clara Barata, Público, 1.04.2011, p. 19). Tem a sua graça, não acham?, este uso informal do vocábulo «castigo». O Dicionário Houaiss versão electrónica (que não o outro, acabei de confirmar) regista que é, nesta acepção (actividade que se cumpre contra a vontade), regionalismo do Brasil. Doce engano. Vinde cá ouvir-nos, caros dicionaristas brasileiros, e sabereis se é mesmo vosso como afirmais.

[Post 4641]

Léxico: «twitteresfera»

Mais uma esfera

      «Em relação ao português, a Time escreve que “José Afonso Furtado é o Borges do Twitter”, comparando-o com o escritor argentino Jorge Luís Borges. “É um bibliotecário português que transporta a sua paixão não adulterada pelos livros e o universo editorial para a Twitteresfera”, acrescenta» («Bibliotecário português no top 50 do Twitter», Cláudia Carvalho, Público, 1.04.2011, p. 15).
      É a primeira vez que os meus olhos pousam em tal palavra. Twitteresfera. Aqui pelo menos não haverá hesitações, como aconteceu com bloguesfera/blogosfera. Ou sim: porque está grafada com maiúscula inicial?
      (Isto dos nomes próprios tem muito que se lhe diga, mas, em espanhol, Luis não tem acento, porque é monossilábico. Logo, Jorge Luis Borges.)

[Post 4640]

Léxico: «sobrepesca»

À sobreposse

      «Extinção foi na década de 1980, devido à sobrepesca, poluição e barragens» («Já houve esturjões em Portugal», Teresa Firmino, Público, 31.03.2011, p. 26).
      Talvez nenhum dicionário registe o vocábulo «sobrepesca». E seria necessário? Bem, tanto como sobrepreço, por exemplo, ou sobrepeso, ou... Ofereço a singela definição aos dicionaristas: «pesca além do que seria normal, ou em excesso».
      Então agora vejam como neste jornal, inconscientemente, se vai piscando o olho ao Acordo Ortográfico de 1990, apesar de ser um reduto contra a nova ortografia (e uma promessa para certo nicho de mercado): «Vivia no mar e, na altura da reprodução, subia os rios portugueses para desovar. As bacias do Douro e do Guadiana eram então a casa do Acipenser sturio, a espécie de esturjão que já existiu em Portugal. Era apanhado para ser comido, não para fazer das suas ovas a famosa conserva chamada caviar, explica a bióloga Fátima Gil, do Aquário Vasco da Gama, em Lisboa. Mesmo assim, um dos seus nomes vulgares era peixedo-caviar. Chamavam-lhe também esturjão, esturgião, esturião, esturjão-real, peixe-cola, solho, solho-grande e solho-rei. Em Portugal, hoje está extinto na natureza. O último rio que visitou foi o Guadiana, na década de 1980» («Já houve esturjões em Portugal», Teresa Firmino, Público, 31.03.2011, p. 26).

[Post 4639]


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